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Futebolistas de base também são muito fortes, o que significa dizer que apresentam, no geral, um condicionamento físico muito mais aprimorado que qualquer outro garoto não futebolista. Fatores como resistência, força, velocidade, flexibilidade, capacidade de recuperação cardiorrespiratória e potência muscular são exigidos, mas a forma como são medidos foge completamente aos propósitos da etnografia realizada. São análises que competem a profissionais como os preparadores físicos ou fisiologistas, personagens com quem conversamos mas sem a devida profundidade para uma análise mais embasada.

O que vimos é que atividades aeróbicas são muito utilizadas, sobretudo corridas. A capacidade cardiorrespiratória é motivo de intenso preparo, assim como potência muscular. Academias com aparelhos de ginástica, portanto, são lugares muito frequentados por futebolistas de base, quase que diariamente, tanto para aumentarem a força como também em caso de recuperação após o esforço realizado num treinamento ou num jogo. Academias são parte importante da estrutura de um clube. Vasco, Atlético Paranaense, Penapolense e seleções brasileiras e uruguaias mantinham uma academia recheada de aparelhos especializados. O São Carlos, diferentemente, exercitava seus atletas em uma academia privada através de um convênio. Os garotos podiam utilizar as instalações todos os dias, em vários horários, sempre prescritos pela comissão técnica.

Na prática vimos que características como peso e altura são realmente levadas em consideração no momento de analisar as reais capacidades de um jovem atleta. Isso é medido em testes, peneiras, treinamentos e jogos e fazem parte de um quadro geral que é esperado: por exemplo, é esperado que goleiros sejam altos e ágeis; que zagueiros sejam igualmente altos e fortes; laterais rápidos e que podem ter estatura mediana ou baixa e assim por diante; no entanto, isso não é regra e exceções existem. Mas é fato que antes mesmo de ver um garoto em campo, membros de comissões técnicas, hoje

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mais atentas ou dependentes dos parâmetros cientificistas que amparam a produção de jogadores, se apegam à imagem física antevendo as possibilidades desse mesmo corpo se expandir para cumprir determinadas rotinas dentro de jogo. Desse modo, as carreiras futebolísticas cada vez mais são norteadas por esses atributos físicos que sempre foram mais determinantes em outras modalidades esportivas ou outras culturas esportivas, alterando as representações de um futebol mais improvisador e moldado pelas determinações culturalistas que nortearam as percepções do futebol no contexto brasileiro.

Como Latour (1997) discute num outro contexto, toda a fenomenotécnica na produção de um experimento que chegará a um resultado tangível (um remédio, por exemplo) é dependente das máquinas, medições, da quantidade de amostras, mas também das relações entre os profissionais aí envolvidos, das políticas de divulgação de novas pesquisas etc, que participam ativamente no processo da descoberta científica.Ou seja, aquilo que será sintetizado ou descoberto só passa a existir em função desse artificialismo ou configuração muito específica viabilizada por razões de outra ordem (econômicas e políticas, sobretudo) impostas às rotinas científicas nos laboratórios. Sem querer tecer comparações vis à vis, a maior ingerência logística e tecnológica na formação de atletas parece cumprir desígnios semelhantes à medida em que cada vez mais os usos de scouts, equipamentos, rotinas, medições, teia de relações sociais que envolvem esses jovens atletas passam a determinar a velocidade do sucesso ou o fracasso desses jovens nas carreiras esportivas.

Por isso há também enormes diferenças entre o que é realizado em clubes grandes e pequenos. A infraestrutura de um CT, por exemplo, nos mostra que no Atlético Paranaense a racionalidade e cientificismo empregados são incomparáveis ao que vimos no São Carlos e até mesmo no Vasco. Na seleção brasileira sub 17 os garotos levavam sob a camisa uma cinta elástica na altura do peito que prendia um aparelho de GPS (Global Posytioning System) e que media todas as movimentações realizadas em campo. Com o auxílio de um programa de computador, os especialistas da área física analisavam e montavam um banco de dados após cada seção, o que lhes permitia “ler” o jogar dos garotos a serviço da seleção. Em 2013, quando estive no resort em Itu acompanhando a equipe, até mesmo alguns atletas se surpreenderam com a tecnologia: o atacante Gabriel, do Santos, perguntou ao fisiologista o verdadeiro motivo do uso daquela “bugiganga eletrônica”. Após a explicação, foi indagado se o método não era

