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5 Kunnskap, bruk og subkulturelle grenser

5.2 Positive og negative effekter

Para um aprofundamento no conhecimento das ações desenvolvidas por I1, foram escolhidos inicialmente 2 textos que ilustram duas importantes práticas ali

desenvolvidas, apresentadas no Quadro 7, a seguir, como Prática 1 – Multiplicadores Reflexivos e como Prática 2 – Formação de Terapeutas de Família e Casal.

Categorias Elementos

Prática 1 Prática 2

Nomes Multiplicadores Reflexivos Formação de Terapeutas de Família e Casal

Local Nas dependências da instituição

parceira Na sede do Instituto

Participantes “Grupos de pertinência” – Profissionais do SASECOP**, albergue noturno de SP.

Profissionais da área de saúde e educação - “que trabalham com famílias”

(Famílias como “sistemas cuidadores”)

Equipe - Profissionais e docentes do instituto

- Alunos estagiários - Profissionais do instituto e alunos “como co-autores”

Formato -Encontros estruturados: “pequenos grupos” e “compartilhamento entre todos”

- Aulas teóricas – com duplas de professores

- Grupos Autogeridos – GA

- Parte clínica: atendimentos; interlocução; FOT - Família de Origem do Terapeuta

Designação da prática

- Criação de espaço conversacional - Desenvolvimento da capacidade reflexiva

- Ação multiplicadora

- Profissional como: “Artesão de contextos conversacionais”;

- “o que busca, através de perguntas, a geração de recursos para a pessoa e o grupo”

- Processo colaborativo entre formandos e formadores

- Contexto colaborativo de aprendizagem – “espaço conversacional”

Adesão teórica

-Sob uma perspectiva construcionista social

- Adoção de Processos Reflexivos - Pensar sistemicamente

- Abordagem narrativa

- Pensamento Sistêmico

- Ideias construtivistas construcionistas sociais

- Metáfora narrativa

Propósitos

- A ação multiplicadora – “levar para suas relações”

- Ajudar na identificação e apropriação de suas habilidades - Favorecer construção de histórias alternativas

- Desenvolvimento da capacidade de resolver situações

- Vivência de relações heterárquicas - Postura mais comprometida, autônoma e responsável

- Desenvolvimento de relações mais colaborativas entre terapeutas e clientes - Construção do senso de comunidade - Ensinar o „não saber‟ – “um desafio”

Estratégias

- Uso do diálogo reflexivo como força transformadora

- Construção na relação

- Uso dos saberes implícitos em cada modo de vida

- Construção de contextos facilitadores de conversas colaborativas

Categorias Elementos

Prática 1 Prática 2

Ferramentas∕ recursos

- Perguntas reflexivas

- Escutar a partir da posição de legitimidade

- Reconhecimento e utilização do „entrelaçar de emoções e linguagem - Uso de linguagem baseada nas competências (não nos déficits)

- Uso das conversas internas e externas em momentos: individual; nós e todos - Estudo e práticas sem a presença do professor – GA

- Equipes Reflexivas

- Interlocução clínica – “reflexão” - FOT – “Vivência de reescrita”

Relações com Psicologia

Clínica

- “Ampliar prática clínica”

- “uso de conhecimentos e recursos desenvolvidos no fazer clínico” - “Repensar demandas tradicionais” - “Atuação diferente da dos

psicólogos especialistas”

- “Postura do não saber” – “diferente do profissional especialista”

- “Diferentes formas de escuta”

Relações com o social

- Parcerias com instituições públicas e privadas – áreas de saúde e A. Social

- Valorização da ação multiplicadora

- Sentido político da prática: “atenção aos discursos dominantes”

- Busca de estratégias e ferramentas que atuem como força transformadora

Atitudes∕ postura

- Construção de um novo lugar – construção de “interseção entre os dois projetos”

- Crença na “força transformadora” das ações

- Aprender com a prática – “formar enquanto se forma”

- Busca ativa de “premissas orientadoras” e “ferramentas clínicas úteis”

NOTAS

*Produção da Prática 1: BERNARDES, C.; BARBAS, M.C.; PEREIRA, M.F. Multiplicadores Reflexivos.

Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 20, p. 14-22, 2003.

*Produção da Prática 2: CRUZ, H.M.; VICENTE, A.T.; PEREIRA, M.F. Formação: um processo colaborativo entre formandos e formadores. In: GUANAES-LORENZI, C; MOSCHETA, M.S.; CORRADI-WEBSTER, C.M.; SOUZA, L.V. (org.). Construcionismo Social: discurso, prática e

produção de conhecimento. Rio de Janeiro, Instituto Noos, 2014.

