[E]stamos diante de um romance emblemático do fecho da década.
Luís Bueno Para Antonio Candido (2000), o contexto trabalhado artisticamente a fim de compor a matéria-prima para o construto ficcional permite ao artista influenciar em maior ou em menor grau o público leitor. Veremos que essa influência apontada pelo crítico se configura como o fator didático atribuído por Cristina Ferreira Pinto (1990) ao romance de formação.
Diante da constatação, é válido reiterar o condicionamento ao contexto histórico que caracteriza a escrita de Lúcia Miguel Pereira e, sobretudo em Amanhecer, procuraremos mostrar como se dá a ligação da arte com o social para a revelação das frustrações femininas, sobretudo da personagem Maria Aparecida. Apontando o caso da educação de Aparecida no colégio de freiras, momento que revela os primeiros sintomas do inconformismo da protagonista com a sua realidade, é necessário destacar que a mesma, privada de alguns privilégios das meninas ricas, pensa em dedicar-se ao convento como havia feito a tia materna, e assim também havia desejado a sua mãe. Cristina Ferreira Pinto esclarece que ―ser freira representava, naquela sociedade, uma das únicas alternativas abertas para a mulher, além do casamento e do ‗estigma‘ de ser solteira‖ (PINTO, 1990, p. 48).
A presença de Antônio é para Aparecida uma possibilidade de casamento, o que, significava um status social mais elevado. Contudo, vale lembrar que, no presente da enunciação, poucas eram as alternativas para uma mulher pobre. Diante das opções que a protagonista contata, ela pretende aquela que provavelmente seria o destino das moças ricas com quem convivia no colégio, o casamento. Mas, de modo crítico, a narrativa não apresenta esse final esperado pela protagonista, talvez porque, para aquele momento, como confirma Rachel Soihet, ―a vida familiar destinava-se, especialmente, às mulheres das camadas mais elevadas da sociedade, para as quais se fomentavam as aspirações ao casamento e filhos, cabendo-lhes desempenhar um papel tradicional e restrito‖ (SOIHET, 1997, p. 368).
Nos comportamentos de Antônio e de Maria Aparecida são vistas distintas formas de entender a importância dada ao casamento e à virgindade. Constata Antônio: ―Preconceito burguês, a noção de honra feminina. O prazer é desfrutado tanto
pela moça como pelo rapaz; não há culpa para aquela nem responsabilidade para este. Deviam ser dois parceiros, não emprestando gravidade a coisas que não a tinham‖ (PEREIRA, 1938, p. 70). Mais uma vez, a ficção critica a inconsistência de algumas em detrimento das práticas de Antônio, pois Aparecida salienta que, apesar de manter uma união ‗livre‘ com este, ele se sentia incomodado cada vez que ela conversava com seus amigos, o que revela a necessidade do domínio dele sobre a relação e sobre ela mesma. Vê-se que as grandes aspirações de Aparecida, o casamento e a maternidade, são frustradas, pois, a pretexto das ideologias de Antônio, como destaca esta própria personagem não podia se casar com ela, o casamento contratual era contra as suas idéias.
Ao longo da trama, a protagonista dá indícios de que nem mesmo Antônio acredita nas ideologias que segue. É ela mesma quem comenta: ―todas as suas teorias sobre o amor livre se resumem, na prática, num ciúme de marido patriarcal. Conheço bem o olhar de desconfiança com que me recebe, quando, por acaso, eu me atraso um pouco‖ (PEREIRA, 1938, p. 225). Neste ponto, Antônio não oficializa o casamento com Aparecida, mas a mantém presa a si, do mesmo modo que os casamentos tradicionais aprisionam as mulheres. Se Antônio põe em destaque a contradição entre as teorias e as práticas comunistas, o texto de ficção também poderia contradizer o discurso hegemônico e dar um final ‗burguês‘ a uma menina pobre, mas não o faz para criticar, a nosso ver, a trajetória da vida feminina naquela sociedade.
Do lado da história, Rachel Soihet (1997) avança no sentido de mostrar que às moças brancas, mas pobres restavam os concubinatos, já que estas não possuíam sobrenomes, nem dotes a oferecer. Na ficção, diante do sentimento nutrido por Antônio, Aparecida vê-se cativa diante da condição em que se encontrava e acrescenta, ―e eu que timbro em dizer que sou inteiramente livre, gosto tanto, tanto de sabê-lo ciumento... mulher nasceu mesmo para escrava‖ (PEREIRA, 1938, p. 225). A conclusão a que chega revela a total entrega em que se depara a narradora de Amanhecer. Mesmo trazendo um sentimento de desilusão confessa que aspirava a ―uma existência normal... si ao menos eu pudesse ter um filho, creio que me sentiria mais tranqüila; mas Antônio não me pode nem ouvir falar nisso. Entretanto, eu precisaria encher este vazio imenso que há dentro de mim (PEREIRA, 1938, p. 227).
