Lev Semyonovich Vygodsky (antes de mudar seu nome para Vygotsky) nasceu em 05 de novembro de 1896 em Orsha. Fazia parte de uma família de judeus em Gomel (antiga URSS) composta por oito filhos bem instruídos, interessados em cultura e em conhecimento nas mais diversas áreas. Vygotsky era um bom aluno e frequentou boas escolas no período da infância (VALSINER e VEER, 1996).
Iniciou seus estudos em Medicina na Universidade de Moscou e, um semestre depois, transferiu-se para Direito. Durante esses estudos, interessou-se por escritos na área da Psicologia, como os textos de James e Freud, que trabalhavam com camadas extremas da mente.
Após a sua formação, em 1917, voltou para Gomel e lá passou a lecionar em escolas estaduais. Foi em Gomel que Vygotsky realizou as suas primeiras experiências psicológicas e escreveu sobre a origem do pensamento psicológico. A mudança de Vygotsky para problemas de psicologia, pedagogia e educação foi lenta e gradual, até chegar ao Instituto de Psicologia Experimental, em Moscou (VALSINER e VEER, 1996).
Em 1926, Vygotsky publicou o livro Psicologia Pedagógica: um curso breve em que auxiliava professores em formação para o ensino fundamental. Nesta época, a
psicologia embasava-se nas teorias do behaviorismo34, uma teoria de caráter ocidental, não compatível com as práticas socialistas da URSS. O autor, juntamente com alguns pensadores da época, como Pavlov e Kornilov, procurava encontrar uma linha de pensamento psicológico que atendesse às condições sociais e econômicas de seu país e que expressasse com clareza e objetividade as reações do corpo, as diferentes formas de pensamento, a influência do ambiente no desenvolvimento do ser e a sua completude.
Inicialmente, seus estudos a respeito da psicologia acompanhavam seu interesse por literatura e artes. Em 1924, foi convidado a trabalhar no Instituto Kornilov, onde realizava experimentos de análises comportamentais. Para Vygotsky, as crianças eram dotadas de reações inatas, congênitas, os chamados reflexos não-condicionados (necessita de um estímulo para que ocorra) e instintos (invariáveis independente do ambiente). Cada reflexo não-condicionado (reação inata) pode ser ligado a estímulos ambientais produzindo reflexos condicionados.
Nesta época, diante de seus experimentos com crianças e das análises feitas a partir das reações dadas por elas a cada experimento, Vygotsky afirmou que, de alguma forma, as crianças aprendem educando a si mesmas, já que “a nova experiência pessoal [...] leva a novas reações” (VALSINER e VEER, 1996, p. 66). Enfatizava, dessa forma, a necessidade de que os alunos aprendessem a partir de suas próprias atividades e que não fossem meros receptores passivos de conhecimento. Para ele, a única coisa que professores e educadores podem fazer é construir um ambiente favorável para a educação, “maximizando as possibilidades de formação de novas reações” (id., p. 66).
Diante de tal quadro e influenciado pelos conflitos políticos da época e pelas ideias de outros pesquisadores sobre novas linhas da psicologia do homem, entre os anos de 1928 e 1931, Vygotsky dedicou-se ao desenvolvimento de sua principal teoria: a psicologia sócio-histórica (ou teoria histórico-cultural).
Seguindo ideias de pesquisadores como Darwin, Durkhein e Kofka, Vygotsky criou sua própria forma de explicar a origem e o desenvolvimento de processos mentais em adultos por meio da teoria histórico-cultural (VALSINER e VEER, 1996). Para isso, comparou a psicologia de animais e de seres humanos, a psicologia do ‘homem primitivo’35 e do ‘homem ocidental’, a psicologia de crianças e adultos e a psicologia de
34 Filosofia da ciência do comportamento humano. (ABIB, 2001)
35 Segundo Veer e Valsiner (1996), Vygotsky se referia ao homem cuja estrutura de pensamento era de
um homem pré-histórico, que não trabalhavam com conceitos e abstrações e tinha um caráter mais concreto, fruto de suas experiências físicas.
sujeitos patológicos e saudáveis, sendo esses últimos de maior importância para nós neste estudo. “A imagem do homem que deriva desta teoria (histórico-cultural) é a do homem como um ser racional que assume o controle do seu próprio destino e emancipa- se para além dos destinos restritivos da natureza” (VALSINER e VEER, 1996, p. 211). A abordagem histórico-cultural é bastante difundida no mundo em várias áreas. Para Vygotsky (1984), o funcionamento psicológico fundamenta-se nas relações sociais, que ocorrem inseridas em uma determinada cultura, em constantes mudanças e adaptações, e num processo histórico.
