3.2 Utviklingen av spørreskjemaet
3.2.3 Kvaliteter ved omgivelsene
O centro urbano de Vila Bela, ou apenas Vila como é chamado, possuiu traçado urbanístico idealizado pelos portugueses no período colonial. Ainda hoje é possível ver algumas poucas residências cuja arquitetura e o padrão de construção são remanescentes do período colonial. Outras construções posteriores procuraram manter um padrão semelhante.
Figura 3.2-1: Imagem aérea da zona urbana de Vila Bela
As casas em Vila Bela seguem uma divisão espacial baseada em centro-periferia, onde as casas mais humildes, em geral, estão mais afastadas do centro, daqueles quarteirões que abrigam a praça e a Igreja da Matriz, as ruínas da antiga igreja e o Palácio dos capitães Generais. Nesse quarteirão há algumas residências, porém a maioria das edificações é destinada ao comércio.
Figura 3.2-2: Construções no entorno da Praça.
Todos os moradores do quilombo do Boqueirão têm uma casa ou parente que mora na Vila, onde regularmente se hospedam para resolverem questões nos órgãos públicos, visitar amigos e familiares, ou participar de eventos realizados na Vila.
Dona Maria dos Anjos (SLM), por exemplo, tem uma casa na Vila onde vive sua filha adotiva, com o marido e o filho. Apesar de ter essa casa, Dona Maria prefere a vida na comunidade Boqueirão e só utiliza a casa quando necessita, como por exemplo, receber sua aposentadoria, lá permanecendo, não mais que três ou quatro dias, pois sente falta do cotidiano do Boqueirão, e fica preocupada com a alimentação de suas criações. Dona Maria possui uma centena de galinhas.
Figura 3.2-3: Casa de Dona Maria (SLM) na Vila.
Na Vila focamos aquelas casas que possuíam quintais, a partir daí nos detivemos em três tipos de configuração distintas: aquelas casas que não possuíam quintal na parte frontal, apenas nos fundos, aquelas com quintal na frente e nos fundos e casas de madeira com padrão mais próximo daquelas observado no Boqueirão. Esses padrões não representam a totalidade do que se observa em Vila Bela, são antes uma solução analítica para compor um quadro, dentre os muitos possíveis, para que possamos extrair inferências sobre a vegetação dos quintais. A casa de Dona Maria, se encaixaria no primeiro padrão, não tem quintal na frente e no quintal dos fundos há uma pequena horta de cebolinha, salsa, pimenta, entre outras ervas
usadas na culinária e medicina popular. Também costumam ter plantas ornamentais, pequenos arbustos e árvores frutíferas, e sempre que possível uma ou mais mangueiras. Em alguns quintais há criação de galinhas, mas não em todos.
Esse padrão de casa segue o modelo colonial. Há algumas casas bastante antigas, algumas que foram restauradas com o intuito de preservar o padrão de antigamente e ainda outras que foram construídas mais recentemente, mas adotaram esse padrão. Algumas não tem quintal.
Figura 3.2-4: Casarões antigos de Vila Bela sem quintais na parte da frente.
Não é raro ver nas casas desse primeiro padrão, vasos de plantas na entrada, ou mesmo na calçada em frente às casas. As imagens a seguir mostram vasos com plantas associadas à proteção contra energias negativas, como espada-de-são-jorge, comigo-ninguém-pode e dracena, também conhecida por peregum, que veremos mais detalhadamente nos itens que seguem.
Figura 3.2-5: Exemplos de vasos com plantas de proteção colocadas na frente das casas e nas calçadas. O segundo padrão é formado pelo conjunto de casas que possuem quintal na frente e atrás. No quintal da frente costuma ter um jardim com plantas ornamentais. Em alguns destes quintais também observamos a recorrência de plantas de proteção, como a espada-de-são-jorge, peregum, ou a comigo-ninguém-pode, como ilustrado na imagem abaixo.
Figura 3.2-6: Casas com jardim na parte da frente. No detalhe foi circundado a espada-de-são-jorge (à direita) e um pé de peregum verde e amarelo (à esquerda).
O terceiro padrão corresponde a casas de madeira, geralmente localizadas nas áreas mais periféricas do centro urbano e também às margens do Guaporé, nesse caso, habitadas por pescadores autorizados pelo município, conforme informou Jean, que é filho de pescadores. Muitas vezes essas casas não são muradas e nem sempre e possível avistar os limites dos quintais, onde geralmente há arvores, preferencialmente mangueiras, que abundam na Vila. É comum a existência de pequenas hortas.