**SASECOP – Serviço de Apoio Sócio Educativo da Capacitação e Orientação Profissional

Quadro 7: Perfil de práticas apresentadas em produções* referentes ao I1.

Quais as estratégias e recursos que fariam com que uma ação pudesse ter efeitos multiplicadores, de forma que os participantes pudessem “levar para suas casas” as crenças e atitudes que ali construíram? Para os Multiplicadores Reflexivos, da forma como se apresentam neste quadro, a resposta está na “força transformadora” do uso do “diálogo reflexivo” em um contexto de especiais cuidados com a conversação. Uma força que, para mim, se constrói na práxis, pois da apreciação desta prática ressalta-se a coerência entre pressupostos epistemológicos e a vivência proposta, fazendo crer que a equipe do P1 ofertou o que acreditava e o que vivenciava.

Perante a dificuldade de categorizar o conteúdo do texto em propósitos, estratégias, ferramentas e recursos, deu-se conta de que para tudo o que é descrito como Processos Reflexivos, fins e meios provavelmente se confundam, pelo fato de possuírem, as ações reflexivas, tanto um papel constitutivo como instrumental. Assim, por exemplo, ao experimentar uma forma de conversação que favoreça as reflexões, internas e externas, dando a elas um legítimo lugar, uma pessoa pode sofrer modificações internas de tal ordem que possa sair do encontro sentindo-se diferente em suas competências e possibilidades. Os técnicos do albergue deviam sair dos encontros, modificados pela experiência, em sua consciência de habilidades e competências, dando-se conta de seu protagonismo, e prontos para usá-las nos encontros com os moradores de rua atendidos pelo albergue. Um processo com poder constitutivo do sujeito, cujas ressonâncias podem se transformar em ferramentas de trabalho.

Neste sentido, vislumbra-se aqui uma ação de caráter político, de grande importância principalmente para os que vivem em situação de vulnerabilidade social, que têm potencializada a chance de terem perdido a crença em suas próprias habilidades, podendo estar na reta final do que Paugan (2003) chama de trajetória desqualificante dentro do Ciclo da Pobreza (HINES, 1995), quando se pode viver a ruptura com os contatos familiares, como provavelmente se dá com os moradores de rua, que neste caso passaram a ser chamados de “alunos” pela equipe de técnicos, em um interessante movimento que, a meu ver, pode estar a serviço do uso de “uma linguagem baseada nas competências”, e não nos déficits, como parte de uma estratégia que busca “favorecer a construção de histórias alternativas”.

Os cuidados aqui descritos com o contexto conversacional são, portanto muito mais do que cuidados técnicos de aplicação de uma prática, podendo inclusive ter como efeito a construção do valor social do cidadão, tal como desenvolve Souza (2007), ao apontar o risco de desumanização da população pobre, transformando-os em subcidadãos. A solução, que segundo este autor estaria na vivência da igualdade de direitos na prática relacional, parece ser o que oferecem os membros de P1 em sua ação, que em seus propósitos multiplicadores ampliam infinitamente este movimento.

Para tanto se percebem usando “conhecimentos e recursos desenvolvidos no fazer clínico”, de uma forma que foi designada pelas autoras como ampliada, com demandas não tradicionais, com uma atuação “diferente da dos psicólogos especialistas”. Vê-se aqui o cuidado com o fazer clínico no contexto de vulnerabilidade, na forma como alerta Macedo (2001), ao tratar da necessidade de empoderamento do cliente, para que o psicólogo não se coloque na relação como um representante de um saber ou de um modo de vida a ser seguido, para não fazer deles “seres desditados” ou “objetos de tratamento” (FREIRE, 1987, p. 23).

Vale ressaltar que, para que pudessem atuar agora apenas como especialistas na construção de contextos conversacionais, com propósitos empoderadores, a equipe precisou trabalhar na reconstrução da demanda inicial da instituição que as contratou, que se baseava em expectativas construídas a partir do perfil da clínica psicológica tradicional. Uma negociação, nomeada como “construção de um novo lugar”, realizada como uma “interseção entre os dois projetos”. Qualifica-se esta como uma atitude ou postura que dá o tom principal da vocação e identidade deste instituto.