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utilizado em seu clube, ao que respondeu: “Às vezes a gente usa. Mas a gente só faz rachão81. É foda né, véio. Tem jogo quarta e domingo, não dá tempo de treinar. Só rachão”, disse o garoto de dezessete anos, que já compunha o elenco profissional de sua equipe e convivia com o calendário apertado de partidas oficiais do futebol profissional brasileiro.

Os cuidados com alimentação e nutrição estão presentes também e esta é uma prática mais semelhante entre as equipes. Normalmente os futebolistas comem nos clubes, em refeitórios coletivos e seguindo um programa que é montado e organizado a partir dos conhecimentos dessas áreas científicas. São controlados os excessos com relação aos alimentos e componentes que não condizem com a construção e manutenção de um corpo que deve ser intensamente exigido do ponto de vista do rendimento físico. Em todos os cenários percebemos o alto cuidado nesta área. Evidentemente, diferenças existem: na seleção brasileira havia frutas diversas e bebidas isotônicas refrigeradas e que ficavam logo ao lado do campo; tão logo uma pausa era realizada, os garotos se refrescavam e, como diziam, repunham as energias gastas com o que havia de mais adequado. No São Carlos, diferentemente, flagrei o momento em que o que era esperado simplesmente não havia: certo dia ouvi alguém reclamar que o malto82 estava acabando. O zagueiro Caíque então respondeu: “É porque hoje só veio a metade, teve que dividir com o profissional”, ilustrando a dura rotina e a estrutura um tanto precária daquela equipe de base. Em outro exemplo, após a classificação para a segunda fase da Copa São Paulo de Futebol Júnior, os mesmos garotos comemoravam enquanto cantavam em uníssono o que teriam de almoço no dia seguinte: “Churrasco, churrasco, churrasco”. Foi combinado que, se obtido o êxito, ganhariam uma folga na manhã do dia seguinte e poderiam se esbaldar comendo carne no almoço. E ainda neste mesmo cenário, certo dia eu havia chegado um pouco atrasado a um treinamento pela manhã e levei alguns pães de queijo, a serem repartidos pela comissão técnica da equipe. Os jogadores corriam em volta do gramado, aquecendo-se. Ao verem o roupeiro Toninho provocá-los comendo a iguaria mineira, três jogadores simplesmente deixaram a atividade e insistiram para

81 Rachão é um tipo de treinamento que pressupõe movimentação com bola e que pode ser empregada para treinar-se a tática e a técnica em uma equipe. Distancia-se, portanto, de uma atividade puramente física, esta sim a responsável por trazer avaliações como a citada na passagem.

82 Maltodextrina, ou simplesmente malto, é um carboidrato complexo, proveniente da conversão enzimática do amido de milho. Sua absorção pelo organismo é gradativa e lenta, pois contém polímeros de dextrose. Estes polímeros acabam sendo metabolizados lentamente, o que faz com que ela forneça energia durante uma atividade física que necessita de resistência e de longa duração, pois ela vai liberando a glicose gradualmente no sangue. É muito utilizada no ambiente futebolístico, tanto em treinamentos como em jogos.

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ganhar um pedaço. Levaram uma enorme bronca do preparador Mário e tiveram de retornar à corrida imediatamente.

Após a classificação para as oitavas de final da Copa São Paulo 2014, ainda no hotel em Novo Horizonte-SP, fui convidado a jantar com a delegação antes de voltarem para a cidade de São Carlos. O cardápio trazia massas e carnes, além de salada. Mário instruía os jogadores a comer bem e depois descansar. Antes de montarem seus respectivos pratos, no entanto, fizeram fila na mesa do preparador para ter em mãos cápsulas de creatina83, sendo que todo o grupo de vinte e cinco jogadores estava dividido de acordo com cada necessidade específica: tomaram um, dois ou três comprimidos. Isto também foi visto nos vestiários, quando os atletas se preparavam logo antes de entrarem em campo.

