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Planlegging på ulike nivå som variablar i utviklingsprosessar

2. Politikk, forsking og teori

2.8 Planlegging på ulike nivå som variablar i utviklingsprosessar

2.1 - Influências histórica e cultural das tropas de mula na zona valeparaibana.

As regiões tropeiras do Brasil podem ser divididas entre dois tipos, as que predominam o transporte de muares como mercadoria em si e as que fazem uso das mulas como transportadoras de outras cargas mais rentáveis, como é o caso do ouro e demais gêneros de abastecimentos indispensáveis para a sobrevivência ou para a movimentação comercial dos núcleos populacionais interioranos.

O primeiro tipo é retratado na literatura específica como sendo tropa de mula xucra3, característica dos estados da região Sul e dos países vizinhos, como Uruguai e Argentina. Seu ponto central se dava com as grandes jornadas rumo à feira de muares organizada anualmente na cidade paulista de Sorocaba, onde os animais eram vendidos. Em contrapartida, havia os homens que se dirigiam em sentido oposto, vindos da própria vila de São Paulo, além de Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás e, em menor escala, do Rio de Janeiro e Bahia, para comprar os animais e utilizá-los para o transporte daquilo que produziam ou coletavam.

A região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira, por estarem geograficamente localizadas entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, à beira do caminho do ouro, se consolidou com o emprego das mulas para o transporte de cargas. Para que tal ação fosse possível, era necessário dotar as mulas de peças que serviriam de suporte aos jacás4, ou seja, utilizavam arreios, disso decorre a expressão “tropa de mula arreada”, que equivale dizer: tropa provida de apetrechos que permitiam aos animais desempenhar transporte de cargas ou atividades de tração.

De acordo com José Alípio Goulart (1961), ficou a cargo das tropas atravessar as mais adversas condições de relevo e clima, vencer as distâncias entre o litoral e o sertão, para assegurar e manter a circulação de produtos e mercadorias, chamando a atenção especialmente para a região do centro-sul, onde diversos cursos d’água       

3 As tropas de mula xucra foram tão importantes quanto suas congêneres arreadas, sendo

talvez até mais antigas, pois seu emprego no Brasil é registrado, ainda que em menor escala, anteriormente à descoberta de ouro e outros minerais preciosos em Minas Gerais em finais do século XVII. Entretanto, referem-se a um estilo diverso da abordagem que privilegiamos nesta pesquisa, por não ser característica da zona valeparaibana. Assim, optamos por concentrar esse estudo apenas a abordagem sobre as tropas arreadas, cujo ponto central na dinâmica do tropeirismo é o material transportado, não o animal em si.

4 Cesto trançado feito de taquara ou cipó, usado no transporte de cargas, sobretudo preso ao

convergem para o interior em detrimento do litoral, sendo o grupo de tropeiros responsável por romper a imposição da natureza, conectando por terra os lugares mais remotos do território, com os portos de mar.

O descobrimento das primeiras jazidas de ouro no final do século XVII provocou o deslocamento de grandes contingentes populacionais para o interior do Brasil. Com o intuito de enriquecimento rápido e sem intenção de se fixarem definitivamente nas lavras de exploração, os homens que para lá se dirigiam não tinham qualquer preocupação, inicialmente, em dotar a região, bastante distante e isolada à época, de pouco mais do que o suficiente, em termos estruturais, para a chegada de parcos recursos alimentícios e o escoamento dos minerais extraídos. Algo que se altera posteriormente, quando são fundadas as primeiras vilas mineiras e o fausto e a riqueza produzidos atraem crescentes contingentes e demanda melhor estrutura, não só física como religiosa e cultural.

