4. Merknader til de enkelte kapitler
4.28 Kap. 2751 Legemidler mv
O cruzamento destas informações, que ficam disponíveis para todos, com outras de diferentes origens permitirá, certamente, esclarecer nume- rosas questões relacionadas com a utilização dos recursos, as condições de produção agrícola, o contributo da agricultura para as desigualdades regionais ou as alterações de hábitos alimentares no país. Existem muitas pistas para explorar em novos projetos de pesquisa. Entre os vários aspe- tos que merecem análises aprofundadas, poder-se-ão referir dois exem- plos.
Um decorre de uma das singularidades evidenciadas pelos dados re- gionais: verifica-se que no século XIXhavia produtos agrícolas que tinham
uma disseminação generalizada pelo território e que, entretanto, desa- pareceram da geografia agrícola e culinária do país. Um desses casos é desaparecimento da lentilha, que surge regularmente nas estatísticas oi- tocentistas. Ainda que o INE tenha deixado de registar as colheitas desta leguminosa, em algumas regiões existe memória de cultivo e consumo durante o século XX. Contudo, este legume parece ter ficado esquecido,
não sendo reivindicado pelas culinárias de qualquer região. O mesmo não acontece com o chícharo, que apesar de também não constar dos registos do INE, tem sido incluído nos processos de reinvenção da tra- dição culinária de algumas regiões, motivando a realização de feiras e a criação de receituários específicos. Uma análise histórica da composição das dietas dos diferentes grupos sociais não poderá excluir estas e outras leguminosas (tremoços, favas, ervilhas, grão, diversos tipos de feijão) que faziam parte das colheitas regionais (figura 14.1). Como até aos anos 1960, em Portugal, escasseavam os produtos pecuários, os legumes cons- tituíam uma fonte importante de proteínas. Perceber como se cultivavam e cozinhavam estes produtos será útil para assegurar um futuro alimentar sustentável? Podem as condições agro-ecológicas regionais assegurar co- lheitas suficientes para compensar a (necessária) redução do consumo de bens de origem animal?
Outro exemplo é a valorização do milho. O milho tem feito longas viagens: de noroeste para sul ao longo do litoral e para zonas mais frescas do interior do país. Introduzido na Europa no século XVI, o percurso
deste cereal exemplifica o potencial de transformação das agriculturas re- Como alimentar Portugal? Produção agrícola desde 1850
Ambiente, Território e Sociedade
140
gionais decorrente do Columbian exchange.6Em meados do século XIX, o
milho já era o cereal mais produzido no país, mesmo nos distritos do Alentejo. Entre os últimos anos do século XIXe finais do século XXesta
hegemonia foi, repetidamente, contrariada pelas políticas públicas que favoreceram o trigo. A discrepância entre as produções nacionais de milho e de trigo acentuaram-se ainda mais nos últimos anos (figura 14.2), quando as medidas políticas perderam peso nas decisões dos agricultores e o milho pôde beneficiar das infraestruturas de regadio, entretanto con- cluídas no Alentejo. Se a lógica de autossuficiência nacional beneficiou o trigo, conduzindo a práticas agrícolas com fortes impactos ecológicos negativos, a lógica de commodity para o mercado global em que o milho português tem estado a ser produzido exige, igualmente, a avaliação dos
6Esta expressão, que dá o título ao livro de Alfred Crosby com a primeira edição nos
anos 70, remete para as mudanças biológicas, agrícolas e alimentares decorrentes da in- tensificação dos contactos com a América do Sul depois da viagem de Cristóvão Co- lombo, em 1492 (ver Crosby 2003). Para uma síntese sobre os impactos destas trocas na agricultura portuguesa, ver Freire e Lains 2016.
Figura 14.1 – Produção anual de leguminosas (1850-2009)
A produção de legumes está a desaparecer em Portugal: em 2009 colheram-se quantidades (cerca de 5 mil toneladas) muito semelhantes às de 1850. Porquê? Nas décadas de 1950 e 1960 produziam-se 60 ou 70 mil toneladas só de feijão, a que se juntavam milhares de toneladas de favas, grão-de-bico e, ainda, outras leguminosas que não constam das estatísticas oficiais. Para algumas, como as lentilhas e o chícharo, só há dados para o século XIX, mas sabemos que continuaram a ser cultivadas e con-
sumidas em várias regiões do país.
