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Como se observou, em Lisboa, o protesto de 12 de Março surgiu da combinação da vontade de jovens ativistas com a dinamização das redes de trabalho e de solidariedade dos ativistas de continuidade. O anúncio da manifestação espalhou-se ainda por diferentes cidades do país devido às redes virtuais da internet. No Porto, a convocatória no facebook surgiu da iniciativa de um jovem que devido à impossibilidade, por motivos económicos, de se deslocar

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a Lisboa decidiu criar uma página no facebook a apelar à participação de todos os cidadãos que desejassem estar presentes numa primeira reunião de organização66.

Por exemplo, António, um dos jovens que iniciou a sua participação cívica, no Porto, com o 12 de Março, destaca o papel fundamental que o facebook desempenhou como instrumento facilitador no encontro dos cidadãos motivados para organizar a manifestação.

Eu não conhecia os ativistas que tiveram a ideia do protesto em Lisboa. Eles fizeram a página no facebook, um tipo, a dada altura, mete lá um post: “eu sou do Porto, quem é que ser quer juntar comigo no X?”. A malta foi para o X, não nos conhecíamos de sítio nenhum [referindo-se ao local onde foi agendada a primeira reunião de preparação da manifestação]. Há um momento interessante em que estamos a olhar nas mesas uns para os outros com olhar de parvos, até que alguém toma a iniciativa de perguntar: “tu não estás aqui por causa de...?”. “ Estou, sim senhora”. Entre os organizadores das manifestações de Lisboa e Porto67, houve em todo o processo uma articulação que foi realizada maioritariamente através dos social media. Os jovens ativistas, que participaram na preparação da ‘geração à rasca’, no Porto, afirmam que adotaram os mesmos temas de protesto – o combate à precariedade e ao desemprego – assim como o manifesto e a iniciativa de, no decorrer da manifestação, solicitarem aos participantes para escreverem quais as suas principais preocupações sobre o presente e o futuro do país com a finalidade de, posteriormente, serem entregues aos deputados na Assembleia da República68.

No que diz respeito aos recursos económicos disponíveis, os ativistas sublinham que estes resultaram das suas parcas contribuições individuais. Por outro lado, a possibilidade das redes sociais da internet permitirem atualmente a partilha de documentos, cartazes e panfletos, que cada um pode imprimir e utilizar em qualquer local e em tempo real, ajudou bastante.

66 Baumgarten (2016) defende que, no Porto comparativamente com Lisboa, a organização dos protestos de

larga escala efetuou-se segundo uma lógica mais aberta e menos influenciada pela existência de estruturas organizacionais pré-existentes. No entanto, no âmbito desta pesquisa, os entrevistados assumem que esta realidade apenas correspondeu ao momento de preparação do 12 de Março e que os protestos posteriores foram mais influenciados pelas estruturas partidárias dos ativistas.

67 Os entrevistados, que estiveram na organização dos protestos em Coimbra e em Faro, não participaram na

preparação do 12 de Março. Assim, não se utilizarão exemplos relativamente a estas cidades.

68 De acordo com Soeiro (2014: 72), as principais preocupações dos manifestantes face, naquele período, à

situação do país estavam relacionadas com a precariedade e o desemprego e, em seguida, com o funcionamento do sistema político, nomeadamente com os assuntos sobre a “transparência e o combate à corrupção” e “a crítica ao nepotismo”.

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Além dos media digitais, alguns organizadores destacam também o papel importante dos media tradicionais (televisão e imprensa) na difusão massiva do protesto.

Neste ponto, alguns ativistas demonstram também sentirem-se muito satisfeitos com o facto de terem levado a cabo uma manifestação que não incluiu o apoio financeiro de qualquer tipo de organizações formais.

Tudo o que nós conseguimos foram coisas que conseguimos com o nosso dinheiro. Fazíamos as contas e dividíamos as fotocópias para fazer publicidade à manifestação. Nós tivemos sindicatos a contactarem-nos para nos darem essas fotocópias e nós não quisemos porque nós achámos que tínhamos de garantir às pessoas que aquilo não era apoiado por sindicatos ou partidos. Nós tentámos fazer as coisas o mais claras possíveis e sem nos ligarmos a nenhuma plataforma. (Susana, Porto)

Nós não tínhamos recursos materiais e também não tivemos donativos. Os cartazes, por exemplo, foram feitos por amigos nossos e a impressão foi de muito pouca tiragem. Por isso, é que foi tão importante o efeito mediático da convocação. Nós, praticamente, só colámos cartazes em Lisboa e tínhamos muito poucos. Se fizemos 500 ou 1000 foram muitos. (Rui, Lisboa)

Além da independência económica face às organizações sindicais e partidárias, manifesta-se ainda o orgulho de, tanto em Lisboa como no Porto, o 12 de Março ter seguido uma lógica de construção da ação coletiva em rede e informal.

