• No results found

[u]m poeta pode meter-se nas vestes do historiador, de modo que seu próprio texto não permita mais qualquer determinação de limites, que ele eventualmente procura disfarçar. Pode servir-se de fontes autênticas ou fingidas. Ao fim e ao cabo, pode dar melhores informações sobre as situações ou conflitos históricos do que um historiador jamais conseguiria dar.

Para o historiador alemão Reinhart Koselleck (2006), tanto o texto histórico quanto o texto ficcional apresenta estreitos limites entre a verdade e a imaginação. Discutindo a oposição retórica ―entre a poesia que finge e a história que relata‖, Koselleck acrescenta ainda que o historiador logo se viu forçado a construir com arte sua história, a dar-lhe fundamentos morais e racionais. Para isso, o historiador passou a depender dos recursos da ficção do mesmo modo que o ficcionista passou a nutrir-se do contexto para revestir sua imaginação.

A partir desse postulado, entende-se que a realidade possui a sua ficcionalidade assim como a ficção possui a sua realidade. Através desse dinamismo, Lúcia Miguel Pereira cria certo sentimento de verdade em seu legado romanesco. Em

Amanhecer, a observação dos elementos oferecidos pela realidade e a imaginação da autora, vão, dialeticamente, organizando a estrutura interna da obra. Nela, o modo de pensar e de agir das personagens, sutilmente, provoca-nos reflexões mais amplas que aproximam a história do fenômeno literário.

Um mergulho no emaranhado do texto permite aclarar a questão. A presença de uma mansão, a melhor casa de São José, segundo as observações da protagonista que a chama de a ‗Casa Verde‘. Nela, havia ocorrido, anos atrás, o suicídio de uma jovem após descobrir que seu marido era o pai do homem que ela amava, desde momentos anteriores ao casamento. Assim, a mansão ―não só era a propriedade mais importante de São José, como tinha uma história romântica‖ (PEREIRA, 1938, p. 08), explica a narradora. Nisso, aquele local e os acontecimentos ocorridos ali encerram fundamental importância na condução do enredo da narrativa.

Oscilando a religiosidade através da crença em sua madrinha Nossa Senhora da Aparecida e o misticismo em acreditar ser a ‗morta da casa verde‘ como era chamada por Aparecida, também sua protetora, a protagonista acredita que seu futuro e a realização de suas aspirações estavam ligados à casa verde. Preenchia seu tempo em imaginar situações românticas, que viriam a partir daquela casa ―o meu noivo seria o moço da Casa Verde, estudante de medicina, e eu teria criadas, vestidos bonitos, leria romances sentada numa poltrona‖ (PEREIRA, 1938, p. 08).

Também Aparecida acreditava que viria uma mocinha que se tornaria sua grande companheira, ―e depois apareceria o seu irmão, que se apaixonaria por mim; e eu me casaria, e iria morar no Rio, numa casa cheia de cortinas e tapetes. Mais bonita que a Casa Verde‖ (PEREIRA, 1938, p. 06). Segundo ela mesma, a ‗salvação‘ viria pela família da Casa Verde. De fato, as eventuais mudanças ocorridas em sua vida

decorreram da vinda de uma família do Rio de Janeiro que se instalou na referida casa. No plano da imaginação da protagonista tudo se daria com perfeição, ela alcançaria os seus desejos nos modos burgueses. Para Cristina Ferreira Pinto,

a necessidade de identificar-se com algo fora da realidade dos pais faz com que Aparecida situe imediatamente as novas personagens no mundo da fantasia. A diferença, a oposição, é assim bem clara: realidade: casa dos pais, cidadezinha x fantasia: Casa Verde, mundo exterior. Este é então o mundo do desejo, realizado na imaginação (PINTO, 1990, p. 52).

Como uma heroína romântica, no plano da imaginação tudo era perfeito, e Aparecida aspirava a sua plena realização através da nova família que se instalaria na Casa Verde. E as mudanças aconteceram, porém não se pode afirmar que tenham sido na direção esperada pela protagonista. A família agregada na casa verde era composta por pai, mãe e uma filha com as características imaginadas por Aparecida. Ela se tornou uma grande companheira, porém tinha idéias bastante diferentes da sua. Conforme Luís Bueno, Sônia ―é uma espécie de oposto perfeito dela: rica e ‗moderna‘, em tudo alheia aos anseios de Aparecida‖ (BUENO, 2006, p. 513). A protagonista encontra aqui uma primeira frustração. Ela se identificava melhor com a mãe de Sônia, sobretudo pelo seguimento dos protocolos da moral patriarcal e pela crença na religião.