Para além desta preparação e manutenção dos corpos para a prática futebolística há o cuidado para não machucá-lo e prevenir um possível problema. É aí que a importância dos médicos se faz notar, personagem importante, mesmo que em alguns clubes ele não esteja plenamente integrado às engrenagens cotidianas das comissões técnicas. Em São Carlos há médico apenas em dia de jogo – inclusive não foi raro presenciar em jogos oficiais das categorias de base atrasos porque a ambulância não havia chegado (é regra imposta pelas federações que organizam torneios a presença do aparato de emergência antes do início de um jogo). No dia a dia, quem faz este trabalho é o fisioterapeuta, esta sim uma figura completamente inserida na dinâmica dos treinos: assim como preparador físico, preparador de goleiros e treinador, sempre encontrei um fisioterapeuta nos clubes que etnografei. Seu trabalho é tanto prevenir contusões, quando o cansaço muscular acusa fadigas, como dirimir um problema já existente. O médico entra em ação quando há a ocorrência de problemas mais graves e já deflagrados: por exemplo, uma contusão que necessite de procedimento cirúrgico.

No Vasco a presença de um médico nos treinamentos é algo obrigatório. No início de 2012 o garoto Wendel Junio Venâncio da Silva, então com catorze anos, morreu por problemas cardíacos após iniciar um treinamento físico no CT de Itaguaí. O episódio ocorreu pouco antes de minha chegada ao clube. Natural de São João

83 Creatina é um composto de aminoácidos presente nas fibras musculares. Atua no organismo diretamente nas mitocôndrias, que são organelas das células do organismo humano. Ela fornece energia e aumenta a quantidade de água na célula, de modo a fornecer volume celular. Consequentemente, há uma expansão nas células, resultando, assim, em maior densidade muscular e força física. É muito utilizada no ambiente futebolístico como preparação dos corpos para a prática deste esporte.

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Nepomuceno (MG), Wendel treinava havia poucos dias, vindo de uma escolinha de propriedade do ex-futebolista profissional Marco Aurélio Ayupe, que jogou pelo Vasco e mantinha relações com o antigo clube. Como podemos imaginar, não houve exames médicos mais detalhados para que o garoto começasse a treinar em Itaguaí. Ele ainda era um “experiência” e, como tal, não estava registrado e completamente integrado ao quadro de futebolistas infantis do Vasco. Depois do trágico episódio e em meio a disputas judiciais, interdições do local, depoimentos e investigações para apurar se houve negligência por parte do clube84, o Vasco contratou cinco médicos que cuidavam de todas suas categorias de base, revezando-se diariamente nos treinamentos e durante os jogos, aos finais de semana. Conheci três destes profissionais, que acabavam sendo muito requisitados para qualquer manifestação ou desconforto, pancada no joelho, no tornozelo, gripe, dor de garganta, dores no abdômen, etc. De acordo com a fala de um deles, nem sempre os problemas eram verídicos: “Esses moleques são foda! Dão migué em treino, em jogo, na escola”, indicando que para evitar trabalhar, inventavam problemas de ordem médica, segundo a leitura destes profissionais. Desde o primeiro dia que cheguei ao CT-fazenda sempre havia um médico presente, carregando sua indefectível bolsa de remédios e um aparelho desfibrilador para eventuais emergências mais graves.

Como vimos no exemplo do goleiro Mariano, do São Carlos, o futebol de base permite que, às vezes, esse cuidado médico escape às amarras impostas pelos clubes. A depender da situação financeira e estrutural de uma equipe, a saúde de jovens futebolistas pode ficar a cargo da família, mesmo que este seja um campo tão especializado e detentor de conhecimentos científicos muito aprimorados. Mais uma vez percebemos que o mundo do futebol de base permite uma gama bastante variável no que diz respeito ao cuidar de jovens futebolistas, a depender do cenário observado – clubes e seleções.