Se pensarmos no adjetivo cultural [...] devemos levar em conta que toda interação social é aqui analisada como emergente em uma cultura, envolvendo os meios socialmente estruturados [...], os instrumentos e a linguagem. E o histórico funde-se com o cultural, já que os instrumentos foram inventados e aperfeiçoados ao longo da história do homem. (BRAGA, 2010, p. 22)
Essa visão cultural e histórica é a chave que diferencia o desenvolvimento humano do desenvolvimento animal. Embora Vygotsky concordasse com a ideia da evolução (teoria de Darwin), ele acreditava que ela era apenas a base do desenvolvimento do homem. O papel principal neste desenvolvimento se dava pela evolução cultural e não biológica. O animal é dependente de seus instintos ou de suas experiências individuais através de treinamento ou de sua vida social. No homem, a atividade consciente se baseia nos conhecimentos e habilidades presentes na experiência da humanidade, ao longo do processo histórico social. Culturalmente, através de interações sociais, o homem se forma.
A teoria de Vygotsky parte do pressuposto de que todo homem consciente é dotado de funções psicológicas elementares e superiores. As funções elementares são aquelas de origem biológica: fazem parte do comportamento de todo ser, é instintiva e provoca reações automáticas. Já as funções psicológicas superiores originam-se no contato social, são exclusivas do homem e são mediadas, comandadas por ele e repletas de intencionalidade. As funções superiores são frutos das funções elementares associadas à cultura, evoluídas na história do homem. Sendo assim, Vygotsky (1984) entende que o comportamento do homem, suas ações e seus pensamentos (sua consciência) são de origens socioculturais, pois são resultados da interação do ser com seu contexto cultural e social (VALSINER e VEER, 1996; FERNANDES, 2004; LUCCI, 2006).
As funções psicológicas superiores, por se tratar de constantes interações com o meio cultural e social do homem, fazem parte de um emaranhado de experiências e
relações que se complementam numa rede complexa e densa de interações. Uma dos caminhos para se ingressar nessa rede de informações e interiorizações do conhecimento é o que Vygotsky chama de mediação.
O desenvolvimento de funções mentais superiores não decorre de uma evolução intrínseca e linear das funções mais elementares; ao contrário, [...] são funções constituídas em situações específicas, na vida social, valendo-se de processos de internalização, mediante uso de instrumentos de mediação (CAVALCANTI, 2005, p. 188)
Mediação é o princípio fundamental da teoria histórico-cultural desenvolvida por Vygotsky, a marca da consciência humana. Segundo o pesquisador, nosso contato com o mundo (no aspecto físico e social) é indireto e ocorre mediado por instrumentos e signos. “A compreensão da emergência e da definição dos processos mentais especificamente humanos e da ligação entre os processos sociais e históricos e os processos individuais é alicerçada nessa noção” (BRAGA, 2010, p. 23).
Vygotsky já via as relações culturais como fenômenos históricos, moldados e desenvolvidos pelo homem ao longo de sua existência. Além disso, ele também via a produção artística e a criação do homem como processos culturais. Para ele, “a cultura é a totalidade das produções humanas” (BRAGA, 2010, p. 23). Produções técnicas, artísticas, científicas, ações sociais, dentre outros, representam o homem em formação cultural. A atividade coletiva e comunicativa são características do trabalho humano. O uso de ferramentas para o trabalho é característica exclusiva do homem, assim como a utilização destas para exploração e compreensão do ambiente que o cerca. A mediação é um elemento intermediário entre o homem e o conhecimento (LUCCI, 2006). Ela pode ser um objeto, uma linguagem, uma situação, ou seja, qualquer fator social que influencie e modifique o pensamento e o desenvolvimento cognitivo e psicológico do homem. É pela mediação que o indivíduo se relaciona, explora e aprende com o ambiente. “É por meio dos signos, da palavra, dos instrumentos, que ocorre o contato com a cultura” (LUCCI, 2006, p. 8).
A relação do homem com o mundo é mediada, complexa e ocorre através de dois mecanismos: os instrumentos e os signos. Os instrumentos são objetos sociais e mediadores entre o indivíduo e o mundo. Os signos são elementos orientados para o indivíduo que auxiliam na memória e na atenção (FERNANDES, 2004).
O uso de signos e de instrumentos na atividade mediada orienta o comportamento humano na internalização de funções psicológicas. As mediações por signos e instrumentos são de naturezas diversas. Enquanto a mediação por signo
constitui uma atividade interna dirigida para o controle do próprio sujeito, a mediação por instrumento é orientado externamente, para o controle da natureza.
Para Vygotsky (1984), o uso de signos (relacionados às ações de lembrar, imaginar, comparar) como meios auxiliares para a solução de problemas psicológicos é semelhante ao uso de instrumentos no trabalho, no que diz respeito à função mediadora, já que a ação dos dois no funcionamento psicológico é bem diferente. A principal diferença dos dois se deve a sua orientação na mediação: enquanto os instrumentos são utilizados externamente para a transformação e controle da natureza, os signos são orientados internamente para a comunicação e o controle do comportamento. “A transformação na natureza altera a natureza do homem e a transformação do psiquismo modifica a relação humana com o mundo e a forma de usar instrumentos” (BRAGA, 2010, p. 25).