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O PPSUMMERING OG KRITIKK TIL ANALYSE

A multiplicação de necessidades artificiais não é, pois, uma exigência da ciência: “se assim fosse, a humanidade estaria votada a uma materialidade crescente, porque o progresso da ciência não se deterá.448”A ciência, explica Bergson, é distinta do espírito de invenção, embora

442 Ibid. p.322 443 Ibid. p.322 444 Ibid. p.322

445 BERGSON. Les deux sourcesp. 322 446 Ibid..p323

447 Ibid.p323 448 Ibid.p. 325

este se tenha alargado infinitamente após seu encontro com aquela. Também não é no maquinismo ou na indústria enquanto tal que Bergson enxerga problemas. A questão é aquilo que foi pedido à ciência e às máquinas. Não houve ainda um interesse efetivo de pôr ambos a serviço da humanidade no sentido de favorecer “os seus melhores interesses449”. Ao invés de

buscar primeiramente a satisfação das necessidades básicas da maioria ou de todos (se fosse possível), o espírito de invenção “criou uma massa de necessidades novas450”, “pensou

demasiado no supérfluo,451”descurou o fato de que “há milhões de homens que não comem o

suficiente. E há outros que morrem de fome.452” A máquina, portanto, fez pouco “para aliviar

o fardo do homem.453”

A indústria voltou-se a interesses distantes dos serviços mais necessários à humanidade: “de uma maneira geral, a indústria não se preocupou o suficiente com a maior ou menor importância das necessidades a satisfazer. Seguia com facilidade a moda, fabricava sem outro pensamento que não fosse o de vender.454”A acusação de Bergson em relação ao maquinismo é

a de “ter encorajado excessivamente necessidades artificiais, de ter impelido ao luxo, de ter favorecido as cidades em detrimento do campo455”, de ter, enfim, complicado freneticamente a

existência humana, o que não é, porém, uma fatalidade, mas uma tendência que pode ser revertida, reversão a partir da qual “a máquina não seria então mais que a grande benfeitora.456”

Não há nenhuma fatalidade que condene o espírito de invenção a continuar o seu frenesi em direção ao luxo e ao bem-estar exagerados em detrimento da libertação da humanidade de suas necessidades mais fundamentais. Na verdade, explica Bergson, o impulso inicial apontava para esse outro sentido. A impulsão que a humanidade imprimiu originalmente ao espírito de invenção não “seria exatamente na direção que o industrialismo tomou457”, mas estaria antes

ligada àquele eco político da fraternidade difundida pelo cristianismo, a democracia:

Ora, não é duvidoso que os primeiros lineamentos do que seria mais tarde o maquinismo se tenham desenhado ao mesmo tempo que as primeiras aspirações à democracia. O parentesco entre as duas tendências torna-se plenamente visível no século XVIII. É impressionante nos enciclopedistas.

449 Ibid.p.325

450 BERGSON. Les deux sources p.326 451 Ibid. p.326 452 Ibid. p.326 453 Ibid. p.326 454 Ibid. p.327 455 Ibid. p.327 456 Ibid. p.327 457 Ibid. p.328

Não deveremos supor, então, que foi um sopro democrático que impeliu em frente o espírito de invenção, tão velho como a humanidade, mas insuficientemente ativo enquanto não lhe foi concedido lugar bastante? Não se pensava, decerto, no luxo para todos, nem no bem-estar para todos sequer; mas para todos podia desejar-se a existência material garantida, a dignidade na segurança458.

O ideal democrático dinamizara, portanto, o espírito de invenção; e o ideal democrático é, como vimos, de essência evangélica. Indiretamente, pois, foi a mística que impulsionou o espírito de invenção, a despeito dos desvios pelos quais o objeto alcançado não foi o alvo incialmente visado. Aqui é fundamental a escolha de Bergson pela mística cristã e a ênfase que o filósofo concede ao seu caráter ativo, que se faz representar no exercício da caridade, por meio da qual se difundiu o ideal fraterno. Não por acaso, Reforma, Renascimento e Revolução Científica seriam fenômenos do mesmo período. Tratar-se-ia de “três reações, aparentadas entre si, contra a forma que tomara até esse momento o ideal cristão”459, ou seja, sobre o caráter

predominantemente ascético que tomara a mística cristã impunha-se “o misticismo verdadeiro, completo, atuante [que] aspira a difundir-se, em virtude da caridade que é sua essência.460”As

origens da mecânica são, portanto, místicas. A mística atrai a mecânica porque para que o homem possa erguer-se acima da terra é preciso um ponto de apoio. Esse apoio é a própria matéria. É apoiada sobre ela que dela a humanidade poderá se desligar. Diante, porém, da incomensurável força material que adquiriu através da técnica faz-se necessário ao homem a suplementação espiritual equivalente:

Seriam necessárias novas reservas de energia potencial, desta vez moral. Não nos limitamos, portanto, a dizer, como fazíamos acima, que a mística atrai a mecânica. Acrescentamos que o corpo que cresceu espera um suplemento de alma, e que a mecânica exigiria uma mística. As origens desta mecânica são talvez mais místicas do que poderíamos julgar; e ela só redescobrirá a sua direção verdadeira, só prestará serviços proporcionais à sua potência, se a humanidade, que ela curvou ainda mais em direção à terra conseguir por meio dela reerguer-se e olhar para o céu. 461

Não apenas a mística atrai a mecânica como também a mecânica atrai a mística. Trata- se de um círculo virtuoso que pede, neste momento, um “suplemento de alma”, no sentido de uma potencialização espiritual capaz de fazer frente à enorme potência material adquirida por

458 Ibid. p.328

459 BERGSON. Les deux sources, p.329 460 Ibid. p.329

intermédio da técnica. Se a experiência comum da humanidade insere-se no campo do misto e da inteligência e a experiência mística é uma excepcionalidade - embora nos dê a bússola por meio da abertura religiosa, moral e espiritual que representa - então é necessário buscar esse “suplemento de alma” em experiências e reflexões humanas. Assim como o engajamento político no sentido de evitar o recrudescimento natural que são os regimes totalitários seria uma maneira não-mística de permanecer no caminho aberto pelos grandes místicos, a simplificação da vida por um leve ascetismo e o desenvolvimento da ciência do espírito ou ciências psíquicas seriam também um modo não místico de relançar a humanidade no caminho da abertura. Este último caminho poderia “converter em realidade viva e atuante uma crença no além que se encontra na maior parte dos homens, embora permaneça na maioria das vezes verbal, abstrata, ineficaz.462”As estimativas da ciência sobre o além poderiam promover uma reviravolta

espiritual semelhante àquela que provocaria a experiência mística porque triunfando sobre a morte, triunfaríamos sobre o prazer ao qual buscamos tão avidamente:

Na verdade, se estivéssemos certos, absolutamente certos de sobreviver, não poderíamos pensar em outra coisa. Os prazeres subsistiriam, mas baços e descoloridos, porque a sua intensidade não passa da atenção que neles fixamos. Empalideceriam como a luz das nossas lâmpadas ao sol da manhã. O prazer seria eclipsado pela alegria. Alegria seria, com efeito, a simplicidade de vida que propagaria no mundo uma intuição mística difusa, alegria ainda, o que se seguiria a uma visão do além numa experiência científica alargada463

462BERGSON. Les deux souces p. 338 463Ibid.p. 338