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Policy entreprenører og lederens betydning

4.1 Midtre Namdal

4.1.6 Policy entreprenører og lederens betydning

“Diante da calamitosa incompetência acadêmica e da inacreditável falta de ética profissional da reitoria da Universidade de São Paulo” (CHAUÍ, 24/02/88), a filósofa fornece, em artigo publicado no dia 24 de fevereiro, uma lista completa das atividades

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docentes realizadas por ela, desde a preparação de aulas, passando pela orientação de alunos, participação em concursos e congressos, até a elaboração de artigos e teses, para que os leitores tomem conhecimento do “perfil do professor improdutivo” (CHAUÍ, 24/02/88) e possam formar uma opinião a respeito do trabalho universitário. Ao falar das teses e concursos, Marilena Chauí emite a seguinte opinião sobre a avaliação:

Teses e concursos, assim como conferências e comunicações e artigos, avaliam cada um de nós pelo mais terrível critério de avaliação: a qualidade, que define o que temos de mais precioso, isto é, a reputação intelectual. Eis por que o critério acadêmico da reputação intelectual é contrário ao critério burocrático da “produtividade”, onde a quantidade de besteira posta no papel vale mais do que a seriedade intelectual (CHAUÍ, 24/02/88).

Diferentemente dos docentes da primeira matriz de pensamento, Marilena Chauí não faz considerações sobre a necessidade da avaliação universitária, nem muito menos procura estabelecer os parâmetros sobre os quais ela se assentaria. Em suas intervenções – o artigo (CHAUÍ, 24/02/88) e as falas no debate realizado na Folha de S. Paulo –, tece críticas tanto à reitoria quanto ao jornal, não julgando legítimos os termos que orientam os debates sobre avaliação realizados por eles. Para ela, como expresso no trecho acima, valeria muito mais a reputação intelectual do que qualquer tipo de medida quantitativa da produção. Nesse sentido, quando toma a palavra no debate, a filósofa deixa bem clara sua posição:

Quero esclarecer desde já que não vim resguardar a reitoria da USP contra a Folha, pois não reconheço nesta reitoria a legitimidade da representação universitária; nem vim resguardar a Folha de S. Paulo contra a universidade, pois não reconheço neste jornal uma atitude que mereça respeito. Vim para atacar perante os leitores deste jornal a reitoria da USP pelo que, espero, tenha sido apenas criminosa incompetência. Para atacar a Folha de S. Paulo pelo que, espero, tenha sido apenas irresponsabilidade e má fé.

Quero, enfim, esclarecer que não vim debater avaliação universitária e nem, muito menos, desempenho universitário por três motivos. Em primeiro lugar, este espaço deixou de ser um dos possíveis espaços na sociedade brasileira para tal discussão. Em segundo lugar, discordo da aplicação do termo “desempenho” aplicado ao trabalho universitário em particular e ao trabalho intelectual em geral. Em terceiro lugar, quero discutir o episódio de 21 de fevereiro (CHAUÍ, 02/03/88).

Nesse sentido, ela busca contextualizar o episódio dentro de um contexto liberal, já que a Folha e a reitoria assim o colocaram ao tratarem a publicação da lista como uma prestação de contas da improdutividade dos docentes aos contribuintes, os quais, por pagarem impostos, têm direito de saber o que é feito com o dinheiro que repassam ao estado. Há a identificação, dessa forma, da figura do contribuinte com a do cidadão, característica específica, segundo Chauí, do contexto liberal. Para a filósofa, não cabe

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indagar se o episódio foi democrático, pois a democracia é definida por outras determinações.

Marilena Chauí crê estar havendo uma confusão, a qual deu origem ao caso da “lista dos improdutivos”. Partindo da afirmação de que, por ser pública, a universidade deve prestar contas ao contribuinte, alguns acabam concluindo que se deve franquear a instituição aos meios de comunicação, os quais, apesar de serem empresas privadas, assumem a postura de mediadores entre os serviços públicos e os cidadãos. Antes de comentar se essa afirmação, para ela, é correta ou não, a docente assume que a universidade é sim pública sob vários aspectos:

Em primeiro lugar, as aulas são públicas. Embora os créditos e certificados sejam oferecidos apenas aos alunos regularmente inscritos, as aulas podem ser ouvidas por todos que assim o desejarem. Embora os meios de comunicação e muitos universitários considerem um populismo demagógico o empenho dos movimentos docentes e discentes contra os vestibulares, contra a deterioração do ensino público de primeiro e segundo graus, contra o pagamento de taxas de inscrição em cursos, esse empenho visa justamente manter a universidade como coisa pública, que oferece bens públicos e serviços públicos (CHAUÍ, 02/03/88).

