1. Introduction
1.3. Population genetics
Faz-se necessário escrever sobre identidade porque se trata de categoria diretamente ligada ao espaço geográfico. Segundo Claval (2001), assumindo-se uma perspectiva fenomenológica, não há mais como se praticar uma geografia centrada, unicamente, na descrição espaço. A geografia que se centrava no espaço físico era, por demais, narrativo- expositiva, dava nomes às regiões segundo critérios ditados de forma vertical. Hoje a geografia deve centrar-se na pessoa humana, e, sobretudo, nas “relações dos indivíduos e grupos com o meio ambiente com o qual estão envolvidos e com o espaço no qual estão inseridos” (CLAVAL, 2001, p. 39-40). Nesse modo de ver, a identidade surge como algo que merece ser considerado, analisado e refletido. Passa-se, agora às considerações sobre a categoria identidade.
É interessante começar a presente reflexão com, ao menos, um conceito de o que seria, afinal, identidade. Segundo Castells (1999) identidade é:
[...] a construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado. Para um determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo, pode haver identidades múltiplas. (p. 22)
Para o presente autor, o principal termo que emerge do conceito dado por Castells (1999) é o de construção de significado. Pensa-se, neste momento, que o sujeito vai construindo a identidade à medida que cria/estabelece significados à sua volta. Antes de prosseguir, cabe esclarecer o conceito de significado. Castells (1999) define significado como “a identificação simbólica, por parte do ator social, da finalidade da ação praticada por tal ator.” (p. 23). Significado é, nesse sentido, a explicação para o ato que determinado sujeito executa. Nessa acepção, trata-se do porquê de o sujeito empreender determinada ação. Nesse caso, a ação, por si só, pode ser e representar a razão pela qual o ator a executa.
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O presente autor não ignora as contribuições feitas pela psicanálise no estudo da identidade. Teóricos como Freud, Klein, Bleger, Rosenfeld, Erickson, Lacan, Fayet, entre outros, fizeram profundos estudos a este respeito. Segundo Mendonça (1984): “A identificação é um processo de suma importância em todo relacionamento e comunicação humana. É de capital importância na teoria e prática psicoanalítica, pois, é por meio de sua conceituação que diversas estruturas psíquicas são compreendidas em suas origens e desenvolvimento. Através dela, é possível serem entendidas situações como a empatia, simpatia, imitação, e até o aprendizado e a educação [...]” (p. 35). No entanto, o presente trabalho analisará a questão da identidade com base numa visão geosocial. Para ir além, na visão psicanalítica da identidade, sugere-se a leitura de: MENDONÇA, Robson Cabral de.
É interessante, neste ponto, fazer-se uma correlação entre lugar e identidade. Enquanto o primeiro termo possui, ou ainda, recebe dos homens, significados e engendra, em si, mediante isso, certa identidade, o segundo, vai muito mais no sentido da individualidade que os homens têm e buscam. Para Castrogiovanni (2004) os sujeitos se constituem numa relação que vai desde o seu próprio “Nome(nalismo)” (p. 101) até a relação com o espaço, que se manifesta na transformação do sujeito em “Lugar(es)” (p. 101). Segundo o mesmo teórico, o processo de formação da identidade guarda certa correlação ao da formação e constituição do lugar:
Como vimos, o Lugar, que é um todo, constitui-se a partir de um ponto, onde se reúnem feixes de diálogos. Então, parece ser o Sujeito a parte deste todo, pois as relações partem de cada Sujeito. Talvez seja impossível entendermos o Espaço [...] como um todo, sem compreendermos a ação complexa de cada sujeito [...] (p.101)
Nota-se que a idéia de Castrogiovanni (2004) é semelhante à de Claval (2001). Ambos colocam o sujeito no centro da análise. Chama-se a atenção para o fato de que o processo formação da identidade encaminha uma individualização que não deve ser confundida com o
individualismo. Castells (1999), por exemplo, prefere o termo “individuação” (p. 23). Dito de
outra forma, a formação da individualização/individuação remete ao processo de o sujeito assumir-se como tal, e, encaminha, no sentido de que ele mesmo se “reconheça e se afirme” (CASTROGIOVANNI, 2004, p. 103), o individualismo, ao contrário, é muito mais um processo egocêntrico, onde o sujeito se isola do mundo e vive como se estivesse só. Nesses processos é freqüente a tentativa de exploração dos outros sujeitos por interesse próprio. Disso decorre que, enquanto o primeiro processo é preferível, já que instaura o sujeito como tal, o segundo vai contra a vida em sociedade, visto que desconsidera a dimensão da partilha e da vida em grupo.
