1. Introduction
1.3 Plasmids
Os itens 5, 6, 7, 8 e 9359 da tendência múltipla remetem a aspectos econômicos e sociais. Devemos pensar esses itens se desdobrando nas características referentes ao crescimento econômico, ao desenvolvimento dos países e aos distúrbios sociais que os autores consideram possíveis para o fim do século XX e início do XXI, assim como nos eventos surpreendentes, tais como os dos itens 2, 3, 5, 7, 11, 12, 13 e16360. As questões econômicas e sociais, dessa forma, acabam refletindo no mundo padrão, na sociedade pós-industrial, nas questões políticas e nas possíveis surpresas para o futuro.
3.2.1. O desenvolvimento econômico da projeção livre de surpresas
A sociedade pós-industrial depende, inicialmente, do desenvolvimento das tendências 5 (industrialização e modernização em escala mundial) e 6 (aumento da riqueza e (recentemente) do lazer) da tendência múltipla. Assim, pensando a industrialização, os autores
358
KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 226-227. 359
Vide página 47.
apresentam 5 categorias estritamente econômicas nas quais as nações podem ser encaixadas e que permitem pensar os efeitos da industrialização e da modernização:
1. Pré-industrial 50 a 200 dólares per capita
2. Parcialmente industrializada ou em transição 200 a 600 dólares per capita
3. Industrial 600 a +ou- 1500 dólares per capita
4. Consumo em massa ou industrial avançado 1500 a +ou- 4000 dólares per capita
5. Pós-industrial + de 4000 a +ou- 20000 dólares per capita361 Segundo os autores, os países pré-industriais estão em uma condição que pode ser considerada historicamente normal, pois nos dez últimos milênios, excluindo-se os dois ou três últimos séculos, nenhuma grande sociedade humana produziu menos que 50 ou mais que 200 dólares de renda per capita por ano. Por isso, a Indonésia, por exemplo, representava uma civilização normal, já que possuía uma população de 100 milhões de pessoas, aproximadamente igual a do Império Han ou do Império Romano, e uma renda média per capita de 100 dólares. Então, os indonésios viviam de maneira semelhante a dos romanos antigos362.
Todavia, na opinião dos autores, a industrialização alterou o parâmetro do parágrafo anterior, fazendo surgir as sociedades parcialmente industrializadas. Essas sociedades são caracterizadas por um estágio de transição, sem, todavia, indicar que continuarão a se industrializar. As sociedades industrializadas, por sua vez, estão próximas do estágio de consumo em massa. Exemplos fornecidos pelos futuristas seriam os EUA na década de 20, ou a Europa imediatamente após a II Guerra363.
Após a II Guerra, conforme os futuristas, o mundo presenciou o surgimento da sociedade de consumo em massa, inicialmente nos EUA e, depois, na Europa Ocidental e no Japão. O Japão podia ser considerado como tal, apesar de possuir uma renda inferior a 1000 dólares. A Rússia, por sua vez, apesar de possuir uma renda em torno de 1500, parecia estar longe de tal grupo364.
Para alcançar a sociedade pós-industrial, na opinião dos autores, uma renda de 4000 per capita provavelmente seria suficiente em países como a Grã-Bretanha ou o grupo escandinavo. Todavia, as nações com objetivos mais ambíguos, como o desejo por poder mundial (por exemplo, a União Soviética), ou com tradição de luta árdua para o crescimento
361 KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 58. 362
Ibid., p. 57. 363
Ibid., p. 58. 364 Ibid., p. 59.
econômico (exemplo: a Alemanha ocidental), ou com expectativas maiores de produção de riqueza (exemplo: EUA), dificilmente se tornariam pós-industriais até que níveis de riqueza maiores fossem alcançados365.