Além de Maria Aparecida, Antônio também parece não se realizar com a sua própria existência já que se priva de muitas coisas em função da filosofia de vida que carrega consigo. Segundo Aparecida, ele mesmo gostaria de uma vida mais normal,
de ser homem como os outros. ―O que ainda não sei é si o que impede de ser como toda a gente é realmente o apelo de um ideal, ou a imagem que se construiu do tipo do reformador social, à qual procura adaptar-se‖ (PEREIRA, 1938, p. 228). Como um dos propósitos da obra é colocar em discussão o papel social feminino, a narradora- protagonista, por portar uma índole moldada dentro dos parâmetros patriarcais, acha essa vida ‗anormal‘ e salienta os desejos de uma vida ‗normal‘.Essa normalidade a que se refere Maria Aparecida deve ser interpretada como o seguimento às regras tradicionais. Como vimos reiterando a relevância do contexto para a composição desses textos de ficção, sobretudo para dar o aspecto pedagógico dessa narrativa, vale apontar que, é a própria protagonista quem coloca em questão a vulnerabilidade da ideologia de Antônio para a sua realização pessoal. Como a literatura se alimenta da dinâmica da vida, é lícito destacar que as teorias de Antônio que são transportadas para a ficção sobre a existência de uniões livres, a maternidade consciente, o trabalho como promotor da liberdade, dentre outras, fazem partem da bandeira do comunismo, partido conhecido como de esquerda, o que vem, através do discurso literário, provocar novas reflexões.
Pelas idéias proferidas e pelas práticas mostradas até aqui, a ficção que vimos examinando revela-se bastante crítica das questões ideológicas dos anos 30, uma vez que, põe o leitor em confronto com as idéias existentes naqueles tempos e destaca, através da personagem central, o não atingimento de seus alvos pela mulher. Essa presença ideológica no texto remete-nos, por vezes, ao discurso mantenedor da ordem, da família, da religião emanado da constituição outorgada pelo ditador Getúlio Vargas, em 1937, ou seja, no ano anterior à publicação de Amanhecer. Nesta, Getúlio assegura, no artigo 122, que todo cidadão tem o livre direito de exercer suas idéias e crenças desde que elas não firam ―as exigências da ordem pública e dos bons costumes‖. As idéias de Antônio são agravantes para desequilibrar exatamente esses alicerces, sob o argumento da liberdade individual, destacados pelo documento nacional. Ironicamente, a ficção vem pôr em relevo exatamente a desagregação do destino da personagem a partir do contato com esse jogo de idéias.
Nesse sentido, vale lembrar com Cristina Ferreira Pinto (1990) que Lúcia Miguel Pereira expõe suas idéias sobre o trabalho e a emancipação feminina através de Antônio. Para isso, a autora, por meio da protagonista, evidencia um momento ambíguo em que as mulheres não alcançaram seu espaço social, mas também procuram manter alguns privilégios conquistados até então. Esse fato é perceptível pelo fato de Aparecida pôr em prática as ideologias de Antônio, mas querer estar do outro lado, ou melhor, ela
não se satisfaz com o seu modo de vida, e declara, publicamente, pelas páginas da ficção, que sente um vazio e que vislumbra uma vida tradicional. Por outro lado, ainda no mesmo artigo da Constituição, é mencionada a ação do Estado sobre a censura aos meios de comunicação como estratégia para garantir a paz, a ordem e a segurança pública. Se a arte pode provocar um efeito didático sobre o público leitor, a autora parece utilizar como estratégia uma crítica muito sutil à condição a que estava submetida a mulher burguesa e, sobretudo nessa obra, as questões de classe. Diante dessas questões, é preciso refletir que o contexto em que escreveu a ficção ainda não comportava um final distinto daquele dado às personagens e a autora, certamente, quer chamar a atenção para a inatividade e conformação social diante dessa inferioridade da mulher. Conforme esclarecemos anteriormente, acreditamos que essa preocupação com a situação feminina constitui um motivo mais orientador da escrita de Lúcia do que a subordinação a uma doutrina, como argumentou o escritor nordestino Jorge Amado.