Quando se conhece a Prática 2 - Formação de Terapeutas de Família e Casal, percebe-se a mesma coerência com os pressupostos e postura perante o saber do outro. A diferença está no uso mais frequente aqui da palavra colaborativo, sendo a mais frequente na Prática 1 a palavra reflexivo, mas sem quebrar a coerência. A prática de aprendizagem foi designada como “processo colaborativo entre formandos e formadores”, justificando a busca de um “contexto colaborativo de aprendizagem”, mediante estratégias que faziam uso de relações, conversas e posturas “mais colaborativas”.

Vê-se em uso aqui o que Grandesso (2001), dentro de um panorama das terapias pós-modernas, chamou de Abordagem Colaborativa, representada principalmente por Anderson; Goolishian (1993), que a definem como um contexto onde o terapeuta “junta-se ao cliente numa exploração mútua de sua experiência e compreensão”, o qual não seria possível sem a vivência reflexiva, e vice-versa, por isso a não contradição entre os termos apontada anteriormente. Provavelmente por esta razão é que aparecem como ferramentas e recursos ações associadas aos trabalhos

reflexivos, assim como o uso das “conversas internas e externas” e das Equipes Reflexivas.

Aqui também propósitos e estratégias se confundem, assim como no elemento “vivência de relações heterárquicas”, que pode ser usado e compreendido como fim e meio, quando um processo busca ajudar no desenvolvimento de uma “postura mais comprometida, autônoma e responsável”. Para tanto recorrem à Postura do Não Saber de Anderson; Goolishian (1993), que basicamente reposiciona o lugar do terapeuta como não mais especialista na vida do cliente. Uma postura que parte, portanto do contexto da clínica psicológica e se estende para o contexto de aprendizagem, em uma escuta que permanece a mesma, segundo afirmação das autoras que relatam esta prática.

Já nas relações com o social, ficou declarado o sentido político da prática, no tocante à “atenção aos discursos dominantes”, uma questão associada a um ponto central para os que trabalham em contextos de vulnerabilidade, o empoderamento, uma categoria que visa - por meio do desenvolvimento de dois elementos presentes nos

propósitos desta prática - à autonomia e a consciência coletiva - favorecer a

emancipação e superação de possíveis dominações. Como ação de caráter político também se inclui a escolha de estratégias e ferramentas que atuem como força transformadora. Ao se falar tanto de empoderamento como de transformações, avalia- se ser impossível desvinculá-los também dos propósitos de uma ação com designação clínica ou terapêutica.

Por último destaca-se, no relato desta prática, o fato de tudo ter se construído enquanto toda a equipe buscava se formar, em uma busca ativa do novo. Os alunos puderam viver a construção, na prática, de novas premissas e ferramenta úteis. É essa a atitude que também se ressalta no Quadro 8, a seguir, fruto da análise e categorização de um texto organizado por Cruz (2007), que conta dos caminhos trilhados pelo I1, com um recorte feito pelos encontros com Tom Andersen.

Categorias Subcategorias Elementos

Marcos

Encontro com teóricos

- Com Gregory Bateson – “reflexão como motor”

- Com Tom Andersen: “o que transformou os rumos do Instituto” - Adoção das ideias construcionistas, “apresentadas por Gergen e praticadas por Andersen e Goolishian”

Vivências - Com Tom Andersen – “sua maneira de estar conosco”; “vivência transformadora”

Construção do perfil

Mudanças

- “Modos inusitados de conversação” – “nos transformávamos em melhores ouvintes”

- “Linguagens novas e atraentes”

- “Mais atentos à criação de contextos dialógicos” - “Virada reflexiva”

Designação - Espaço para a exploração de novas práticas e modelos clínicos

A ação - estratégias

- “Ideias organizadoras”: “sistemas humanos como sistemas linguísticos”; “realidades construídas em linguagem e nas relações” - Uso dos processos reflexivos: “práticas atreladas ao processo reflexivo”

Atitudes - Inquietações gerando buscas

- Aberturas para encontros, mudanças e novas práticas NOTA

*Produção 3: CRUZ, H. M. (org.). Muitos instrumentos, um mesmo Tom. Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 29, p. 32-50, 2007.

Quadro 8: Categorias temáticas da Produção 3*, referentes ao I1, que historia suas práticas.

Vê-se neste quadro uma história, especialmente marcada por encontros com teorias e práticas, movidos pela constante atitude de abertura e busca. O termo constante ganha lugar para marcar que não se trata de passos iniciais, e sim de uma atitude que move suas ações, assim como se vê nesta forma como se designam: “Espaço para a exploração de novas práticas e modelos clínicos”. Uma designação que contempla também seu compromisso com a clínica, de forma associada a novas práticas.

