1. Introduction
1.2 Postoperative complications
O templo no qual concentrei meu trabalho de campo em Amsterdã era um templo da IURD localizado na Rua Jan Evertsenstraat 18. É importante observar que não era um endereço nobre da cidade, na verdade ficava em uma região com forte ocupação de imigrantes ou descendentes de turcos e marroquinos, além de ser relativamente próximo de um local de intenso comércio chamado Merkatorplein. A provável escolha deste local deve ter sido o preço do aluguel, pois as áreas mais nobres da cidade são ocupadas por grandes lojas e atividades ligadas ao entretenimento. Acredito que o valor mais baixo do aluguel e a relativa facilidade de se chegar ao centro por transporte público façam com que esta região também seja bastante procurada por brasileiros em busca de moradia117.
Figura 12 - Mapa de Amsterdã com a localização da IURD em relação a praça central e a estação central. Fonte: Google Earth 2010.
Este templo da IURD pode ser considerado espaçoso para aquele contexto, mas seria muito pequeno para o contexto brasileiro, a capacidade deve ser em torno de 200 pessoas.
Há cultos todos os dias, exceto aos sábados. Os cultos mais frequentados são aos domingos às 09h30min pela manhã reunindo cerca de 40 pessoas, em sua maioria brasileiros e eventualmente pessoas de fala espanhola e holandeses esposos de brasileiras. Este culto é em português sendo seguido por outro em holandês atendendo principalmente surinameses. Após
117 Impressões e informações colhidas a partir da minha experiência de ter morado por 20 dias na região e por
o culto alguns brasileiros ficam e assistem o culto seguinte ou simplesmente para esperar a reunião do grupo de jovens que normalmente começa as 13h00. Na espera de cerca de 2 horas alguns ficam conversando na rua ou no hall de entrada, enquanto um obreiro e uma moça vendem doces e salgados feitos da forma como se faz no Brasil.
A igreja é também um local de divertimento e descontração118. O nome do grupo de jovens da IURD em Amsterdã também é ―Força Jovem‖. As atividades geralmente são competições a respeito de conhecimento bíblico e gincanas para arrecadar dinheiro para a igreja, mas são feitas também atividades fora do templo com fim estritamente de divertimento, como o aluguel de quadra para esportes ou locais de patinação. O grupo em Amsterdã tem diferenças significativas em relação ao grupo no Brasil, mas especificamente ao que acompanhei em Florianópolis.
As diferenças mais marcantes são o tamanho do grupo e a faixa etária dos participantes. Enquanto em Florianópolis era formado basicamente por adolescentes e tinha centenas de membros, em Amsterdã era formado na maioria por adultos, alguns acompanhados por filhos pequenos. Às vezes reunia cerca de 15 ou 20 pessoas.
Em Florianópolis ficava claro também o papel que o grupo tem na formação e recrutamento de lideranças. O grupo todo era dividido em quatro equipes e cada equipe era liderada por um obreiro auxiliado por um dos membros, algo difícil de acontecer no contexto de Amsterdã.
O tamanho da Igreja Universal na Holanda não se compara com a sua magnitude no Brasil, nem em termos numéricos ou em sua influência na sociedade. Enquanto em nosso país já é uma instituição de grande visibilidade e considerável influência social e política, na Holanda a IURD é apenas mais uma das igrejas de imigrantes e não chega nem a ser uma das maiores119 e mesmo as dimensões físicas são muito menores que no Brasil. A sede em Haia, por exemplo, é menor que muitos templos periféricos no Brasil e nem se aproxima das ―Catedrais da Fé‖ localizadas nas capitais brasileiras.
