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7.2 A Multipolar World of Energy: The IEA and Emerging Consumers

7.2.1 Potential for IEA Recruitment of Emerging Consumers

2.6.1 A maneira rude do ibérico

Quando se trata de alguns aspectos característicos da personalidade do espanhol, há que se considerar também tais características comuns aos portugueses, porque ambos os povos habitam uma região (a Península Ibérica) que apresenta similaridades históricas em vários aspectos (invasões e lutas de monarcas pela supremacia política) e alguns aspectos socioeconômicos afins. Pode-se considerar, em boa medida, que o povo ibérico tem como traço marcante a rudeza em sua maneira de ser. É preciso levar em consideração que esse “olhar” se constitui a partir do ponto de vista de pessoas não-ibéricas, como nós, brasileiros. Ou seja, esse olhar se elabora a partir da alteridade. Provavelmente, entre os ibéricos, essa rudeza não seja um traço de personalidade que os incomode.

No que diz respeito, especificamente, ao espanhol, ele é visto internacionalmente como uma pessoa de caráter bronco, de pavio curto e facilmente irritável, segundo Buades (2006, p. 13).

Levando-se em consideração as raízes históricas da Espanha, ainda segundo Buades (2006), desde a Idade Média, os espanhóis foram criados no culto à intolerância e na proteção da honra a qualquer custo. Essa proteção da honra não se efetuava por meio da discussão e do diálogo, mas sim pela defesa das opiniões e ideias advindas das entranhas. É uma questão visceral, de ordem passional- emocional, mais do que racional.

Mais de três séculos de autoritarismo imperial e de perseguição inquisitorial modelaram o caráter coletivo dos espanhóis. Esse legado imperial e católico condicionou a história contemporânea do país. Portanto, nem os ventos contemporâneos da globalização nem a inserção do país na Comunidade Europeia se constituíram em experiências significativas para amenização da rudeza como traço da personalidade desse povo.

Além de a Espanha ter vivenciado longos períodos de conflitos e guerras, há o aspecto de que a cultura espanhola é, segundo Buades (2006), a cultura da dor e do sofrimento, presentes nas suas variadas manifestações, tanto eruditas como populares.

O sangue, a morte, o padecimento, o tormento ou o vazio existencial têm sido objetos de reflexão coletiva, de forma quase inconsciente às vezes. Esses temas têm inspirado letras de canções, obras literárias, peças teatrais, monumentos arquitetônicos, pinturas, esculturas e filmes. Até a chamada “festa nacional” é um desafio à morte, para a qual o sangue do touro é derramado. (BUADES, 2006, p. 16).

Considerando-se esses componentes culturais (a dor e o sofrimento), pode-se compreender a maneira pela qual o espanhol é visto como indivíduo tragicômico, porque alia sua forma dramática a um senso de humor muito particular, muitas

vezes, ácido e de cachondeo (de tirar o pelo, como dizemos em português). E essa característica é tão marcante, que se faz presente nas narrativas das histórias de vida dos entrevistados para produção das gravações.

2.6.2 A Espanha revisitada

A percepção mais apurada e a interação com os espanhóis, pude elaborar em uma viagem de uma semana à Espanha (Valência), em novembro de 2008, para a XI Conferência de Centros Valencianos no Exterior.

Quando somos atendidos em restaurantes e cafeterias notamos essa maneira de ser do espanhol. Afinal, os profissionais que trabalham nesses estabelecimentos lidam com clientes da Espanha, da Europa e do mundo inteiro, uma vez que Valência é o terceiro maior destino turístico do país. Supunha que teriam um tratamento mais gentil e amável para a clientela.

Ao adentrarmos os estabelecimentos comerciais, somos abordados e exigidos que tenhamos nossos pedidos feitos o mais brevemente possível. Caso não correspondamos a essa expectativa, a esse “roteiro”, já sentimos a impaciência e a rudeza no tratamento dos garçons e garçonetes: “Que quieren ustedes? Los bocadillos que existen son estes que están expuestos! Basta escojerlos!”

Percebe-se que é uma cultura em que não há espaço para as gentilezas nem para as delicadezas. Essas características, parece-me, são vistas por eles como traços de fraqueza.

A estadia de uma semana na Espanha propiciou-me o contato com a população, com a Valência contemporânea, ou seja, uma amostragem da Espanha globalizada.

No centro da cidade, as pessoas andam apressadas, sem olharem umas para as outras. Ritmo típico de uma grande cidade urbana. Aquela ideia que eu fazia, de cidade praiana, balneária, foi dissipada pelo contato com esse ambiente próprio das grandes cidades contemporâneas.

Esse contexto em muito diferia do que eu havia concebido dentro de mim durante toda a minha vida, fruto dos relatos de meu pai, de uma Espanha antiga, a Espanha de suas memórias e lembranças nostálgicas. A Espanha que existe dentro dele!

Outra imagem, mais difusa, era a que eu tinha da primeira viagem que fiz para lá, aos sete anos de idade. Minhas lembranças eram muito vagas, flashes da Espanha daquele período. Agora, adulta, pude ter uma percepção mais crítica.

Estando lá e sentindo esse ritmo do ambiente, as pessoas nas ruas e nos parques, vivenciando seu cotidiano, pude estabelecer minha relação com a Espanha contemporânea, em que não há muito espaço para devaneios e relações idílicas, somente o vivenciar do cotidiano desta Espanha europeizada e globalizada.

Essa percepção atualizou, re-elaborou e reavivou meus sentidos acerca da cultura espanhola e dos espanhóis. Mas, ao mesmo tempo em que senti esse estranhamento e distanciamento, também vivenciei momentos de identificação, nas conversas com os espanhóis de centros valencianos da América Latina e da Espanha. Nesses momentos, sentia-me “em casa” quando ouvia sobre a Espanha ou sobre os países de destino dos imigrantes espanhóis, ou até mesmo em assuntos triviais sobre aspectos da culinária brasileira, como a feijoada.

Duas espanholas, madrilenas, perguntaram-me o que é feijoada e quais são os ingredientes desse prato. Instintivamente respondi que é uma receita parecida com o cozido madrileño, apenas diferente nos ingredientes de carnes e embutidos.

Elas entenderam perfeitamente o que poderia ser e espantaram-se pela minha naturalidade em decodificar e transitar pelas duas culturas. Foi uma constatação muito interessante para mim também. Nesse momento compartilhado, senti-me espanhola e conhecedora de aspectos da cultura madrilena, devido à convivência com meu pai.

Depois de passar a vida toda ouvindo meu pai falar espanhol, mas sem falar o idioma, resolvi aprendê-lo em um curso. Estudei por um ano e meio e esse período foi o início do processo de estabelecimento de uma nova relação com a cultura espanhola.

Por meio do idioma e da convivência com essa cultura durante toda a minha vida, e por ser (parcialmente) espanhola, consegui me integrar a algumas comunidades de espanhóis existentes na cidade de São Paulo. Mas há um componente importante: minha identidade brasileira. Por mais que conheça e compreenda os códigos da cultura espanhola, meu lugar de observação se origina, primordialmente, da condição de ser brasileira e latino-americana. Portanto, um lugar de alteridade e, ao mesmo tempo, de identificação.