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DEL 5: RADIO FREQUENCY IDENTIFICATION

5.5 Potensielle fordeler ved Radio Frequency Identification

De acordo com Vítor Manuel de Aguiar e Silva (85), as marcas distintivas entre o texto

lírico e o texto narrativo incidem no verso e no código métrico. Segundo ele, na poesia, encontramos complexos processos de semiotização, como o ritmo, o verso, a ocorrência periódica de figuras fónicas, das quais a rima é um exemplo, e a disposição gráfica. Outra marca distintiva reside no facto do poeta lírico não estabelecer relações com a sociedade e com o meio, através das suas composições: «Contrariamente ao que acontece com o romancista, o discurso dos “outros”, o discurso na diversidade das suas conexões com micromundos sociais, ideológicos, profissionais e etários e com comunidades regionais, é essencialmente estranho ao poeta lírico (…)» (86)

Tendo em conta o mesmo autor, apercebemo-nos que certas marcas da narrativa se opõem às da lírica: «O texto narrativo literário caracteriza-se fundamentalmente pelo seu “radical de apresentação” – um narrador, explicitamente individuado ou reduzido ao “grau zero” de individuação, funciona em todos os textos narrativos como a instância enunciadora que conta uma “história” – e por relatar uma sequência de eventos ficcionais, originados ou sofridos por agentes ficcionais, antropomórficos ou não, individuais ou colectivos, situando-se tais eventos e tais agentes no espaço de um mundo possível.» (87) E acrescenta: «Manifesta-se, assim, no texto narrativo, uma necessária polaridade entre o autor textual e o mundo narrado, profundamente alheia ao texto lírico.» (88) A estes aspectos, associam-se mais dois componentes

necessários: o tempo e o espaço: «O texto narrativo, caracterizando-se por representar uma sequência de eventos, comporta como elemento estrutural relevante da sua forma de conteúdo a representação do tempo (…). Por outro lado, a sequência de eventos e os agentes do texto narrativo situam-se necessariamente num espaço, num espaço físico e social, com os seus condicionalismos, as suas leis, as suas convenções e os seus valores (…).» (89)

Quer em Luandino Vieira quer em Mia Couto, autores de textos narrativos, as marcas distintivas, apontadas por Aguiar e Silva, não constituem elementos de demarcação. Muito pelo contrário. Nas prosas dos dois encontramos processos de semiotização, como ritmo, rima, (85) Cf. Vítor Manuel de Aguiar e Silva: Teoria da Literatura, Coimbra, Livraria Almedina, 8ª ed., 1996, pp.590-596. (86) Id, Ibid, p. 595.

(87) Id, Ibid, p. 599. (88) Id, Ibid, p. 601. (89) Id, Ibid, p. 603.

figuras fónicas, sentido metafórico e simbólico, poesia e musicalidade. São estes aspectos que tornam estes autores únicos e fazem deles não escritores de poesia da narrativa mas narradores poetas (90). Ambos, de uma forma muito semelhante, penetram na aventura da língua, ondeiam

as palavras e as imagens e transportam o leitor para o mundo do maravilhoso e do sonho: «Através do encantamento da prosa de Mia Couto, uma prosa que é mais poesia que prosa, temos a visão de um filho de europeus sobre a África. (…) É uma forma tão sonhadora de ver a realidade que eu não consigo deixar de sonhar quando a leio.» (91)