Com base em Castrogiovanni (2004), parece ser correto afirmar que a significação que o sujeito dá às fontes de significado, gera identificações diferentes conferidas a essas fontes. Em outras palavras, algumas fontes de significado prevalecem sobre outras, recebendo mais identificação por parte do(s) sujeito(s). Isso se dá porque no processo de formação da identidade, a pessoa acaba por “escolher”, dentre as múltiplas fontes de significado, aquelas pelas quais tem preferência. Assim sendo, as fontes que mais tiverem relação com a história e a cultura do sujeito serão as escolhidas. Poder-se-ia exemplificar o que foi colocado tomando- se o caso dos shoppings. Para as gerações mais velhas, os shoppings podem não significar
nada. Não havendo, neste caso, uma identidade. Porém, para as gerações mais recentes, os
shoppings significam muito. São o ponto de encontro, e, de certa forma, o lugar do final de
semana, por exemplo. Neste caso, há uma identidade construída e delegada pelos sujeitos (jovens) aos shoppings.
Não seria regredir na análise se se escrevesse que a temática da identidade é de difícil compreensão, pois é, também, polissêmica. Na filosofia existem inúmeras e possíveis abordagens para a referida questão, quais sejam: identidade numérica, identidade qualitativa,
identidade temporal, identidade relativa, identidade pessoal, identidade dos indiscerníveis, identidade psicofísica, identidade teorética, identidade tipo-tipo, entre outras. John Locke
(1632-1704) pode ser considerado uma das principais referências neste tipo de estudo, sobretudo com relação à identidade pessoal, porém, de lá para cá, a identidade continua recebendo conotações diversas. Segundo Vanin (2003):
A identidade é um fenômeno complexo, situado em diferentes níveis teóricos. Os vários aspectos da vida em sociedade, como, por exemplo, o campo pessoal, étnico, profissional, familiar, público, privado, nacional, racial, religioso, etc., ligam-se uns aos outros em diversas formas de objetivação, de percepção e de representação do eu. Isso torna imprecisa, muitas vezes a delimitação da identidade como objeto de estudo. (p. 21-22)
Outro termo de difícil conceituação e que, frequentemente, está associado à identidade é o da globalização. Segundo Held e Mcgrew (2001) não existe uma definição única e universalmente aceita para tal expressão. Os teóricos franceses (como Morin, por exemplo) preferem chamar de mundialização; fazem isso para dar ênfase às características negativas do processo.
É sabido que a globalização faz com que muitas dimensões da sociedade humana interpenetrem-se. Economia e cultura, por exemplo, estão, hoje, totalmente interconectadas com o todo global. Isso, consequentemente, reflete-se na identidade. Alguns teóricos vêem isso negativamente. Hall (2001), porém, tem opinião diversa:
A homogeneização cultural é o grito angustiado daqueles/as que estão convencidos de que a globalização ameaça solapar as identidades e a “unidade” das culturas nacionais. Entretanto, como visão do futuro das identidades num mundo pós- moderno, esse quadro, da forma como é colocado, é muito simplista, exagerado e unilateral. (p. 77)
Analisando a relação entre identidade e globalização, é curioso notar posições como as de Hall (2001), que adota uma linha mais otimista se comparada à daqueles que só vêem as características negativas do processo.
[...] ao lado da tendência em direção à homogeneização global, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da “alteridade”. Há, justamente com o impacto do “global”, um novo interesse pelo local. (HALL, 2001, p. 77)
Parece que Hall (2001) e também outros teóricos, como Castrogiovanni (2004), por exemplo, concordam em afirmar que não há razão para se fazer uma separação entre o local e o global, o sujeito, sua identidade e o mundo. Segundo os supramencionados teóricos, ao se referenciar um ponto qualquer no globo, estar-se-á, consequentemente, referenciando-se, de alguma forma, o todo. Sabe-se que hoje a menor cidade do interior do Brasil está em contato com o exterior. Exemplifica-se isso apontando para as prateleiras das lojas e supermercados contendo produtos importados, observando-se os jovens que utilizam programas de conversa instantânea, conectados à Rede Mundial de Computadores. Não há, como se pode ver, uma localidade totalmente isolada do/no mundo. Para Hall (2001), Castrogiovanni (2004) e ainda outros, não há razão para se afirmar que a identidade está perdendo seu referencial. “Mesmo mundializado o lugar, graças a sua identidade, tem em si uma autoprodução e uma auto- organização. (CASTROGIOVANNI, 2004, p. 94). A respeito disso se pode ler, ainda, Hall (2001):
A globalização (na forma da especialização flexível e da estratégia de criação de “nichos” de mercado), na verdade, explora a diferenciação local. Assim ao invés de pensar no global como “substituindo” o local seria mais acurado pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local”. Este “local” não deve, naturalmente, ser confundido com velhas identidades, firmemente enraizadas em localidade bem delimitadas. Em vez disso, ele atua no interior da lógica da globalização. Entretanto, parece improvável que a globalização vá simplesmente destruir as identidades nacionais. É mais provável que ela vá produzir, simultaneamente, novas identificações “globais” e novas identificações “locais”. (p. 77-78)