A atitude de abertura para o novo alinha-se, a meu ver, com a forte adesão aos “processos reflexivos”, marcada desde o encontro teórico com Gregory Bateson, com quem aprenderam a “reflexão como motor”, e aprofundada nos encontros, vivenciais, com Tom Andersen, profícuos a ponto de ter “mudado os rumos do Instituto”. O poder transformador dessas vivências com Andersen foi avaliado como estando principalmente associado à “sua maneira de estar conosco”. O transformador pode ser compreendido com o que Andersen (2003, p. 50) definiu, ao apresentar seus conceitos básicos, como “promover buscas” para descrições e definições ainda não feitas, não

sem antes validar todas as descrições que surgirem. Cuidado este que constrói o respeito e o acolhimento pelo outro, o que pode tornar o “estar com ele” profundamente confortável e ao mesmo tempo inquietante, pela abertura para o novo.

A palavra “adoção” para contar da adesão às “ideias construcionistas”, ajudou a dar o valor desta escolha, que se alimentou também das ideias de Gergen e das práticas de Anderson e Goolishian. Uma adoção que provocou mudanças importantes em sua caminhada, especialmente nas formas de conversar e ouvir, compondo o que foi qualificado como “virada reflexiva”, levando-os a buscar e criar estratégias “atreladas ao processo reflexivo”, mediante a criação de “contextos dialógicos”, ou seja, de contextos que favoreçam o diálogo e a reflexão. O Quadro 9, a seguir, apresenta as práticas que se derivaram desta adoção. Embora inclua as práticas já apresentadas no Quadro 7, Multiplicadores e Formação, avaliei que seria útil reapresenta-las aqui a partir da forma como foram relatadas neste texto.

Práticas Nome Descrita como Propósitos Estratégias Ferramentas contexto Quem ∕ Formação do terapeuta FOT – Família de Origem do Terapeuta - Espaço dialógico - Laboratório - Favorecer novas versões da história familiar - Oferecer: redescrições, metáforas, sentimentos

- Duplas reflexivas - Entre professores e alunos Caderno de

Viagem - Semelhante ao espaço terapêutico - Desenvolver postura reflexiva

- Dirigir a atenção do aluno para seu próprio processo - Registro das reflexões - Equipe reflexiva -Entre alunos -Entre professores e alunos Interlocução

clínica - Prática alternativa à supervisão

- Ser organizador central - Ampliar escuta terapêutica - Posição heterárquica - Escuta terapêutica - Diálogos - Jogos de linguagem - Encontros - Entre alunos - Entre professores e alunos Avaliação docência Reflexão avaliativa em equipe

Reflexão com foco no processo

- Propiciar Reflexão sobre suas formas de constituir e ser constituído pela ∕ na equipe

- Dar voz para afetações e pedidos - Registros individuais - Leitura e reflexão da escrita do outro - Conversa em conjunto - Entre professores Na clínica Projeto Porta de

Entrada Momento reflexivo a partir das demandas

- Oferecer atendimento à comunidade

- Atividade curricular

- Desenvolver

reflexão - Encontros multifamílias

- Alunos - Professores - Casais que buscam a clínica Projeto Multicasal:

a cadeira vazia Recurso ampliador de narrativa Restabelecimento do fluxo conversacional

- oferecer reflexões

- Compor equipe de atendimento

Cadeira vazia para membro da E. Reflexiva “entrar em campo” -Casais -Equipe de Campo -Equipe Reflexiva Além

clínica Transformativa Mediação

Expansão do uso das Equipes Reflexivas Flexibilização das descrições rotuladas E. Reflexiva como “guardiã do processo de mediação” - Perguntas reflexivas - Equipes Reflexivas -Mediados -Mediadores -Equipe Reflexiva 106

Práticas Nome Descrita como Propósitos Estratégias Ferramentas contexto Quem ∕ Multiplicadores Reflexivos** - Práticas reflexivas para contextos marcados por discursos desqualificadores - Gerar profissionais reflexivos - Favorecer surgimento de ações autônomas - Metodologia de ação-reflexão - Coconstrução - Conversação em pequenos grupos - Grupos colaborativos - Profissionais com diversos tipos de equipes NOTA

*Produção 3: CRUZ, H. M. (org.). Muitos instrumentos, um mesmo Tom. Nova Perspectiva Sistêmica, Rio de Janeiro, n. 29, p. 32-50, 200

Quadro 9: Apresentação das práticas do I1 a partir do relato da Produção 3*.

