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À semelhança do 12 de Março e do 15 de Outubro, também os protestos de larga escala agendados pelo QSLT (15 de Setembro e 2 de Março) espalharam-se por todo o território nacional e surgiram grupos também com a sigla QSLT noutras cidades do país79.

No Porto, de acordo com António, a ideia de organizar o 15 de Setembro surgiu poucos dias antes da data agendada para Lisboa.

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Esta análise baseia-se fundamentalmente nos três testemunhos dos entrevistados originários das cidades de Coimbra, Faro e Porto que participaram nesta fase dos protestos.

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Foi a X, que agora é militante do BE, na altura não era militante do BE, que manda para Lisboa uma mensagem para o X [um ativista de continuidade, pertencente ao grupo inicial do QSLT e por nós entrevistado] e pergunta-lhe: “E cá no Porto? Alguém está metido nisto?” Ele diz que não sabe. A X pergunta-lhe: então e consegues-me arranjar alguém que me trate disto? O X diz-lhe: eu vou te pôr em contacto com um tipo do PCP e um tipo do Bloco, o que demonstra que a malta já sabia perfeitamente de que lado é que estava o slogan do Que se Lixe a Troika... mas adiante! Juntámo-nos os três no gabinete do município do Porto: “queremos convocar uma manifestação”. Está feito! Para a manifestação do 15 de Setembro, no Porto, são três gajos que assinam aquilo e está feito. O Bloco em peso no dia está lá, montou lá o estaminé (grades, megafones, mesa de som, bandeirinhas vermelhas) e a coisa correu bastante bem e imprevisivelmente bem. Nenhum de nós estava à espera que a coisa tivesse aquele impacto todo.

Tendo em conta o testemunho de António, os protestos agendados pelo QSLT, no Porto, tiveram desde o início o apoio dos partidos políticos de esquerda, nomeadamente do BE e do PCP, mas sobretudo do BE devido ao facto de participarem, no grupo, mais militantes deste partido. Em termos comunicacionais e de divulgação das iniciativas, o entrevistado afirma que funcionaram do mesmo modo que o QSLT Lisboa, ou seja, a página do facebook e a colagem de cartazes no terreno foram os principais meios utilizados para anunciar as iniciativas. Em termos de recursos económicos, à semelhança do que ocorreu com os restantes protestos organizados um pouco por todo o país, o entrevistado assume que estes advieram maioritariamente das contribuições individuais dos envolvidos no processo de organização. No entanto, como vimos anteriormente, segundo o entrevistado, a organização teve o apoio do BE. Além disso, acrescenta: “era o dinheiro que a malta juntava e depois havia uma copiadora mágica, que era a copiadora do Bloco”. O ativista reitera ainda que o QSLT-Porto seguiu uma lógica ligeiramente diferente do grupo de Lisboa porque eram menos ativistas a participar e, portanto, não atravessou as fases de abertura e de entrada de “novos” ativistas. Assim, no Porto, constituiu-se sempre como um grupo fechado, onde participavam particularmente militantes do PCP e do BE, mas principalmente deste último.

Houve tentações de fazer daquilo um grupo aberto, um grupo assembleário e eu opus- me determinantemente a isso, e outras pessoas que já tinham participado em

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processos alargados. Todas as pessoas que tinham participado, sobretudo no 15 de Outubro, opuseram-se imediatamente.

Apesar de no Porto, o grupo ser mais pequeno do que em Lisboa, tentaram também reunir apenas pessoas com quem houvesse entendimento face às formas de trabalho necessárias para desenvolver as ações: “A malta juntou-se com pessoas que sabe que consegue trabalhar e sobretudo que seja ideologicamente de confiança”. Tal como em Lisboa, a discussão sobre os temas “fraturantes” da austeridade foram omitidos, especialmente as discussões face à dívida do país ou à formulação de medidas políticas concretas para combater a austeridade.

A dívida dividia. O Bloco tem uma posição e o PCP tem outra. A gente tinha mesmo que agregar! O que é que agrega o Bloco e o PCP? É a expulsão da Troika e a queda do governo. A partir daqui o que é que vamos fazer? Como é que vamos colar cartazes? Como é que vamos fazer não sei quantos?

De acordo com António, esta estratégia foi a melhor para evitar grandes conflitos políticos entre os ativistas-militantes do PCP e BE. Todavia, devido a um maior peso de pessoas pertencentes ao BE, estes, na sua opinião, tinham um maior poder de decisão. Assim, embora declare que não existiam lideranças formais, quem detinha os recursos acabava por ter uma maior influência.

Há sempre gajos que mandam nas coisas. Quem é que mandava naquela manifestação [referindo-se ao 15 de Setembro]? Era o Bloco porque o Bloco tinha pessoas, o Bloco é que imprimia os cartazes, o Bloco é que imprimia os documentos, o Bloco é que fornecia os carros de som e as colunas.

Quando o interrogámos sobre a possibilidade de esta situação potenciar conflitos, António proferiu o seguinte: Isto não criava conflitos absolutamente nenhuns, mas é óbvio que isto cria poder. Se fosse a CGTP, ou o PCP, a imprimir os documentos, seriam os militantes do PCP a mandar naquela cena!

Em Faro também foi criado um grupo QSLT onde, de acordo com Pedro (membro do QSLT-Faro), participaram ativistas com diferentes proveniências que desenvolviam as suas atividades em associações e/ou partidos e que se juntaram para organizar os protestos de 15 de Setembro e de 2 de Março. À semelhança de outras cidades, também efetuavam coletas

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monetárias com vista à realização das manifestações e o facebook foi também o principal meio de divulgação das ações. No entanto, ao contrário de Lisboa e Porto, segundo Pedro, o grupo funcionou de forma aberta e anunciou sempre publicamente as suas reuniões no facebook. Os encontros eram ainda realizados em espaços públicos onde, nalgumas circunstâncias, se podiam juntar os transeuntes que por lá passavam.