Tudo era decidido por consenso, não me lembro de se ter votado alguma coisa. Tínhamos dois porta-vozes mas não eram líderes. Eram pessoas que se fosse preciso, no dia da manifestação, fazer comunicados à comunicação social, aquelas pessoas tinham aquela tarefa e eram pessoas orientadas para articular com a polícia. (Susana, Porto)

Após o 12M, os coletivos de Lisboa e Porto continuaram em contacto permanente com o objetivo de recolherem assinaturas para a realização de uma Iniciativa Legislativa Cidadã (ILC) com o intuito de elaborar uma lei contra a precariedade que seria debatida na Assembleia da República. Esta iniciativa envolveu ainda outros grupos que atuam nesta área, tais como os FERVE, os Intermitentes do Espectáculo e os Precários Inflexíveis.

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Concretizada a recolha de assinaturas, que permitiu levar a cabo a ILC, a lei seria discutida no Parlamento pelos deputados em Janeiro de 201369.

Para muitos ativistas, a elaboração da lei contra a precariedade foi um dos principais contributos do 12 de Março e até, segundo alguns, do ciclo contra a austeridade.

A conquista legal foi feita, isso já é importante. Só por isso o 12 de Março foi importante, embora a lei não esteja a ser aplicada. (Sandra)

O 12M colocou a discussão na cena pública. Prova disso foi a ILC que conseguiu reunir as assinaturas e a modificação da legislação na área da prestação de serviços. Nesse aspeto foi muito importante e também demonstrou às pessoas que elas não necessitavam de pertencer a nenhum partido político para ter uma atividade política. (Inês)

A lei contra a precariedade, no fundo, é a coisa mais sólida [referindo-se aos principais contributos do ciclo antiausteridade]. (Simão)

Apesar da coordenação entre os coletivos de Lisboa e Porto, na criação da lei contra a precariedade, as relações de trabalho entre os grupos acabaram por esmorecer.

Sem terem sido questionados sobre este tema, os ativistas do Porto mostraram necessidade de expressar o seu descontentamento face ao facto de o coletivo de Lisboa, ao invés de todos os grupos das diferentes cidades do país que organizaram o protesto, não desejar constituir um movimento social. Segundo estes entrevistados, realizou-se uma reunião onde os ativistas de Lisboa afirmaram que esse não teria sido o propósito da manifestação e que não tencionavam continuar a atuar sob o formato de um movimento organizado a nível nacional. Uma das organizadoras de Lisboa manifesta um discurso ligeiramente diferente e sublinha o seguinte:

Após o 12 de Março, as pessoas que tinham feito o 12 de Março, em diferentes pontos do país, quiseram fazer uma reunião porque queriam fazer um partido político. Nós tínhamos dito que não queríamos fazer um partido político. Queríamos fazer um movimento porque achávamos que o que faltava em Portugal era exatamente isso. Foi o que fizemos e comunicámos. As pessoas ficaram muito desiludidas. (Sandra, Lisboa)

69https://www.publico.pt/2013/01/18/sociedade/noticia/parlamento-vota-dia-25-lei-contra-a-precariedade-

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Este sentimento de desilusão é confirmado pelos ativistas do Porto porque, de acordo com as suas opiniões, o grupo de Lisboa fundou um movimento de protesto – o M12M – sem a participação de outros ativistas do país.

Isto caiu muito mal na malta lá de cima porque eles telefonavam para tudo e decidiram que iam fazer o registo à marca e não perguntaram, caiu-nos mal. Eu passei por cima disso, malta houve que não passou por cima disso. Houve muita malta que saiu por causa disso. (António, Porto)

Nós próprios implicitamente aceitávamos a liderança de Lisboa, mas o após foi uma deceção. Fomos surpreendidos com o M12M, não fazíamos ideia! Foi uma coisa que sentimos que foi um bocadinho feita nas nossas costas ou então já tinham a intenção do resto do país não participar. (Inês, Porto)

Após esta situação, Inês desistiu de participar na organização dos protestos seguintes, embora, como se observou no capítulo anterior, retire sobretudo uma experiência positiva da sua breve participação nas manifestações contra a austeridade. Já Susana, a jovem que, neste ciclo, deu os seus primeiros passos no ativismo, apesar de transportar muitas dúvidas continuou a sua participação até ao 15 de Outubro.

