1. Introduction
1.2. Barley net blotch
1.2.4. Management strategies
Para o desenvolvimento do presente trabalho o lugar será de extrema importância. Então, torna-se necessário que se façam algumas observações acerca do conceito, das características e da importância desta categoria. Para o presente autor, lugar é um fragmento do espaço. Porém, veremos outros aspectos que acompanham o termo, tornando-o mais amplo. Procurar-se-á, nesta breve, reflexão, trazer à tona a relação do sujeito com esse fragmento espacial. O presente subcapítulo apoiar-se-á em autores como Santos (2006), Castrogiovanni (2004) e outros. Passa-se, agora, a análise, ainda que em linhas gerais, sobre a referida temática.
É interessante, rapidamente, buscar a origem do termo lugar. Segundo uma possível acepção, lugar seria um substantivo masculino e encontraria origem na palavra latina locus. No plural, os loci ou loca significam os lugares, os locais, ou ainda a situação. Esta última, entendida como posição geográfica, ou seja, a localização. Há, porém, outra possibilidade de acepção para o termo lugar. Lugar pode ser entendido ainda como adjetivo, e, neste caso, designar-se-ia por topicu, topĭca ou topicōrum (no grego seria topikós). Assim entendido,
lugar passa a ser “O Lugar”, reveste-se de uma qualidade, ou ainda, passa a ser um
referencial. O filósofo latino Marcus Tullius Cicero escreveu um tratado, composto de dois livros, com base na leitura de Aristóteles, chamado de topĭca (Tópica). Tal produção versava, entre outras coisas, sobre os lugares comuns. Porém, neste caso, tratavam-se dos lugares
comuns do discurso e como melhorar a arte da dialética77 e da retórica78. Cícero acreditava que havia tópicos (lugares) por onde se tinha que passar para um correto raciocínio. É curioso, notar, ainda, como o lugar chegou aos dias atuais. O que, freqüentemente, se lê nas bulas dos remédios uso tópico79, quer designar, justamente, lugar. Chama-se atenção sobre outro termo que está relacionado à lugar, qual seja, localizar. Escreve-se isso porque, segundo outra acepção, lugar pode ser entendido como locale (latim), sendo assim, “locale” + zar algo é referenciar esse algo no espaço.
Com relação ao tempo, Santo Agostinho escreveu: “Que é, pois, o Tempo? [...] Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar [...] já não sei”. Provavelmente, todos poderiam dizer o mesmo com relação ao lugar. Todos sabem o que é, mas explicar torna-se difícil. Lugar, em última análise, pode ser o local (locale) onde o respeitável leitor se encontra neste momento. O leitor, neste momento, pode estar numa biblioteca, numa livraria, numa sala de estudos, num parque ou em casa. Estando em casa, mais especificamente, pode estar na sala, sentado na poltrona predileta ou confortavelmente deitado na cama. Todas essas opções indicam que existem muitos lugares. Existem, pois, lugares e mais lugares. Segundo Santos (2006), o lugar pode ser considerado “como espaço de exercício da existência plena.” (p. 114). Segundo essa visão, existir plenamente é estar onde se quer, fazendo o que se quer e
com quem se quer. Nota-se que nessa tríade, o onde, ou ainda, o lugar, assume especial
importância. Detendo-se um pouco neste ponto, tem-se que o estar onde se quer é já estar em algum lugar, o estar fazendo o que se quer implica, necessariamente, um lugar para isso e o estar com quem se quer requer, de igual modo, um lugar. Em outras palavras, sempre se está em algum lugar. Aristóteles em seu livro “Física” escreve que: “O que não está em nenhum lugar não existe.” Sendo assim, tudo o que existe está em algum lugar.
