4.4 Summary of the simulation study
5.1.1 The power law
Vários eventos concorreram para construção de representações que disputavam o estatuto de interpretação legítima dos acontecimentos que sucederam o rompimento de José Reinaldo com o grupo Sarney, provocando uma verdadeira guerra polissêmica entre os jornais O Estado do Maranhão e o Jornal Pequeno, que assumiram funções de porta-vozes dos agentes e interesses em conflito.
Muitas imagens e símbolos foram apropriados e/ou rejeitados com o objetivo de dar a conhecer uma realidade marcada por “di-visões”, sustentada por estratégias simbólicas que mascaram a realidade utilizando meios espetaculares como forma de “esconder o essencial e exibir o acessório” (BALANDIER, 1982).
As instabilidades políticas e financeiras do Estado, ocasionadas tanto pelos realinhamentos políticos das elites locais, como pelo endividamento do Estado, forneceram elementos significativos para essa espetacularização. Os problemas daí decorrentes foram dramatizados pelos jornais que, diariamente, trocavam acusações reconhecendo esses problemas tanto na administração da ex-governadora Roseana Sarney como na gestão de José Reinaldo Tavares, a depender do jornal.
Nessas disputas, um recurso bastante acionado foi a estigmatização social (ELIAS, 2000), ou seja, atribuição de características e rótulos depreciativos como meio de desqualificação do rotulado e, por via indireta, de qualificação de quem rotula, sendo estes rótulos parte constutiva da(s) própria(s) imagen(s) desses agentes.
Na agenda em torno da qual se desenvolveu a estigmatização e a troca de acusações, destacavam-se as seguintes questões: problemas financeiros do Estado; greve de professores da rede estadual de ensino; escândalo envolvendo a construção de estradas e a eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Os debates em torno desses acontecimentos transformaram a política maranhense, durante certo tempo, numa espécie de teatro trágico (BALANDIER, 1982), com o objetivo de causar a “morte moral” dos acusados por esses problemas. Tendo em vista que as qualificações/desqualificações se corporificam a partir de situações objetivas, vejamos
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em detalhes como os agentes em foco acionaram essas estratégias considerando a agenda acima mencionada.
As “dificuldades financeiras do Maranhão” deram margem à constante troca de acusações através dos jornais O Estado do Maranhão e Jornal Pequeno, configurando-se como base para qualificação/desqualificação dos agentes em disputa enquanto gestores públicos. Nesse embate José Reinaldo e Roseana Sarney buscavam construir identidades embasadas em competência técnica, compromisso com a melhoria dos indicadores sociais do estado e probidade administrativa, numa espécie de jogo de soma zero onde o domínio desses atributos por um dos agentes excluiria o acesso do outro aos mesmos.
Mediante contínuas acusações feitas pelo Sistema Mirante ao governador em torno da questão financeira do estado, José Reinaldo acionou outros veículos da mídia local, especialmente o Jornal Pequeno, para “colocar as contas na mesa”, difundindo a sua versão sobre os problemas financeiros do estado e exibindo documentos que lhe interessavam divulgar. Em entrevista à TV Difusora, reproduzida pelo Jornal Pequeno, ele afirmou que esses problemas foram causados pelo aumento da dívida na gestão da ex-governadora Roseana Sarney e pela queda no repasse dos recursos federais. Acrescentou ainda que o Maranhão tinha perdido mais de R$ 400 milhões no ano de 2003 em relação ao ano de 2002 e que 80% dessa redução decorria da baixa nas transferências do governo federal para o estado54.
Em relação ao endividamento do estado, José Reinaldo destacou aumento significativo decorrente de empréstimos feitos pela ex-governadora. Um deles, no valor de R$ 320 milhões, em 1.999, para sanear o Banco do Estado do Maranhão (BEM), o qual foi logo, em seguida, vendido ao Bradesco por R$ 78 milhões55, numa operação que, segundo o governador, “é como, por exemplo, se você tivesse um carro antigo que custasse 3 mil e tomasse um empréstimo de 12 a 15 mil para guaribar o carro”56. Além disso, as condições do empréstimo fizeram com que a dívida que era de R$ 333 milhões saltasse para R$ 629 milhões em 200457.
