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As questões em que se optou por tentar entender, nestes quase 15 anos, o efeito das situações vivenciadas durante a infância na sobrevivência dos idosos do Estudo SABE podem ser divididas em duas categorias: a) as quatro primeiras estariam relacionadas às situações socioeconômicas e

culturais e, b) as três últimas ao estado de saúde durante a infância/juventude. Ressalte-se que, as últimas também poderiam estar diretamente ou não relacionadas com as primeiras, pois estudos demonstram a possível interação entre elas.

Quando migram de regiões carentes para regiões mais desenvolvidas, os indivíduos estariam realizando investimentos em si próprios, segundo a teoria do Capital Humano. A cidade de São Paulo, em períodos distintos, foi um importante local de destino de pessoas provenientes de outras regiões do país e do exterior. É bastante difundida, e não só entre os especialistas da área, a informação de que, entre 1960 e 1980, somente o êxodo rural brasileiro alcançou um total de 27 milhões de pessoas (CAMARANO e ABRAMOVAY, 1999).

Os resultados obtidos junto aos idosos que relataram não ter vivido em área rural, ter tido boa situação econômica e nunca ter passado fome, nos 15 anos iniciais de vida dos idosos, demonstram que tais situações não tiveram papel importante na sobrevida analisada.

A proporção de idosos sobreviventes que, nos anos iniciais de sua vida, sempre residiram em áreas urbanas foi quase 5% (4,7%) maior do que os que migraram da área rural. Na análise univariada do conjunto de idosos, ajustado pela idade, verifica-se uma possível evidência (p= 0,076) quanto ao efeito protetor dessa situação ao apresentar um risco menor de óbito em quase 12% (11,8%). Entretanto, em nenhuma das análises realizadas por gênero o resultado foi semelhante, muito pelo contrário (p>0,38).

Nas duas outras covariáveis que abordavam questões socioeconômicas os resultados obtidos distanciaram-se, ainda mais, do valor referenciado

quanto à relevância de seus números, demonstrando a pouquíssima ou nenhuma evidência real quanto à importância que, eventualmente, poderiam ter no tempo de sobrevivência desses idosos.

Os resultados obtidos aqui, na análise destas três covariáveis, foram semelhantes aos obtidos pelo Chinese Longitudinal Healthy Longevity Survey (CLHLS), apesar da limitação existente entre ambos e, provavelmente, em diversos outros trabalhos. Lá a intenção foi verificar o impacto de situações vivenciadas na infância sobre a longevidade dos mais idosos (80 anos e mais), com algumas questões bem semelhantes às utilizadas, neste tópico, no presente trabalho (YI, GU e LAND, 2007).

Desde o final do século XIX, principalmente a partir de 1870, quando a lei Eusébio de Queirós começou de fato a surtir efeito (foi publicada em 1850 e proibia o tráfico de escravos) o fluxo de imigrantes para o Brasil aumentou significativamente (MENDES, 2009). E perdurou, inclusive, até meados do século XX, com o advento das pessoas que, entre outros motivos, fugiam de regiões pobres da Europa, assim como das duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945).

Neste caso em específico, tal conjuntura em relação à imigração para o Brasil ou, mais em específico, para o Estado de São Paulo, talvez tenha tido papel relevante nos resultados encontrados. Quando se identifica que a proporção entre os brasileiros vivos, em novembro de 2014, era 52,4% e a de estrangeiros, 42,9%; sendo que entre estes, em 2000, 60,0% tinham mais de 70 anos de idade indicando que nasceram antes mesmo do início da participação do Brasil na segunda grande guerra mundial. Fora isso, os demais resultados encontrados em relação ao efeito protetor sobre a sobrevivência,

também não foram significativos. Essa inferência seria diferente, mas não discordante, por exemplo, da sugerida por SU (2009) que relatou - em trabalho onde analisava o impacto da origem do país de nascimento, entre outras variáveis, na mortalidade de veteranos do exército dos Estados Unidos (50 anos e mais) - que os nascidos na Alemanha e Irlanda apresentavam maior desvantagem em relação ao tempo de sobrevida, pois as condições de vida em seus países de origem eram - durante o período que emigraram -, segundo ele, inferiores aos vivenciados pelos soldados nativos dos EUA. Para BARKER ( 1990) problemas ocorridos durante a gestação - como, por exemplo, desnutrição ou má-alimentação da gestante - teriam impactos significativos nas condições de saúde e, até mesmo, no tempo de vida dos indivíduos. O que, a princípio, nos leva a inferir que isso também poderia ter tido papel relevante nas diferenças verificadas entre os dois grupos do estudo citado por SU, não somente no período em que ocorreram as emigrações, mas, também nas condições socioeconômicas em que ocorreram as gestações dos membros daquele estudo.