Outra diferença visível é o número de frequentadores. Enquanto no Brasil costuma ser de centenas ou milhares nos cultos principais, na Holanda costuma ser de algumas dezenas ou menos. Já houve cultos em que estavam presentes duas pessoas contando comigo, enfim, um
118 Minha esposa frequentava um curso de inglês oferecido principalmente a indocumentados e numa das aulas
ao serem perguntados o que fizeram no final de semana muitos responderam que foram a igreja. Ainda há os que participam de vigílias que duram a noite inteira, porém esta prática não aconteceu na IURD enquanto estive lá e sim na IPDA.
119 A IURD possui 7 templos em toda a Holanda, dois em Amsterdã, dois em Rotterdam, e um em: Almere,
Eindhoven, e Haia (sede), sendo que só o templo que acompanhei em Amsterdã e um em Rotterdam tem cultos em português.
grande contraste com o discurso triunfalista120 iurdiano e de outras pentecostais brasileiras a respeito de sua expansão internacional, como é dito em nomes como ―Universal‖, ―Internacional‖, ―Mundial‖ etc. Aliás esta pequena frequência aos cultos parece ser uma tendência das igrejas migrantes na Europa, não só dentre o público brasileiro e não só na Holanda. Währisch-Oblau menciona que na Alemanha, por exemplo, a quantidade de membros é em média entre 50 e 70 pessoas (WÄHRISCH-OBLAU, 2006, p. 35), um número coerente com aquilo que vi em Amsterdã.
O trabalho de campo mostra que a Igreja Universal é uma igreja de migrantes que tenta se inserir na comunidade holandesa nativa, embora esteja até o momento sendo melhor sucedida entre os migrantes. Quase todo o material de divulgação (envelopes de dízimo, textos, e material usado em correntes) e o website são escritos em holandês (UKGR, 2009). Além disso, a maior parte dos cultos é em holandês. Estes elementos nos dão a clara evidência de que a Universal pretende alcançar uma membresia mais diversificada e não só migrantes de língua portuguesa ou espanhola. Entretanto, a maior parte dos frequentadores ainda é de migrantes, indocumentados ou não.
No Brasil a Universal tem mostrado uma incrível habilidade para se adaptar à adversidade e mudanças no contexto nacional. Sua doutrina tem sido estruturada sobre importantes elementos da religiosidade brasileira, dentre eles a crença em espíritos de matriz africana, indígena e kardecista que são interpretados como manifestações diabólicas. Quando a IURD entra em outro país tem de se adaptar a nova realidade nacional (FRESTON, 2003a), a pesquisa de campo mostrou que o mesmo processo tem ocorrido na Holanda.
Entretanto, Exus, Pomba-giras e outros elementos da religiosidade brasileira não foram mencionados em nenhum momento, a não ser uma única vez e bem discretamente, como se os espíritos brasileiros tivessem sido barrados no controle de fronteira do aeroporto. Era de se esperar que nos cultos direcionados ao público brasileiro houvesse ao menos menções ao suposto poder destes espíritos, mas nada foi mencionado, o que pode representar mais um esforço da igreja em se adaptar à realidade local evitando práticas que na Holanda poderiam ser consideradas chocantes. Em um dos cultos que assisti, presenciei um holandês se levantar e se retirar visivelmente contrariado enquanto o pastor fazia uma veemente pregação a respeito da importância de se ofertar na igreja. Mesmo com a insistência da esposa que aparentemente não era holandesa o homem se retirou.
120 IURD. O Reino de Deus. Disponível em: < http://www.conteudouniversal.com/2008/12/28/o-reino-de-deus-
Uma igreja migrante tem de oferecer um ―pacote completo‖ de benefícios espirituais e materiais que sejam adequados à realidade do imigrante, especialmente o indocumentados, como nos lembra Währisch-Oblau (2006, p. 43):
Elas (igrejas) não estão apenas interessadas em ‗salvar almas da danação eterna‘, mas querem que as pessoas vivam uma ‗vida em abundância‘. Sua relação com Cristo resultará em milagres diários: O desempregado encontrará trabalho, migrantes receberão sua permissão de morar no país; seus filhos trarão boas notas da escola; salários serão aumentados; e o racismo no local de trabalho será superado. É este tipo de milagres que os crentes contam durante o ‗testemunho‘ nos cultos.121
Já na IURD, enquanto a possessão por espíritos é deixada quase que totalmente de lado, os temas da cura e prosperidade são sempre bastante repisados, bem como os temas do visto e da condição de estar indocumentado e os problemas emocionais. As possíveis razões são várias. Os brasileiros vêm com o objetivo de economizar a maior quantidade possível de dinheiro, quanto mais trabalho houver menos meses ou anos terá de ficar na Holanda longe da família, logo o fator prosperidade torna-se fundamental.
