7.3 Discontinuous Lamé constants
7.3.2 Plots of solutions
A escola aparece nos relatos em regra como “parceiros” da família do artista mirim. Entendem sua condição especial, prorrogam prazos, dão trabalhos para repor as faltas e algumas mães recebem bolsa (todos
estudam em escolas particulares). Não ficou claro nos relatos se a bolsa possuía alguma relação com as atividades da criança na televisão. A média de faltas declarada pelos artistas mirins variou de 2 dias por mês até 3 vezes por semana, também houve quem declarasse nunca perder aulas. Todo o grupo entrevistado estuda de manhã, quem estudava a tarde teve que mudar devido aos testes e gravações, realizadas em regra no período da tarde.
As faltas na escola acontecem em decorrência de gravação de comerciais, que geralmente duram o dia inteiro, testes que não serão realizados também no período da tarde (geralmente oferecem duas opções, manhã e tarde), ou novelas, filmes, seriados e eventos que envolvem viagens ou gravações também no período da manhã. Algumas crianças também faltam por estarem cansadas para acordar cedo, devido atividades profissionais realizadas até tarde na noite anterior ou mesmo de madrugada.
“Geralmente eu perco aula porque chego muito tarde, chego muito cansada.” (criança B)
“Antes eu perdia muita aula, gravava um comercial por semana, mas agora esta mais parado” (criança F)
Trocas de escola surgiram nos relatos, algumas por motivos relacionados ao trabalho artístico, inclusive bullying:
“Quase todo ano eu mudo de escola, da última vez porque tinha que estudar de manhã para fazer a novela e na minha escola antiga só tinha a tarde” (criança D)
“Eu sofri bullying quando comecei a fazer aula de sapateado, os meninos e meninas passaram a me zoar. Fiquei um ano pressionado, chorava por qualquer coisa, até que dei um soco num menino que me enchia. Eu tinha poucos amigos por causa da dança, acho que eles não respeitam quem não gosta do mesmo que eles... Estava insuportável e saí; agora a escola é mais artística, tem aula de teatro, música, tem gente que faz filme, lá é uma honra fazer musical.” (criança C)
“... alguns ficam enchendo o saco, tiram sarro ‘ah, você é criancinha, fez comercial de [boneca], eu finjo que não escuto,
mas eu percebo que eles fazem isso porque tem ciúmes porque eu apareci na televisão.” (criança H)
Essas crianças cumprem uma intensa agenda de compromissos sem que seus boletins escolares reflitam suas ausências. Conforme já apontou ACIOLI (2010), muitas crianças submetidas ao trabalho estão na escola, é preciso quebrar paradigmas para enxergar o trabalho precoce e oferecer uma escola que inspire o interesse das crianças e a confiança dos pais, de tal forma que nenhuma criança queira estar fora dela.
Todos os artistas mirins entrevistados são alunos do ensino fundamental, jamais repetiram de ano e a maioria relata tirar boas notas sem ter que estudar fora do horário das aulas. Além de perceberem o tratamento diferenciado que recebem na escola, muitos quando estão em cartaz fazem a lição de casa nos bastidores, e há quem relate ter visto nessas ocasiões mães fazendo as tarefas escolares dos colegas:
“Os professores já sabem que se eu faltar uma semana... no filme [2 meses de gravação em outras cidades] pegava lição pela Internet. Mas quando eu faltei 20 dias e tinha aula ... os professores descontaram algumas faltas, mas consideraram, se devia ficar com 8 faltas o professor deu apenas 4, porque já sabem que sou atriz. No 1º bimestre fiquei sem nota e no 2º bimestre fiz provas dos 2 bimestres... no boletim tenho só nota boa, a mais baixa foi oito. A escola já sabe que sou atriz e tenho muitas atividades para fazer fora. Eu presto bastante atenção nas aulas... acabo não fazendo lição de casa e os professores dão um prazo maior. Alguma coisa pelo menos dá tempo para fazer, os
professores entendem bem.” (criança B)
