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Kapittel 3. The Beach av Alex Garland

3.5. Populærkulturelle og intertekstuelle referanser

117 Segundo Soares (1988), a formação econômica de Uberlândia (MG) recebeu influência decisiva das ligações comerciais que a região estabelecia com a economia paulista, uma vez que a predominância do cultivo de café no estado de São Paulo impossibilitou a produção de cereais e impulsionou as demandas deste tipo de atividade agrícola para o Triângulo Mineiro.

Nesse sentido, a autora afirma que:

A inserção do Triângulo Mineiro na economia nacional deve ser entendida a partir de três fatores: a extensão da Estrada de Ferro Mogiana; a construção da ponte Afonso Pena sobre o rio Paranaíba, ligando o Triângulo Mineiro ao Centro Oeste; e a construção de rodovias, pela Companhia Mineira de Autoviação em 1912, que possibilitavam o escoamento de produtos e o transporte de passageiros entre 32 cidades de Goiás e Minas Gerais55. (SOARES, 1988, p. 14).

Sobre o papel das infraestruturas no desenvolvimento do território, Santos (1996, p. 65-66) considera que:

[...] as infra-estruturas presentes em cada lugar não dependem exclusivamente do tipo e volume da produção, mas também do seu destino, o que obriga a levar em conta os processos da circulação. Em outras palavras, as infra-estruturas presentes em cada lugar encontram, em grande parte, explicação e justificativa fora do lugar. Da mesma maneira, uma vez que o consumo local depende de uma produção distante, a cuja lei se submete, a distribuição dos produtos termina por influir no tipo, na quantidade, forma e disposição das infra-estruturas correspondentes cuja existência, desse modo, torna-se ali igualmente autônoma, em relação às condições próprias do lugar. As diversas ecologias locais não são unicamente explicáveis por fatores exclusivamente locais.

55 A respeito da história de formação de Uberlândia (MG) e seu desenvolvimento econômico, confira: Freitas e Sampaio (1985), Soares (1988,1995), Brandão (1989), Guimarães (1990, 2010).

118 As infraestruturas citadas por Soares (1988) inseriram a região do Triângulo Mineiro, sobretudo Uberlândia (MG), em outro cenário econômico, diferente daquele que vinha sendo desenhado, uma vez que permitiu o rompimento da dependência das estruturas precárias de transporte e circulação da época. Conforme Santos (1985), a presença de processos mecânicos sobre o território potencializou as transformações da natureza, aglutinando os espaços que antes se dinamizavam de forma separada (o da produção e o do consumo) em um espaço único, totalizante (o do consumo/produção). É o que Santos (1996, 2008) afirma ser o processo de substituição do meio natural pelo meio técnico. Nas palavras do autor:

Os objetos técnicos, maquínicos, juntam à razão natural sua própria razão, uma lógica instrumental que desafia as lógicas naturais, criando, nos lugares atingidos, mistos ou híbridos conflitivos. Os objetos técnicos e o espaço maquinizado são

lócus de ações ‘superiores’, graças à sua superposição

triunfante às forças naturais. Tais ações são, também, consideradas superiores pela crença de que ao homem atribuem novos poderes – o maior dos quais é a prerrogativa de enfrentar a Natureza, natural ou já socializada, vinda do período anterior, com instrumentos que já não são prolongamentos do seu corpo, mas que representam prolongamentos do território, verdadeiras próteses. Utilizando novos materiais e transgredindo a distância, o homem começa a fabricar um tempo novo, no trabalho [...]. Os tempos sociais tendem a se sobrepor e contrapor aos tempos naturais. (SANTOS, 2006, 237).

A instalação dos trilhos da Mogiana, a construção da ponte Afonso Pena e as rodovias da Companhia Mineira de Autoviação permitiram a aproximação e intensificação das relações sociais entre São Paulo e o Triângulo Mineiro, particularmente com Uberlândia (MG), que se especializava na comercialização de alimentos, além de realizar a intermediação entre Minas

119 Gerais, Goiás, Mato Grosso e São Paulo (SOARES, 1988). É a sobreposição da técnica sobre a natureza, a especialização do espaço do Triângulo Mineiro.

No mesmo sentido de Soares (1988), Bertran (1978, p. 59) aponta que:

Os produtos goianos de exportação com destino ao Sudoeste do Brasil passaram a ser reelaborados em Minas Gerais, possibilitando a montagem de um sistema especulativo, calcado nos estoques de produtos goianos e matogrossenses, controlados econômica e geograficamente pelo gargalo do Triângulo Mineiro.