Outro impasse criado a partir da Casa Verde que fragiliza as aspirações da protagonista diz respeito à ação efetiva do sobrinho da família sobre o lado afetivo e intelectual. Diferentemente do que imaginou a protagonista, Antônio não era o irmão da mocinha que conhecera, mas primo, tampouco seria o príncipe encantado com quem concretizaria o seu projeto de um casamento por amor, cujo resultado seria a maternidade. É ele o principal mentor das mudanças intelectuais pelas quais passa a protagonista. Aliás, a mudança se dá, não na ordem das idéias porque ela não passa a desejar uma situação diferente, mas ocorre no plano da prática, ela não termina com um casamento por amor, como desejava, porém numa condição indefinida, nem na condição de prostituta, nem de esposa. Luís Bueno (2006) relata que o que há é uma total descrença em que a religião não é substituída por outra, nem mesmo por uma fé política. Se Maria Aparecida termina mesmo descrente de sua religião, parece ambígua a postura da mesma quando na última frase da obra questiona sobre seu destino intercedendo a Nossa Senhora da Aparecida, sua madrinha, como ela mesma considera.

Com essa atitude, mesmo contrariando a opinião da própria protagonista parece que a religiosidade é o que resiste, fortalece e dá esperança à protagonista.

Do lado afetivo, Antônio, na imaginação da heroína de Amanhecer, era exatamente o que esperava. ―Antônio era para mim uma novidade completa, um mundo novo. Fascinava-me. Não me fartava de olhá-lo. E cada vez achava mais estranha, mais misteriosa a sua semelhança com o herói do drama da Casa Verde‖ (PEREIRA, 1938, p. 58). Porém, as idéias incutidas nela sobre o amor livre, a liberdade feminina, a maternidade consciente, o aborto, a monogamia contrária à natureza do ser humano eram teorias que negaria os princípios da educação tradicional que Aparecida procurava negar, mas que, ironicamente, no fundo, desejava para si. É ela mesma que, decorridos dois anos de relacionamento com Antônio, resolve contar, através da escrita do livro de suas memórias, a distinção dos dois Antônios: o de agora e aquele que se revelou no dia em que se conheceram.

Não haveria duas horas que eu conhecera Antônio, e já me sentia ligada a ele. Desde esse momento lhe pertenci, num encantamento, como hoje, desencantada, lhe pertenço. Como o Antônio daquela noite inesquecível, o Antônio que me pareceu a vitória da vida sobre a morte, o Antônio cheio de mistério e de promessas, é diferente do que agora espero todos os dias, inquieta e humilde... Naquela noite, ao contrário, a impressão que ele me comunicou foi de segurança. De confiança na vida. De confiança em mim (PEREIRA, 1938, p. 59).

O discurso da protagonista critica o que apontamos páginas atrás sobre a parcialidade das idéias de Antônio para resolver a vida da mulher naquele contexto. A princípio, elas despertaram esperanças tanto no leitor quanto na protagonista de mudanças na direção esperada por esta última. Entretanto, após experimentar a prática daquelas, Aparecida evidencia o desencanto que não a fez mais feliz. O que resta dela no final da história é uma menina com apenas vinte anos, desencantada da existência humana e do papel social feminino resultando-se escrava de um homem e submissa a seus próprios sentimentos. Luís Bueno constata bem que ―a grande transformação por que passa Aparecida só fica visível no confronto entre essa moça de dezoito anos e a outra, dois anos mais velha, que narra sua própria história‖ (BUENO, 2006, p. 515- 516). Bueno destaca ainda a presença de duas Aparecidas: uma que vive os fatos, que ainda possui crenças e esperanças, e aquela do final, que conta a história, totalmente desencantada da sua existência. Assim, ela finaliza o capítulo V dizendo:

eu não imaginava que Deus me tivesse posto no mundo só para comer e dormir. Apesar de tudo, eu ainda esperava que alguma coisa se passaria, pensava que um destino me fora traçado, muito cheio de acontecimentos. Traçado por Deus que, a despeito das minhas fraquezas, de Antônio, velava por mim e me levaria ao caminho, nem que fosse por linhas tortas. Não sabia que a vida é uma longa, longa espera, sem nada no fim. Hoje sei... (PEREIRA, 1938, p. 98).

