A sequência de resolução do conflito, no caso do relato Revolução de 1930, compreende também o clímax da narrativa, com os principais momentos de tensão e a mobilização dramática. Ela tem início com a marcha militar e as diversas possibilidades de confronto, bem como batalhas efetivamente realizadas entre forças estaduais e federais. Ela compreende também os diversos e mais variados conflitos envolvendo apoiadores dos grupos políticos em disputa. Trata-se de uma resolução de conflito pela nítida vitória do bem na sua luta contra o mal – a derrota de Washington Luis. Do ponto de vista do corpus, ela se inscreve, principalmente, nas edições de O Germinal e O Cruzeiro que circularam em outubro, tendo a sua conclusão com a posse do governo revolucionário de Getúlio Vargas. O Jornal O Germinal traz como episódios desta sequência: A Revolução Triunfante, que narra o final bem sucedido da mobilização de tropas militares da parte da Aliança Liberal; “Movimento Revolucionário de 1930 – que realiza um sintético balanço sobre o que se fez, no município de Marianna, em favor da Revolução”, ou seja, uma narrativa que tem como enquadre as ações revolucionárias entre os marianenses e republicanos, sob o relato de O Germinal.
Essa narrativa sobre ações revolucionárias entre os marianenses contém, por sua vez, episódios menores: A constituição da Junta Revolucionária, enquanto espécie de poder democrático popular em Mariana; Atividades da Junta Revolucionária Marianense, que evidencia o papel popular das medidas emergenciais deliberadas por este organismo; Homenagens aos heróis da Revolução, que nomeia e descreve as funções dos principais personagens, com um destaque especial para D. Helvécio Gomes de Oliveira e a sua valiosa contribuição em favor da Victoria da Revolução; a Constituição de um Batalhão Patriótico no Município, composto por voluntários da
cidade de Mariana e dos distritos; e a Mobilização política em Diogo de Vasconcelos, que traz um episódio ilustrativo da energia revolucionária naquele distrito. Além destes, o jornal traz um episódio informativo contendo as Primeiras deliberações do governo revolucionário: o Programa Revolucionário e as Medidas Imediatas da Revolução de 1930, o qual trata do quadro nacional da Revolução.
A sequência de Resolução do conflito surge em O Cruzeiro, de 25 de outubro, de maneira inusitada, com uma pequena nota telegráfica de última hora:
Figura 14 – Nota telegráfica - Jornal O Cruzeiro, 25/10/1930
Fonte: O CRUZEIRO, 1930.
Trata-se de informação preliminar, certamente, via telégrafo. O episódio da Deposição de Washington Luis ocorreu no dia 24 de outubro; a edição deste número do jornal tem data de 25 de outubro. Daí, a forma compacta da resolução narrativa, numa espécie de “Plantão Urgente”, em que uma série de implícitos precisaria ganhar um contorno expressivo, no interior da historia, como possíveis respostas a uma questão: o que foi que aconteceu mesmo?33. Trata-se, também, de uma estratégia de captação do narrador,
33 A explicitação da história, enquanto conteúdo, dá-se no plano da expressão. Ela envolve um trabalho por parte do destinatário, que implica no desempenho da sua competência cognitiva e discursiva, pois o mesmo, a partir de dados disponíveis, deve fazer uso de recursos da memória, organizando as ações no plano da expressão, de maneira coerente, no que diz respeito às ações anteriores e subsequentes que fazem parte da história. (MOTTA, 2013, p. 133-139). Neste caso, o texto telegráfico seria percebido como uma espécie de vetor para alguns frames orientadores das sequências possíveis, enquanto respostas a uma questão do tipo: “e, daí, o que foi que aconteceu?”.
que “sai na frente” para indicar que os problemas estavam resolvidos. Já se poderia comemorar, assim, a esperada vitória.
Assim, na edição de 6 de dezembro34, quando outros enunciadores já teriam relatado os mais diversos episódios da Resolução do conflito, o Jornal O Cruzeiro se concentrou naquele episódio que mais lhe interessava: Dom Helvécio e a rendição do 11° Batalhão Militar, em São João d’El Rey. Esse episódio torna-se, para o Jornal, o centro da Resolução da narrativa, sendo abordado a partir de diferentes personagens e estilos, nas páginas de O Cruzeiro. Cada qual, no entanto, voltado para estratégias de amplificação35 das ações do personagem Dom Helvécio de Oliveira, em favor de um efeito discursivo: a constituição do grande herói da narrativa.
Logo na primeira página, em destaque36, tem início a narração elogiosa ao Arcebispo Dom Helvécio e às suas realizações. Trata-se, no caso, de um relato em comemoração ao Oitavo aniversário da entrada solene e posse do Snr. D. Helvécio na Cathedral de Mariana, em que são narradas as suas ações religiosas e administrativas, bem como as iniciativas bem sucedidas na reforma de prédios (Colégio Providência, Seminário São José e Palácio dos Bispos). Cria-se, com o tom elogioso, um cenário de grandes realizações de Dom Helvécio para a cidade de mariana, ressaltando qualidades e valores que estariam sendo enaltecidos no clima da vitória revolucionária. Em Entre heróis (p. 2), o narrador mantém os procedimentos de amplificação, por meio de elogios, e louvores ao personagem e às suas ações em torno do episódio Dom Helvécio e a rendição do 11º Batalhão Militar em São João Del Rey: “O nosso amantíssimo Arcebispo é uma destas figuras de destaque cuja attitude como ser verdadeiramente paternal, foi patriótica e velou o grande amor que dedica aos seus filhos espirituais.” (O CRUZEIRO, 06/12/1930, p. 1-2).
No enaltecimento do personagem e suas ações, abre-se, também, o espaço do jornal a outros personagens-narradores: O Pe. Benedicto de Luca, de Palmeiras, envia um
34 A edição de 25 de outubro é sucedida pela edição de 06 de dezembro. O intervalo é de 41 dias – o que constitui um atraso comum na regularidade do Jornal.
35 A amplificação corresponde, no âmbito da retórica antiga, a uma estratégia do gênero epidítico (ARISTÓTELES, 1998). No Tratado da Argumentação, de Perelman e Olbrechts-Tyteca, ela é tratada também como uma técnica argumentativa no gênero epidítico. (PERELMAN. OLBRECHTS-TYTECA, 1998).
soneto de louvor ao Bispo; o Pe. João Gualberto do Amaral envia uma “Carta honrosa”; o Commando da 4ª. Região Militar do Estado de Minas Geraes, sediado em Juiz de Fora, envia uma correspondência em “reconhecimento pelos atos de Dom Helvécio”. E, finalmente, o narrador-contador, em O Clero e a Revolução se coloca na constituição do evento como algo quase milagroso – o que serve à atribuição de um ethos bem específico ao herói protagonista.