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Sabe-se que, em Hegel, a história universal representa a evolução gradual do princípio, cujo conteúdo é a consciência da Liberdade.143 Porém, como fora demonstrado, não faz sentido comparar a geografia mundial com a evolução do tempo. Aceita-se, então, a filosofia hegeliana no sentido em que se fala do princípio da Liberdade em relação ao tempo. Conforme a narração de Hegel, parece que o tempo move-se de um continente a outro para adequar-se ao princípio da Liberdade. Porém, o tempo, em Hegel, é o próprio conceito de tempo, e o tempo não se “muda” de continente a continente, ou de país a país acompanhando o conceito. Mas tal implicação entre ambos significa que o tempo ocorre em todos os lugares, de forma simultânea. Sendo assim, o princípio da Liberdade se dá em cada lugar, ao mesmo tempo, mas não da mesma maneira. Tira-se, então, o foco da relação tempo-lugar, e a inverte- se para a relação lugar-modo de efetivação da Liberdade (ou da não efetivação).

Dentro desta lógica o próprio tempo em Hegel torna-se irrelevante, bem como o conceito fechado em si mesmo; pois, o tempo passaria de forma diferente em cada lugar, conforme sua relação com a efetivação do princípio da Liberdade. Se o tempo equivale ao próprio conceito, conforme nos apontou Kojève, 144 sendo o conceito eterno, não há linearidade no tempo, aquele tempo que realmente importa para entender-se o sistema hegeliano.

Trata-se do tempo que não é tempo, no sentido no qual o concebemos; trata-se, justamente, do não-tempo: a eternidade do conceito em sua imediatez, que busca efetivar-se. A negação do tempo, em si, é também, por si mesma, um movimento antitético a superar o conceito de tempo através do movimento dialético. Disto infere-se então que, o tempo é igual ao conceito não em seu sentido linear, mas no sentido de que o tempo é um conceito em construção pelo próprio processo dialético. O tempo não é absoluto, tampouco, o conceito. Volta-se ao início, sem manter-se tal início no mesmo ponto.

A questão do tempo na Filosofia da História comprova que o projeto hegeliano não trata de uma historiografia dos acontecimentos, mas que o tempo, em seu sentido quase absoluto, contempla em si mesmo a história da conscientização e efetivação do princípio da

143 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995, p.

55.

144 Cf. KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Rio de Janeiro: Contraponto: EDUERJ, 2002, ps.

Liberdade. Este tempo que quase fecha-se em si mesmo enquanto forma, possibilita a realização de tal princípio, juntamente com os acontecimentos enquanto conteúdos em si mesmos, também condicionados à possibilidade dialética que implica a negação do ser humano em relação ao mundo dado. Forma e conteúdo, novamente, se implicam. O tempo é a própria transformação do conceito através do processo dialético.

A ideia geral, a categoria que imediatamente surge nessa mudança inquieta de indivíduos e povos, que existem durante um tempo e depois desaparecem, é a da transformação em geral. [...] O conceito abstrato da simples mudança dá lugar à idéia da manifestação do espírito, desenvolvendo e aperfeiçoando os seus poderes em todas as direções que a natureza múltipla é capaz de seguir. 145

A Liberdade precisa fazer-se a si mesma enquanto ela é, mas para isto precisa adquirir consciência de si, o que ocorre com o processo de negação de si mesma, de alienação momentânea. Para que haja o retorno da autoconsciência, é preciso negar-se, mediar o que era, de início, imediato. Por tal motivo se constitui a filosofia hegeliana como se tomasse a forma de uma espiral, na medida em que ela não é um circulo perfeito, pois, no momento exato em que o mesmo completar-se-ia em sua perfeição, ocorre o colapso da negação que gera um novo movimento que tende a fechar-se em autoconsciência, mas que não o consegue pelo mesmo motivo anterior, e assim por diante. A autoconsciência que retorna a si mesma não retorna ao imediatismo inicial, por isto o ciclo não consegue se fechar por completo. Assim, na filosofia hegeliana, o ser se faz a si mesmo. Ora, ao “se fazer”, já se está modificando, mesmo permanecendo o mesmo.

O espírito começa pelo embrião de sua possibilidade infinita – mas apenas possibilidade -, que contém a sua existência substancial em uma forma não desenvolvida, como o fim e o objetivo que ele só alcança em sua concretização na realidade. 146

Existe, para Hegel, a morte física propriamente, que não difere da morte dos demais seres da natureza, e a morte pelo hábito, a morte do espírito que não nega a situação dada e a si mesmo. Esta inação (falta de negação ativa) mata o indivíduo que é ninguém na história, que nada modifica ou constrói, não se difere do restante da natureza, a qual não tem história, se tomarmos o sentido dialético hegeliano que implica a possibilidade de negação e do ato de

145 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995, p.

67.

não querer se adaptar ao dado, mas transformá-lo: “O espírito universal não morre de morte natural; ele não se afoga na vida senil do hábito”. 147

Neste aparecer e desaparecer das coisas enquanto determinadas, Hegel não prediz qualquer fim dos tempos em tal dinâmica, apesar de haver uma previsão implícita do fim da história, que é humana, devido à Liberdade humana. Tal previsão não é de conteúdo, Hegel não pode determinar quando e nem como a história humana irá acabar, mas apenas a indica enquanto possibilidade. A história morre, necessariamente, junto com a Liberdade.