Como se pode perceber não há como versar sobre identidade e deixar intocados termos como globalização. Seguindo-se a discussão outro conceito tende a juntar-se à análise, seja ele, o conceito de nação. Em geografia o termo nação guarda relação com o sentimento de pertencimento que o povo de um país tem com relação à sua pátria. É importante que não se
confunda Povo ou população com nação. Nação é mais do que povo, pois compreende uma sociedade de indivíduos que possuem a mesma cultura, tradições e ideais. A respeito disso é curioso notar que nem sempre o povo forma uma nação. Para que a nação exista é preciso que os indivíduos que dela fazem parte se sintam ligados pelo que se chama de amizade cívica. Desse modo, dentro da população de um país é possível verificar várias nações, como é o caso de diversos países do continente africano e do Brasil, por exemplo, onde se verificam nações de povos indígenas e bosquímanos de diferentes etnias. Nota-se que, como num ciclo, a produção do sentimento de nação, requer uma cultura e uma identidade nesse processo. Para Vanin (2003):
A cultura nacional é, assim, um discurso, um modo de construir sentidos que influencia nossas ações e a concepção que temos de nós mesmos. Ao produzirem sentido sobre a nação, as culturas nacionais constroem identidades. (p. 25)
Encaminhando-se a discussão para a esfera da educação, contata-se que os conceitos trabalhados até aqui são de grande importância. Torna-se necessário que os educadores saibam dessas peculiaridades com relação à identidade, à globalização e à nação. O professor deve oportunizar aos alunos a construção de entendimentos que se relacionam com o todo, com o mundo, com meio ambiente, por exemplo, mas sem perder de vista o lugar e a
identidade. Especificamente em geografia, deve-se privilegiar o trabalho “com a dialética das
relações sociais no espaço, com sua ligação ao meio ambiente e o papel complexo das paisagens, ao mesmo tempo suportes e matrizes das culturas.” (CLAVAL, 2001, p. 41). Relativo, ainda, ao estudo geográfico, deve-se levar em consideração a identidade da comunidade escolar, por exemplo. Nesse sentido, não seria correto o professor estabelecer ele
mesmo a descrição dos lugares segundo seus próprios critérios, ou ainda, segundo a
caracterização de um outro geógrafo proeminente, pois, em última análise, essa classificação pode não ter nenhuma identificação com a região estudada. Deve-se levar em conta que existem, ainda, razões antropológicas para a formação dos grupos humanos, e, consequentemente, para a formação da identidade:
As relações dos indivíduos e grupos com o meio ambiente com o qual estão envolvidos e com o espaço no qual estão inseridos respondem a finalidades variadas: proteger-se [...] afirmar seu papel social [...] construir identidade por meio dos sentidos dados às coletividades [...] interrogar-se sobre o significado da presença humana no mundo e no cosmos [...] (CLAVAL, 2001, p. 39-40).
Dessa forma, torna-se importante que o professor crie atividades que dêem conta de compreender melhor as finalidades, os porquês e os objetivos do grupo no qual o educando está inserido. Em cidades maiores, por exemplo, cabe ao educador possibilitar tarefas que digam respeito ao lugar do aluno para que ele possa perceber as particularidades de sua região, e, por conseguinte, reafirmar sua identidade e seu lugar no mundo. Saber como se organiza a cidade é de extrema importância na formação de uma identidade individual. Quando a pessoa entende melhor o mundo onde vive, sente-se mais feliz. O homem que compreende seu mundo é mais feliz em duas medidas. Primeiramente porque, entendendo os processos pode melhor operá-los, e, em segundo lugar, porque se insatisfeito, pode proceder ao movimento de tentativa de mudança o que é possível/necessário apenas para os sujeitos que se consideram como tais. Nota-se, pois que identidade está profundamente ligada ao espaço do homem.
A construção das identidades está intimamente ligada à organização territorial e à maneira como é percebida por quem é responsável por essa organização ou a experimenta. (CLAVAL, 2001, p. 66)
Procurou-se, neste subcapítulo, proceder-se com uma breve análise da relação entre a identidade e o lugar. Acredita-se, tendo por base o que ficou exposto, que a identidade é conceito muito diverso, porém, ainda assim, podem ser feitas muitas aproximações deste à educação e à geografia. A aproximação do conceito de identidade à geografia se torna ainda mais necessária se o que está se buscando é uma educação no sentido de formar um sujeito cidadão. Argumentou-se, também, no sentido de que a identidade, de certa forma, guarda íntima relação com o território. Parece ser correto concluir que as relações que existem entre os lugares e o todo do mundo são muito semelhantes às relações entre os sujeitos, que procuram constituir/construir sua identidade no todo do global.