“Tem vezes que eu falto, é irregular, tem vez que eu falto dois dias, às vezes eu não falto nenhuma vez no mês... mais eu pego matéria com meus amigos e, por exemplo, se eu vou ter uma prova do livro dia 30, só que dia 30 eu vou me apresentar, então falo com a professora... aí vai mudar a data da prova para mim então... Às vezes eu fazia a lição no carro, outras minha mãe deixava antes [no teatro] aí dava um tempo de fazer lição.” (criança G)
“Lição de casa é muito chato porque eu tenho bale, sapateado, chego 6 horas, tomo banho, ensaio violão e piano e ainda depois tenho lição de casa... [na época do musical] eu fazia lição nos
bastidores enquanto esperava acabar para ir agradecer” (criança
H)
“Durante oito meses de novela não mudou minha nota, professores tiravam a falta, aconteceu de errar uma pergunta na prova que professor explicou no dia que faltou... mas nota média que tiro é oito... [a nota] só caiu menos de meio ponto, de vez em quando professores não sabiam e falavam nossa você está faltando, aí eu explicava e eles entendem... aí eu faço a lição de casa atrasada e copio o caderno das amigas... fazia a lição lá mesmo [emissora], me divertia, fazia lição, me divertia, fazia no meio do barulho mesmo, é igual [fazer lição] na classe” (criança I) “Quando eu tenho que faltar, que já aconteceu várias vezes, eu reponho ou eu vou de tarde. Quando eu perco aula, aí minha professora vem em casa ... A escola não reclama. Nunca tirei
vermelha, é de 7 a 10; falto 2 ou 3 vezes por semana” (criança K)
A escola deveria ser o local onde essa criança pudesse resgatar o seu sentido de existência comum, de convivência normal com outros estudantes e professores. Mas se as relações são deficitárias, baseadas na ‘fama’ que diferencia aquele aluno que é artista, as relações igualitárias não poderão ocorrer e, assim, se perderá a chance do desenvolvimento equilibrado de competências sociais, e, portanto, de construção de um autoconceito adequado e estável. Além disso, conforme já observado em Portugal por BAHIA et al. (2008), o fato de a criança ou jovem se envolver numa atividade que consome parte do seu tempo e de suas energias pode lhe proporcionar uma permissividade demasiado alargada em outros contextos “nomeadamente em casa ou na escola, onde muitas das suas vontades ou mesmo manhas são satisfeitas” (BAHIA et al, 2008, p.222).
Embora o estudo não tenha aprofundado este aspecto, o deslumbramento dos adultos com a fama e a carreira artística parece estar por traz da conivência da escola e da família. De qualquer forma, esta situação de proteção, de tratamento diferenciado pode provocar dependência e perda de
economia, e será um problema para o desenvolvimento saudável daquela criança ou adolescente, independente da carreira artística ter continuidade ou não.
Nos relatos abaixo, mais uma vez, o olhar da mãe sobre as outras mães e seus filhos artistas é revelador e preocupante, pois indica que situações ainda mais graves ocorram nos bastidores, podendo atingir o aproveitamento escolar e principalmente a saúde dessas crianças e jovens:
“Eu já vi aberrações neste meio... aberração é você chegar num ensaio, a criança tá lá ensaiando e a mãe está fazendo a lição de casa, eu já vi isso várias vezes; aí você se pergunta: minha filha tem só o musical, não tem outros trabalhos, ela tem o colégio e tem o musical... e mesmo assim, gente, a rotina é uma loucura, pode não parecer, mas é uma loucura, porque para uma criança de 12 anos dar conta de colégio, que é uma fase muito puxada para manter esta agenda em dia de prova, lição... e o teatro demanda muito tempo porque só de peça são 3 horas; então a gente fica pensando como estas crianças dão conta de fazer teatro música, desfile, de fazer comercial?! se ela falta um dia [na escola], depois para repor este dia... então eu vejo crianças com olheiras, crianças que volta e meia estão com dor de garganta, tão com uma gripe que não sara, e isso, na nossa opinião, é decorrente de uma estafa.” (mãe J)