Também mencionou outro empréstimo feito durante o governo de Roseana Sarney, na ordem de US$ 620 milhões fazendo com que, em 2004, a dívida do estado já
54 Jornal Pequeno (18/06/2004, p. 03). 55 Jornal Pequeno (03/08/2004, p.04). 56 Jornal Pequeno (29/07/04, p.03). 57 Ibid.
somasse US$ 2 bilhões, o que ultrapassava a sua capacidade legal de endividamento. Segundo José Reinaldo Tavares,
Tomaram 30 por cento da capacidade de endividamento do Estado. Isso implica dizer que além de pagar muito dinheiro pela dívida, não pode tomar um tostão emprestado para ajudar nenhum setor. Foram vendidos o Banco do Estado, a CEMAR, as ações da TELMA e isso resultou em qual benefício para o Estado? Resultou apenas no Estado mais pobre da federação, com a maior parcela da população na mais completa pobreza e os piores índices nas áreas de educação, saúde e renda. (Jornal Pequeno, 29/07/2004, p.03).
Com essas informações o governador construía a sua versão sobre a dívida, responsabilizando sua antecessora pelos problemas financeiros do estado e eximindo-se de qualquer responsabilidade. O montante da dívida, por si só, estimula a dramatização desse acontecimento em alto grau de intensidade e sua espetacularização nos meios de comunicação resulta em proporções ainda maiores, porque também a interpretação desses acontecimentos foi objeto de intensa disputa, como percebido pelo chargista do Jornal Pequeno, que retrata a situação do estado naquele contexto como uma espécie de herança maldita deixada pela governadora.
Figura 2- Charge 02
Fonte: CAJU. Jornal Pequeno (15/05/2004, p.02).
A versão da ex-governadora Roseana Sarney foi bastante divulgada pelos meios de comunicação de sua família e, segundo o jornal O Estado do Maranhão, José Reinaldo tentava atribuir ao governo antecessor os problemas da sua administração, responsável por “submeter o Maranhão a uma crise financeira sem precedentes na história recente do estado”. Na interpretação desse periódico o governador tomou como “bode expiatório” o governo do qual fez parte durante sete anos e três meses como vice-
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governador, atribuindo-lhe toda responsabilidade pela situação financeira em que se encontrava o estado58.
Em defesa do governo de Roseana Sarney, esse jornal divulgou que a ex- governadora teria deixado “um estado ajustado financeira e administrativamente por seu governo bem sucedido, que deixou todos os compromissos em dia [...] e dinheiro em caixa” 59, no caso, R$ 471 milhões60. Segundo esse jornal, as atuais dificuldades financeiras do estado teriam sido agravadas por gastos que o governador José Reinaldo fez com o “aluguel de aviões e a compra de passagens aéreas para ele, o vice- governador e membros do alto escalão do governo [...], que atingiram cerca de R$ 6 milhões”61.
Registre-se que Roseana Sarney também apresenta números para dar legitimidade científica aos seus argumentos como forma de sustentar sua versão sobre os problemas financeiros do estado. Ambos se utilizavam de dados estatísticos para se eximir de culpas e responsabilizar seu adversário. José Reinaldo rebatia as críticas da ex-governadora sobre o aluguel de aviões, afirmando que esse não era o grande problema do Maranhão, e se utilizava dos indicadores sociais do estado para recolocar situação em seu benefício e acusar a gestão de Roseana por esses índices, desviando a atenção da dívida, em si, para situação sócio-econômica do estado de forma mais ampla:
O que merece discussão é sermos um estado que não possui a CEMAR, o BEM, e TELMA e outros bens, e continuarmos sendo o que possui a menor renda por habitante, dono do pior IDH- Índice de Desenvolvimento Humano- o maior número de municípios mais pobres do Brasil, com a maior faixa relativa da população vivendo abaixo da linha da pobreza, com os piores níveis de educação do Nordeste tanto na faixa do analfabetismo como no ensino médio e no ensino superior. No setor da saúde, de tão ruins os dados chegam a ser vergonhosos e inacreditáveis. E sabem de quem são esses dados? Do IPEA, do governo federal. Pois foi assim que saímos dos oito
anos de governo de quem agora me ataca.
(Jornal Pequeno, São Luís, 05 de jul. de 2004, p.03; grifo nosso).
Note-se que em sua resposta, o agente também mobiliza o discurso científico para dar legitimidade à sua posição. Não se tratava apenas da fala de José Reinaldo, mas do discurso do governador – de quem ocupa uma posição de poder e tem acesso a recursos, inclusive informacionais, privilegiados. Acionava, por esta via, um discurso com pretensões de verdade e, por conseguinte, de aceitação.