Essa situação que propiciaria a sociedade pós-industrial seria possível, conforme os autores, pelo crescimento ocorrido entre 1952 e 1967, o qual, como vimos, é comparado com a belle époque. Todavia, a diferença, agora, aos olhos dos futuristas, era que as taxas mais recentes tenderiam a continuar de forma regular até o ano 2000366. Essa projeção econômica otimista seria a livre de surpresas e os autores a sustentam como possível até o ano 2000 a partir de quatro motivações: 1) o “culto do crescimento” que existia entre as nações, sendo a expansão econômica o principal objetivo; 2) o crescimento exponencial e um conjunto “exportável” de conhecimento técnico, ou seja, o conhecimento da ciência administrativa e de técnicas produtivas estava disponível e crescente e podia ser exportado das áreas tecnologicamente ricas para as deficientes; 3) o controle, a partir do uso dos déficits governamentais, por parte dos países avançados, e das flutuações econômicas, inclusive das depressões, poderia aumentar o Produto Nacional Bruto (PNB)367, o que permitiria, então, uma melhor difusão e inovação das técnicas e tecnologias; 4) melhoramentos nos programas institucionais mundiais, como a eliminação ou a redução das barreiras comerciais, a criação e o aperfeiçoamento de mercados comuns e o desenvolvimento do conhecimento acerca da teoria e da execução do crescimento, a partir de técnicas de planejamento e do uso de recursos para os países menos desenvolvidos368. Ou seja, há, acima de tudo, uma defesa da prática especulativa e de planejamento como importante para esse crescimento econômico.
Para os autores haveria, ainda, fatores temporários que poderiam ocasionar um crescimento acelerado. Alguns deles poderiam ser a mudança da força de trabalho do âmbito rural para o urbano, ocasionando um aumento do lucro nacional, a alocação de trabalhadores desempregados e sub-empregados em atividades produtivas e a imigração de trabalhadores estrangeiros sem famílias. A respeito das nações menos desenvolvidas, os autores expõem como algumas dificuldades possíveis para o crescimento: o fluxo inadequado de poupança e investimento, a falta de mão de obra qualificada, a administração governamental inepta, a
365 KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 59. 366 Ibid., p. 127-128.
367
Entendido como a relação da estimativa aproximada do total de número de horas trabalhadas e do valor médio de bens e serviços que são produzidos por hora de trabalho, KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 123
indisposição política e a pressão demográfica constante. Todavia, os futuristas acreditam que tais problemas não seriam permanentes369.
Esse crescimento permitiria, então, desenvolvimentos em outros sentidos, como o aumento da produtividade por hora, a qual, conforme as referências dos autores, já vinha aumentando desde a II Guerra. Paralelo a isso, Kahn e Wiener demonstram que a média de horas trabalhadas diminuíra, a que poderia corresponder um aumento do número de horas de lazer. Frente a isso, delineiam uma projeção livre de surpresas exposta por gráficos, a qual possui um espaço de manobra, que opera com duas variáveis: horas trabalhadas e aumento de produtividade, sendo que essas variáveis oscilam conforme o PNB desejado370. Esses, então, são os fatores essenciais, na questão econômica, que conduziriam à sociedade pós-industrial, sem nenhuma surpresa. Todavia, os autores consideram, ainda, possíveis conseqüências desse processo.
3.2.2. A dicotomização como efeito político e social da industrialização
O principal problema decorrente do desenvolvimento econômico seria a dicotomização. Dentro das nações, ela poderia ser a possibilidade de economias dualistas (ou até triplas). Os autores argumentam que esse problema consistia no contraste do grande desenvolvimento das maiores cidades em relação ao pequeno desenvolvimento das menores cidades e das áreas rurais, o qual era ainda pior em áreas como a América Latina. Argumentam que esse problema poderia se agravar no ano 2000, nos 6 países mais populosos do mundo (China, Índia, Paquistão, Indonésia, Brasil e Nigéria), que continham e conteriam metade da população mundial. Além disso, esses países eram pouco desenvolvidos, sendo pré-industriais nos anos 60 e, conforme a projeção dos autores, parcialmente industrializados no ano 2000371.