Segundo Santos (2006), a emergência do espaço mecanizado é motivada por uma lógica externa à lógica da localidade, tornando-a indiferente às condições preexistentes. O Triângulo Mineiro, entendido como um gargalo, tal qual aponta Bertran (1978), é um exemplo, para o período analisado, da consolidação do meio técnico independente das dinâmicas espaciais da época. Para Santos (2006, p. 237),

[...] as motivações de uso dos sistemas técnicos são crescentemente estranhas às lógicas locais e, mesmo, nacionais; e a importância da troca na sobrevivência do grupo também cresce. Como o êxito, nesse processo de comércio, depende, em grande parte, da presença de sistemas técnicos eficazes, estes acabam por ser cada vez mais presentes. A razão do comércio, e não a razão da natureza, é que preside à sua instalação. Em outras palavras, sua presença torna-se crescentemente indiferente às condições preexistentes.

A indiferença às condições preexistentes na consolidação do meio técnico no Triângulo Mineiro, no final do século XIX, pode ser explicada pelas diferenças das estruturas modernizantes do território ao longo do tempo, que

120 são dadas em resposta às novas necessidades da sociedade. Conforme Santos (1985, p. 32):

As novas atividades beneficiam-se com as novas possibilidades, porém a modernização local pode representar simplesmente a adaptação de atividades já existentes a um novo grau de modernismo. Sem dúvida, combinações diferentes são possíveis entre estas duas hipóteses. O fato de que a cada momento nem todos os lugares são capazes de receber todas as modernizações explica por que: 1) certos espaços não são objetos de todas as modernizações; 2) existem demoras, defasagens, no aparecimento desta ou daquela variável moderna ou modernizante; e isto ocorre em diferentes escalas.

Os exemplos destacados por Soares (1988), listados anteriormente, materializam a presença de estruturas modernizantes no Triângulo Mineiro, as quais dotaram Uberlândia (MG) de novas técnicas e novas formas de produção e consumo, reorganizando o território, tornando-o mais adaptado à reprodução do sistema capitalista. O avanço do meio técnico e as especializações espaciais culminaram no desenvolvimento territorial desigual da região, uma vez que as cidades de Araguari (MG), Uberaba (MG) e Uberlândia (MG) foram as principais beneficiadas deste processo, ratificando a ideia apontada por Santos (1985).

Assim, romper com a precariedade e lentidão dos transportes tornou-se o principal desafio para transformar o Triângulo Mineiro em um espaço totalizante de produção e consumo. Entretanto, isso não foi possível para toda a região, pois os agentes transformadores do espaço atuaram diretamente sobre determinados centros urbanos, em detrimento de outros.

121 Nesse sentido, Guimarães (2010) indica que a presença de ferrovias56 em economias periféricas foi fundamental para viabilizar

intercâmbios comerciais e produtivos entre os principais mercados consumidores e produtores do país. Para ele, a ferrovia

[...] representava o advento do moderno, que rompia com as barreiras geográficas, encurtava o tempo de conexão e possibilitava a incorporação extensiva e intensiva do mercado. Onde a ferrovia tocava seus trilhos aumentava a renda da terra, estimulava as estruturas produtivas e expandia as relações comerciais, por meio de uma nova logística de integração no mercado. (GUIMARÃES, 2010, p. 60).

A inserção do meio técnico e a presença de estruturas modernizantes permitiu à Uberlândia (MG) sobrepor-se à hegemonia de Uberaba (MG) e criar condições para se consolidar como principal centro político e econômico do Triângulo Mineiro no século XX57.

Houve, a partir deste momento histórico, alterações nas dinâmicas socioeconômicas da região que resultaram em processos espaciais mais intensos, como a participação na divisão territorial do trabalho, o desenvolvimento econômico das cidades, o desenvolvimento agropecuário, o crescimento demográfico e o aumento no número de novos municípios. Diante desse contexto, serão discutidos a seguir os processos vinculados à criação de municípios no Triângulo Mineiro no período republicano.

56 A respeito da instalação e do papel desempenhando pela ferrovia na consolidação econômica do Triângulo Mineiro, confira: Brandão (1989), Soares (1988, 1995), Guimarães (1990, 1994, 2010), Matos (1990) e Monbeig (1998) e Araújo (2010). Lourenço (2010) também discute o papel da ferrovia no Triângulo Mineiro, entretanto, apresenta uma análise diferente dos autores anteriormente citados.

57 A respeito da importância regional de Uberlândia (MG), confira: Soares (1995, 1997), Oliveira (2008), Oliveira e Soares (2010) e Soares et al (2009, 2010).

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Capítulo 2

Triângulo

Mineiro:

formação

territorial

e

fragmentação de municípios no período da

República

As dinâmicas espaciais do Triângulo Mineiro no período da República foram marcadas pela inserção da região na economia nacional, através de sua participação na divisão territorial do trabalho, o que resultou na ocorrência de processos singulares, principalmente aqueles ligados à formação socioespacial, à criação de municípios e ao processo de urbanização da região.

