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O primeiro texto do Conselho Editorial12 da Folha de S. Paulo, Levantamento de pontos indicativos de posição editorial e avaliação sintética do momento político, de 1978, indica como o periódico entendia a conjuntura brasileira e o processo de redemocratização. Segundo Carlos Eduardo Lins da Silva (1988), que analisou os documentos do Conselho Editorial, os quais constituem as diretrizes do Projeto Folha, a ser examinado mais adiante no texto, o documento de 1978 “praticamente não se refere ao jornal. Poderia ser um programa de ação para um partido político, uma plataforma de ação para um candidato a cargo público” (SILVA, 1988, p. 70).

O documento reitera a adesão do jornal ao processo de abertura, destacando a obsolescência do regime militar: “o regime autoritário, expressão política do capitalismo concentracionista, deixa de atender aos interesses objetivos das camadas cada vez mais significativas da população; torna-se obsoleto” (CAPELATO & MOTA, 1981, p. 241). Nos “pontos para formalização da tendência editorial” o Conselho Editorial manifesta preocupação com redução das desigualdades sociais, sendo a favor

12 O Conselho Editorial, criado em 1978 na Folha de S. Paulo e secretariado até 1984 por Otavio Frias

Filho, “é um colegiado sem funções executivas. Compõe-se de profissionais, entre jornalistas e não jornalistas, que dele participam a convite dos acionistas do jornal. A função do Conselho é avaliar o desempenho da Folha, discutir sua linha política e editorial e examinar projetos que lhe são apresentados. Em situações de emergência o Conselho é convocado para opinar sobre o comportamento a ser adotado pela Folha” (FSP, 1984, p. 25).

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da melhoria das condições de vida da população brasileira. A solução para esses problemas passa pela

(1) Melhores condições de vida – saúde, educação, trabalho, alimentação e habitação – para a maioria da população, a partir de:

(2) organização de um regime democrático, que assegure a estrita observação dos direitos do homem e do cidadão e que atenda aos interesses da maioria da população, por meio da participação política de todos os setores da sociedade e de todas as tendências de opinião; (3) liberdade de informação, compreendida como o direito de todos terem

acesso ao conhecimento dos fatos e das idéias; (4) fortalecimento dos organismos da sociedade civil;

(5) distribuição mais equitativa da renda nacional, prioritariamente por via tributária

(6) apoio à livre iniciativa econômica, prioridade do capital nacional (privado ou estatal) sobre o capital estrangeiro;

(7) submissão de toda a economia ao interesse social, por meio da fiscalização por parte do Estado democrático; e

(8) preservação da identidade cultural brasileira. (CAPELATO & MOTA, 1981, p. 241)

A adesão à ideia da democracia como a solução para os problemas da sociedade brasileira é a marca desse documento, que, ademais, assume uma plataforma mais generalista, abrangendo os desejos de todos aqueles que lutavam pelo fim da ditadura.

Como venho aqui afirmando, a aproximação da Folha com organizações da sociedade civil não resultou somente de uma decisão tomada pela direção do jornal e acatada pelo resto da redação. Ela foi consequência também das ações dos jornalistas que trabalhavam no veículo, os quais tinham simpatia e/ou participavam dos movimentos. Para Melo (1996, pp. 162-169), a presença de jornalistas de esquerda na Folha, que militavam em organizações políticas (clandestinas ou não), com experiência em dirigir e confeccionar jornais alternativos, também foi de importância para o engajamento do jornal no período de redemocratização. O depoimento de Alípio Freire, editor da seção Internacional do jornal naquela época, dá substância à tese de Melo (1996, pp. 164-165):

Na Editoria de Esportes estava o José Trajano; como pauteira, a Laís Tapajós (que também pertencia à Ala Vermelha), em política; como uma pessoa que tinha muito poder, o Antônio Fernando Marcelo (também da Ala e esteve preso, assim como a Laís Tapajós também esteve presa); na economia, estava Júlio de Grammont (...); dentro da economia também, como pauteira ou sub- editora, a Nair Suzuki que é uma pessoa de esquerda... Agora, você tem fundamentalmente na base da Folha, entre redatores, repórteres... todo um pessoal de esquerda. Alguns organizados nas organizações clandestinas de então. Eu acho que de todas as organizações clandestinas presentes, a mais estruturada, a com mais quadros dentro da Folha era a Ala Vermelha. Mas havia também um pouco da OSI e um pouco do Partidão. Algumas pessoas já eram do PC, tipo Gildo Marçal Brandão, outras eu não sabia exatamente o nível de vínculo... Tinha a Raquel Régis de Andrade, que também era do

85 Partidão e outras que gravitavam em torno do PC... E além dessas organizações, que eram organizações políticas, de viés partidário, havia os jornalistas organizados em torno de vários jornais da imprensa alternativa, ou imprensa de resistência. O [Antônio Fernando] Marcelo, por exemplo, era o responsável por um jornal nosso que era o ABCD jornal. O Julio de Grammont também fazia o ABCD e era da ALA; eu era um dos responsáveis pelo Repórter de Guarulhos, jornal dirigido aos sindicatos, movimentos populares etc.; tinha o pessoal d’O Espalhafato, que creio que nenhum deles fosse ligado a nenhuma tendência, mas eram pessoas que vieram do movimento estudantil, parte do Refazendo; tinham alguns deles, com alguma vinculação com o MEP... Haviam [sic] pessoas colaboradoras do O Movimento como o próprio Perseu.. Tinha uma organicidade dentro da Folha muito grande. Na economia tinha também como articulista o Eduardo Suplicy. Havia também os correspondentes internacionais da Folha: se é verdade que tinha o Paulo Francis – e naquele momento o Paulo Francis não era o Francis de hoje, ele ainda apostava abertura –, de qualquer forma; tinha também o J. B. Natali em Paris, que era um cara de origem de esquerda que eu conheço desde 68; tinha o Flávio Rangel; o Isac Hakcseud em Telaviv, que também era um cara de esquerda; o Newton Carlos que era uma pessoa dessa oposição geral ao regime (...); o Geraldo Mourão, que tinha um forte discurso de oposição ao regime militar; (...) o secretário de Redação era o Alexandre Gambirasio: que embora não fosse de esquerda era uma pessoa convictamente democrática (FREIRE, 1996, pp. 164-165).

Apesar da presença desses (e de outros) jornalistas partidários da democracia e/ou de esquerda na redação, a conjuntura política ainda demandava certa dose de precaução. O ambiente do jornal, como uma metáfora da própria sociedade, era resultado de um equilíbrio instável de forças. Se, por um lado, a redação era politizada, por outro, havia, ainda, o ritmo lento da abertura que deveria ser respeitado. Ademais, não se pode esquecer que, para os donos da Folha, a notícia mercadoria era altamente vendável na época, fazendo com que apoiassem a linha editorial até então liderada por Claúdio Abramo. Entretanto, quando o clima de crescente politização e democratização começou a tomar conta da imprensa, com a criação do Conselho Consultivo de Representantes de Redação (CCRR)13, órgão que propunha a ampliação da participação dos jornalistas nas redações, as relações começam a mudar entre jornalistas e os donos do jornal.

13 O CCRR consistia em uma reunião mensal realizada entre representantes de jornais, os quais eram

escolhidos pelos jornalistas de cada órgão via eleições diretas e secretas. O Conselho tinha uma Coordenadoria composta por três membros eleitos entre os representantes, que deveriam trabalhar próximos ao sindicato para que as decisões tomadas no CCRR fossem mais bem encaminhadas (SILVA, 2008).

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