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4 Politiets kriminalitetsforebygging – dimensjoner

4.1 Politisk dimensjon

No tópico anterior tivemos oportunidade de enfocar o ethos científico a partir da visão mertoniana da ciência. Como refere Santos (1988) em determinados períodos históricos o que importa é que sejam feitas perguntas simples e elementares, porém fortes, ainda que as respostas possam ser fracas. A respeito da ciência, algumas perguntas importantes foram mencionadas por Schwartzman (1984)

O que é "ciência"? Conhecimento verdadeiro por oposição ao conhecimento errado ou duvidoso? O resultado de experiências, em contraste com o que sabemos pelo senso comum? Conhecimento medido, quantificado, e não aquele que adquirimos intuitivamente? A Verdade, com V maiúsculo, em

contraste com as verdades menores? Um privilégio dos sábios e iniciados, nunca acessível às massas? Um fator da produção, como o capital, o trabalho e a tecnologia? Aquilo que fazem os cientistas? Nenhuma dessas respostas é satisfatória, e, no entanto cada uma delas corresponde a noções que muitas vezes encontramos entre cientistas, educadores, filósofos e estudiosos dos fenômenos científicos. Não existe um conceito único e consensual sobre o que seja "ciência", mas noções que variam ao longo do tempo e do espaço. Além disso, existem sociedades e períodos históricos que produzem mais e melhor "ciência" do que outros, ou ciência de um ou outro tipo. Como explicar essas variações? De que elas dependem? Que influência tem a ciência no desenvolvimento ou na mudança das sociedades? Será ela um simples subproduto de condições econômicas e sociais mais gerais, ou terá um efeito específico e próprio? Finalmente, como fazer se queremos ter mais ciência, de melhor qualidade e com um impacto social mais significativo? Como desenvolver uma política científica adequada? (SCHWARTZMAN, 1984, [s.p]).

Essas são perguntas instigantes e remetem a uma reflexão sobre o papel da ciência e da tecnologia na sociedade. Neste tópico almejamos demonstrar como ambas adquirem novos contornos após, principalmente, a II Guerra Mundial e as transformações que ocorrem na sociedade.

Na sociedade atual o desenvolvimento científico e tecnológico coloca-se como questão central quer para os países desenvolvidos quer para os em desenvolvimento que dependem de tornarem-se competitivos para promoverem melhores condições de desenvolvimento econômico e social, possibilitando conquistas e melhorias nas condições de vida das suas populações. Encontra-se totalmente no passado, no entanto, a visão do fazer científico, atrelado à imagem da ciência isenta e neutra. Para conquistar o desenvolvimento econômico e competitividade altos aportes de recursos financeiros são empregados pelo Estado e também pelas empresas para alavancar esse desenvolvimento e alcançar progresso. Se inicialmente houve a aproximação da ciência para o desenvolvimento da indústria bélica por ocasião das guerras mundiais, hoje o engajamento da ciência e a tecnologia estão alinhados para propiciar o desenvolvimento dos diversos setores industriais e empresarias.

Assim, passado mais de meio século do estabelecimento dos imperativos de Merton – como acabamos de discutir no tópico anterior - e com a evolução da ciência e da comunidade científica, é o físico e filósofo da ciência John Michael Ziman (2000, p.78-79, 114 et seq.) um dos que traduzem a nova face da ciência, agora voltada e desenvolvida no âmbito da aplicação industrial, da tecnologia e inovação. Para essa nova fase da ciência, Ziman estabelece um novo acrônimo em substituição ao CUDOS. Nesse novo modo de fazer ciência, aparecem como preceitos algumas características próprias do momento histórico, que são: ser

Proprietária, Local, Autoritária, Comissionada e Especialista (Expert), agora é a vez do PLACE.