Esse desabafo da protagonista pode ser relacionado aos sentimentos de muitas mulheres denotando o teor de desilusão e pessimismo em que a personagem se encontra no final da narrativa e no qual algumas mulheres passam a sua trajetória de vida. Construído sobre ambiguidades e paradoxos, o desfecho da história também faz com que o leitor cultive uma sensação de repúdio ao ‗mentor‘ das transformações passadas pela protagonista, já que torce por seu final feliz. No plano didático, a desilusão da personagem central pode ser interpretada, de modo geral, como o desencanto das mulheres com a inserção social feminina no mundo do trabalho e ainda do trato dado pela sociedade moderna para a família. É preciso destacar também que alguns avanços encontrados naqueles tempos não se aplicavam às mulheres das classes baixas, como é o caso de Aparecida.

Se todas essas mudanças operacionalizadas mantêm alguma relação com a casa verde, resta-nos constatar a relevância dela para a narrativa. É dela e por ela que passa a maioria das ações da trama. Nesse sentido, ela figura não apenas como espaço físico, mas praticamente como personagem, inclusive sendo identificada com letras maiúsculas, um instrumento de crítica através do qual será filtrado o comportamento de cada um. Pensando então que, na ficção de Lúcia Miguel, as correspondências com os sucessos históricos não figuram apenas como informes, mas como estrutura integrante da imanência do texto importante para tecer o fio narrativo merece relacionar o sentido adquirido pelo adjetivo ―verde‖ no contexto do qual estamos falando. Tendo em vistas as aspirações da personagem, e genericamente, das mulheres ainda nos anos 30, facilmente o termo seria interpretado com um significado de ‗esperança‘. Cabe aqui também essa significação já que Maria Aparecida atribui à Casa Verde toda a esperança em alcançar uma vida diferente daquela vivida por sua mãe e pelas outras mulheres de São José. Para ela, a chegada da família naquela mansão seria um convite ―para a vida, para alguma coisa que ia acontecer, que não podia deixar de acontecer, e que estava misteriosamente ligada à família da Casa Verde‖ (PEREIRA, 1938, p. 07). Por um lado, as transformações pelas quais passou a vida, não somente de

Aparecida, mas também de Sônia apresentam íntima relação com a existência da Casa Verde.

Por isso, o seu significado na trama é tão intenso que afeta, além da protagonista, outros personagens como é o caso de Sônia. Esta, ao voltar do Rio de Janeiro, após o carnaval, passa a sofrer delírios em consequência da realização de um aborto, e lá, na Casa Verde, imagina que a ‗morta‘ viria para buscá-la. Passados os delírios, Sônia transforma-se em outra mulher. Passa a refletir mais no estilo de vida desregrada que levava e nas teorias de Antônio passando a ver nisso tudo uma forma de perdição. Então, busca se purificar através da religião, entrando, quando retorna ao Rio de Janeiro, para o convento.

Convém esclarecer que, a nosso ver, não é sem propósito a utilização do adjetivo ‗verde‘ para qualificar a casa que imprime tanta importância na vida das personagens. Maria Aparecida é nutrida pela esperança nas transformações de sua vida em direção a seus propósitos que, segundo ela, viria a partir daquela Casa. De modo alegórico, como vimos falando do mecanismo da autora de chamar a atenção para as mudanças pelas quais precisavam passar as mulheres e a sociedade de modo geral, cabe, na narrativa, um elemento que alimente essa esperança na protagonista.

Como vimos interpretando, narrador, personagens outras, espaço e os outros elementos internos da ficção de Lúcia são utilizados como estratégias para que a própria autora se posicione diante dos modos de pensar e de agir da sociedade daqueles tempos. Evidenciando, mais uma vez, a criticidade existente em seus escritos, vale anotar o esclarecimento de Antonio Candido quando sugere que Lúcia rejeita a política integralista, contudo a mesma

vê o integralismo como partido que tinha o mérito de se organizar em torno de idéias e convicções definidas, rejeita a sua política, é resolutamente antifacista e não aceita o centralismo autoritário, convencida de que no Brasil só a democracia federativa, atenta à diversidade do país, pode funcionar bem (CANDIDO, 2004, p. 131).

Neste ponto, é perceptível que a autora trata a questão ideológica com muita sutileza, sobretudo quando se protege declarando não ser seguidora de nenhum credo religioso, político ou de movimentos como o feminismo, como destacamos no capítulo I. Também vale anotar que, na data da publicação de Amanhecer, o partido integralista já havia se desintegrado, ficando apenas traços de sua ideologia que a facção de direita havia assumido para si. Por isso também, não caberia se assumir como

integrante de um partido que não mais existia. Ademais, na direção apontada por Antonio Candido, percebe-se que Lúcia faz críticas a qualquer forma de predileção ideológica, o que reitera o seu engajamento, a sua preocupação com o papel da literatura, materializando, na ficção, a transformação do social em elemento interno.