Haveria, ainda, conforme as projeções, diferentes taxas de crescimento entre as nações e os continentes. Assumindo, então, que os programas de ajuda estrangeira, acordos de tarifa, padrões de comércio, instituições econômicas internacionais e outras políticas econômicas continuassem como eram, a disparidade seria cada vez maior entre os países. Assim, a
369
KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 123. 370
Ibid., p. 123-127. 371 Ibid., p. 58-59.
América do Norte, a Oceania, a Europa e o Japão equivaleriam, em relação ao desempenho econômico, à praticamente o resto do mundo, ou seja, América Latina, Ásia e África372.
Essa disparidade também se refletiria na questão demográfica. O crescimento populacional, portanto, é um dos itens ao qual os futuristas se dedicam, já que compõe uma das tendências da tendência múltipla. Sendo assim, até o ano 2000, os autores contabilizam uma população mundial de 6 bilhões e 400 milhões373. Destarte, buscando entender o crescimento populacional, os autores defendem que, por volta de 8500 e 7000 anos a.C., ocorreu a Revolução Agrícola, permitindo, então, a produção de alimentos, a multiplicação dos seres humanos e o surgimento das civilizações374. Dessa forma, afirmam que a população do mundo aumentara de 10 milhões de pessoas, em 8000 a.C., para 3 bilhões e 300 milhões de pessoas em 1965, indicando uma taxa próxima de 80% de crescimento por milênio375. Porém, o crescimento não fora linear, havendo um aumento considerável após 1650. Até então, a taxa de crescimento fora de 50% a cada mil anos. Após 1650, subiu para 2000% por milênio. Todavia, acreditavam que essa taxa de crescimento provavelmente se estabilizaria ao alcançar entre 10 e 50 bilhões de pessoas376.
Realizando-se, portanto, o crescimento populacional previsto para o ano 2000377, o mundo, conforme os futuristas, presenciaria um agravamento da disparidade econômica, pois os países menos desenvolvido teriam ¾ da população mundial, porém só teriam em torno 14,5% da produção do mundo inteiro. Entretanto, até mesmo as nações pobres desfrutariam de grandes melhoras nos seus tradicionais padrões de vida, pois presenciariam um aumento do PNB per capita. Além do mais, 40% da população mundial viveria em sociedades pós- industriais e industriais e mais de 90%, em países que abandonaram a histórica faixa de renda que variava entre 50 e 200 dólares per capita. Contudo, haveria um hiato ainda maior nos padrões de vida entre os países ou setores dos países com economias desenvolvidas (industriais, pós-industriais e de consumo de massa) e aqueles nos níveis pré-industriais, ou seja, subdesenvolvidos378.
372 KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 141. 373
Ibid., p. 59.
374 MCNEILL, 1967, p. 1, apud KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 150. Essa associação de crescimento da população, aumento da produção e algum crescimento do conhecimento também é devedora do que Quigley conceitua como Idade da Expansão, como veremos no próximo capítulo.
375 HAUSER, P.M., 1965, apud KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 150. 376 KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 150-152.
377
Tal como aparece na tabela de KAHN, H.; WIENER, A.J, 1967, p. 60; KAHN, H.; WIENER, A.J, 1968, p. 94.
Além da dicotomização, Kahn e Wiener afirmam que os países menos desenvolvidos estariam passando pelos rompimentos do começo da industrialização, da urbanização e do resto da tendência múltipla, além de experienciarem as expectativas que seguem o progresso econômico. Dessa forma, as reações dos países menos desenvolvidos de ou satisfação pelo progresso geral, ou inveja e ressentimento pelas discrepâncias crescentes entre pobre ricos, dependeria, então, de fatores econômicos, culturais e políticos. Essas discrepâncias ficariam ainda mais visíveis pelo desenvolvimento e barateamento da comunicação e dos transportes no mundo379.