Chamamos atenção aqui para o cuidar e o vigiar dos corpos dos jovens atletas. Baseio-me no que Foucault chama de corpos dóceis: “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (Foucault, 2006: 118). Cuidar dos corpos, então, pressupõe uma abordagem especializada e individualizada, que privilegia a eficácia e a precisão dos movimentos e esquadrinha o tempo e o espaço de modo a maximizá-los. Tais métodos são chamados pelo autor de “disciplinas”: “A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos dóceis. A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças em termos políticos de obediência” (Ibidem: 119). Ao analisar práticas disciplinadoras em alguns ambientes específicos, como manicômios e hospitais, Foucault mostra que é através dos corpos que um certo poder controlador pode atingir determinado grupo de indivíduos. Isso é característica dominante no cenário futebolístico de base e profissional – haja vista os regimes de concentração em períodos preparatórios ou pré-jogos – e flagrado em todos os ambientes percorridos (clubes e seleções)58.
Não estamos aqui colocando lado a lado o panoptismo foucaultiano e a agenda imposta pelos clubes de futebol aos seus quadros de atletas, pois, de fato, tratam-se de configurações muito distintas, de um lado a arquitetura empregada na construção de prisões e alojamentos e de outro os centros de treinamentos futebolísticos. Não é disso que se trata, todavia é certo que a disciplina e o controle exercidos sobre indivíduos compartilham certas disposições disciplinares. Disciplina que é “permanente, exaustiva, onipresente, capaz de tornar tudo visível, mas com a condição de se tornar ela mesma invisível” (Ibidem: 176). O que logicamente as diferenciaria seria uma espécie de
58 É justamente nesse sentido que se dá a análise de Florenzano (1998) sobre certo processo de disciplinarização dos corpos através das práticas esportivas desde o nível escolar – por exemplo, a adoção de exercícios físicos pelos educadores em colégios. Analisa, assim, a figura do jogador que foge a esse processo, o jogador-rebelde, nas figuras de Afonsinho e Edmundo.
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servidão voluntária a que são submetidos esses jovens, cuja noção de projeto não os afastaria da condição de assujeitamento que se verifica, obviamente, nos contextos prisionais. Embora futebolistas de base não sejam controlados por completo e a todo momento, fora de campo precisam seguir regras claras e limitantes; e dentro de campo o cuidado também se faz presente, de modo específico e meticuloso. O fato é que a disciplinarização dos corpos e sua consequente docilidade por vezes escapa ou é aprisionada de distintas maneiras, produzindo hora inibições no comportamento dos atletas, hora mecanismos de constrangimento que se subjetivizam na figura dos futebolistas. Vejamos alguns exemplos.
A timidez exibida por atletas como Ewandro (atacante do São Paulo) e Alisson (atacante do Internacional) na seleção brasileira juvenil, exposta pelo seu treinador quando da preparação para o Mundial – em setembro de 2013 – pode ser um caso revelador de que esses processos de inculcamento não são mecânicos e deterministas. Quando interpelado sobre o desempenho destes atletas, que normalmente apresentavam bom rendimento em seus clubes mas não na seleção, submetidos quase sempre à condição de reservas, o treinador, à época,afirmou:
“Eu conversei com o Menta [treinador da equipe sub 17 do São Paulo FC] e ele me disse que lá o jogador [Ewandro] resolve os jogos para ele. Mas aqui não. O garoto sente a camisa, sente jogar na seleção. O mesmo vale para o Alisson Azul [apelido do jogador]. Você vai assistir um jogo do Internacional e o garoto resolve. Na seleção é diferente”.
Naquela mesma semana de treinamentos, (setembro de 2013, preparação para o Mundial sub 17) flagramos a seguinte cena: após um belo gol de fora da área anotado pelo atacante Joanderson (jogador do São Paulo, à época), seu companheiro Gabriel (também conhecido como Gabigol, do Santos) aconselhou o companheiro a arriscar mais chutes com a perna esquerda, sua perna forte, sempre quando a oportunidade aparecer: “Abriu, bate! Tem essa bomba no pé, tem que bater”. Bem ao lado do alambrado, onde os jogadores descansavam e conversavam entre si, vi Gabriel proferir suas palavras num tom de voz bastante baixo, longe dos ouvidos da comissão técnica, reunida no centro do gramado. Minutos antes foi pedido mais toque de bola às equipes titulares e reservas, mas o atacante canhoto preferiu escolher outra maneira de definir a
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jogada; aqui a rebeldia e a alteração no comportamento teve de ser exposta de modo tênue, sem que os “que mandam” ouvissem a conversa.