Além disso, defesas de tese, concursos, colóquios, congressos, simpósios, mesas redondas, debates, serviços médicos, psicológicos, assistenciais, revistas, livros e boletins, também são públicos, segundo Chauí. Só não é aberto ao público o acesso a alguns órgãos colegiados e administrativos, os quais não são acessíveis nem mesmo aos membros da universidade que não tenham um direito estatutário ou regimental para deles fazer parte:

Embora sejam consideradas populistas e demagógicas por parte dos próprios universitários as lutas de docentes, estudantes e funcionários para modificar os estatutos e as formas de participação e representação das três categorias nos diferentes órgãos de decisão universitária, essa luta visa quebrar o poder burocrático na universidade, porque esse sim é secreto e contrário à natureza pública do que é público (...). Pela mesma razão, isto é, para quebrar o caráter secreto da burocracia, os universitários têm lutado para que os orçamentos, convênios, dotações, distribuições de recursos não sejam feitos sem ampla discussão na universidade. Essa luta pela transparência não só não foi desencadeada pelos meios de comunicação, mas ainda encontrou neles forte oposição, pois sempre foi classificada de populismo corporativista, quando na realidade é um esforço para que a universidade cumpra o dever de publicidade e respeite o direito a informação e a decisão.

O episódio de 21 de fevereiro revela que, se há poder secreto na universidade, não se encontra do lado dos docentes, estudantes e funcionários, mas do lado da direção burocrática que, num lance misterioso, decidiu fazer-se pública da única maneira que a burocracia conhece a publicidade: pela difamação, pela calúnia, pela injúria, pela destruição de reputações. Mas o episódio sugere também que os meios de comunicação além de não serem os definidores do caráter público da universidade, talvez

54 não sejam os melhores meios para ampliá-la como espaço público (CHAUÍ, 02/03/88).

Após essas considerações, Marilena Chauí volta-se à análise das ideias que têm surgido sobre a opinião pública desamarrada do contexto liberal que a deu origem. No liberalismo, opinião pública tem dois significados: “em primeiro lugar, é o esforço que um indivíduo faz para precisar, através da linguagem, uma reflexão e uma ponderação sobre uma questão controversa” (CHAUÍ, 02/03/88). Em segundo lugar, ela é um esforço coletivo “para precisar, através da linguagem, reflexões e ponderações que [vários indivíduos ou grupos] tenham feito sobre uma questão controversa para que se possa chegar a um juízo esclarecido sobre o assunto” (CHAUÍ, 02/03/88). Para a docente, estamos assistindo à perda do sentido liberal da opinião pública no que diz respeito à sua dimensão de reflexão, ponderação e juízo sobre uma questão controversa, na medida em que ela cede lugar à “sondagem de opinião pública” (CHAUÍ, 02/03/88). A sondagem não capta opiniões – visto que estas são o produto, expresso na fala, de reflexões e ponderações sobre uma questão controversa –, mas sim apanham o fundo passional da sociedade. Apoiados nesse fundo, os meios de comunicação formam a opinião e a impõem ao público. Marilena Chauí indaga se, em um país onde a maioria das pessoas é excluída do direito à informação, não é fortalecer a exclusão dar ao público a ideia de que ele participa de algum modo da formação de opinião. Da mesma forma, a filósofa questiona se no contexto político e social que o país estava vivendo, de corrupção no nível estadual e de campanha de descrédito empreendida pelo governo federal contra o legislativo, momento em que o ódio das pessoas se manifesta pelo ódio às instituições, não seria errado aguçar o desprezo contra as universidades públicas através da produção de listas falsas, da obscuridade dos critérios de avaliação e do pretenso conhecimento das opiniões.