58 O Estado do Maranhão (29/07/2004, p.03). 59 O Estado do Maranhão (29/07/2004, p.03). 60 O Estado do Maranhão (16/05/2004, p.03). 61 O Estado do Maranhão (23/07/2004, p.05).
Como forma de neutralizar as críticas que o governador vinha fazendo à gestão de Roseana Sarney, o jornal O Estado do Maranhão passou a divulgar passagens do discurso de posse de José Reinaldo ao assumir o governo em 2002, nessas passagens ele se referia à administração da ex-governadora como um “grande governo”, segue abaixo algumas delas:
Minha responsabilidade torna-se maior pela circunstância de estar sucedendo a governadora Roseana Sarney, que entra para a História do Maranhão como uma das maiores entre todos os que exerceram o cargo de Governador do Estado [...] Vou continuar o Governo Roseana [...] Todos nós
reconhecemos e aplaudimos os avanços no esforço pela modernização do Estado, pela melhoria dos nossos indicadores sociais, colocando o
Maranhão no caminho certo; pelo grande trabalho realizado na implantação de moderno sistema de estradas, o êxito que obteve no objetivo de alcançar
o equilíbrio econômico e financeiro do setor público; pelo grande trabalho
em benefício do turismo e da cultura popular maranhense; pelo trabalho fundamental no serviço de segurança em benefício da população; pela mais importante reforma no setor público, jamais realizada no país; pelo trabalho no Centro Histórico; pela luta pessoal da Governadora em favor do reconhecimento de São Luís como Patrimônio Cultural da Humanidade; pelo grande programa social realizado; pelo aumento da produção do setor primário; pelos avanços perseguidos na educação e saúde; pela seriedade que deu às licitações e pela correta condução das obras públicas [...] Parabéns,
Governadora, pelo governo exemplar que conta com a aprovação de mais de 80% dos maranhenses. (O Estado do Maranhão, 29/07/ 2004, p.03;
grifo nosso).
Operando com temporalidades diversas, o jornal O Estado do Maranhão acionou falas de José Reinaldo pronunciadas em outro contexto, num momento em que este assumia outras posições na política estadual. Com isto, procurava demonstrar suas contradições e desacreditar as acusações então apresentadas à administração de Roseana Sarney. Recorreu também a símbolos de “modernidade” e “desenvolvimento”, que cumpriam a dupla função de enaltecer a imagem da ex-governadora e isentá-la de responsabilidades em face aos problemas do estado.
O debate em torno da situação financeira do Maranhão se constituiu, portanto, num meio pelo qual imagens e reputações de lideranças políticas eram edificadas ou desestruturadas através dos jornais. Da mesma forma, a greve dos professores da rede estadual de ensino, por reajuste salarial e mudanças no Estatuto do Magistério, foi outro terreno de qualificação/desqualificação política desses agentes.
O jornal O Estado do Maranhão que, tradicionalmente, oferece pouco destaque às lutas dos servidores públicos estaduais foi, nessa nova conjuntura, a principal vitrine das manifestações e protestos deste segmento, particularmente dos professores em greve. As manchetes desse periódico cumpriam o papel de mais do que prestar informação, mas orientar a interpretação do leitor seja pelos conteúdos publicados seja
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pela intensidade da dramatização das notícias, conforme pode ser observado nas ilustrações seguintes.
Figura 3- O Estado do Maranhão 01
Fonte: O Estado do Maranhão (31/08/2004, capa).
Figura 4- O Estado do Maranhão 02
Fonte: O Estado do Maranhão (04/09/2004, capa).
Figura 5- O Estado do Maranhão 03
Fonte: O Estado do Maranhão (14/09/2004, capa).
Figura 6- O Estado do Maranhão 04
Fonte: O Estado do Maranhão (23/09/2004, capa).
Idêntico recurso (ainda que, com sinal trocado) pode ser visto na abertura de espaço nesse jornal para um dos mais conhecidos oposicionistas à família Sarney e seu grupo político, o petista Domingos Dutra, demonstrando como essas posições são negociadas em contextos específicos e servem às representações que os grupos em conflito visam instituir, as quais não são fixas ou imutáveis. Mesmo sem elogiar os grevistas ou criticar diretamente o governo do estado a declaração de Dutra afirmando que “é preciso que os professores entendam a situação econômica pela qual passa o
governo [...]” , corrobora a tese desse jornal de que o estado estava imerso numa crise financeira a qual o governador “não estaria sabendo administrar”.