Figura 11: Seleção Brasileira sub 17, em treinamento em Itu-SP, Spa-Resort, 2013
Mais tarde, durante o banho pós-treino, ouvi uma conversa entre os atletas que caçoavam de um companheiro num episódio pitoresco: o garoto foi motivo de chacota porque confessou não se masturbar durante uma competição internacional de modo a salvar energia para os jogos, uma atitude previamente aconselhada pela comissão técnica da equipe, que exigia o máximo vigor físico quando em campo59.
De fato, o tema sexual é dos mais tratados entre jovens futebolistas. Inseridos num contexto de experimentação, muito pela idade que apresentam, os garotos sempre falam sobre tentar ou manter relações sexuais com garotas. Aqueles mais experientes acabam conseguindo mais respeito dos demais. Flagrei por diversas vezes tais conversas e, em alguns casos, exemplos claros da abordagem deles sobre garotas bem como o contrário, o assédio de jovens meninas sobre os futebolistas. A fala de um médico das categorias de base do Vasco, profissional que acompanha todos os treinamentos e jogos das equipes e mantém relação bastante próxima aos futebolistas, indica: “[esses garotos] comem todas as garotas que ficam ali em São Januário”. Isso nos evoca algo flagrado em outro momento, desta vez na pesquisa de campo que fiz junto ao São Carlos FC e suas equipes infantil e juvenil. Numa cena ocorrida em Limeira após uma partida pelo
59 Aproximamo-nos, aqui, do relato interessante de Wacquant (2002) sobre como a prática do sexo, em períodos de competições oficiais (no caso, na proximidade de uma luta de boxe) pode afrouxar a corporalidade viril do atleta.
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Campeonato Paulista das categorias infantil e juvenil de 2011, os jovens atletas são- carlenses flertavam com garotas que os esperavam na porta do vestiário do estádio Major José Levy Sobrinho. Elas assistiram à partida da equipe juvenil e se posicionaram logo na saída dos vestiários após o jogo. Os garotos do time sub-15 logo perceberam sua presença e mudaram o comportamento: alguns mudaram o penteado (cabelos espetados, gel, moicano), outros arregaçaram as mangas das camisas para exaltar os braços que, embora ainda franzinos, apresentam certo torneamento condizente com a malhação semanal que lhes é imposta; falavam ao celular, ouviam músicas em seus aparelhos de MP3 e circundavam as garotas. Alguns chegaram a flertar com elas, recebendo tratamento irônico dos colegas, dado o insucesso. As garotas estavam à espera de jogadores do time do Independente, adversário do São Carlos naquele dia.
Algo parecido aconteceu em Rivera, Uruguai, durante a primeira fase do sul- americano sub 15. Garotas uruguaias se colocaram em frente ao hotel onde a seleção paraguaia estava hospedada para o torneio. Presenciei uma cena de contemplação por partes das jovens que se puseram a gritar escandalosamente quando alguns atletas saíram às sacadas. Elas nem ao menos conheciam os garotos, já que se tratava de jovens jogadores menores de dezesseis anos e que haviam jogado apenas uma partida do torneio. Evidentemente, o fato de serem paraguaios, o que os configurava como estrangeiros em Rivera, sendo, portanto, diferentes, contribuiu para exagerada “devoção”. Mas sabemos que estes garotos possuem um potencial de ídolos a ser ainda desenvolvido, algo que estava em ação naquele momento.