Para a filósofa, a burocracia universitária e os meios de comunicação vêm realizando uma grave confusão no que diz respeito ao “princípio liberal da publicidade da coisa pública” (CHAUÍ, 02/03/88). Nessa linha, ela pergunta se a produção de listas é um procedimento liberal:

Como não recebe o influxo de ideias e práticas democráticas que lhe alteram o sentido, o liberalismo recorre à distinção entre o público e o privado apenas com uma finalidade. Definido o privado como sociedade civil e esta como esfera do mercado, e o público como o Estado e suas relações com os cidadãos, o liberalismo sem democracia visa exclusivamente a garantir que as violências cometidas na esfera do mercado e, portanto, na esfera das empresas, que por isso são ditas privadas; que as violências cometidas na

55 esfera privada permaneçam secretas e impunes, procurando contrabalancear tal segredo com o direito do contribuinte em ter acesso às ações do Estado referentes ao uso de impostos. Cria-se um ordenamento institucional, jurídico, legal político, que define direitos e deveres dos cidadãos contribuintes e do Estado coletor de impostos para garantir que sejam reguladas, vigiadas, limitadas e do público que evidentemente é bloqueado pela burocracia fundada no segredo mas é compensado por instituições regidas pelo princípio da representação (CHAUÍ, 02/03/88).

Segundo Chauí, o princípio da publicidade do público só pode ter validade se a sociedade no todo for liberal, “não se pode ser liberal em algumas coisas e não sê-lo em outras. O liberalismo é uma forma da economia, um estilo de política e uma ideologia. Ele é um sistema” (CHAUÍ, 02/03/88). Para a professora, o Brasil não é um país liberal, mas sim autoritário no que concerne às práticas sociais, econômicas e políticas. Não só o Estado é autoritário algumas vezes, como a sociedade também o é, na medida em que é marcada por privilégios, favores, clientelismos, hierarquias de mando e obediência, e não conhece a prática da representação política e social e o princípio da igualdade jurídica entre os cidadãos. O país venera a utilização da força policial como instrumento para resolver conflitos e não tolera a existência de opiniões divergentes, de conflitos políticos e contradições socioeconômicas, que são sempre identificadas como desordem. No plano intelectual, essa maneira de não saber lidar com a diferença se observaria na desqualificação das opiniões divergentes e na destruição moral e profissional.

Quando, em um país como esse, começa-se a “macaquear” (CHAUÍ, 02/03/88) princípios liberais, que estão ausentes tanto nas instituições como na sociedade, o princípio da publicidade do público adquire feições de delação no estilo fascista. Assim, à pergunta se a confecção da lista seguiu a um princípio liberal, a filósofa responde enfaticamente: “não”. Entretanto, como a lista foi publicada com o discurso de que seguiria o princípio liberal, a filósofa assume a postura de que pode tratá-la assim também, e faz as seguintes indagações à reitoria da USP:

Em nome do que fez uma lista de professores e os classificou de improdutivos? O que é produtividade intelectual? Como pessoas, que se supõe sejam professores universitários e pesquisadores, puderam fazer uma lista de “improdutivos”, ignorando todos os problemas teóricos postos pela noção mesma de trabalho intelectual que toda uma literatura científica classifica exatamente de trabalho improdutivo? Como, no interior de uma forma social do trabalho, analisada como improdutiva, subitamente alguns intelectuais são produtivos e outros improdutivos? Que critério teórico mais rastaquera presidiu a confecção de uma lista que, além de ferir a ética, ofende a mais elementar inteligência? Que pesquisadores são esses que avaliam pesquisadores e ignoram até conceitos mais velhos do que um século? Que pesquisadores-avaliadores são esses que regressam à distinção do século 17 entre trabalho e preguiça? Se ignoram a “Crítica da Economia Política”, pelo menos não ignorem “Economia e Sociedade” ou “A Ética Protestante e o

56 Espírito do Capitalismo”. Que não ignorem as pesquisas mais recentes sobre a entrada do trabalho intelectual na esfera do trabalho produtivo e indaguem se o trabalho feito numa instituição que não é empresa estatal pode ou não ser considerado produtivo ou improdutivo. O que se fez é uma inépcia técnica, uma incompetência teórica e uma aberração moral (CHAUÍ, 02/03/88).

Marilena Chauí diz não aceitar a resposta dada pela burocracia da USP, de que a lista foi confeccionada pelo Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBI), pois este não teria acesso a dados como o regime de trabalho dos professores e o tempo em que eles ficaram em cada um. Ademais, tendo acesso às teses, as bibliotecas poderiam tê-las colocado na lista como produção acadêmica.

