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Part 2: Comparison of DNA extraction kits

2. Materials and Methods

2.2. Methods

2.2.2. Part 2: Comparison of DNA extraction kits

Tudo começa, cresce, termina e regressa com vida nova. O amanhã que caduca também se renova

Paulina Chiziane Se nos interessa encontrar a influência do mito nos motivos literários, é necessário analisar a questão do tempo de maneira relevante à interpretação dos contos de Paulina Chiziane. Daí a importância da concepção de eternidade. O determinante do tempo é o presente, pois este é constante e ilustra o sentido de eternidade. Como veremos, este se encontra fora dos contextos culturais e históricos, pois o conceito de eternidade pode ser alcançado e compreendido no espírito humano apenas por pensar sobre a questão.

Dentro da filosofia moderna, a teoria compreendida como a mais elevada do filósofo Friedrich Nietzsche é a doutrina do eterno retorno. O filósofo comenta a sua gênese na sobrecapa da obra Assim falou Zaratustra9:

A concepção fundamental da obra, o pensamento do eterno retorno, a mais elevada forma de afirmação que se pode em absoluto alcançar, é de agosto de 1881: foi lançado em uma página com o subescrito: “seis mil pés acima do homem e do tempo”. (NIETZSCHE, 2011, sobrecapa)

Suscintamente, a teoria do eterno retorno prega que tudo o que já aconteceu no universo em algum momento da eternidade se repetirá, ou seja, tudo o que acontece no presente, já ocorreu e ocorrerá novamente inúmeras vezes na mesma ordem, sequência e com os mesmos detalhes. Esta ideia aparece embrionária nos escritos iniciais do filósofo, mas é na obra A gaia ciência, de 1882, que Nietzsche lança esta teoria de

forma clara e, posteriormente, nos livros que compõem Assim falou Zaratustra. Rica em discursos e diálogos filosóficos, a obra apresenta como protagonista uma personalidade histórica, Zaratustra (Zoroastro no grego), que viveu na Pérsia, atual Irã, entre os séculos XII e VI a. C. Nietzsche explica o porquê da escolha da personagem histórica:

Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a roda motriz na engrenagem das coisas – a transposição da moral para o plano metafísico, como força, causa, fim em si, é obra sua. [...] [Ele] criou esse mais fatal dos erros, a moral; em consequência, deve ser também o primeiro a reconhecê-lo. (NIETZSCHE, 2011, p. 339)

Zaratustra, herói da obra nietzschiana, decide abandonar, aos trinta anos, a vida em sociedade e passa a viver isolado nas montanhas em companhia de uma águia e uma serpente. Após dez anos, volta a conviver com os outros homens, mas retorna à vida de sua caverna mais tarde. No final da última parte, após libertar-se da compaixão pelo

homem superior, a personagem deixa novamente “sua caverna, ardente e forte como o

sol matinal que surge por trás de escuras montanhas”, (NIETZSCHE, 2011, p. 331) formando um círculo temporal em sua sina na busca por um saber profundo.

No adiantado da obra, no subtítulo “Da visão e do enigmático”, o herói começa a alcançar, ainda que de forma enigmática e obscura, a ideia de um eterno retorno. Porém, este pensamento só se concretiza de volta à sua caverna, na ocasião em que Zaratustra invoca de dentro de si o pensamento mais profundo, ocasionando-lhe uma convalescência de sete dias. Ao recobrar os sentidos, os animais da montanha estão à volta do pensador e explicam a doutrina do eterno retorno:

– ‘Ó Zaratustra’, disseram então os animais, ‘para os que pensam como nós, as próprias coisas dançam: vêm, dão-se as mãos, riem, fogem – e retornam.

Tudo vem, tudo retorna; rola eternamente a roda do ser.

Tudo morre, tudo volta a florescer, corre eternamente o ano do ser. Tudo rompe, tudo é novamente ajeitado; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se despede, tudo volta a se saudar; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser.

Em cada instante começa o ser; em redor de todo Aqui rola a esfera Ali. O centro está em toda a parte. Curva é a trilha da eternidade’ (NIETZSCHE, 2011, pp. 208/209)

Nota-se duas esferas temporais complementares no discurso dos animais: a primeira é como um pêndulo que ora vem, ora retorna, ora morre, ora floresce, ora rompe, ora ajeita. A segunda é relativa à curva trilha da eternidade. Esta é a essência do

eterno retorno. Concepção muito próxima ao pensamento oriental e clássico, o tempo é constituído de círculos menores e maiores. Entre os menores estão os ciclos do dia e da noite, das estações lunares, das estações do ano. Mas, se aumentamos a circunferência e atingimos o mais longo dos ciclos, alcançaremos a eternidade. Na experiência humana concreta, pode ser alcançada apenas intelectualmente. Neste grande ciclo eterno, Zaratustra explica que os acontecimentos podem se repetir de forma idêntica. Ele diz:

Agora morro e desapareço, falarias, e num instante serei nada. As almas são tão mortais quanto os corpos.

