2.3 Naturen som en helsefremmende arena
2.3.2 Potensiale for mental restitusjon og emosjonell livskvalitet i naturmiljø
A devoção católica já era registrada no século XVIII, até mesmo no Quilombo do Piolho. Quando o quilombo foi destruído, despertou atenção a instrução religiosa que tinham esses negros aquilombados (BANDEIRA, 1988, p. 182).
Durante o período colonial se desenvolveu uma prática religiosa marcada pelo sincretismo refletido nas culturas que aqui estiveram em contato. O catolicismo popular foi e continua sendo bastante expressivo no meio rural e pode ser entendido como “uma religião voltada para a vida aqui na Terra (...) baseada principalmente na execução de promessas e na realização de festas de santos” (ZALUAR, 1983, p. 13-14).
Até os dias atuais, Vila Bela conserva a tradição do festejo anual que reúne os atuais e antigos moradores da cidade, além de centenas de participantes vindos de cidades vizinhas, que festejam sua devoção ao Espírito Santo, São Benedito, Mãe de Deus e Santíssima Trindade. As homenagens à Mãe de Deus e ao santo padroeiro da cidade, a Santíssima Trindade, encerram a Festança, que de acordo com os fiéis vilabelenses seria a representação de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito. Essa é uma tradição da cidade realizada desde 1835.
Como dito, a Festança engloba vários festejos. A festa do Divino é uma manifestação do catolicismo popular celebrada em vários estados brasileiros. De acordo com o calendário católico a festa do Divino é comemorada no Domingo de Pentecostes, dia em que os católicos fazem referência bíblica à primeira reunião dos apóstolos aguardando a manifestação do Espírito Santo.
Já o festejo a São Benedito, também celebrado em vários estados brasileiros é uma festa do catolicismo popular de influência africana, também inspirado no Cortejo aos Reis do Congo, realizado pela população afrodescendente. Essa manifestação foi introduzida por meio dos africanos feitos escravos trazidos para o Brasil oriundos do então Reino do Congo. Em solo brasileiro, os afrodescendentes adaptaram o cortejo que é conhecido como Festa do Congo, Congada ou Congado e faz parte, em especial aos festejos em louvação a Nossa Senhora do Rosário e São Bendito (GAETA, 1997).
Na atualidade, em Vila Bela, os católicos dividem espaço com as igrejas evangélicas. O início da expansão evangélica se deu na década de 1950, quando a Missão Cristã Brasileira chegou até Vila Bela. O missionário holandês, Pr. Gustavo Bringsken, criador da Missão, veio para o
Brasil com o intuito de trabalhar na região amazônica, se estabelecendo em Vila Bela devido às reservas indígenas existentes no município. O missionário consequentemente estendeu seu trabalho de evangelização junto às comunidades ribeirinhas e quilombolas que habitavam o entorno do rio Guaporé. As informações sobre a Missão Cristã Brasileira foram compiladas no site da organização na Internet4, tendo sido algumas confirmadas junto aos moradores do quilombo do Boqueirão. De acordo com D. Sebastiana, o Pastor Gustavo possuía um avião com o qual fazia o seu trabalho de evangelização e prestava assistência para a população da região. Nessa época a locomoção das pessoas que viviam fora do núcleo urbano de Vila Bela se dava somente por via fluvial ou a pé. Com seu avião ele chegou a levar pessoas doentes até o hospital, além de sobrevoar a região para atirar bolsas com mantimentos e medicamentos. Seu avião ainda era fretado por fazendeiros e políticos da região, e com isso o missionário angariava mais fundos para seu projeto evangelizador.
A Missão é hoje responsável por muitas obras assistencialistas no Guaporé. Foram eles que construíram o hospital de Vila Bela, além do posto de saúde e a primeira escola de ensino fundamental da região.
Já a presença de casas de culto de origem afro-brasileira não foi identificada em Vila Bela. A relação da religiosidade africana com a natureza, a torna um local preferencial de práticas religiosas, não sendo a ausência de um tempo de culto, fator para não ser praticada. Bem, como a ausência de templos públicos não impede que essas práticas sejam realizadas em residências vilabelenses, sem que nós como pesquisadores pudéssemos ter identificado. Também foi possível perceber em conversas informais com algumas pessoas a existência de preconceito por parte dos moradores de Vila Bela à práticas religiosas de origem africana que, que logo são por eles associadas à feitiçaria.
A raiz desse preconceito, já vimos, está nas relações sociais do período colonial. A repressão das manifestações às práticas culturais dos Negros foi documentada em Vila Bela em 1773, quando foi considerada pena grave a realização de batuques e ajuntamento de escravos (AMADO e ANZAI, 2006, p. 189).
Durante a pesquisa, muitos moradores de Vila Bela fizeram relatos sobre “os feiticeiros que existiam em Vila Bela”. Ronaldo, conhecido por Biguá, morador da Vila, nos contou que anos atrás uma das últimas “feiticeiras” de Vila Bela foi assassinada. Ela teria recebido um tiro no peito quando estava indo dormir e tinha seu filho nos braços. Dona Sebastiana da comunidade do Boqueirão nos confirmou o relato e acrescentou que essa mulher (nem Biguá, nem d. Sebastiana se recordam do nome), foi assassinada a mando de um de seus clientes e ninguém foi preso pelo crime. Dona Sebastiana disse também, que o “bamba dela” teria comparecido ao enterro e “bufava como um touro”. Bamba, palavra que é empregada com o sentido de mestre, sendo que o “bamba dela”, pode se referir ao pai de santo que teria iniciado essa mulher à religião afro-brasileira. Reforçando que o termo “feiticeiro”, pode ter conotação pejorativa em relação a pessoas conhecedores e praticantes de saberes afro-brasileiros de cunho religioso.
Sá Junior (2008), em estudo pouco explorado, pois chegou tardiamente às nossas mãos, confirma que as práticas mágicas e feitiçarias ocupavam lugar especial no cotidiano da sociedade brasileira entre a primeira metade do século XIX e primeira metade do século XX e que a historiografia do Mato Grosso é carente de informações sobre africanos e seus descentes, definiu esse segmento sócio-racial para a investigação de tais práticas mágicas. No desenvolvimento da pesquisa o autor relata que os seguimentos indígena e europeu foram tomando espaço na pesquisa, refletindo que trocas culturais entre os três seguimentos começavam a se dar já na travessia da “calunga pequena”, expressão usada pelo autor para se referir ao trajeto fluvial, em especial o das Monções do Sul, entre o porto de desembarque no Atlântico, até Vila Bela da Santíssima Trindade.
A investigação mais acurada das práticas religiosas em Vila Bela durante o período colonial relacionadas ao contexto religioso afro-brasileiro poderia dar novos elementos, para se pensar na atribuição de significados à paisagem pelos vilabense.