John Ziman (1999, p. 439 et seq.) reflete em inúmeros de seus textos sobre a trajetória da ciência, especialmente sobre a ciência acadêmica que surgiu na França e na Alemanha na primeira metade do século XIX, cujo modelo espalhou-se rapidamente para o restante do mundo. A ciência acadêmica desde sua origem estava ligada à educação superior, dependente do suporte material do Estado. Esse autor aponta as conhecidas práticas, regras, tradições e convenções que devem ser seguidas pelos aspirantes para tornar-se um cientista acadêmico, muito embora essas prescrições não estejam formalmente escritas.

Conforme já apontamos anteriormente, foi o sociólogo Robert Merton desde a década de 40 do século passado quem estabeleceu o conjunto dessas normas – o ethos acadêmico, representadas pelo acrônimo CUDOS – Comunalismo, Universalismo, Desinteresse e Ceticismo Organizado. No entanto, segundo Ziman a ciência acadêmica estava nas mãos de acadêmicos, com a responsabilidade precípua de ensinar estudantes, atividade esta para a qual eram pagos. Porém, é com o trabalho de investigação, que os professores universitários são livres para realizar, que eles podem se beneficiar como indivíduos recebendo o devido reconhecimento.

O ethos acadêmico não diz directamente nada sobre a motivação individual nem sobre como é que os cientistas acadêmicos ganham a vida. Mas o próprio Merton assinalou que as letras iniciais das normas compõem o acrônimo “CUDOS” – isto é, aplauso, ou prestígio. Em principio, os cientistas acadêmicos consagram-se à investigação e tornam públicas as suas descobertas em troca de “reconhecimento” por parte dos seus colegas. Este reconhecimento recebe a forma de citações na literatura especializada, prêmios e medalhas, títulos enaltecedores – e, em especial, emprego. (ZIMAN, 1999, p. 442).

O acelerado desenvolvimento da sociedade nas últimas décadas introduziu mudanças radicais importantes em muitas práticas tradicionais acadêmicas. A ciência tornou-se mais onerosa face à necessidade de instrumentação mais sofisticada e precisa; o Estado patrocinador, já não consegue manter os níveis de investimentos no desenvolvimento da ciência e tecnologia e, ainda, há as “cobranças” pela sociedade no que se refere ao retorno desses investimentos (conceito em inglês: accountability, que significa “prestar contas”). No lugar do individualismo entra em cena cada vez mais a ação coletiva de equipes multidisciplinares; a comunicação foi amplificada globalmente com o desenvolvimento dos

meios eletrônicos, que possibilita que os pesquisadores possam trabalhar em locais geográficos diferenciados, sem necessidade de dividir o mesmo espaço de trabalho dentro do laboratório (ZIMAN, 1996a).

Esses condicionantes levam Ziman (1999, p.444) a asseverar: “A ciência acadêmica está a dar lugar à ciência “pós-académica”, que pode ser de tal maneira diferente da primeira (sociológica e filosoficamente) a ponto de produzir um tipo diferente de conhecimento.” Em seu livro Real Science, de 2000 ele sintetiza que a ciência pós-acadêmica - também nomeada por ele como “ciência pós-industrial” - é “uma transformação radical e irreversível no mundo inteiro no modo como a ciência está organizada, gerenciada e executada” (ZIMAN, 2000, p.67).

Tanto a ciência acadêmica como a ciência industrial - desenvolvida nos laboratórios de P&D das empresas - têm pontos de ligação comuns, ambas dispõem de recursos humanos treinados para essa finalidade, bem como contam com as mesmas bases de conhecimentos. Se anteriormente, havia um distanciamento entre ambas, atualmente, pelo contrário, é a aproximação o que se observa. E quais são as demandas da ciência industrial? No que ela difere da ciência acadêmica? A diferença básica entre ambas, é que a ciência industrial clama por resultados práticos específicos e imediatos.