Atentemos, em primeiro lugar, à obra de Luandino Vieira. Apesar de textos como A Vida Verdadeira de Domingos Xavier ou Luuanda visarem, acima de tudo, uma mensagem social e pertencerem a uma literatura de luta, encontramos marcas poéticas e momentos emotivos na mensagem: «Fechava os olhos e o Kuanza corria ao luar, rugindo furioso ou manso e quieto, grande mar sem ondas. (…) Deitado, se deixou boiar no seu rio de criança, do planalto, que lhe tinha visto nascer.» (92); «(…) só um quente novo, um fresco bom, melhor que o vento que soprava xaxualhando as pequeninas folhas verdes das acácias, empurrando as flores, algumas deixavam cair as suas folhas vermelhas e amarelas, parecia era mesmo uma chuva de papel de seda em cima deles.» (93) Mas é em narrativas como No Antigamente Na Vida e João Vêncio: os Seus Amores que a musicalidade e a poesia das palavras assumem um carácter marcante: «Se levantou: sua estrela de fogo por sob a nuvem púbica queimou nosso silêncio, ar era pouco para tanto sopro de luz se libertando no corpo dela, avançando. Nós, as trevas brutas parecíamos éramos. (…) Cantávamos. Tarde não era mais, música de tempo. A gente se esvaziava do que nem sabíamos ainda, queríamos só sol no peito, coração sangrante para a Moça adiantar ver – aí berrávamos já o nunca dito, o que nunca se sabe o que é antes de ser e na hora não era a

(90) Vítor Manuel de Aguiar e Silva refere esta conjugação entre as características dos dois modos: «As marcas

distintivas com que caracterizámos o texto lírico, atinentes sobretudo aos planos semântico e pragmático, correlacionam-se indissoluvelmente com outras marcas distintivas do texto lírico atinentes ao plano da forma da expressão. Embora o modo lírico se possa manifestar em textos em prosa – como acontece com textos integráveis em subgéneros híbridos como o poema em prosa, o romance lírico, a chamada narrativa poética e o drama lírico -, ele manifesta-se predominantemente, quer sob o ponto de vista estatístico, quer sob o ponto de vista de uma axiologia estética, em textos em poesia, entendendo-se o termo “poesia” stricto sensu.» in Teoria da Literatura,

Coimbra, Livraria Almedina, 8ª ed., 1996, p.590. (91) Cf. Moçambique, Lisboa, Portugal, de Abril de 2001.

(92) Cf. José Luandino Vieira, A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, Lisboa, Edições 70, 1988, p.28. (93) Cf. José Luandino Vieira, Luuanda, Lisboa, Edições 70, 2000, p.42.

mesma coisa que não era no antes, nunca.» (94) Esta passagem é plena de ritmo, harmonia e

amor. Abundam as metáforas, a função emotiva da linguagem, a descontinuidade do discurso, a transmutação do sentido, a subjectividade e a criação de um mundo que engloba o “eu” e o “não eu”. A poesia e a narrativa interseccionam-se para descrever uma realidade de pureza e inocência, só captável através dos olhos de crianças ou do Poeta.

É imprescindível, ainda, a análise de outras passagens: «Tem a quinda, tem a missanga. Veja: solta, mistura-se; não posso arrumar a beleza que eu queria. Por isso aceito sua ajuda. Acamaradamos. Dou o fio, o camarada companheiro dá a missanga – adiantamos fazer nosso colar de cores amigadas. (…) Por isso pergunto depoimento do muadié: vida de pessoa não é assim a missanga sem seu fio dela, misturada na quindinha dos dias?» (95); «Este muadié tem cada pergunta!...: missangas separadas no fio, a vida do homem? Da de maria-segunda, de cada cor, cores? Kana, ngana!... Cada coisa que ele faz é ele todo – cada cor é o arco-íris.» (96)

Nestes momentos do texto surgem imagens belíssimas que se relacionam com a vida e com colares de missangas. Para João Vêncio, a amizade é metaforizada na união entre o fio e as pedras que constituem a peça de ornamento. Mas a simbologia do colar não se fica unicamente no sentimento fraternal. Ele referencia ainda o dia-a-dia, o percurso do homem pela vida e pelas mulheres. Com estes sentidos, as missangas misturam-se e revelam os conflitos e as confusões do mundo. No entanto, no final da estória, a simbologia do colar altera-se. Interpelado pelo muadié, João Vêncio muda o discurso. Apercebe-se, quando termina a narrativa, que a sua existência foi maravilhosa e relaciona-a, não mais a um fio com bolas coloridas, mas sim ao arco-íris, terminando a estória numa outra dimensão do maravilhoso.

