4. Merknader til de enkelte kapitler
4.21 Kap. 765 Psykisk helse og rusarbeid
4.21.6 Post 72 Frivillig arbeid mv
Em 160 anos, Portugal foi atravessado por numerosas mudanças que, quase sempre, tiveram impactos nos territórios rurais e nas atividades agrícolas.3Como muitos investigadores têm realizado estudos que ana-
lisam diversas dimensões desses impactos, é possível identificar as prin- cipais tendências das políticas públicas e os indicadores económicos nacionais. Se, em meados do século XIX, o liberalismo económico faci-
litava a circulação global de produtos alimentares, a partir de finais desse século iniciou-se um longo período em que prevaleceu a defesa de me- didas protecionistas para a agricultura nacional. Até aos anos 60 do sé- culo XX, as ambições de autossuficiência alimentar andaram a par com
decisões políticas que visavam restringir as importações e maximizar a exploração dos recursos agrícolas do país. As características agro-ecoló- gicas do território aliadas à inovação permitiram alguns ganhos de pro- dutividade, mas raramente as colheitas foram suficientes para alimentar a população crescente do país. Em meados do século XX, a larga maioria
dos habitantes dos países europeus vizinhos (mesmo na Espanha gover- nada pela ditadura franquista) podia obter alimentos diversificados e su- ficientes, mas os portugueses continuavam a ter uma alimentação escassa e sem os nutrientes considerados essenciais pelas organizações interna- Ambiente, Território e Sociedade
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(2012-2015), com a seguinte equipa: Dulce Freire (investigadora principal), Amélia Branco, Conceição A. Martins, Cristina Prata, Daniel Lanero, Pedro Lains, Shawn Park- hurst, Victor Pereira e os bolseiros de investigação Carlos Faísca, Ana Margarida Rodri- gues e Cláudia Viana.
2As informações detalhadas sobre as fontes consultadas, as metodologias usadas e as
bases de dados estão disponíveis em www.ruralportugal.ics.ul.pt.
3É um período marcado por vários regimes políticos: as décadas da Monarquia Cons-
titucional, que a República substituiu em 1910, o autoritarismo da Ditadura Militar (1926- -1932) e do Estado Novo (1933-1974), o período revolucionário (1974-1976) e a consoli- dação da Democracia desde 1976.
cionais.4Todavia, a partir dos anos 60, o aumento das importações e a
disseminação de algumas inovações da revolução verde5foram melho-
rando o consumo alimentar (mais produção de leite, carne, frutas, etc.). Foi nessa década que decorreram as mudanças estruturais na economia e na sociedade portuguesas. Portugal foi o último país agrícola da Europa Ocidental, mas fez uma transição relativamente rápida para uma econo- mia assente em serviços e indústria. Na primeira metade do século XX, o
sector primário contribuía com cerca de 30% para o Produto Interno Bruto, na década de 80 essa percentagem já era 9% e não mais recuperou. A progressiva abertura dos mercados nacionais à diversidade de produtos agrícolas da Europa e do Mundo, acelerada com a integração na Comu- nidade Económica Europeia (1986), ajudou a marginalizar uma agricul- tura apresentada como sinónimo de atraso e pobreza, acentuando a de- pendência alimentar do exterior.
As condições variáveis de aplicação da Política Agrícola Comum, as diversas mudanças que têm afetado os territórios rurais e os desafios que se colocam à produção sustentável de bens alimentares, têm renovado o interesse pela agricultura portuguesa. Dois aspetos principais continuam a suscitar debate e a carecer de esclarecimento. Um prende-se com a ava- liação do contributo da agricultura para o crescimento económico do país. O segundo remete para a capacidade produtiva do território, no presente e nas próximas décadas. Ainda que estas sejam questões antigas, colocadas por sucessivas gerações de teóricos e práticos, as respostas perti- nentes não têm sido sempre as mes-
mas, porque se devem adequar aos contextos económicos, políticos e so- ciais específicos de cada época.