Na primeira metade do século XX, as relações econômicas do Triângulo Mineiro eram pautadas nas atividades agropecuárias, o que implicou em região pouco urbanizada, com concentração das dinâmicas espaciais no campo. A partir dos projetos de integração nacional, os planos nacionais de desenvolvimento do governo federal e os investimentos na modernização agrícola, na segunda metade do século XX, a região se transformou e se urbanizou, inserindo-se, de forma permanente, no circulo econômico e produtivo brasileiro.

123 Os municípios e as cidades da MRG de Ituiutaba (MG) surgem, oficialmente, no período da República, quando as transformações econômicas e espaciais reestruturavam todo o Triângulo Mineiro. No entanto, o desenvolvimento econômico e urbano da MRG estudada estava aquém de outras áreas desta região. As cidades eram totalmente dependentes das atividades agropecuárias para sua dinamização econômica, com reduzido número de unidades industriais e limitado setor terciário, o que resultou nos menores indicadores econômicos de todo o Triângulo Mineiro.

Nesse sentido, pretende-se, neste capítulo, discutir o processo de formação territorial do Triângulo Mineiro, com ênfase nas dinâmicas espaciais e na formação de municípios. Não é possível analisar a MRG sem considerar as dinâmicas espaciais existentes no Triângulo Mineiro, seu processo de formação territorial e econômico.

2.1. Nos tempos do Triângulo Mineiro: formação territorial e

fragmentação de municípios a partir de 1889

Os municípios criados no Triângulo Mineiro a partir de 1889 surgiram em um contexto político brasileiro diferente do apresentado no primeiro capítulo deste trabalho, uma vez que naquele ano foi instituída a República Federativa Presidencialista Brasileira58 e destituída a monarquia constitucional parlamentarista do Império do Brasil. Com isso, estabeleceu-se o pacto federativo, que organizou o país na forma de uma federação baseada

58 A respeito da história política da república brasileira, confira: Lapa (1990). A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1891 está disponível em:

124 em três esferas de poder: municipal, estadual e federal. Segundo Castro (2005, p. 164), o pacto federativo é:

[...] por definição, um acordo de base territorial no qual grupos localizados em diferentes partes de um território organizam-se em busca da harmonização entre suas demandas particulares e os interesses gerais da sociedade que eles têm por objetivo constituir. Por se tratar de acomodação de diferenças, há, portanto, uma constante tensão nesse pacto, cabendo aos arranjos institucionais organizar os interesses e controlar os conflitos.

De acordo com Cigolini (2009), para compreender a criação de municípios sob o regime político republicano brasileiro faz-se necessário dividi- lo em períodos, pois cada um deles resultou em diferentes práticas sobre o território, além de gerar um novo texto constitucional; são eles: República Velha (1889-1930); Período Vargas (1930-1945); República Nova (1945- 1964); Regime Militar (1964-1985); e Nova República (a partir de 1985). Para o autor, o interesse pela criação de municípios no Brasil é um fenômeno político-administrativo que ultrapassa a normatização constitucional.

No período da República Velha, Cigolini (2009), destaca que:

[...] a criação de municípios foi amplamente associada à dinâmica de ocupação do território. Isso mostra que a formação da densidade requer a criação de territórios, não se tratando então apenas do território como espaço econômico ou de poder, mas de um espaço que abrange simultaneamente todos os aspectos que resultam da existência de agrupamentos humanos. (CIGOLINI, 2009, p. 153).

No Triângulo Mineiro essa dinâmica não foi diferente, pois os municípios criados até a Proclamação da República eram extensos, o que poderia colocar em xeque os ideais republicanos. É nesse contexto que surge

125 o município de Ituiutaba (MG). Enquanto o eixo formado pelas cidades de Araguari (MG), Uberlândia (MG) e Uberaba (MG) tornava-se, a partir do final do século XIX, o espaço mais propício no Triângulo Mineiro para os avanços das técnicas e possibilidades de modernização, surgia na porção oeste desta região o município de Ituiutaba (MG), em 1901.

Segundo Barbosa (1995), o início da ocupação de Ituiutaba (MG) data de 1820, quando foi iniciada a construção da primeira capela dedicada a São José do Tijuco; entretanto, sua criação oficial ocorreu somente em 1839, quando o povoado de São José do Tijuco (MG) foi elevado à condição de distrito, pela lei provincial nº 138, de 03 de abril de 1839, subordinado ao município de Prata (MG). Em 16 de setembro de 1901, foi desmembrado e categorizado como vila, com a denominação de Vila Platina (MG), tornando-se um município independente (Mapa 24), através da lei estadual nº 319, com sede municipal localizada no mesmo local do arraial de São José do Tijuco (MG). A vila foi elevada à condição de cidade no ano de 1915, recebendo o nome de Ituiutaba (MG), conforme a lei estadual nº 663, de 18 de setembro59.

59 No capítulo 03 deste trabalho serão apresentados os detalhes sobre a formação socioespacial do município de Ituiutaba (MG).

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