Com um legado romanesco marcado pela contradição, a própria narradora-protagonista constrói a imagem do ‗mentor‘ das transformações por que passa como um maluco, portador de idéias esquisitas. Dando realce à personagem Antônio, este, incapaz de realizar-se pessoalmente é o ‗culpado‘ pelas desilusões da personagem central. Neste romance, o leitor se depara é com aspectos teoricamente positivos, um discurso perfeito que não se coaduna com a prática numa sociedade semi-patriarcal. O texto literário parece aqui pôr em relevo que as transformações sociais necessárias eram bem maiores do que aquelas vividas até então. Inicialmente, as idéias apresentadas por Antônio despertam a esperança e a simpatia, inclusive do leitor, contudo, a sua conduta, sobretudo diante da protagonista faz com que o leitor vá, pouco a pouco, gestando um sentimento de repulsa por ele. Nesse empreendimento, Antônio passa a ser antipatizado pelo leitor que torce pela realização da protagonista, símbolo da inocência, do esforço e da vivacidade. Para agravar a situação, essa vivacidade da protagonista é consumida, aos vinte anos, pela subserviência e ‗devoção‘ que ela atribui a um rapaz que não a aceita nos moldes tradicionais, mas a mantém presa a si. Sob essa ótica, a ficção permite aqui um questionamento sobre as mudanças oferecidas pelo homem à condição feminina, a nosso ver, a narração parece chamar a atenção para uma busca da própria mulher para as suas conquistas. Se a mulher mantém-se dependente do homem para garantir o seu lugar, fica estabelecido também que aquelas teorias eram, de certa maneira, impróprias para uma sociedade como a do Brasil naquele momento. A mesma Constituição Federal de 1937, no artigo 124, acrescenta que é dever do Estado proteger,
de modo especial, a família constituída pelo casamento indissolúvel. Diante desse pressuposto, o romance, de modo irônico, deixa ver que o fato de ir à cidade grande, ser independente financeiramente não foi suficiente para que Aparecida alcançasse a sua felicidade, pode-se concluir ser porque, como ela mesma destaca, não teve filhos e não constituiu uma ‗família‘. Esse empecilho na completude do sujeito é também, em outras palavras, sugerido pelo discurso oficial.
Com vistas na intencionalidade do texto literário e na ação da arte sobre o indivíduo vê-se Antônio não apenas como um veículo de difusão das idéias da autora como postula Pinto (1990), mas como um instrumento de crítica, mormente porque destaca a necessidade de uma mudança maior do que apenas a assimilação das idéias seja da direita ou da esquerda. Nesta vertente, como vimos discutindo, em termos temáticos, a escrita ficcional de Lúcia Miguel apresenta intensa correspondência com a situação político-social em que foi produzida. Pondo em destaque a correspondência entre a imaginação da artista e a observação proporcionada pelo tempo, uma leitura atenta do romance Amanhecer revela que o enunciado proferido por Luís Bueno (2006) em evidência no princípio desta discussão, possibilita-nos interpretar Amanhecer como um romance emblemático porque encena os impasses sociais, políticos, religiosos e, sobretudo, de gênero, o que, a nosso ver, configura o seu efeito pedagógico assim como inova a forma da escrita ficcional dessa autora.
Do lado formal, convém reiterar que, nesta narrativa, com a inserção de uma protagonista duplamente marginalizada para o contexto social daquela época: ser mulher e ser pobre, Lúcia aproxima-se da vertente social dos anos 30. Nesse sentido, trabalhado de forma crítica, o pertencimento a uma classe marginalizada e desprivilegiada pode ser visto como um agravante para que Maria Aparecida não alcance a sua plena realização. Para ser condizente com o contexto, efetivar a verossimilhança e chamar a atenção para a questão do gênero versus a questão social, a conclusão a que se chega é a de que sendo pobre, a personagem central se torna uma escrava, como mulher, ela culmina duplamente escrava, inclusive de seus sentimentos. É essa escravidão afetiva que faz com que Aparecida termine conformada e desiludida de suas aspirações, numa condição tão indefinida, nem esposa, nem prostituta, quanto a política e a ideologia daquele tempo. A trama apresenta então um final condizente com o contexto, que ainda não permitia grandes avanços para a mulher. Dessa forma, podemos pensar com Candido (2000) que, o condicionamento que nutre a ficção é,
neste caso, a crítica ao não rompimento das normas impostas pelo momento que a autora assimila e transforma em arte.