À Folha de S. Paulo, a filósofa pergunta por que, com tantas catástrofes que estavam acontecendo no país e no mundo, o jornal se dedicou a publicar uma lista de professores que não publicaram artigos, livros, textos? Diante de tal questão, Marilena Chauí diz fazer o que qualquer pesquisador faria, e foi consultar o Manual de Redação da Folha. Assim, no verbete “adjetivo”, ela encontrou a recomendação de que os jornalistas deveriam evitar o uso de adjetivos, nem muito menos lhes atribuir juízo de valor. Não foi o que a Folha fez ao trabalhar com o adjetivo “improdutivos”, conferindo-lhe, além disso, uma substantivação, falando de “lista de improdutivos”. Outro verbete pesquisado pela docente foi “estados emocionais”, no qual ela observou estar escrito que o jornalista não pode conferir estados emocionais a qualquer personagem, a não ser quando fizer uma análise ou interpretação. Não foi também o que a Folha fez, pois conferiu aos professores reações emocionais, dizendo, na reportagem do dia 21 de fevereiro, que eles se julgavam acima de qualquer avaliação. No verbete “exatidão”, o periódico recomenda aos jornalistas somente a publicação de informações corretas. Segundo a docente, não foi assim que a Folha procedeu no caso da lista, pois foi veiculada uma relação repleta de erros. Igualmente, no Manual está escrito que os jornalistas devem evitar graves erros de informação, as chamadas “barrigas”. Caso as cometesse, o veículo deveria corrigi-las sem eufemismo. Marilena Chauí encontrou seis barrigas na publicação do dia 21 e não as viu reparadas. De acordo com a docente, na página 33 do Manual de 1987, no verbete “mandato do leitor”, o periódico afirma que nas sociedades de mercado, ao comprar o jornal, o leitor delega à Folha um mandato para que ela lhe provenha de informações. Após a consulta de alguns dicionários, Marilena Chauí observa que nenhum deles caracteriza o ato de compra e venda de mercadoria como mandato.

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Para Marilena Chauí, o motivo da Folha de S. Paulo não ter incluído entre os critérios de produção da lista as teses defendidas e não publicadas, trabalhos apresentados em congressos, trabalhos de laboratório ainda não concluídos etc., foi uma confusão feita entre produção científica e coisa publicada. O motivo para tal atrapalhação seria, conforme Chauí, outra confusão. Desta feita entre os critérios da produção jornalística e os critérios da produção universitária. Ela argumenta no sentido de defender essa tese utilizando mais três verbetes do Manual. O primeiro é “agilidade”. Nele, o jornal afirma que os jornalistas devem ser ágeis, correr contra o relógio, caso contrário podem perder uma informação exclusiva. Coisa bem diferente acontece na ciência, onde a pressa é inimiga. Nesse sentido, “o tempo das ciências e o tempo das humanidades é diferente do tempo da notícia” (CHAUÍ, 02/03/88).

O segundo verbete consultado pela filósofa é “leitura fácil”, o qual recomenda aos jornalistas da Folha poupar trabalho ao leitor, oferecendo todas as informações sem esperar que ele faça hipóteses ou imagine. Para Chauí, o trabalho universitário é o oposto disso, não pretende descomplicar a leitura, e o que se espera é que o leitor imagine além do que está escrito. O trabalho acadêmico tem um ritmo que não é para produzir leitura fácil, no sentido apontado pelo Manual. Dessa forma, de acordo com a docente, do ponto de vista dos jornalistas da Folha de S. Paulo o ritmo próprio ao trabalho universitário pode parecer improdutivo. Mas a maior diferença apontada por Marilena Chauí entre a universidade e o jornal é dada pelo verbete “conjunções”, segundo o qual no jornalismo moderno as conjunções “ou”, “logo” e “por consequência” estão caindo em desuso. O pensamento e conhecimento moderno foram fundados na e pela utilização dessas conjunções, a filósofa o demonstra em sua fala. Na medida em que a universidade as utiliza, ela é moderna, já a Folha, que as deixa de lado, é pós-moderna. Assim, não há diálogo possível entre as duas instituições e o caso da lista serviu para mostrar isso.

3.3. Uma terceira matriz de pensamento dos docentes: representantes de entidades