Como aponta Ziman (1999) se com os imperativos mertonianos do CUDOS, o que o cientista acadêmico almeja circunscreve-se na pretensão do reconhecimento, diferentemente “os cientistas industriais lutam por uma posição bem paga na hierarquia da administração – isto é, por ‘PLACE’.” Esse acrônimo, que significa “lugar” também traduz as demais características da ciência industrial ou “pós-acadêmica”:

Assim, a ciência industrial é “Proprietária”, pelo facto de os resultados da investigação pertencerem à firma e não precisarem de ser publicados. É “Local”, pelo facto de a investigação frequentes vezes se aplicar apenas a um particular produto destinado a clientes particulares. É “Autoritária”, pelo facto de os cientistas industriais terem de fazer aquilo que os seus directores lhes dizem para fazer. É “Comissionada”, pelo facto de os problemas a investigar serem decididos pelos directores para servirem aos propósitos da Companhia. E é “Experta”, <em português “Perita”> pelo facto de os cientistas serem usados sobretudo como solucionadores profissionais de problemas, não se tendo em conta a possibilidade de eles poderem ser pensadores originais ou críticos. (ZIMAN, 1999, p. 444-445).

No Quadro 1, é possível visualizar de forma sumária e comparativa os imperativos mertonianos (ethos) da ciência acadêmica, com as novas características da ciência pós- acadêmica, evidenciadas por Ziman.

Ciência acadêmica

(Merton – CUDOS) Ciência pós-acadêmica (Ziman – PLACE)

Comunalismo Proprietária

Universalismo Local

Desinteresse Autoritária

Originalidade Comissionada

Ceticismo (scepticism) Especializada (expert)

Quadro 1 – Características da ciência acadêmica e pós-acadêmica

De acordo com Reis (2010, p.13) Ziman “não pretendeu formular um novo ethos, mas salvaguardar algumas características do ethos mertoniano”, mas antes, “demonstra que a força da ciência está centrada na sua produção social e cooperativa de conhecimento, que deve ser realizada em um espaço público e almejando o consenso entre os pares”.

Nessa visão de ciência pós-acadêmica, algumas mudanças são assinaladas por Dagnino (2006, p.193):

[...] a avaliação da qualidade por pares e a liberdade na escolha individual dos temas de pesquisa vão sendo substituídas por uma “contabilidade” (accountability) mais ampla da “excelência” e pela adoção coletiva de uma agenda estabelecida em função de interesses econômicos que deixa de dar origem a bens públicos (comunalismo) e passa a produzir “propriedade intelectual”. Valores “não-científicos” de natureza societária, como segurança, rentabilidade e eficácia, passam a participar explicitamente da determinação da agenda de pesquisa.

Dagnino (2006) também assinala que a discussão sobre o aumento de problemas complexos demandantes de políticas públicas e a crise de credibilidade e legitimidade que os governos e as instituições reguladoras enfrentavam por volta dos anos 1990 no âmbito da Comunidade Européia fornecem um novo quadro da política de ciência e tecnologia. Na sua visão, esse foi o momento do surgimento de propostas de novos modelos de governança que contemplassem outros quesitos clamados pela sociedade, tais como de transparência e

prestação de contas (accountability), e que superassem os modelos vigentes “de cima para baixo”, centralizadores e “não-adequados a sociedades com graus crescentes de diversidade, complexidade, interdependência e incerteza”. (DAGNINO, 2006, p.194)

No entanto, em 1994, no livro “A nova produção do conhecimento: a dinâmica da ciência e da pesquisa nas sociedades contemporâneas”, Michael Gibbons e colaboradores introduzem os conceitos de Modo 1 e Modo 2 de produção científica. Tal como Ziman identificam o Modo 1 com as características da ciência acadêmica e o Modo 2 com as peculiaridades da ciência pós-acadêmica.

No Quadro 2 são apresentadas as respectivas especificidades dos Modos 1 e 2 segundo seus autores.

Modos de produção de conhecimentos científicos

Modo 1 (linear) Modo 2 (não linear)