Mas o nó de causas em que estou emaranhado retornará – ele me criará novamente! Eu próprio estou entre as causas do eterno retorno. Eu retornarei, com este sol, com esta terra, com esta águia, com esta serpente - não para uma vida nova ou uma vida melhor ou uma vida semelhante:

– Retornarei eternamente para esta mesma e idêntica vida, nas coisas maiores e também menores, para novamente ensinar o eterno retorno de todas as coisas (NIETZSCHE, 2011, p. 212)

Sem atribuir juízos de valor à doutrina nietzschiana do Eterno Retorno, entende- se que se o agora já ocorreu e ocorrerá infinitas vezes na trilha da eternidade, nele também se concentra todo o círculo da eternidade. Nesta instância filosófica, o tempo é estático e o valor do lócus histórico é reduzido se comparado ao tempo da intangibilidade eterna.

Porém, se o tempo da história humana é regido pelo tempo cronológico, isto é, o tempo marcado pelos minutos, horas, dias e anos, é necessário alcançar outro “espaço” lógico para depreender o tempo da eternidade. Por conta da finitude da vida humana e sendo um tempo abstrato ao intelecto, o tempo da eternidade é interpretado, em grande parte das culturas, pelo universo místico e transcendente. Na mitologia bíblica, por exemplo, Deus se apresenta aos homens sobreviventes do Juízo Final como “Alfa e Ômega, o princípio e o fim.” (Apocalipse 21:6). Assim, na glória espiritual, os

malefícios do tempo histórico são abolidos. No estado da eternidade, Deus e os homens habitarão juntos em “novo céu e nova terra”.

Semelhante a Zaratustra que exercita o intelecto até atingir o transcendente tempo da eternidade, em diversas tradições, ele pode ser alcançado por intermédio de rituais e símbolos que propiciam o escape do tempo concreto. Este é o caso da yowa, um ideograma traçado no chão em formato de cruz entre o povo congo. Clyde W. Ford explica que o símbolo é “anterior à introdução do cristianismo na África Central [e], é o

elemento principal do juramento e de certos rituais de iniciação.” (FORD, 1999, p. 268). Desenha-se nas pontas de cada braço da cruz discos solares e setas que indicam um sentido anti-horário. Sem desprender-se da concepção do tempo circular da natureza, Busenki10 interpreta a simbologia no ato do sacerdote:

[Ele] utilizava o sol a fim de expor seu conhecimento [aos principiantes reunidos] sobre a terra e a vida do homem, seguindo o curso do sol à volta da terra e assinalando, assim, as quatro fases que constituem o ciclo de vida do homem:

- nascente, princípio, nascimento ou novo desenvolvimento [direita, leste];

- ascendente, maturidade, responsabilidade [alto, norte]; - poente, transmissão, morte, transformação [esquerda, poente]

- meia-noite, existência no outro mundo, renascimento eventual [embaixo, sul] (FORD, 1999, p. 269)

Na representação ritualística, inscreve-se o tempo sensível à experiência do homem na natureza. Entretanto, dentro do diagrama circular, desenha-se uma elipse central no entrecruzamento das retas que “representa as águas míticas de Kalunga11 separando os dois mundos”. (FORD, 1999, p. 269). Já no centro da elipse, encontra-se o ponto de cruzamento das linhas perpendiculares. A obra de Ford explica que esta marca representa “o ponto do Absoluto, da eternidade – representação simbólica da fonte do mistério transcendente antes de se manifestar no mundo conhecido.” (FORD, 1999, p. 271).

Neste ritual bacongo, é necessário que o iniciado medite profundamente sobre o ponto central na busca de uma abertura de consciência e recepção do poder proveniente do contato entre os mundos divino e humano. Isto indica que duas lógicas temporais são compreendidas na prática bacongo: a primeira refere-se ao tempo circular da experiência do homem na natureza; a segunda é alcançada a partir da experiência do espírito e compreendida como o tempo da eternidade e, portanto, da transcendência intelectual. As duas perspectivas temporais, isto é, do tempo cronológico e do tempo da eternidade, não são incongruentes no ritual. As duas lógicas auxiliam na compreensão de mundo e na graduação do iniciado. Assim como na teoria do eterno retorno de Nietzsche, há uma valorização do tempo da eternidade como sendo o mais alto grau de

10 Autor citado em MacGaffey, Modern Kongo Prophets, p. 128 e 138

11 Ford explica o significado do termo: “Kalunga é a denominação do mar infinito da cosmologia congo, a

elipse no diagrama, e é o termo usado para descrever a terra dos mortos, para qual o mar é tanto uma barreira quanto uma via de passagem. Kalunga é também a fronteira atravessada pelos escravos capturados que partiam na Travessia, e a terra para onde viajou Sudika-mbambi, o herói-mirim ambundu, a fim de enfrentar a morte e ser ressuscitado depois por seu irmão gêmeo.” (FORD, 1999, pp. 269/270)

compreensão do intelecto humano. Sabendo que esta experiência temporal é significativa não só na obra As andorinhas, mas nas mais diversas culturas e mitologias, como é possível apreender o tempo da eternidade dentro da experiência cronológica e qual o valor dela na configuração do arquétipo heroico?