Figura 3.2-7: Casas nas regiões mais periféricas da Vila são de madeira.
Essas casas se assemelham mais as habitações do Boqueirão, não pela simplicidade do material empregado na sua construção, mas também pela existência de árvores, criações e a ausência de muros. Os poucos moradores que tivemos a oportunidade de conhecer, demostraram ter um poder aquisitivo mais baixo, e alguns deles viveram por muito tempo na área rural, como é o caso de Vafilda, irmã de Lino e Ádio, que veio viver na Vila porque se casou.
Além de observar os quintais da Vila, realizamos outras atividades com o objetivo de aprender mais sobre o cotidiano dessa população e suas manifestações culturais.
A cidade que fica às margens do rio Guaporé tem na Praia Morena o espaço privilegiado para a promoção de atividades de lazer, como o Festival de Pesca que pudemos acompanhar no ano de 2008. Nesse evento, além da competição entre pescadores, há a apresentação de grupos musicais vindos de outras cidades, concursos de beleza, bailes entre outros.
Figura 3.2-8: Praia Morena Festival de Pesca.
Já durante Festança, maior festividade religiosa do município, as atividades são concentradas na Praça da Igreja da Matriz.
Figura 3.2-9: Convite para a Festança de 2009.
No ano de 2009, na condição de observador participante, acompanhamos diversas cerimônias oficiais e atividades ligadas aos preparativos, nos sete dias que antecederam o encerramento da Festança.
A primeira atividade que acompanhamos foi a coleta ou “tiração de esmola”, que consiste num cortejo que segue de casa em casa, de comércio em comércio pedindo alguma
contribuição em dinheiro, animais, alimentos ou qualquer item que possa ajudar na realização da festa. A tiração de esmola tem início aproximadamente três meses ou mais antes da Festança e termina dias antes do encerramento da mesma. O cortejo de foliões é conduzido pelo “Imperador” e a “Imperatriz”, ou seus representantes e os responsáveis pelo carregamento das bandeiras. O séquito ainda conta com os tocadores e cantores, que são sempre acompanhados por devotos.
Figura 3.2-10: “Tiração de esmola”; o cortejo atravessa as ruas da cidade de Vila Bela e também alcança as zonas rurais do município.
Em um dia que acompanhávamos o cortejo observamos que em uma das casas, os moradores armaram um cenário para receber os foliões. Havia velas acesas nos cantos da sala e no chão estavam esparramadas folhas de laranjeira.
Figura 3.2-11: Dona Maria das Neves recebe os foliões com folhas de laranjeira.
De acordo com dona Maria das Neves, a proprietária da casa, o ato de jogar folhas de laranjeira no chão é uma tradição preservada pelos devotos mais antigos. De acordo com seu Leopoldo Frazão de Almeida, antigamente todos os moradores adotavam essa pratica ao receber os foliões, porém, essa é uma tradição que já está se perdendo. Seu Leopoldo tem 98 anos e é o responsável pelos toques do sino da igreja durante a Festança, que são específicos e diferentes dos do dia-a-dia, sendo ele também o tocador da viola na Folia. Seu Leopoldo é tio de Adio e Lino (SAK e SLM) do Boqueirão.
Em outro momento pudemos registrar a construção de uma cozinha com o uso de técnicas construtivas tradicionais. Essa cozinha, construída no quintal a poucos metros da habitação, teve por objetivo abrigar as cozinheiras, alimentos e utensílios para a preparação do jantar a ser oferecido, em dia específico, pela Imperatriz Adelayr à população.
Na estrutura da cozinha foram usados troncos de árvores e o telhado de duas águas foi coberto com folhas da palmeira do babaçu, além de pregos os construtores também ataram os troncos com a “palha da embira” – fibra do caule da árvore de mesmo nome. Tudo coletado na região. O mesmo procedimento técnico adotado na construção da cozinha da Imperatriz, dias depois observamos no Boqueirão durante a construção de um galinheiro, conforme detalhamos no item 3.5.1.
Figura 3.2-12: Técnicas ancestrais de construção; cozinha da imperatriz.
As experiências vivenciadas junto aos moradores da Vila, além de relevantes na busca pela compreensão do modo de vida, das formas de expressão, crenças e religiosidade da população vilabelense, foram parte de um processo recíproco de conhecimento.