O curtimento vegetal das peles é um processo que remonta aos tempos primitivos. Desde o início da humanidade que se verificam métodos para o tratamento das peles dos animais, originando na transformação de um material durável, resistente e imputrescível. Durante este tempo, a transformação das peles teve um processo de evolução dos seus métodos. Hoje, encontram-se grandes indústrias de curtumes, onde são utilizados processos químicos e equipamentos sofisticados para executar um método de curtimento eficaz, rápido e de qualidade, enquanto os primeiros processos eram executados através de força braçal e auxílio de banhos naturais que podiam durar vários meses.
Como já referido, o homem primitivo vivia ao frio e chuva e necessitava de se proteger das condições climatéricas adversas. Como solução às necessidades começaram por utilizar as peles dos animais que caçavam. Apesar de esta ser uma boa solução, apresentava alguns problemas, nomeadamente o cheiro e a putrescência. As condições primitivas que se viviam neste período e os conhecimentos adquiridos pelo homem não eram suficientes para realizar um processo de curtimento das peles adequado mas a curiosidade do homem e os acontecimentos que foram surgindo durante o tempo criaram um ponto de arranque para descoberta de um processo capaz de tornar imputrescível a pele animal (Novaes).
Durante a sua atividade diária, o homem depara-se com um fenómeno interessante e que despertou o seu interesse. Depois do abate do animal para posteriormente o cozinhar e servir como sua refeição, apercebe-se que através do processo de assadura, colocando a pele a uma determinada distância do fogo, o fumo altera as propriedades da pele. Uma grande alteração encontrava-se no tempo que necessitava a pele para apodrecer. Nesta situação, a principal descoberta encontrava-se nas folhas e cascas das árvores utilizadas para alimentar o fogo, que continham compostos tanantes ou curtentes vegetais. Através da sua queima, o fumo fazia incidir sobre a pele os compostos contidos nas folhas e cascas, acabando por curtir as peles. Com esta atitude, o homem conseguiu descobrir o processo de curtimento através da defumação (Novaes).
Estes foram os primeiros passos do que viria a tornar-se o curtimento vegetal. Apesar de hoje existir vários tipos de curtimento, o vegetal foi aquele que mais sucesso obteve até ao séc. XIX. Esta popularidade obteve-se graças à facilidade de obtenção dos recursos necessários. No curtimento vegetal é necessária a utilização de agentes taninos, que podem ser encontrados em diversas folhas e cascas de árvores (Novaes).
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Para a realização deste sistema de curtimento são efetuadas três fases essenciais: o
processo de ribeira, o processo de recurtimento e os processos de acabamento (Colombo,
2005).
Processo de ribeira – esta é a primeira etapa de curtimento e pode dividir-se em cinco partes distintas, remolho, caleiro/depilação, desencalagem/purga, píquel e curtimento/basificação.
Remolho – devido à utilização de sal para a conservação das peles nos armazéns e durante o seu transporte, acontece uma desidratação das peles, havendo a necessidade de repor os valores de humidade quando ainda no corpo do animal. Esta etapa vai conferir maior maleabilidade à pele para as próximas etapas. Para a execução desta ação, são mergulhadas as peles em banhos de água, enzimas e tensioativos. Facto interessante é o método tradicional para a realização desta fase em que são usados banhos de água, excrementos de pomba e cal.
Caleiro/depilação – nesta etapa pretende-se dar às peles um tratamento para obter um maior ganho de área, espessura e reduzir a quantidade de pelos.
Desencalagem/purga – com a conclusão da tarefa anterior, é necessário retirar toda a cal utilizada para que seja possível curtir a pele. Esta é a última fase de limpeza das peles, utilizando enzimas para difundir o enfraquecimento das fibras e tornar a pele mais elástica e macia.
Píquel – esta é a fase de redução do pH das peles para que no processo de curtimento seja providenciada uma facilidade de atravessamento dos curtentes utilizados. No processo tradicional eram utilizados ácido sulfúrico, ácido fórmico, cloreto de sódio e água para concretizar esta fase.
Curtimento/basificação – após a redução do seu pH para níveis ideais, a pele encontra-se preparada para receber os curtentes. Esta é a fase em que se realiza o mencionado curtimento da pele. Tratando-se de um curtimento vegetal, é recorrente a utilização de banhos ricos em agentes taninos, no caso do processo tradicional, estes podem ter uma duração de vários meses e são usadas folhas e cascas de árvores com grandes valores de taninos. Esta é a fase denominada por banhos tanantes. Depois do atravessamento dos curtentes vegetais pela pele, esta etapa é concluída através da utilização de sal de hidrólise alcalina para fixar os agentes curtentes na pele, tornando- a imputrescível (Colombo, 2005).
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Acabada a fase de ribeira, o couro é denominado de atanado, referente ao curtimento vegetal. No caso do curtimento ao crómio designa-se por wet blue. Neste momento da transformação da pele, o material já pode ser considerado couro, no entanto, trata-se de materiais ainda em tosco o que confere um baixo valor no mercado, necessitando de recorrer às fases de recurtimento e acabamento (Colombo, 2005).
Recurtimento – neste processo dá-se um novo curtido ao couro utilizando a adição de vários
produtos químicos consoante a finalidade a que se destinará o material. No caso dos métodos tradicionais, esta etapa consistia na secagem do couro ao ar, aplicados óleos de sebo que conferiam uma capacidade impermeável ao couro e por fim surrados para se tornarem flexíveis consoante o destino pretendido (Colombo, 2005).
Acabamento – esta é a última fase do processo onde são agregadas diferentes tipos de resinas, ceras, pigmentos ao couro recurtido para lhe dar um aspeto macio e limpo (Colombo, 2005).
Este método de curtimento marcou toda uma época na história do homem. O empirismo praticado nesta ação foi fulcral para a evolução dos processos praticados na atualidade e para o crescimento económico de uma arte tão rica. Com todo este valor, é gratificante localizar em cidades como Guimarães vestígios desta indústria como os tanques, pelames e secadouros que se disfarçam por toda ela, comprovando o grande enraizamento da cultura coureira.
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