Gráfico 2 – Tempo mediano de sobrevivência de idosos, por gênero, conforme situações vivenciadas nos primeiros 15 anos de vida, Município de São Paulo, 2000 a 2014.

*valor não disponível (mais da metade continuavam vivas).

As três últimas covariáveis que restaram da análise da situação vivenciada caminhavam, também, para a não significância das diferenças nos

resultados encontrados. Isso foi verdadeiro tanto para os que relataram ter tido uma saúde excelente quanto para os que informaram que não ficaram na cama, devido a alguma doença, por um ou mais meses.

Entre os idosos homens do Estudo SABE aqueles que relataram não ter ficado acamado por conta de doenças em sua infância apresentaram risco de óbito menor em 5%, resultado semelhante ao verificado entre os mais idosos homens chineses. Porém lá como aqui, os resultados obtidos não apresentaram evidências significativas, assim como entre as mulheres idosas de ambos os locais (YI, GU e LAND, 2007).

Entretanto, chamou a atenção os resultados encontrados entre os que relataram ter tido alguma doença (nefrite, hepatite, sarampo, tuberculose, febre reumática, asma, bronquite crônica, varicela e outras) nesta fase da vida, pois demostravam que homens e mulheres que tiveram uma ou mais delas (82,7%), apresentaram efeito protetor em sua sobrevivência de 23,2% (p=0,002); mas, o mais interessante foi aferir que, na análise por gênero, o resultado obtido junto às mulheres deixou de ser representativo (p=0,15), diferente do verificado entre os homens que, além de se manter relevante (p=0,01), apresentou um efeito protetor de 27,3%.

Tabela 3 – Sobrevida de pessoas com 60 anos e mais por gênero, segundo situações ocorridas na infância, município de São Paulo, 2000-2014.

% % P value 5 10 14 75% 50% 25% HR5 P value HR5 P value Nasceu Brasil Não 8,7 6,9 42,9 77,7 51,2 33,4 5,5 10,2 - 0,96 1 - - - Sim 91,3 5,2 52,4 80,5 61,3 45,1 6,4 12,5 - 1,01 0,93 0,76 1,14 0,496

Não viveu rural

Não 62,6 5,7 49,8 78,3 58,4 42,8 5,5 12 - 1,04 1 - - -

Sim 37,4 4,9 54,5 83,6 63,7 46,3 7,4 12,7 - 0,93 0,88 0,77 1,01 0,076

Situação econômica boa

Não 70,1 5,3 52,0 81,0 60,6 43,8 6,4 12,2 - 1,03 1 - - - Sim 29,9 5,4 50,7 78,5 59,7 44,9 6,0 12,3 - 0,95 0,95 0,82 1,10 0,487 Não Fome Não 19,6 5,1 52,6 81,9 61,1 44,9 6,7 12,7 - 1,04 1 - - - Sim 80,4 5,4 51,3 79,9 60,2 43,9 6,1 12,1 - 0,99 0,96 0,81 1,14 0,65 Saúde excelente Não 50,9 5,4 51,3 79,7 59,9 43,8 6,2 12,1 - 1,03 1 - - - Sim 49,1 5,3 51,9 80,9 60,1 44,4 6,3 12,4 - 0,97 0,97 0,85 1,11 0,670 Teve doenças Não 17,3 7,3 40,5 71,6 45,7 35,3 4,3 9,3 - 1,18 1 - - - Sim 82,7 5,0 53,9 82,1 63,5 46,0 6,8 12,7 - 0,96 0,77 0,65 0,91 0,002 Homens e Mulheres1 Cova ri á vel taxa de óbito (por 100 idosos/ano)