A apreciação do grupo de práticas que compõem a Formação do Terapeuta levou-me a considerar que o ponto nodal desta formação refere-se à instauração de uma postura reflexiva, passando pela oportunidade, no FOT, de se expressar sobre, e até redescrever, o que foi construído na história das relações familiares, possivelmente oferecendo ao aluno/terapeuta uma ampliação do conteúdo que terá a compartilhar como fruto de suas conversas internas (Andersen, 2002, p. 53), aquela que se desenvolve consigo mesmo a partir do que foi ouvido no passado e no presente. O Caderno de Viagem e a Interlocução, por sua vez, oferecem a chance de construção e fortalecimento das habilidades reflexivas, em exercícios que muito se assemelham ao demandado, nesta abordagem, do terapeuta.

Vejo um processo de formação que se constrói em contextos que revelam um cuidado com o grupo, que efetivamente podem favorecer ao aluno um genuíno sentimento de competência, pois como afirmam Romano; Antunes (2002), o empoderamento, profissional neste caso, não se outorga, como uma dádiva, e sim se constrói nos processos de organização do grupo. Um processo que ao permitir a construção do conhecimento com o outro, em uma posição heterárquica, revela-se alinhado com as contribuições de Paulo Freire (1983), de uma pedagogia forjada

com e não para o indivíduo ou grupo (p. 16).

O processo avaliativo dos docentes, mantendo a coerência com os pressupostos, também se alimenta do desenvolvimento e compartilhamento das reflexões internas e externas. Considerando-se como um processo que constitui e se constitui, dá voz para as “afetações e pedidos”, uma posição que, a meu ver, contempla a intersubjetividade, um dos pressupostos do Pensamento Sistêmico Novo-paradigmático, que, segundo Vasconcellos (2002) inclui a coconstrução do conhecimento e, consequentemente, a autorreferência, ao incluir o observador.

Do ponto de vista do exercício clínico vê-se que o aluno, nesta abordagem, fica treinado e capacitado para a “escuta terapêutica” por intermédio de uma “postura reflexiva”, não mais tendo as supervisões, como organizador central, o delineamento de diagnóstico, prognóstico e tratamento. As práticas relatadas como parte do grupo da Clínica – Projetos Porta de Entrada e Multicasal – também fazem uso de estratégias reflexivas, tendo em comum também o uso dos grupos, compostos por famílias e casais respectivamente.

O “Porta de Entrada” veio dar conta de duas demandas do I1, a de atender a comunidade, e a de oferecer práticas para os alunos da Formação de Terapeutas de

Casal e Família, transformando-se em um contexto onde as demandas das famílias que buscam o Instituto podem ser acolhidas já de forma reflexiva. Vê-se aqui uma atitude que a primeira vista poderia ser compreendida apenas em seu caráter assistencialista, mas que, ao se atrelar aos processos reflexivos, pode escapar dos riscos de uma ação puramente assistencialista. Este projeto revela assim a abrangência de uma proposta de cunho reflexivo, podendo tornar um momento que poderia ser puramente burocrático ou apenas de triagem, em um momento com potencial terapêutico.

Já o “Projeto Multicasal” desenvolveu uma ferramenta que cuida do fluxo conversacional – a cadeira vazia, como representando um lugar em campo (onde estão casal e terapeuta), que possa ser ocupado por um dos membros da Equipe Reflexiva - formada por terapeutas que ficam fora do campo -, passando a fazer parte da Equipe de atendimento, oferecendo suas reflexões. Avalia-se ser esta uma ferramenta que mostra a versatilidade do trabalho com processos reflexivos, como um exemplo de que, para gerar e sustentar um contexto de reflexão pode-se pensar em muitas formas de se estar com o outro, quando o procedimento foi cuidadosamente acordado com todos.

Quanto ao grupo denominado pelas autoras como “Além Clínica”, deixa como questão o significado da palavra além. Estaria apenas referindo-se ao fato de que se trata, neste grupo, de práticas realizadas fora do contexto da clínica do Instituto? Ou poderia ainda estar relacionada, a palavra além, a uma clínica dita tradicional, que não admitiria mudanças no seu setting. Sou levada a concluir pela permanência da atitude/postura/escuta clínica ao me deparar com estratégias e ferramentas semelhantes às utilizadas tanto no grupo de Formação como no de Clínica, sendo o