5.2 Possible changes and future work
5.2.4 Future work
Pode-se imaginar então que, o que não foi vivido não é história, ou que, a história começa, para cada ser, a partir de sua aparência existencial enquanto fenômeno. Não é neste sentido que Hegel coloca e descreve a história humana (historicidade). A lembrança consciente vivida pode conter a experiência do outro, do mediado, pois existe uma relação entre o ser e sua alteridade, que, em certo sentido, não é totalmente uma alteridade, mas uma exterioridade que retorna a si mesma. Neste caso pode-se ser consciente, mesmo que não totalmente, de fatos históricos através de uma lembrança registrada. Afinal, toda a vez que se tem acesso a fotografias de eventos, não se pode negar que tais eventos fazem parte da história porque não se viveu naquele determinado período. Pelo contrário, ao se ter acesso à lembrança histórica, adquire-se a consciência deste passado, para poder-se, então, negá-lo no presente como forma livre de ação. Todos os fatos históricos a que se tem lembrança pertencem a todos os seres humanos. É assim que se nega ativamente o que se é, ao manter-se o que se é: um ser livre e histórico.
[...] não existe história sem lembrança histórica consciente vivida. É pela lembrança (Er-innerung) que o homem interioriza seu passado ao fazê-lo verdadeiramente seu, ao conservá-lo em si e ao inseri-lo realmente em sua existência presente, que é ao mesmo tempo uma negação radical ativa e efetiva desse passado conservado. 148
Deste modo, a pessoa humana pode morrer várias vezes antes de sua morte física: quando ela nega, não o mundo dado, mas sua própria Liberdade. Quando permanece na
147 HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Filosofia da história. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1995, p.
69.
condição pré-livre, a condição do livre arbítrio, se está na condição de prisioneiro de um apriorismo sem consciência de um passado histórico.149
Precisa-se manter a lembrança do que já foi feito, e do que ainda está sendo feito, em nome da “liberdade”. Por isto a concepção de Liberdade hegeliana, implicada com a idéia de mediação, é capaz de refutar um senso comum do que seja a liberdade, aquela liberdade apriorística, que não é mediada pelo reconhecimento do outro, aquela liberdade transcendental e egocêntrica. A morte do deus transcendente foi anunciada por Hegel, apesar de sua filosofia tratar-se de uma teleologia imanente, que muitas vezes se confunde com uma teologia imanente. Porém, na dialética e na luta por reconhecimento hegelianas não há piedade, assim como não houve, muitas vezes, na história.
Quando Hegel afirma, na introdução da Filosofia da História, que certos povos estão “fora” da história, tal afirmação deve ser entendida em conformidade com a lógica do pensamento hegeliano, mas não pode ser tomada fora deste contexto. Os orientais, por exemplo, devido ao fato de não terem consciência de que todos são livres, estão, neste sentido, fora da história para Hegel, pois que, a Liberdade, em Hegel, pressupõe consciência do fato de todos serem livres. 150
Outro fator relevante na Filosofia da História de Hegel é a questão da historicidade como dependente do registro escrito, bem como do logos, do discurso que revela o ser. Sem tal discurso a história é inacessível, assim como o tempo, assim como o conceito. A história se dá no discurso. Na filosofia hegeliana só cabem seres humanos, pois somente estes possuem, tanto o logos, quanto a possibilidade de negar a natureza dada, e por tal razão construir algo novo, que não estava inicialmente na natureza em si.
Desta forma, a razão que governa a história só pode ser observada de modo retroativo. Alguns acontecimentos que hoje se consideram, incontestavelmente, como ruins, na história universal, a exemplo das duas grandes guerras mundiais, só podem ser analisados como beneficiários para a humanidade após a compreensão de que não se está a justificá-los quando se olha pra trás. Isto significa que, por mais terríveis que tais eventos tenham sido em sua
149 Uma nota importante a ser feita é a de que existe uma inclinação a interpretar-se a filosofia hegeliana como
uma filosofia propriamente liberal, na qual o trabalho humano é o responsável pela negação do dado e pela criação do novo. O trabalho estaria, neste sentido, estritamente relacionado à noção de Liberdade.
150 Convém ressaltar que as afirmações de Hegel que excluem, neste sentido, certos povos da história universal
soa, de fato, radical e arbitrária, servindo como grande alvo para muitas críticas. O “estar fora da história”, não significa uma tentativa de exclusão de tais povos, mas é apenas uma tentativa de descrever o princípio da Liberdade e sua efetivação na história universal. Não há nenhum povo fora da história, se tal afirmação for tomada fora do contexto hegeliano, pois que, talvez, a efetivação da liberdade e mesmo o próprio significado desta “palavra”, se dê de outra forma, completamente diferente do modo como pensou Hegel, de uma forma mais coletiva talvez, a qual Hegel não tenha sido capaz de compreender, devido a sua própria condição de ser humano inserido em seu povo, sua cultura, seu tempo, e na lógica de sua maneira de pensar.
época, não se pode negar que tenham ocorrido, e nem se pode, infelizmente, retroagir no tempo para impedir que ocorram, mas se pode constatar, de modo racional, por exemplo, suas causas para fins de evitá-las no futuro.
De modo algum se pode entender que o objetivo de Hegel é justificar tais horrores históricos, mas, ao contrário, percebendo-os e negando-os no sentido de evitá-los no futuro, tem-se o fortalecimento do princípio da Liberdade. A atitude de reflexão assume papel de grande relevância, neste sentido. Racionalizar a história é perceber que, a própria racionalidade é constituída. Ousa-se dizer ainda mais a este respeito, no sentido de que a história como um todo passado foge também à atuação humana, logo, tanto a contingência quanto a necessidade são inapreensíveis nos momentos que antecedem o então presente, logo, ambas, contingência e necessidade, por estarem mutuamente imbricadas, e por terem equivalente parcela na história, são, o mesmo.
A tarefa do filosofo da história é, então, perceber as sutis transformações que precedem e iniciam as grandes mudanças históricas. Entretanto, tal percepção só é possível para aquele indivíduo que não é somente um indivíduo, no próprio sentido moderno do termo, mas que, além de um indivíduo em sua particularidade, adquiriu o status de pessoa, que pertence já à esfera da eticidade, da moralidade objetiva. Tal consciência, e mais, a consciência de tal consciência, do perceber de seu tempo e de seu espaço, só é possível após a aquisição da plena consciência de si para si, a consciência de que se é um ser histórico e livre. A Liberdade mais uma vez se mostra como entrelaçada à história, e ao processo de conscientização desta história, diferentemente do que pretendiam os teóricos da razão pura prática, a exemplo de Kant, o maior de seus expoentes. A razão prática no sentido a ela atribuído pelo período da Aufklärung é insuficiente para dar conta das mudanças históricas, pois, o auge do iluminismo só era capaz de perceber seu tempo como um tempo final e absoluto, ignorando assim todo o restante histórico, o qual ultrapassa suas barreiras fechadas em si mesmas. Hegel foi quem o percebeu, afirmando ser a Liberdade o verdadeiro telos do espírito, uma Liberdade que tende a se completar num processo de constante busca, ao invés de fechar-se nos limites de uma representação da razão.