Em Mia Couto, a presença de Luandino Vieira aparece com maior força, precisamente a partir da simbologia do colar de missangas (97), no conto “O Fio e as Missangas”, que deu nome

a um livro de 2004. A situação narrada é semelhante à de João Vêncio: os Seus Amores. Encontramos um homem a contar as aventuras vividas com mulheres a um confidente que mal conhece. E, a comparação estabelecida entre a vida e as mulheres, é a mesma: «- A vida é um colar. Eu dou o fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas…» (98)

(94) Cf. José Luandino Vieira, No Antigamente Na Vida, Lisboa, Edições 70, 1987, pp.48/49. (95) Cf. José Luandino Vieira, João Vêncio: os Seus Amores, Lisboa, Edições 70, 1987, pp.13/14. (96) Id, Ibid, p. 89.

(97) A propósito da simbologia do colar de missangas, na literatura angolana, lembre-se o belíssimo poema de Aires de Almeida Santos O Colar de Missangas.

A beleza e a poesia encontrada nas obras dos dois autores não se limitam a algumas imagens. Elas ocupam todo o universo narrativo. Em todos os textos sentimos ritmo, musicalidade e a expressão dos mais puros sentimentos através de palavras inocentes. Atentemos na riqueza da linguagem coutiana, por exemplo numa estória escrita para a filha: «É assim que ainda hoje se vê, lá na prata da lua, a pupila estrelinhada do passarinho sonhador. E nenhuma criatura, a não ser a noite, escuta o canto da avezinha enluarada. Sobre as primeiras folhas da madrugada, tombam gotas de cacimbo. São lagriminhas do pássaro que sonhou pousar na lua.» (99) A transformação das lágrimas em nevoeiro transmuda o sentido para a

imensidão da ternura da estória infantil.

Porém, é em narrativas como Mar Me Quer e Chuva Pasmada que o lirismo é assumido em esplendor e ressoa como uma melodia: «-Mar me quer, bem me quer… Este era o cantochão de Luarmina, o infindo ramerajar dela. Todos fins de tarde a mulata fica sentada, num degrau da varanda, e vai desfolhando infinitas flores. Ao fim de um tempo, todo o pátio está forrado a pétalas, o chão espantado a mil cores.» (100) Desde o nome da personagem que reenvia o leitor

para a lua, até à lengalenga proferida até à exaustão, não esquecendo a personificação, a imagem e a hipérbole, tudo contribui para a interpenetração do modo poético na prosa. Igualmente em Chuva Pasmada, obra de 2004, a musicalidade coutiana se faz sentir. Julgo até que é, nesta obra, que ela mais se evidencia, marcando uma tendência do escritor para agudizar esta sua característica. Atentemos no seguinte exemplo: «Como ele sempre dissera: o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.» (101) As marcas da lírica são variadas: a

subjectividade, a emotividade, a linguagem polivalente e metafórica, o ritmo, a descontinuidade do pensamento e a conexão estreita entre os significantes e os significados. Todavia, há um aspecto que se sobrepõe à fusão entre os modos e que é comum aos dois escritores estudados: a beleza dos textos, conseguida a partir da miscigenação. Através da conjugação dos caracteres da lírica e da narrativa, Luandino e Couto conseguem obter um ritmo, uma harmonia e uma musicalidade únicas. Só eles são capazes de criar palavras e frases inesquecíveis: «Eu já sabia: a única história com final feliz é aquela que não tem fim.» (102)

(99) Cf. Mia Couto, Contos do Nascer da Terra, Lisboa, Caminho, 1999, 3ªed., p.69. (100) Cf. Mia Couto, Mar me quer, Lisboa, Caminho, 2001, 5ªed, p.16.

(101) Cf. Mia Couto, A Chuva Pasmada, Lisboa, Caminho, 2004, p.74. (102) Id, Ibid, p. 37.