Com isso em vista, para Cristina Ferreira Pinto, a advertência que o romance Amanhecer deixa para quem o lê é que ―a personagem não conseguirá romper com sua dependência e passividade‖ (PINTO, 1990, p. 60). Diante das observações relatadas, pode-se pensar ainda no fato da personagem querer-se romper ou se são as amarras sociais, políticas, religiosas e, sobretudo as de gênero que tiveram decisiva importância nesse processo de libertação, de manutenção da ordem social através do discurso literário. Porém, é como se as idéias novas fossem parciais para uma sociedade que precisasse de transformações mais intensas, mais profundas em sua estrutura. Daí, se a autora é ‗receosa de mudanças‘, como garante Bernardo de Mendonça (1992), ela mesma quer nos mostrar a necessidade do questionamento da tradição, assim como também das novas condutas para não ficarmos no meio termo, na indecisão, característica também do momento. Pelo exposto, o didático critica a manutenção da ordem através da influência da cultura dominante sobre as camadas populares.
Provocando uma desordem intelectual, como observa Luís Bueno (2006), a personagem Antônio parece apresentar propostas inconcebíveis para uma sociedade como aquela. É ele mesmo quem sugere a Maria Aparecida para se casar com um rapaz daquele lugarejo e se afastar dele, pois ―talvez seja para o seu bem‖ (PEREIRA, 1938, p. 99). Indicando a necessidade de mudanças maiores com relação ao trato com o feminino, vê-se então que os benefícios das idéias difundidas por Antônio são duvidosos até para ele mesmo. Dando seguimento à vulnerabilidade de suas idéias, segue seu discurso dizendo que mulher quer mesmo é se casar. Assim, fazendo uma crítica à existência de teorias e práticas como é o caso daquelas difundidas por Antônio, nota-se que elas não se aplicam às mulheres, principalmente àquelas pobres. Por esse lado, a desilusão da protagonista diante de sua nova realidade pode encontrar correspondência na importância dada pela autora à atuação da mulher tanto nas relações pessoais quanto no mercado de trabalho naqueles tempos.
Nessa direção, convém esclarecer que o enredo vai criando forma à medida que a protagonista resolve contar sua vida, nesses dois anos, desde o conhecimento de Antônio até a sua total entrega a ele. A nosso ver, diante das condições encontradas pela protagonista, esta mesma não pôde mudar o seu destino de mulher porque, num processo metalinguístico, estava inscrevendo suas memórias, portanto, para ser verossímil, não seguiu a trajetória desejada, mas alcançou um caminho possível
para uma menina na sua condição. E escrevendo a história de uma mulher, não poderia contar uma história com ambições diferentes daquelas contadas, pois era, ou deveria ser, assim, a sua realidade. Como esclarece Cristina Ferreira, ―o herói do ‗bildungsroman‘ passa por um processo durante o qual se educa, descobre uma vocação e uma filosofia de vida e as realiza, a protagonista feminina que tentasse o mesmo caminho tornava-se uma ameaça ao status quo, colocando-se em uma posição marginal‖ (PINTO, 1990, p. 13). É o que consegue a protagonista ficando à margem tanto de uma quanto de outra forma de proceder já que se afasta dos princípios tradicionais, mas também não atinge a liberdade através da união ‗livre‘.
Para destacar a conformidade aos padrões ou a realidade da maioria das mulheres da época, Lúcia Miguel Pereira critica, através da personagem, a tradição imposta pela sociedade diante do pertencimento a uma classe ou ao gênero feminino. Com o objetivo de destacar o ‗saber viver‘, como ela mesma escreve em texto crítico já citado no capítulo I, esse romance de formação manifesta a preocupação com a recepção de um texto pedagógico para um público, em sua maioria feminino, que precisa de uma reação diante dos parâmetros conservadores dos modos de pensar e de agir. A necessidade de fazer pensar sobre a questão pode ser relacionada ao pensamento de Antonio Candido sobre a preferência do público leitor, ―mesmo quando pensamos ser nós mesmos, somos público, pertencemos a uma massa cujas reações obedecem a condicionantes do momento e do meio‖ (CANDIDO, 2000, p. 32). Logo, como o contexto condiciona as experiências da vida, seja através da instância do autor e do leitor, também orienta ou (des) orienta, em maior ou menor grau, a composição da arte.