O que aconteceu comigo, como participante que não pertencia a nada, foi que eu não gostei da apropriação do que surgiu do 12 de Março para se aproveitar para outros interesses, nomeadamente para certos partidos conseguirem ter mais visibilidade ou poderem cumprir a sua agenda política, como o tema da precariedade que é um tema do BE. Aproveitar a mobilização não partidária para a sua agenda partidária. (Susana, Porto)

Apesar de os entrevistados se orgulharem do 12 de Março ter sido um protesto que se desenvolveu em rede e assente em princípios que privilegiam a horizontalidade e a ausência de hierarquia na direção das iniciativas, estes também admitem que se estabeleceram ‘lideranças informais’ (Pleyers, 2010), entre os coletivos de Lisboa e do Porto, que foram conducentes a um conflito latente entre os ativistas. Segundo Pleyers (2010), as ‘lideranças informais’ formam-se, muitas vezes, devido ao facto de existirem, nos grupos, indivíduos com maior experiência de participação e com maior capital social, o que, neste contexto, se enquadra na situação de alguns ativistas de continuidade que pertenciam ao grupo de Lisboa.

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Assim, o grupo de Lisboa, constituído por “novos” e “velhos” ativistas, fundaria o M12M. O coletivo preservou os temas que serviram de mote à manifestação de 12 de Março como as suas áreas de atuação principais, ou seja, as questões laborais e da qualidade da democracia. Manteve-se ativo durante 1 ano, desenvolvendo neste período algumas iniciativas contra a austeridade, nomeadamente um conjunto de debates com a Associação 25 de Abril, a participação de alguns membros na Iniciativa Auditoria Cidadã e algumas performances de ação directa. À semelhança de outros coletivos que emergiram no mesmo período, o M12M possuía fracos recursos económicos que se baseavam fundamentalmente nas contribuições dos seus membros. Na sua fase de maior atividade, foi constituído por 8-10 pessoas que mantinham relações de amizade e que o definiam sobretudo como um grupo de amigos que pretendia intervir politicamente na sociedade. Algumas pesquisas têm demonstrado como as redes de amizade e de momentos de fruição são importantes na construção de espaços de ativismo (McDonald, 2002, 2004, 2006; Fominaya, 2010).

Acho que nós somos mais um grupo de amigos do que um coletivo auto-organizado. Decidimos as coisas todos juntos, tentamos que seja em consenso. Não há propriamente uma organização. Marcamos reuniões, que são jantares, e aproveitamos para debater política e pensar ideias. (Teresa)

No entanto, se, no âmbito de alguns estudos de caso (Fominaya, 2010), é defendido que a constituição de relações afetivas estreitas entre ativistas pode ajudar a dirimir conflitos e a ultrapassar, por exemplo, as diferenças identitárias existentes, no contexto do M12M os vínculos de amizade não surtiram efeitos positivos e as ligações entre os membros do grupo começaram a sofrer tensões. Na opinião dos membros, os conflitos estiveram maioritariamente relacionados, por um lado, com divisões entre pessoas com e sem militância partidária e, por outro, com a orientação das ações a serem desenvolvidas, onde, por exemplo, se incluem divergências no que diz respeito à participação na Plataforma 15 de Outubro e à possibilidade de realizarem uma manifestação onde se comemoraria o 1º ano do protesto 12 de Março.

Muitas das discussões tiveram a ver com o envolvimento na Plataforma 15O. Havia pessoas que não queriam participar e eram divergências em relação à forma de modus operandi. Depois houve claramente uma divisão entre as pessoas que tinham partido e as pessoas que não tinham partido, havia pessoas que eram militantes do BE e criou-se uma desconfiança. Era um grupo que se achava horizontal e que

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decidia tudo por consenso. Na prática, não foi isso que aconteceu, mesmo num grupo tão pequeno criaram-se fações, o que é muito estranho. (Patrícia)

O [protesto] 15O quase metade não queria organizar e a outra metade queria organizar. Quando o 12 de Março faz o seu 1º aniversário, as pessoas que pertenciam ao BE queriam que se organizasse uma nova manifestação e os outros não queriam e houve ali uma situação conflituosa. (Frederico)

Independentemente das divergências que surgiram entre os ativistas que protagonizaram a maior manifestação de rua desde o 25 de Abril de 1974, não há dúvida que esta marcou o início de uma nova dinâmica de protesto na sociedade portuguesa. No entanto, a ausência de objetivos comuns entre os diferentes grupos, que surgiram um pouco por todo o país, não permitiu avançar-se, como, por exemplo, em Espanha no caso do 15M (Castells, 2014), no sentido da criação de um movimento social de âmbito nacional que ultrapassasse a organização de protestos de rua. Mesmo assim, muitos ativistas pensam que a lei contra a precariedade, que resultou dos coletivos do 12 de Março, foi um dos maiores contributos de todo o ciclo contra a austeridade. Além disso, como veremos, apesar da existência de um certo abrandamento na mobilização, os coletivos, que foram surgindo posteriormente, não desistiram de adotar diferentes estratégias de organização para prosseguir com a contestação à austeridade.

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