Perceber que, subliminarmente, no texto acima começa a aparecer algo que não é relativo, apenas, ao lugar propriamente dito, mas que guarda relação muito mais com o modo como o sujeito se identifica com os lugares. A identidade com o lugar é que o constitui como
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Carvalho (1997), na “introdução crítica” da obra SCHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem
precisar ter razão: 38 estratagemas: (dialética erística). Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, escreve que: “Para
Aristóteles, só havia quatro e não mais de quatro ciências do discurso: a poética, a retórica, a dialética e a analítica.” (p. 34). Especificamente a respeito da dialética, o mesmo autor escreve que: “uma técnica de confrontar os argumentos contraditórios oferecidos em resposta a uma questão, para encontrar, por baixo deles, os princípios de base que permitam dar à questão uma resposta mais racional.” (p. 36).
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Carvalho (1997), tendo por base Aristóteles, escreve que retórica pode ser definida como: “arte da persuasão (πδγαθκ , pithanos) [...]” (p. 35). Mais adiante, o mesmo autor coloca que: “Aristóteles esclarece que há três fatores determinantes da persuasão – a pessoa do orador, os fatos de que se fala e o teor dos argumentos.” (p. 35) 79
Uso tópico: expressão geralmente encontrada nas bulas dos medicamentos querendo designar uso no lugar, diretamente sobre a lesão.
tal. Segundo Castrogiovanni (2004) podemos entender o lugar “como sendo a porção do espaço apropriável para a vida, que é vivido, reconhecido e cria/possui identidade.” (p. 92). Destaca-se que, segundo essa concepção, o lugar é e pode ser apropriado pelo homem. O homem apropria-se de algo, e, em seu entender, esse algo passa a ser seu. Lugar recebe, nesse aspecto, status de pertence. É importante antes de se prosseguir, analisar, rapidamente, o que seja um pertence. Tido como um substantivo masculino o pertence passa a ser objeto. Se tomado como verbo intransitivo passa para além de objeto, designa algo pertinente a; passa a
fazer parte de. Não é de se estranhar, então, que as pessoas tenham sentimento de pertencimento com relação ao seu lugar predileto. Frequentemente se ouve: “Eu sou de lá!”.
A frase: “Aquela é a minha casa!” também é comum. Quando se diz sou quer se comunicar um: “pertenço a”. Quando se diz minha quer-se expressar que: “pertence a mim”. Há, como se pode ver, dupla relação de pertencimento na forma como o sujeito se situa em relação ao lugar, ou seja, há o sou e o pertenço. Continuando a presente análise, e, ainda com base no conceito dado por Castrogiovanni (2004), destaca-se os termos vida e vivido. Quando o lugar é apropriado pelo homem, passa a fazer parte de sua vida. Mas, como se sabe, a vida por si só não basta, ela tem que ser vivida. Para haver vida basta bater o coração, mas para a vida ser vivida necessita-se de emoção. Sendo assim, o lugar guarda íntima relação com a vida vivida, e, como num ciclo/circulo tudo volta, então, novamente, a criar/possuir identidade. Vide ilustração abaixo (figura 14):
Santos (2006), a respeito do lugar, constata que ele serve, de certa forma, como um movimento contra a globalização. Para ele na luta entre global e local:
[...] o papel o do lugar é determinante. Ele não apenas é um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço exerce um papel revelador sobre o mundo. (p. 114)
Castrogiovanni (2004), por sua vez, escreve que não há mais por que fazer uma dicotomia entre global e local. Para o referido, autor ao se falar sobre o lugar, estar-se-á, automaticamente, falando sobre o global. “O mundo se encontra em todos os lugares” (p. 93). É curioso notar, neste ponto específico, posições diferentes entre esses dois geógrafos. Parecem ser interessantes, a respeito da relação entre o local e o global, as idéias de Tuan (1980), onde o autor discorre sobre etnocentrismo. Segundo o referido teórico, o
etnocentrismo é uma constante nas diversas sociedades. O desejo de ser o centro é
frequentemente encontrado, segundo Tuan (1980), nos estudos antropológicos, sendo que, hoje, isso não é diferente. Em outras palavras, todas as sociedades, em seu tempo e à seu modo, consideram-se a si mesmas como o centro do mundo, tornam-se Lugares. Pode-se, nesse ponto, fazer analogia à questão da concetricidade, também elucidada por Tuan (1980).