As charges seguintes, publicadas pelo jornal O Estado do Maranhão, abordam problemas relacionados à educação no estado retratando, no primeiro caso, a greve dos professores da rede estadual onde o governador é representado por um leão numa churrascaria prestes a comer o professor vivo e várias pessoas com vontade de tirar um pedaço, como demonstram as mãos levantadas com talheres à mostra, enquanto o professor aparece de pés e mãos atadas e de “juízo quente” por conta da situação em que se encontrava essa categoria. A segunda charge denuncia a ausência de escolas, sugerindo que as prometidas melhorias na rede estadual de ensino encaminham-se para um frustrante fundo de poço.
Figura 7- Charge 03
Fonte: CABALAU. O Estado do Maranhão (14/09/2004, p.02).
Figura 8 – Charge 04
Fonte: CABALAU. O Estado do Maranhão (29/09/2004, p.02).
A politização da greve dos professores vai adquirindo nitidez cada vez maior em episódios como a resposta do governador às acusações que lhe eram dirigidas, seja pelo sindicato, seja pelos opositores. Em entrevista ao Jornal Pequeno (10/09/2004, p.04) José Reinaldo Tavares afirma que a greve de professores “tem componentes políticos”, vez que “suas reivindicações salariais já haviam sido atendidas e mesmo assim continuavam paralisados”. Esse comentário surtia um duplo efeito: apresentar a greve dos professores como ilegítima e colocar o governador na posição de vítima de ataques
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de adversários empenhados em enfraquecer o seu governo e que tinham no jornal O Estado do Maranhão uma espécie de trincheira para a defesa de suas (o)posições.
Ressalte-se que José Reinaldo fez essa declaração através de uma coletiva de imprensa realizada no palácio do governo, o que reforça a ideia de espetacularização e disputas pela interpretação legítima dos acontecimentos; disputas pela afirmação de determinadas lideranças e modos de conduzir o governo ganharam nesse período. Não se tratava apenas de noticiar, mas de causar efeitos através de imagens e de todo um aparato midiático que servisse de suporte para os seus argumentos.
A intensidade com que esses eventos eram dramatizados corrobora a ideia de “crise” àquela altura amplamente difundida, reverberando, inclusive, no Legislativo Estadual. Visando realizar alianças que fortalecessem o Executivo, deputados que eram “oposicionistas históricos” (BORGES, 2006), mas no momento, aliados ao governador deploravam o “clima de guerra” entre José Reinaldo e o grupo Sarney, acionando um discurso em defesa da “governabilidade”. As palavras do deputado Luiz Pedro (PDT) ao Jornal Pequeno63 são representativas do apelo à minimização das diferenças em prol de “interesses maiores” relacionados à “salvação do estado” e associados à figura do governador, comumente representado como a personificação do estado.
Sabemos que a crise existe, que é grave e que tende a se agravar mais ainda. Tudo isso fez com que a oposição se abra a um espírito de conciliação para que se tenha um governo de salvação estadual, passando por cima de
diferenças dentro de um espírito maior voltado para o interesse público.
(Jornal Pequeno, 04/08/2004, p.03; grifo nosso).
A declaração acima realça a tragicidade e dramatização (BALANDIER, 1982) daquele momento através da hiperbolização dos problemas (a crise existe, é grave e tende a se agravar) e das alternativas (salvação estadual). Essa forma de apresentar a situação, independentemente da existência de elementos fáticos que a confirmassem, o discurso sobre a “crise” é, em si mesmo, um elemento de sustentação da dramatização política e da própria “crise”, reafirmando-se por essa via a eficácia dos discursos para além do plano retórico.
A “crise” também apareceu no debate político como sinônimo de “desgoverno”. O Estado do Maranhão se utilizava dessa ideia, representando o período em que José Reinaldo esteve à frente do governo do estado como “1.460 dias de desgoverno”, reforçando, deste modo, a (des)qualificação do governador e de sua gestão, diz o jornal:
reeleito pela força e prestígio do grupo a que pertencia o governador José
Reinaldo é a imagem acabada do fracasso, fracassou como gestor público e fracassou no papel político que pretendeu desempenhar. Ninguém no
Maranhão atual faz outra leitura da imagem de Sua Excelência, mesmo entre aqueles que lhe fazem corte e se matem na órbita do seu governo.