No final da primeira década do sé- culo XXI, os membros da equipa inter-
disciplinar que concebeu e executou o projeto antes referido consi deraram que o esclarecimento destas questões
Como alimentar Portugal? Produção agrícola desde 1850
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4Nos anos 50 do século XX, a média per capita podia não chegar às 2000 calorias diárias
(ver Freire 2011).
5Designação introduzida nos anos 1960 para referir as inovações científicas e tecno-
lógicas (mais fertilizantes químicos e fitossanitários; aposta nas variedades vegetais e es- pécies animais mais produtivas, etc.) que transformaram a agricultura mundial depois da II Guerra Mundial. Se até à década de 1980 se salientaram sobretudo os benefícios desta revolução, desde então têm sido, também, evidenciados os impactos negativos e têm-se procurado alternativas sustentáveis.
Quando se procuram soluções sustentáveis para alimentar o planeta, torna-se ainda mais pertinente examinar as expe- riências produtivas que, du- rante séculos, foram testadas nos diversos sistemas agro-eco- lógicos do Mediterrâneo.
carecia de conhecimento histórico mais detalhado sobre as agriculturas regionais. Adotar esta perspetiva permite contribuir para alguns dos de- bates internacionais em curso. Por um lado, estudos recentes têm sa- lientado a necessidade de identificar os fatores históricos que possam explicar as desigualdades das agriculturas regionais europeias. Este é um dos aspetos que está a ser reavaliado para traçar as grandes e as pequenas
divergências que, pelo menos, desde o século XVIIestão a afastar as eco-
nomias da Europa do Norte e do Sul. Por outro lado, uma agricultura assente na intensificação sustentável, o novo paradigma para a agricultura mundial, anunciado pela Food and Agricultural Organisation em 2011, exige que se compreenda como se têm articulado condições agro-eco- lógicas, biodiversidade cultivada e práticas agrícolas para viabilizar as agriculturas locais. Ainda que numerosas publicações forneçam infor- mações relevantes, verificou-se que persistiam lacunas e descontinuida- des nos dados disponíveis, o que dificultava análises detalhadas intra e inter-regionais.
Uma das tarefas da equipa visou construir séries contínuas de dados estatísticos que caracterizassem as agriculturas regionais. Como sabemos que o pensamento estatístico entrou na administração pública portuguesa em meados do século XIX, era expectável encontrar dados consistentes a
partir de então. Os dados anteriores a 1915 estão dispersos por docu- mentação diversa, produzida, por entidades regionais e nacionais, com distintos objetivos. Para recolher estas informações foi necessário procu- rar pequenas folhas ou livrinhos, muitas vezes manuscritos, entre milhares de documentos depositados no Arquivo da Torre do Tombo ou em algum dos arquivos distritais do Continente. A partir de 1915, os dados estão disponibilizados nas publicações do Instituto Nacional de Estatís- tica (INE). Ainda que se procurassem todos os dados suscetíveis de ca- racterizar as atividades agrícolas regionais (produção pecuária, agrícola e florestal; áreas cultivadas; consumo de fatores de produção, etc.), a do- cumentação encontrada apenas forneceu informações sistemáticas sobre produção: quantidades anuais, por distrito, para 22 produtos agrícolas. Contudo, como o INE limitou a recolha a doze produtos (trigo, milho, centeio, cevada, aveia, arroz, vinho, azeite, batata, feijão, grão e fava) só para estes foi possível construir séries para os 160 anos. A fragmentação dos dados e as frequentes mudanças de critérios das entidades que os re- colhem exigiram a normalização das séries (conversão de pesos e medi- das, uniformização das escalas espaciais, interpolação de dados em falta, etc.). Apesar das limitações, reuniram-se pela primeira vez séries desagre- gadas para os produtos economicamente mais relevantes desde 1850, o Ambiente, Território e Sociedade
que coloca Portugal entre os países europeus que dispõem de estatísticas agrícolas regulares para períodos mais recuados.