A cura, entretanto, tem um sentido mais amplo, especialmente no contexto dos migrantes, de acordo com Droogers: (2006, p. 165).
O termo (cura) frequentemente também se aplica à outros aspectos do bem-estar humano, incluindo relações pessoais problemáticas, pobreza, azar, dificuldades em obter uma autorização de permanência e outras aflições com as quais as pessoas têm de lidar. Esta visão ampla sobre a cura com a convicção holística que a fé têm força sobre todos os aspectos e setores da vida, assim como as forças do mal
igualmente ameaçam estes mesmos aspectos e setores.122
Há uma música bastante ouvida, executada nos cultos e até cantada pelas pessoas mesmo nas suas casas, que é emblemática a respeito desta ideia ampla de salvação e pertencimento a uma igreja, ou melhor dizendo nos termos pentecostais, a aceitação de Jesus.
Entra Na Minha Casa - Regis Danese (2010) Como Zaqueu
Eu quero subir
121 They are not just interested to ‗save souls from eternal damnation‘, but want people to live a ‗life in
abundance‘ (Jn 10.10). Their relationship to Christ will result in everyday miracles: The unemployed find work; migrants receive their residence permit; their children bring home good marks from school; salaries are raised; and racism in the workplace is overcome. It is such miracles that believers report during ‗testimony time‘ in their worship services.
122 The term (healing) also often applies to the other aspects of human well-being, including strained personal
relationships, poverty, bad luck, difficulties in obtaining a residence permit and other afflictions that people have to deal with. This wider view on healing is consistent with the holistic conviction that faith puts a claim on all aspects and sectors of life, just as evil forces equally threaten these same aspects and sectors.
O mais alto que eu puder Só pra te ver
Olhar para ti
E chamar sua atenção para mim Eu preciso de ti senhor
Eu preciso de ti, oh pai Sou pequeno demais Me dá a tua paz
Largo tudo pra ti seguir Entra na minha casa, Entra na minha vida Mexe com minha estrutura Sara todas as feridas Me ensina a ter santidade Quero amar somente a ti
Porque o senhor é o meu bem maior Faz o milagre em mim...
Entra na minha casa, Entra na minha vida Mexe com minha estrutura Sara todas as feridas Me ensina a ter santidade Quero amar somente a ti
Porque o senhor é o meu bem maior Faz o milagre em mim...
Os temas abordados na música são bastante adequados aos dramas vividos pelos brasileiros, provavelmente por esta razão a música faça tanto sucesso na comunidade de migrantes independentemente da denominação que frequentam. ―Eu preciso de ti, Senhor, eu preciso de ti, oh Pai‖ remete, por exemplo, à necessidade de amparo na terra estranha e mesmo de amparo familiar, ―entra na minha vida, mexe com minha estrutura‖ lembra das mudanças necessárias aos novos obstáculos. Porém a frase ―sara todas as feridas‖ é talvez a mais emblemática de todas. Todos os indocumentados que contatei invariavelmente comentaram dos conflitos com colegas de moradia, rompimento de amizades e relações amorosas e até mesmo afastamento de familiares que também estavam lá por conta da difícil convivência sob o mesmo teto, o termo sara pode ser, portanto, pertinente às feridas do corpo e da alma.