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1. Introduction

1.1 Polyps and cancer

A memória se ilumina na parábola dos tempos

Paulina Chiziane Não se pode negar o lugar de destaque do herói no campo psíquico e emocional de qualquer indivíduo. Seja um ente familiar, um professor, um líder religioso ou político, construímos, muitas vezes de forma inconsciente, um arquétipo heroico que direciona o percurso de nossas ações ou, sob um olhar menos pretensioso, auxilia na formação dos níveis da psique desenhados na memória. Se o papel da personagem heroica é significativo na memória e nas ações individuais, o seu papel torna-se imprescindível na vida social e na formação da identidade coletiva.

Em diversos momentos na história da humanidade, o poder político apropriou-se de figuras míticas e históricas para construir uma ideia de unidade nacional ilustrada na memória coletiva. O que se entende por memória coletiva passou, ao longo dos tempos, por transformações profundas na transição de história oral à história escrita e em virtude dos avanços da tecnologia, da globalização e do capitalismo. Mas em todas as épocas, a memória coletiva representou a identidade do coletivo a partir de eventos dos tempos primordiais.

Não se pode esquecer os denominadores ou criadores da memória coletiva. Transcrevendo Pierre Nora, Jacques Le Goff ressalta quem são eles: “Estados, meios sociais e políticos, comunidades de experiências históricas ou de gerações, levadas a constituir os seus arquivos em função dos usos diferentes que fazem da memória” (LE GOFF, 2006, p. 467). Assim, não apenas as ações das personagens históricas fazem parte da memória de um povo, mas também os interesses da classe dominante são substanciais na veneração de certo herói histórico. Os heróis retratados nas narrativas de

As Andorinhas, por exemplo, estão inscritos em um contexto literário que se associa a

uma perspectiva popular, no entanto, entre estes estão duas personalidades sucessivamente utilizadas na constituição da identidade moçambicana, fortalecida a partir dos anos sessenta com o surgimento da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique).

Embora a imagem do herói nacional seja por diversas vezes utilizada pelas elites, há uma função nas figuras heroicas que ultrapassa os interesses das classes hegemônicas. Cristiano Matsinhe em “Biografias e heróis no imaginário nacionalista moçambicano”, ao pesquisar diversas biografias e autobiografias de Samora Machel e Eduardo Mondlane, verifica que sempre se procurou apresentá-los “como homens incomuns, na medida em que se viram ou foram vistos como predestinados” (MATSINHE, 2001, p. 222). As narrativas biográficas mostram que esses heróis moçambicanos eram agraciados por uma sensibilidade divina desde a infância ou foram apresentados “com sinais indicativos de que um dia seriam grandes líderes”. (MATSINHE, 2001, p. 222).

Similarmente, Fernando Bessa Ribeiro no artigo “A invenção dos heróis: Nação, história e discursos de identidade em Moçambique” afirma o interesse dos detentores do poder político e das lutas político-sociais ao enaltecer figuras históricas como Ngungunhane e Eduardo Mondlane. Não obstante, o autor avalia que “a autonomia dos

construtores dos heróis é sempre relativa, não podendo escapar aos constrangimentos da história, ainda que esta esteja também sujeita a uma permanente (re)interpretação.” (RIBEIRO, 2005, p. 273). Assim, mesmo construída em interesses recorrentes e padrões comuns, a figura heroica não faz parte de uma estrutura fechada, mas apresenta múltiplas relações com o contexto histórico e funções diversas na sociedade.

No caso de Moçambique, fica evidente que a construção dos heróis foi um processo “fortemente enraizado na história e nas lutas políticas e sociais” (RIBEIRO 2005, p. 257) Duas forças histórico-sociais auxiliaram na construção e valorização do herói nacional moderno: a resistência ao colonialismo e a criação da identidade moçambicana. O primeiro elemento recusou a coerção física e o controle geográfico, mas também, rechaçou o domínio ideológico do colonizador. A pertinência do rechaço se dava porque havia, de fato, um interesse colonialista em converter a população local à cultura europeia e subordinar ¨a maior parte da população negra às próprias demandas frente ao sistema capitalista colonial” (MATSINHE, 2001, p. 183). No período das lutas de libertação, Portugal utilizou uma política de subversão no campo psicossocial para desestruturar o discurso dos guerrilheiros. José Luis Cabaço discorre sobre três alvos da Ação Psicológica das Forças Armadas Portuguesas:

O principal, conquistar a simpatia e a adesão das populações (“os corações e as mentes”); o segundo, desmoralizar os militantes e os guerrilheiros, diminuindo a sua capacidade combativa; por último, actuar sobre as próprias tropas por forma a incentivar sua disponibilidade operacional. (CABAÇO, 2009, p. 246)

O movimento de libertação, em contrapartida, precisava, no campo ideológico, agregar todos os povos de Moçambique ao sentimento de pertencimento a uma identidade única. Esta será construída a partir do próprio colonialismo. Eduardo Mondlane explica o processo de construção identitária na obra Lutar por Moçambique:

A fonte da unidade nacional é o sofrimento comum durante os últimos cinquenta anos sob o domínio português. O movimento nacionalista não surgiu em uma comunidade estável, historicamente com uma unidade linguística, territorial, econômica e cultural. Em Moçambique foi a dominação colonial que deu origem à comunidade territorial e criou as bases para uma coerência psicológica, fundada na experiência da discriminação, exploração, trabalho forçado e outros aspectos da dominação colonial (MONDLANE, 1995, p. 87)

Para que este movimento de unidade pudesse se concretizar, era necessário que se confrontasse culturalmente as ideias velhas e, segundo Samora Machel, cortasse o “cordão umbilical da sociedade colonial” (MACHEL, 1974, p.64), afinal, tudo que estava vinculado ao passado de dominação colonial deveria ser combatido. Portanto, a experiência da opressão colonial foi decisiva na construção de uma identidade nacional e na valorização de personalidades históricas que participaram ou no processo de resistência ao colonialismo ou na luta contra o a dominação portuguesa.