Figura 14 – Esquema representando as relações que o homem gera em torno do lugar: Fonte: O autor (2007)
O geógrafo lembra que na cartografia, ao longo da história, se pode perceber que as sociedades organizavam seus mapas colocando-se ao centro. Quanto mais os lugares habitados por outros povos se afastavam do centro, de forma concêntrica, tanto mais perdiam em importância e consideração por parte daqueles que se autodenominavam o centro. O
etnocentrismo, talvez seja um dos pontos que levam alguns teóricos, inconscientemente, a
pensar que o lugar é aquele que pode oferecer resistência ao global. Porém, ainda assim, não se pode negar que “há um desigual desenvolvimento entre os lugares e o mundo.” (DAMIANI, 1999, p. 165). Por mais que se tenha a noção de que o lugar é “uma parte que faz parte do todo” (CASTROGIOVANNI, 2004, p. 94), o presente autor reconhece, também, que entre essas partes há muitas desigualdades, e, curiosamente, é justamente essa desigualdade, essa tensão, entre os diferentes lugares que os constituem como tais:
O lugar, acima de tudo, não é particular, perdido do mundo, é o diferente. Nasce do embate com outros lugares, como totalidade, com a totalidade dos lugares, o mundo. Coloca-se no mundo para ser o lugar. O que rege a existência do lugar, como o cotidiano, é o desenvolvimento desigual. (DAMIANI, 1999, p. 169-170)
Pode-se perceber que há certa tensão/polêmica quando se trata da relação entre o lugar e o mundo. Como se pode, também, notar, o lugar é algo que se constitui no todo do mundo, mantendo-se justamente pela sua diferença. Nesse sentido, pode-se dizer que as pessoas viajam a outras localidades justamente por isso, pela busca da diferença. Não haveria o porquê de se viajar a lugares completamente conhecidos. Entende-se, no momento, que é isso o que quer dizer Castrogiovanni (2004), quando escreve que o lugar se renova e se auto- organiza “graças a sua individualidade” (p. 94). Mas já que a reflexão esbarrou, ao que parece, na questão do lugar-mundo/local-global é interessante que se introduza outro entendimento acerca do que seja, exatamente esse global. A respeito disso é curioso prestar atenção no termo que Baudrillard (2003) introduz:
Entre “global” e “universal” existe uma analogia enganadora. A universalidade diz respeito aos direitos do homem, às liberdades, à cultura, à democracia. A globalização refere-se à tecnologia, ao mercado, ao turismo, à informação. A globalização perece irreversível enquanto o universal estaria mais para a via de desaparecimento, ao menos em sua constituição de sistema de valores na escola da modernidade ocidental, sem equivalente em nenhuma outra cultura. (p. 52)
Parece que, agora, tudo fica mais claro. O presente autor acredita que a introdução da concepção de universalidade, torna mais fácil o discernimento entre o lugar e o mundo. Desse modo, provavelmente seja correto afirmar que enquanto se estiver falando em globalização, entendida como a mundialização do capital, da informação, ou ainda, como a divisão internacional do trabalho, nunca haverá, realmente, equilíbrio. Haverá sempre, de novo, sob o viés econômico, lugares e mais lugares. Desse processo surge outro, qual seja, o de que nesta tensão e desequilíbrio entre os diferentes lugares ocorra o fortalecimento “que torna, cada vez mais, os Lugares próprios e específicos.” (CASTROGIOVANNI, 2004, p. 94). Faz-se necessário entender isso para que, adiante, se possa compreender o que seja o lugar na sua relação de especificidade frente ao mundo. O lugar, para Castrogiovanni (2004):
Graças a sua individualidade, tem em si uma autoprodução e uma auto organização. Com isso, os produtos e os efeitos são produtores e causadores do que os produz. Tal situação torna, cada vez mais, os Lugares próprios e específicos.