Voltando ao São Carlos, num outro cenário e contexto – Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2014 – o grupo sub 19 treinava numa manhã enquanto eu conversava com Brasília, o preparador de goleiros, ao lado do treinador Roberto Santana e do fisioterapeuta Maurício. Soube, então, que o goleiro Leandro, que havia sido substituído na primeira partida após uma trombada com o atacante adversário, não se recuperaria a tempo e estaria fora da próxima partida. Flagrei a seguinte proposição de Brasília a Maurício: “Pode trabalhar com ele, tá. Ele tá com dor, não tá se sentindo bem, eu só trabalho com o 100%. Ele tá fora do jogo”. Leandro ficou durante todo o treinamento daquele dia aos cuidados do fisioterapeuta, que lhe mandava exercitar tudo aquilo que não incomodava, na tentativa de rastrear a dor e localizar a contusão de modo a tratá-la da forma mais eficaz possível. Para o jogo do dia seguinte, no entanto, não havia tempo hábil.
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De repente, vi Brasília se aproximar. Ele deixou o outro extremo do campo, onde trabalhava seus dois outros pupilos, e veio até nossa direção, onde estávamos eu, Maurício, o goleiro Mariano (o quarto do elenco), também em tratamento, e Leandro. E disse ao fisioterapeuta: “Não é pior trabalhar o que ele tá sentindo? Ele tá sentindo e ficar aí chutando essas bolas não é pior?” Brasília cuidava de seus goleiros desde muito longe. Vejamos que ele, lá do outro lado, atentava-se para saber qual o trabalho que era realizado pelo seu outrora titular, então lesionado. Contrariado pela forma com que Leandro posicionava a perna esquerda machucada, ou seja, a perna do apoio para o chute, indagou Maurício:
- “Ele tá batendo com a perna esticada. Deve tá sentindo, não tá? Melhor parar, hein”. - “Mas eu só estou trabalhando o que ele não tá sentindo. Ele tá com receio, mas não tem dor”.
Brasília, resignado, desistiu da discussão e voltou para lançar mais bolas a Guilherme e Lucas, seus dois outros especialistas.
Mariano, o outro goleiro em tratamento, enfrentava havia algum tempo uma contusão rara e de difícil solução: uma lesão muscular mal curada no bíceps femural da coxa esquerda que acabou por calcificar-se e o impedia de exercer sua profissão regularmente.
- “Mas como isso aconteceu?” lhe perguntei.
- “Ah, foi uma lesão mal curada. Mal curada porque eu não podia parar, né. Só tinha dois goleiros e eu não podia ficar parado. Então eu jogava, treinava e fazia gelo, não esperava para sarar de vez.”
No dia seguinte Mariano iria de carro até Marília, acompanhado de seu pai, visitar um médico especialista, sem qualquer amparo do clube: “É, eu vou por conta, né. Vou com meu pai”, relatou o jovem goleiro, evidenciando que no futebol de base essas ingerências são muito comuns: os atletas podem escapar dos cuidados e da vigilância do clube e resolver seus problemas fora da esfera de ação de seu empregador, ainda que, ao mesmo tempo, sejam todos extremamente vigiados.
Evidentemente, isso depende das condições estruturais e financeiras do clube. Quando o motivo da vigilância escapa dessas condições, como no caso um exame muito
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detalhado e, certamente, de alto custo, o futebol de base permite que seus atletas lhe escorreguem e busquem refúgio em outras esferas – aqui, a primeira delas, a família. Em nenhum momento Mariano contestou o fato de que, naquele momento, estaria desamparado pelo clube.
Nesse caso parece que estamos diante de um exemplo que também nos aproximaria da concepção deleuzeana de poder, que na sua manifestação não seria essencialmente repressivo, já que incita, suscita e produz, e além de ser é exercido antes de ser possuído e que passaria pelos dominados tanto quanto pelos dominantes. Poder que condicionado e imposto por uma óptica científica e tecnológica inerente ao esporte de alto rendimento, acaba por controlar os corpos de modo capilar, em instâncias tão difusas e tênues que acabam por passar despercebidos pelos sujeitos controlados. É algo tão institucionalizado e obedecido que foge ao olhar externo, algo que esta etnografia tenta trazer ao leitor. Voltando ao que diz Foucault, temos a seguinte característica do poder exercido:
“O poder, acho eu, deve ser analisado como uma coisa que circula, ou melhor, como uma coisa que só funciona em cadeia (...) O poder funciona. O poder se exerce em rede e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de ser submetidos a esse poder e também exercê-lo (...) Em outras palavras, o poder transita pelos indivíduos, não se aplica a eles” (Foucault, 2005: 35).