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CHAPTER 8 APPENDICES

8.2 A PPENDIX 2: I NTERVIEWS OVERVIEW

Ao longo das faixas etárias pesquisadas, foram identificadas semelhanças e diferenças no comportamento das variáveis estudadas.

Dentre as semelhanças, observa-se que os adultos jovens e de meia-idade mostram-se mais consistentes, adotando comportamentos ditos como “padrão”, ou seja, posicionamento frontal dos pés em relação ao degrau e passada alternada, independente do nível de atividade física e da altura do último degrau. Tal resultado possibilita considerar que o envelhecimento parece não afetar as variáveis analisadas neste estudo para essas faixas etárias.

Entretanto, os indivíduos de meia-idade apresentam maior porcentagem de tentativas realizadas com utilização dos membros superiores. Algumas alterações já podem ser observadas a partir dos 45 anos nos sistemas sensoriais e capacidades físicas (SPIRDUSO, 1995; VANDERVOORT, 1998; PAPALIA & OLDS, 2000), e o aumento do uso do corrimão já pode estar relacionado com alterações decorrentes do envelhecimento, especialmente porque consiste em uma estratégia adaptativa, ainda que isolada, na busca de mais segurança.

Apenas poucos idosos declararam percepções de dificuldade para descer degraus de ônibus. Este resultado discorda da afirmação de IEZZONI, CARTHY, DAVIS & SIEBENS (2001) de que a auto-percepção de dificuldade em tarefas de mobilidade são comuns na população idosa, sendo que muitos indivíduos relatam desenvolver problemas já na meia-idade. LUNDGREN-LINDQUIST, ANIANSSON e RUNDGREN (1983), interessados na capacidade de idosos em utilizar escadas de veículos públicos, convidaram 112 idosos com mais de 70 anos a subir e descer um lance de três degraus com passo alternado, com variações de altura entre 10 e 50 cm. Todos os idosos foram capazes de se locomover em degraus de 10 e 20 cm com ou sem utilização dos corrimãos, sendo que a dificuldade em lidar com degraus apareceu com degraus a partir de 30 e 40 cm, tanto em termos de percepção de dificuldade como de incapacidade de realizar a tarefa. Através disso, os autores supõem que os idosos encontram dificuldades em lidar com degraus de ônibus, visto que, no local onde o estudo foi desenvolvido, estes costumam ter entre 30 e 37,5 cm de altura.

Existem dois aspectos que podem explicar esta discordância. Primeiro, os indivíduos de meia-idade e alguns idosos podem ter desenvolvido estratégias adaptativas que mascaram a percepção de dificuldade, especialmente considerando que a adoção destas estratégias facilita a execução da tarefa. Outra possibilidade, relacionada à primeira, refere-se à ausência de percepção do início de problemas sensoriais e/ou motores que desencadeariam a adoção das estratégias adaptativas.

Diferenças entre os grupos etários foram encontradas nas seguintes variáveis: tipo de passo empregado, posicionamento dos pés no degrau, utilização dos membros superiores, pico de força vertical (particularmente na condição com degrau mais alto) e tempo de realização da tarefa.

Ao observar as estratégias comportamentais (posicionamento dos pés no degrau, tipo de passo e utilização dos membros superiores), percebe-se que com o aumento da idade, de maneira geral, aumentaram as tentativas executadas com estratégias mais conservadoras como, por exemplo, o posicionamento lateral dos pés, passo unido e utilização de uma ou duas mãos

como forma de apoio. Essas alterações sugerem uma tentativa de realizar a tarefa mais seguramente, possivelmente como uma conseqüência das alterações decorrentes do envelhecimento. Entretanto, também se observa, a respeito das estratégias, que o grupo muito idoso se mostrou menos conservador do que o grupo idoso. Tal resultado pode se dever não apenas ao processo de envelhecimento, mas também ao pequeno número de indivíduos compondo o grupo muito idoso.

Particularmente, durante a descida do último degrau, que constitui a transição degrau-solo, observou-se o maior emprego, por parte dos idosos, das estratégias de posicionamento lateral dos pés e passo unido. Estratégias mais conservadoras podem ser empregadas para amenizar as influências de condições mais desafiadoras. Isso tem sido observado em diferentes tarefas, estáticas e dinâmicas, sob condições restritivas diferentes (ELLIOTT, PATLA, FURNISS & ADKIN, 2000; HORAK et al., 1989; OWENS & TYRRELL, 1999, CHRSTINA & CAVANAGH, 2002). O padrão alternado de descer degraus é substituído pelo unido, por parte dos indivíduos idosos, em função das restrições físicas do indivíduo. STARTZELL et al. (2000) até mesmo sugerem que degraus de menor altura favoreceriam a adoção do padrão alternado em idosos. De fato, neste estudo, um aumento na ocorrência do passo unido foi observado em indivíduos idosos no último degrau, o que foi confirmado pela contribuição da altura do degrau na adoção da estratégia adaptativa, evidenciada na análise de regressão.

Apesar do aumento da altura entre o último degrau e o solo requerer maior utilização dos membros superiores, este recurso foi reduzido nesta fase da descida, possivelmente, em função da própria estrutura dos corrimãos que não estão presentes entre o último degrau e o solo. A tentativa de utilizar os membros superiores na transposição do último degrau implicaria em extensão total do ombro para trás e para cima, gerando uma posição desconfortável. Esse fator pode aumentar a complexidade da tarefa, visto que idosos consideram a disponibilidade de corrimãos como um dos fatores que garantem o sucesso na descida de degraus (GILL, KELLEY, WILLIAM & MARTIN, 1994), aumentando sua utilização em degraus acima de 30 cm de altura (LUNDGREN-LINDQUIST et al., 1983).

