O estranho trecho do capítulo 6, «não haveria tragédia sem acção, mas poderia haver sem caracteres» (Po. 1450a,20), afastou definitivamente a teoria poética de Aristóteles da teoria poética actual. Segue-se uma afirmação ainda mais estranha: «As tragédias da maior parte dos poetas modernos não têm caracteres.» (Po. 1450a,20), que parece não coordenar bem a Poética com a teoria cinematográfica, já que na fábrica de mitos a regra de ouro é character is action. Aquele trecho tem de ser interpretado partindo de uma evidência simples: não é possível haver uma tragédia sem caracteres. A tradução e análise de Else dá a volta à questão dizendo que ali se sublinha não a ausência do ethos e da sua vontade, mas antes a presença daquilo que acontece ao
ethos. Assim, sem ethos, quer ali dizer, sem bondade ou qualidade moral (valor meramente ético e ausente nos «poetas modernos»), mas apenas feliz ou em acção para
257 MCKEE, Robert, 1997, p. 52. 258 MCKEE, Robert, 1997, p. 53.
a felicidade259, esse valor estático da moralidade sai e entra apenas uma qualidade dinâmica e assim não temos homens, mas apenas agentes. De seguida Aristóteles especifica dizendo que «eles não actuam para imitar os caracteres mas os caracteres é que são abrangidos pela acção», ora isto é exactamente o termo do que citei acima, em Hollywood: «we design the event to fit the character». Os actores não estão a representar uma personagem mas sim uma história, porque só através da história eles são aquilo que são. Assim saio da linha de Else260, dizendo que a acção é que conduz à qualidade moral, imprescindível na verdade e presente na tragédia. Note-se ainda que esta hipótese também me permite seguir a linha filosófica geral de Aristóteles, para quem o conhecimento das Formas só era possível através do conhecimento da Matéria mutável, assim só a acção pode dar a conhecer a qualidade do carácter.
Plot is Character implica que ao mudarmos um, mudamos o outro. Se uma história tem mais de um protagonista terá de ter mais do que uma acção: «If you change event design, you have also changed character; if you change deep character, you must reinvent the structure to Express the character’s changed nature.»261 Em que
medida isto é verdade também em Aristóteles não é fácil de aceitar mas, através da análise dos capítulos 13, 14 e 15 fica claro que os dois estão na correlação directa fundamental para a representação artística e técnica da cisão entre eles, concluindo que afinal não podemos conceber o mythos de Aristóteles sem o ethos. Se o ethos deve ser bom é porque o mythos deve ser mau e, caso possível mas tão dramático, se o mythos for bom, o ethos tem de ser mau. Não estou a referir-me aos termos gerais e teóricos que levam Rorty a concluir que a tragédia não é sobre a acção mas sim sobre a acção humana262, mas antes a uma premissa altamente técnica e específica no que respeita ao
design da história, que é da competência do criador e não do apreciador. Todavia, é a produção desta simetria irónica que vai permitir o grande efeito trágico a que Mckee chamou The Gap between expectation and result.
Sem a oposição entre ethos e mythos não se cumpre aquilo que Scorsese chama o momento terrível em que a vida parece ter vida própria. O primado da acção e da vida sobre o ethos é ilusório pois aquilo que o permite é o seu contraste profundo com o
259 ELSE, Gerard, 1957, p. 238.
260 Cf. BELFIORE, Elizabeth, «Aristotle's Concept of Praxis in the Poetics», The Classical Journal,
1983, pp. 110-124. Neste artigo Belfiore explica que o ethos é a coloração ética no desenho da história. Se virmos, num teatro de sombras ou numa «tragédia sem caracteres», uma pessoa matar outra, não saberemos se se trata de vingança, eutanásia, prevenção de epidemia, auto-defesa, etc. Mas isto não explica como é que os poetas modernos conseguem fazer uma tragédia sem «coloração ética».
261 MCKEE, Robert, 1997, p.106. 262 RORTY, Amélie, 1992, p. 9.
ethos. Neste contraste assemelho tragédia grega e o filme americano, pois o que leva Rorty a dizer que, na tragédia grega: «The ends that direct our actions can be opaque to us, even when we are acting from our learest and best understanding. Indeed it is sometimes precisely our way of being at our best tha undoes us»263, é o mesmo que leva Scorsese a dizer que «acting out of good deliberation, we often will, at one crossroad in our lives, act in ways that bring about our downfall»264. Temos negado profundidade psicológica à «tragédia sem caracteres» de Aristóteles, sem atender ao facto de o desenho específico que o filósofo propõe, como veremos nos capítulos centrais da Poética, ser o garante dessa profundidade, evidente na exploração dos limites da acção humana e da Fragility of Godness, a que Nussbaum se dedica. A tragédia de Aristóteles não é a mera construção implacável, policial e canina, de sortes e azares, mas a profunda reflexão sobre a miserável discrepância entre virtude e felicidade, entre o ethos e o seu mythos, propondo aquilo a que McKee chama «the gap between expectation and result is far more than a matter of cause and effect. In the most profound sense, the break between the cause as it seemed and the effect as it turns out marks the point were human spirit and the world meet. One side is the world as we believe it to be, on the other is reality as it actually is. In this gap is the nexus of the story, the caldron that cooks our tellings. Here the writer finds the most powerful, life- bending moments.»265 Esta cisão permitida pelo modo como Aristóteles propõe que construamos o enredo trágico constitui o cerne da história e define todos os outros elementos, sem esta discrepância não há segredo, não há surpresa e não há interesse. A cisão ethos/mythos representa aquilo que queremos saber: se nascemos assim, ou se ficámos assim, se a culpa foi intrínseca ou extrínseca. Queremos saber a diferença entre ser e estar, entre ser e parecer. O drama, a ficção não responde a estas perguntas mas coloca-as e leva-nos a vivê-las momentaneamente. É isso que queremos, saber de nós neste mundo, por isso «a play is about rather terrible things happening to people who are as nice or not nice as we ourselves are.»266