Fonte: Agricultura em Portugal: alimentação, desenvolvimento e sustentabilidade (1870-2010), (PTDC/HIS-HIS/122589/2010), www.ruralportugal.ics.ul.pt. 70 000 60 000 50 000 40 000 20 000 10 000 0 1850 1853 1856 1859 1862 1865 1868 1871 1874 1877 1880 1883 1886 1889 1892 1895 1898 1901 1904 190 7 1910 1913 1916 1919 1922 1925 1928 1931 1934 193 7 1940 1943 1946 1949 1952 1955 1958 1961 1964 196 7 1970 1973 1976 1979 1982 1985 1988 1991 1994 199 7 2000 2003 2006 2009 Toneladas
efeitos ambientais dos sistemas superintensivos que estão a ser utilizados. Numa época de forte preocupação ambiental, estará a campanha do milho em curso a causar prejuízos ambientais comparáveis à Campanha do Trigo da década de 1930? Estará a verificar-se uma intensificação sustentável ou a continuação da revolução verde? Em que medida se estão a captar para estes territórios periféricos os benefícios do mercado global?
Quando se procuram soluções sustentáveis para alimentar os nove mi- lhares de milhões de habitantes que o planeta terá em 2050, torna-se ainda mais pertinente examinar as experiências produtivas que, durante séculos, foram testadas nos diversos sistemas agro-ecológicos que marcam os territórios do Mediterrâneo. Neste contexto, o contributo do último país agrícola da Europa pode ser relevante para os debates internacionais. Tanto mais que este foi um dos primeiros laboratórios de adaptação das novas plantas, que chegaram à Europa a partir do século XVI, e que a de-
sigual difusão nacional da revolução verde ajudou a preservar práticas, sa- beres e variedades que desapareceram em outras regiões do mundo.
Como alimentar Portugal? Produção agrícola desde 1850
141
Figura 14.2 – Produção anual de cereais (1850-2009)
O milho chegou a Portugal no século XVI(trazido da América do Sul pelos navegadores) e fez su-
cesso. Difundiu-se desde o Minho para o resto do país e no século XIXjá era o principal cereal em várias regiões, mesmo no Alentejo. A produção de trigo só foi mais elevada do que a de milho quando houve a combinação de forte proteccionismo político com bons anos agrícolas. Tal coin- cidência ocorreu em alguns anos das décadas de 1930, 1950 e 1970. O milho é rei, sobretudo nos novos regadios que têm estado a ser concluídos no Sul do país.
Fonte: Agricultura em Portugal: alimentação, desenvolvimento e sustentabilidade (1870-2010), (PTDC/HIS-HIS/122589/2010), www.ruralportugal.ics.ul.pt. 2 000 000 1 800 000 1 600 000 1 400 000 1 200 000 1 000 000 800 000 600 000 400 000 200 000 0 1850 1853 1856 1859 1862 1865 1868 1871 1874 1877 1880 1883 1886 1889 1892 1895 1898 1901 1904 190 7 1910 1913 1916 1919 1922 1925 1928 1931 1934 193 7 1940 1943 1946 1949 1952 1955 1958 1961 1964 196 7 1970 1973 1976 1979 1982 1985 1988 1991 1994 199 7 2000 2003 2006 2009 Toneladas
Referências
Crosby, Alfred. 2003. The Columbian Exchange. Biological and Cultural Consequences of 1492. Westpoit e Londres: Praeger.
Freire, Dulce. 2011. «Produzir mais e melhor: Estado, agricultura y consumo alimentário en Portugal (1926-1974)». Ayer. Revista de Historia Contemporánea, 83 (3).
Freire, Dulce, e Pedro Lains (eds.). 2016. History of Portuguese Agriculture since 1000, Leiden: Brill Publishers
Ambiente, Território e Sociedade