O fracasso retumbante do Sr. José Reinaldo tem explicações fáceis e estão
na crônica do seu desempenho medíocre como chefe do poder Executivo,
quebrou o governo, traiu seu grupo político, apunhalou os servidores
públicos, negociou sustentação com segmentos políticos descomprometidos, quase se afogou no lamaçal da corrupção em que mergulhou seu governo, desrespeitou os maranhenses com promessas não cumpridas [...] O que mais choca com toda essa situação é que o Sr. José Reinaldo parece fingir que tudo é maravilha à sua volta. Sua aparência é a de quem foi convencido de que está liderando um grande governo, quando a realidade revela o que
pode ser rigorosamente definido como uma tragédia administrativa. Seus
marketeiros, pagos a peso de ouro, divulgam conquistas inexistentes, exibem indicadores que não resistem a um simples questionamento, numa clara, ostensiva, desesperada e infrutífera tentativa de ludibriar a opinião pública com alquimia fajuta da propaganda enganosa [...]. (O Estado do Maranhão, 05/04/2005, p. 03; grifo nosso).
Essa foi a linha editorial do jornal O Estado do Maranhão ao longo do governo de José Reinaldo, desqualificando sistematicamente o governador e sua administração, mediante “di-visões” que demarcariam as fronteiras entre a gestão de José Reinaldo e a da ex-governadora Roseana Sarney, deixando entrever que esta última seria a mais qualificada para o exercício dessa função. Isto aparece numa espécie de balanço dessa administração, apresentada pelo jornal na edição do dia 25 de maio de 2004, p. 03, onde se constata afirmações como:
a) durante os quatro anos em que José Reinaldo esteve no governo houve o repasse de mais dinheiro do que no período de Roseana Sarney, no entanto ele fez menos do que ela;
b) os serviços públicos foram sucateados; c) os indicadores sociais pioraram.
Esse discurso coloca em questão uma leitura da própria história do Maranhão que tem sido objeto de disputa e diferenciação entre os grupos políticos. A alusão aos indicadores sociais e ao sucateamento dos serviços públicos acionam um ponto que as oposições sempre se utilizaram para (des)qualificar o grupo Sarney, (re)apresentado sob o signo do “velho”, “patrimonial” e do descompromisso para com a superação dos graves indicadores sociais do estado. O acionamento dessas questões serve à (des)construção da imagem historicamente atribuída ao grupo Sarney por seus opositores, mediante imputação desses atributos às próprias oposições.
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As disputas em torno dos problemas sócio-econômicos do Maranhão, suas causas e a postura dos grupos políticos em relação às mesmas, transcorrem em meio a tensões entre agentes dotados de autoridade para defini-los. Tal autoridade decorre de posições ocupadas, cargos eletivos, experiência administrativa, conhecimento técnico, histórico de iniciativas em prol do estado, entre outros. Tais posições ou atributos são elementos sempre acionados para reforçar posições e construção de identidades.
Ressoando o discurso do governador José Reinaldo, o Jornal Pequeno, sugerindo incapacidade e descompromisso com o estado por parte da ex-governadora, afirmava que este teria herdado “índices vergonhosos da administração de Roseana Sarney”, além de problemas como a não liberação de verbas federais e negligência na apresentação de projetos no Senado64, relacionando-os a “boicotes” que teriam sido arquitetados por ela e seus aliados em esfera federal. Diversas falas do governador atestam essa percepção:
Há uma perseguição política violenta contra o governo, eu estou sendo atacado e ainda me jogam contra a população.
(Jornal Pequeno, São Luís, 05/08/2004, p.03).
Estão boicotando um projeto de interesse do Maranhão.
(Jornal Pequeno, 08/10/2004, p.03).
A ex-governadora tem tentado prejudicar o Maranhão. Ouvi de alguns ministros que a reclamação de que a senadora ligava pedindo pra estes não virem ao Maranhão. Ela demonstrou ser inimiga do Maranhão. A senadora não é obrigada a gostar do governador, mas é obrigada a gostar do povo do Maranhão.
(Jornal Pequeno, 23/10/2004, p.03).
Outro episódio dessa disputa de grande destaque na imprensa local foi um conjunto de denúncias sobre a construção de “estradas fantasmas” durante a gestão de José Reinaldo cuja repercussão foi ampliada pela divulgação em mídia nacional (Revista Veja e Rede Globo). Segundo o jornal O Estado do Maranhão foi “desviado”