Vi vos nov/142 % s obrevi ver a no 3 a nos s obrevi da4 l og-ra nk s tcox uni va ri a da

IC 95% < 0,0001 0,02 0,85 0,34 0,69 0,62 0,66 0,27 0,09 0,10 0,016 0,64 só Mulheres Nasceu Brasil Não 8,1 6,7 45,7 75,5 52,3 34,7 5,0 10,8 - 0,96 1 - - - Sim 91,9 4,3 58,7 84,8 66,9 51,3 7,7 - - 1,01 0,89 0,66 1,19 0,43

Não viveu rural

Não 58,1 4,8 56,5 82,5 63,9 48,8 6,8 13,5 - 1,02 1 - - - Sim 41,9 4,2 59,4 86,1 68,2 51,6 8,1 - - 0,98 0,92 0,77 1,11 0,379

Situação econômica boa

Não 67,7 4,5 58,2 83,9 66,0 50,0 7,4 14,0 - 1,03 1 - - - Sim 32,3 4,6 56,5 84,3 65,1 50,0 7,1 14,2 - 0,95 0,95 0,78 1,15 0,577 Não Fome Não 18,3 4,5 57,5 85,1 66,4 49,2 7,1 13,9 - 1,11 1 - - - Sim 81,7 4,5 57,7 83,8 65,5 50,2 7,4 14,1 - 0,98 0,88 0,70 1,10 0,265 Saúde excelente Não 52,2 4,5 57,5 83,4 65,2 50,1 7,4 14,1 - 1,03 1 - - - Sim 47,8 4,5 57,8 84,8 66,1 49,9 7,1 13,8 - 0,97 0,97 0,81 1,16 0,710 Teve doenças Não 16,0 6,1 47,0 76,7 50,7 41,4 5,2 10,9 - 1,09 1 - - - Sim 84,0 4,2 59,7 85,5 68,6 51,7 7,9 - - 0,98 0,84 0,66 1,07 0,150 Homens e Mulhere 0,0003 0,37 0,93 0,55 0,95 0,26 0,61 0,44 0,35 0,67 0,002 0,73 só Homens Nasceu Brasil Não 9,5 7,1 39,5 80,3 50 32,1 5,9 10,0 - 0,87 1 - - - Sim 90,5 6,6 43,3 74,5 53,4 36,5 4,9 11,0 - 1,02 1,04 0,79 1,39 0,76

Não viveu rural

Não 69,1 6,8 42,0 73,3 52,1 35,9 4,7 10,5 - 1,01 1 - - -

Sim 30,9 6,3 45,3 78,9 55,1 36,0 5,6 11,2 - 0,99 0,95 0,76 1,18 0,653

Situação econômica boa

Não 73,4 6,5 43,9 77,3 53,8 35,9 5,3 11,0 - 1,01 1 - - - Sim 26,6 7,0 40,6 68,8 50,8 36,3 4,1 10,5 - 0,99 1,03 0,82 1,30 0,785 Não Fome Não 21,4 6,0 46,8 78,0 54,9 39,8 6,0 11,6 - 0,92 1 - - - Sim 78,6 6,9 41,9 74,2 52,6 35,0 4,7 10,7 - 1,02 1,11 0,86 1,43 0,424 Saúde excelente Não 49,2 6,8 42,0 74,3 52,1 34,6 4,9 10,9 - 1,06 1 - - - Sim 50,8 6,5 43,9 75,8 54,0 37,4 5,3 11,3 - 0,95 0,94 0,77 1,15 0,573 Teve doenças Não 19,2 8,9 32,8 65,7 40,0 28,1 3,3 8,2 - 1,22 1 - - - Sim 80,8 6,2 45,4 77,3 56,3 38,0 5,5 11,6 - 0,95 0,73 0,57 0,93 0,010 Homens e Mulhere 0,01 0,06 0,70 0,266 0,35 0,406 0,55 0,87 0,52 0,86 0,58 0,37

1 ajustado pela idade 2 Teste associação (Rao-Scott) 3 Chance de estar vivo em 5, 10 ou após 14 anos (Teste de Kaplan-Meier)

4 Chance de anos de sobrevivência (comando stsum) 5 Hazard-Ratio