[...]
a menor agitação do Lugar pode sacudir o Mundo, pois o lugar, que é um todo, faz parte do todo que é o Mundo (p. 94)
Detendo-se, ainda, na análise das relações entre os lugares e as relações afetivas que as pessoas têm com eles, é interessante constatar que as relações entre lugares, muitas vezes, são tão tensas que acabam por transformarem-se em conflitos armados. O sentimento de afetividade pelo lugar pode transmutar-se num etnocentrismo imperial tão extremista que uma cultura pode querer levar o seu lugar e impô-lo noutro. Sabe-se que isso é uma constante ao longo da história da humanidade. Com relação à questão do lugar nessa relação doentia, caberia falar a respeito do patriotismo. O patriotismo é um sentimento que surge no povo e que está, de certa forma, ligado à afetividade que se tem pelo lugar. Quando bem dosado é bom. No Brasil, diga-se de passagem, é sentimento que falta. Normalmente quem nutre o sentimento patriótico é o próprio Estado. Investimentos numa educação voltada aos valores da terra e a sentimentos como o ufanismo são geradores de patriotismos. Quando, ao contrário, há o extremismo nesse sentimento, o que frequentemente se percebe nos homens que detêm o poder, surgem os imperialismos. Há, pois,
[...] dois tipos de patriotismo: local e imperial. O patriotismo local reside na experiência íntima do lugar e no sentido da fragilidade do que é bom: não há garantia que dure, aquilo que amamos. O patriotismo imperial se nutre no egoísmo coletivo e orgulho. Esse sentimento é fortemente exaltado quando aparecem
ambições imperiais: por exemplo, Roma, no primeiro século depois de Cristo; Inglaterra, no século dezenove; Alemanha no século vinte. (TUAN. 1980, p. 116)
Parece que, desta forma, levando em conta concepções como as da universalidade, identificada por Baudrillard (2003), as da auto-organização do lugar em relação ao mundo, identificada por Castrogiovanni (2004), e a “insurreição” do lugar contra a globalização, proposta por Santos (2006, p. 114), pode-se concluir que o lugar, por possuir sua própria identidade é algo único dentro de um todo. E é, de certa forma, um tocado/intocável.
Na tentativa de integrar o que foi escrito até agora, conclui-se com o pensamento de Damiani (1999), onde a professora escreve que:
Há dois sentidos na noção de lugar: o de diferente, em relação aos lugares e ao mundo. O embate e a combinação que definem cada um. Outro é o da particularização, aquilo que separa esse lugar do outro: a segregação. (p. 170)
Pretendeu-se, ao longo deste subcapítulo debater e expor algumas questões e reflexões relacionadas ao modo como o lugar pode ser compreendido. Procurou-se sugerir, ao longo da explanação, que o lugar constitui-se enquanto tal através de significações que recebe, sendo essas, dadas pelo homem. O lugar recebe significados daqueles que dele se apropriam, novamente o homem. Ao longo do texto, tomou-se como auxílio idéias de alguns teóricos, buscando deixar claro que o lugar é um locale, possui uma localização no mundo, mas, acima de tudo, constitui-se, principalmente, pelo significado e o afeto que incorpora para os sujeitos. Um dos argumentos enfatizados foi o de que o lugar, mesmo em contato com o todo do global, mantém, ainda, suas características visto que são elas próprias que constituem o lugar como tal. Dessa forma, para “viver o homem deve ver algum valor no seu mundo” (TUAN, 1980, p. 113) e é atitude que todas as sociedades têm consciente ou inconscientemente, valorizando o lócus, gerando identidades, cuidando e protegendo aquilo que é seu, o lugar do qual fazem parte.