A redução, de uma maneira geral, no nível de aptidão física, que tem sido extensamente relatado na literatura (SPIRDUSO, 1995; VANDERVOORT, 1998; GONÇALVES, 2001), pode contribuir para as alterações comportamentais observadas neste estudo. Reduções na força dos membros inferiores têm sido relacionadas com menor performance em testes de aptidão funcional (SCHILLER, CASAS, TRACY, DeSOUZA, SEALS, 2000).

Quando o pico de força vertical de reação do solo se reduz, o choque mecânico sobre o sistema músculo-esquelético é minimizado. Isto beneficia o controle da estabilidade contra a gravidade, como é o caso do descer degraus (LOBO DA COSTA, 1995). No presente estudo, foi evidenciada uma diminuição desta força nos indivíduos idosos e muito idosos somente quando a transição degrau-solo foi mais alta. No entanto, TEMPLER (1992) relata um aumento da força de reação do solo em idosas, em função do menor controle muscular da perna de balanço durante o descer. Tal desacordo de resultados pode ser devido às restrições impostas pelos degraus de alturas maiores em comparação com outras escadas (que segundo o mesmo autor variam entre 15 e 20 cm de altura).

A exemplo da influência das restrições ambientais, a força vertical de reação do solo em idosos durante a descida de degraus tende também a ser menor em condições reduzidas de iluminação (CHRISTINA & CAVANAGH, 2002). Dessa forma, as condições de altura impostas no presente estudo, por serem superiores às encontradas em outros estudos que utilizaram degraus mais baixos, poderiam ter levado os idosos a descer com maior cautela, procurando minimizar a carga com ao atingir o solo. Comportamentos protetores como este, durante o descer degraus, já foram observados na população idosa em outras variáveis, como maior pré-ativação e coativação entre musculatura agonista e antagonista do membro inferior que entra em contato com o solo em antecipação às demandas de impacto (HORTOBÁGYI & DE VITA, 2000). Em associação à estratégia de redução do pico vertical da força de reação do solo, a diminuição da velocidade, que também foi observada nos idosos, poderia favorecer este maior controle. Em tarefas funcionais, observam-se aumentos relacionados à idade no tempo para completar testes como andar 10 m, sentar e levantar, subir e descer um lance de degraus (SCHILLER et al., 2000).

O uso do corrimão e o aumento do tempo de realização da tarefa podem favorecer a captação de informações do ambiente pelos órgãos dos sentidos, que apresentam reduções funcionais em função de alterações com o envelhecimento (PAULUS et al., 1989; VANDERVOORT, 1998).

PATLA, PRENTICE e GOBBI (1996) apontam o sistema visual e cinestésico como cruciais para a locomoção em terrenos irregulares, com a visão fornecendo informações exteroceptivas (propriedades do ambiente) e exproprioceptivas (orientação dos membros e do corpo em relação ao ambiente) e o sistema cinestésico (aprovisionando informações sobre a localização dos membros através de ângulos articulares relativos). GONÇALVES (2001) também inclui o sistema vestibular como importante fonte de informação sensorial para a locomoção em terrenos irregulares, pelo seu papel na coleta de informações sobre velocidades angulares e lineares da cabeça. Esses sistemas devem agir integrados para uma locomoção eficiente e segura. Contudo, com o processo de envelhecimento normal, começam a surgir rupturas e falhas nesta integração, que ainda podem ser agravadas com patologias decorrentes da idade (PATLA, et al., 1996; ELLIOTT et al., 2000; GONÇALVES, 2001). Desta forma, as informações sensoriais podem não ser tão precisa e rapidamente captadas quanto necessário e, em conseqüência, quedas podem ocorrer. A título de exemplo, CHRISTINA e CAVANAGH (2002), enquanto investigavam adultos jovens e idosos descendo degraus em condições reduzidas de iluminação, verificaram que quedas somente aconteceram com os indivíduos idosos. Pensando no déficit destes sistemas, o aumento do tempo de descida observado neste estudo disponibiliza um maior período para recolher e utilizar as informações do ambiente para realizar a tarefa com mais eficiência.

Adicionalmente, o emprego da estratégia de utilização do corrimão (aumentado na população idosa), pode servir como uma fonte de informação do ambiente (a inclinação do corrimão acompanha a inclinação da escada) e da velocidade do corpo durante a realização da tarefa. Não obstante, esta estratégia também pode servir de fonte de suporte caso alguma perturbação ocorra (tropeços, escorregões, quedas), conforme observado por MAKI et al., (1998),

em indivíduos jovens, cuja utilização dos corrimãos reduziu significativamente a ocorrência de quedas.

Por último, apesar de não mensurado neste estudo, observou-se, no decorrer das tentativas, o aumento da flexão anterior da cabeça. Este comportamento pode advir tanto da necessidade de captar informações exteroceptivas e exproprioceptivas, como para fazer ajustes on-line durante a transposição de cada degrau. Em condições de privação ou conflito de informações visuais durante a descida de degrau ocorrem alterações ou ausência de reações musculares esperadas (pré-ativação e co-contrações), indicando assim que a informação visual é processada e utilizada durante a produção do movimento (CRAIK, COZZENS & FREEDMAN et al., 1982).