Mas, apesar de terem adotado a sigla QSLT, o ativista reconhece que nunca chegaram a reunir-se pessoalmente com membros de outros grupos QSLT de outras cidades.

Havia algumas pessoas que nós só conhecíamos pela própria blogosfera. Havia muito pouca ligação, às vezes só no próprio dia e até pela questão mediática com os outros grupos, quer seja em Lisboa ou noutros sítios. No fundo, aquilo que nos unia era a organização, a manifestação em si e era o tema. Partilhávamos informação, mas também era muito pouca, às vezes até informação mais operacional: a que horas é que vocês começam, etc. A ideia era esta: o que vinha de Lisboa fazíamos um franchising.

Pedro considera que, apesar de, regra geral, adoptarem os frames de contestação à austeridade de Lisboa, particularmente os slogans e motes de protesto, nas manifestações também se podiam observar, sobretudo no discurso dos organizadores e não tanto dos manifestantes, reivindicações locais para a região do Algarve como, por exemplo, sobre a regionalização e a descentralização dos poderes governativos ou ainda sobre a urgência das populações locais serem auscultadas no âmbito das decisões nacionais sobre os territórios onde habitam.

Além disso, afirma que, no período coincidente com a diminuição da intensidade dos protestos de rua, tentaram organizar uma iniciativa mais formal e que tratasse especificamente dos temas locais do Algarve.

Começámos a sentir que só um franchising não chega. É importante a manifestação, mas também há que agir localmente no dia a dia e começámos a pensar em organizar uma espécie de plataforma local das várias associações locais que trabalhavam basicamente cada uma por si, até nos conhecíamos pessoalmente, mas em termos de movimento e de reivindicações cada um fazia as suas e raramente trabalhávamos enquanto plataforma e houve uma tentativa de elaborar. (Pedro)

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Contudo, a iniciativa de construir uma plataforma mais coesa, com propostas e reivindicações políticas para o Algarve, acabaria apenas por dar os primeiros passos e nunca se chegaria a constituir formalmente. O entrevistado admite que, a partir do momento em que houve esta tentativa, começaram a surgir algumas divergências do ponto de vista das orientações políticas que levaram, em parte, à sua não concretização.

Como explicitado anteriormente, e em conformidade com o testemunho de Alexandre, Coimbra foi uma cidade onde um grupo QSLT surgiu apenas na fase coincidente com a preparação da manifestação de 2 de Março de 2013. Até lá todos os protestos foram organizados pela Assembleia Popular de Coimbra que, como observámos com base no testemunho do ativista, funcionou de modo diferente dos outros coletivos que emergiram para organizar os grandes protestos noutros pontos do país.

Coimbra foi o único sítio onde houve uma estrutura estável, contínua, saída da Acampada e que percorreu este caminho todo. Foi a Assembleia que organizou o 15 de Setembro, o primeiro Que se Lixe a Troika. Em Coimbra, esses movimentos estruturalmente não se fixaram aqui e a Assembleia acabou por tomar esse papel. De acordo com Alexandre, os ativistas da Assembleia Popular de Coimbra, embora alguns possuíssem militância partidária, só deveriam participar em nome individual e não podiam representar grupos organizados. Na sua opinião, a manifestação de 2 de Março “eram setores mais próximos ao Bloco de Esquerda. Acho que essa foi a única manifestação convocada por um Que se Lixe a Troika Coimbra, que aqui nunca teve muita atividade”. Segundo o ativista, a finalidade da Assembleia Popular de Coimbra sempre foi seguir o “espírito vivido no movimento em Espanha e depois no Occupy”.

Analogamente a outros grupos organizadores das manifestações de 15 de Setembro e de 2 de Março em outras cidades, o entrevistado afirma que as manifestações eram organizadas fundamentalmente com base nas contribuições económicas individuais e a internet também foi um meio importante na divulgação das iniciativas. Além destas ações de contestação, a Assembleia Popular de Coimbra organizou, durante cerca de um ano e meio, um conjunto diverso de iniciativas tais como debates sobre as consequências das medidas de austeridade e ainda uma horta comunitária em solidariedade com a escola da Fontinha no Porto.

Assim, Coimbra talvez tenha sido a cidade onde o modelo de funcionamento das acampadas, “importado” do 15M, tenha perdurado mais tempo e onde um grupo de ativistas

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sem a sigla QSLT levou a cabo o protesto de 15 de Setembro. Em Faro, como constatámos, o grupo de ativistas, que se formou para organizar as manifestações de rua, acabou por seguir o modelo de organização dos protestos de Lisboa, embora a lógica de funcionamento interna do grupo tenha sido sempre aberta a todos os cidadãos. Já, no Porto, foi onde os ativistas locais tiveram sempre em maior contacto e proximidade com Lisboa e onde foi assumido, pelo ativista entrevistado, que na prossecução dos protestos QSLT tiveram sempre o apoio direto dos partidos políticos de esquerda.

Apesar de os ativistas, nas diversas cidades, terem organizado os seus grupos de forma diferente, do conjunto dos coletivos de protesto que despontaram durante o ciclo antiausteridade, o QSLT foi o único que espalhou a sua sigla a nível nacional. Esta disseminação alargada não teria sido possível sem o contributo dos media digitais.

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