Ainda segundo o autor, o transporte de muares começou a aparecer nos registros oficiais e inventários a partir do segundo quartel do século XVIII, quando:

Concentrada grande massa demográfica nos sertões de além Mantiqueira, logo convergiram para aquelas regiões importantes correntes comerciais, devido à natural demanda de gêneros alimentícios nos núcleos humanos ali instalados, que, a par da densidade, ofereciam alto poder aquisitivo. Mas, devido à aspereza dos caminhos que o acidentado do relevo tanto acentuava, só dois meios de transporte a ele se adaptaram: o carregador humano e o burro. (GOULART, 1961, p.36)

Verifica-se, a partir de então, o mesmo processo ocorrido nos Andes no século anterior. A necessidade de transportar os minerais em quantidades crescentes despertou, sobretudo nos paulistas, o interesse pelo gado cavalar e os fez se dirigirem aos campos do Sul e posteriormente à feira de muares que, não por acaso, instalou-se na região paulista, exercendo uma função intermediária entre os produtores sulistas e os paulistas e mineiros que as utilizavam para a lida com o transporte de cargas.

Goulart (1961) ressalta que a finalidade primeira da existência das tropas era levar as riquezas minerais para o litoral e trazer os bens de consumo para o interior, sendo o ouro substituído posteriormente pelo café, o qual trataremos em separado. Nessa dinâmica, São Paulo se afirmou, devido a sua localização, como o grande ponto de convergência dos caminhos que interligavam por terra as diferentes regiões da colônia;

Há razões geográficas, porém, que explicam essa posição de São Paulo no decorrer dos três primeiros séculos; é uma área de transição entre as altas serranias de Minas Gerais e os campos do

Sul; da mesma forma, é o platô que se situa entre as regiões montanhosas e o litoral, apertado entre as serras do Mar e da Mantiqueira (GOULART, op. cit. p.48)

São Paulo, assim, converteu-se em um ponto importante, onde cruzavam tropas de mulas, mas também viajantes e suas caravanas, as últimas incursões bandeirantes e, posteriormente, os modais mais modernos, como ferrovias e estradas de rodagem, interconectando o interior do Brasil.

As tropas foram fundamentais para o desenvolvimento econômico e cultural dos locais onde trafegavam, dentre os quais a região que nos interessa: situada na região de órbita paulista, o Vale do Paraíba é especial nesse universo, devido a sua relativa proximidade com o Rio de Janeiro, à época a sede do vice-reinado e Minas Gerais, sendo passagem obrigatória na travessia das tropas desde o ciclo do ouro, aos que demandassem as lavras mineiras ou o litoral. A Serra da Mantiqueira, presença constante quando se fala no Vale do Paraíba (que se acha encravado entre esta e as serras do Mar e da Bocaina), tem sua influência igualmente marcada por essa “zona de transição”, sendo a história e a cultura de ambas, fortemente relacionadas.

A ocupação do solo valeparaibano é anterior ao ciclo das tropas, remete-se às primeiras expedições bandeirantes com destino às Minas Gerais, passando pela região, cruzando a Mantiqueira através da Garganta do Embaú5, seguindo no sentido do Arraial do Rio das Mortes (atual município de São João Del Rei/MG), buscando atingir as localidades de Vila Rica (atual município de Ouro Preto/MG) e Mariana, onde se concentravam as principais zonas de exploração serra acima.

O pioneiro adensamento populacional a ser fundado e consolidado na região foi Taubaté, nascida no século XVII, fruto das bandeiras; seguiu-se a fundação de Pindamonhangaba, Jacareí, Guaratinguetá e Cunha. Dessas cidades, partiram as primeiras tropas constituídas no Vale do Paraíba, com destino às jazidas de ouro. Seu povoamento foi marcado inicialmente pela provisoriedade característica dos sertanistas, em que núcleos permaneciam vazios durante boa parte do ano, enquanto os homens estivessem nas expedições, retornando em determinados momentos para recompor seu grupo e eventualmente trazendo mão de obra indígena aprisionada para trabalhos forçados em suas terras ou comercialização com outros proprietários rurais.

      

5 Ponto mais baixo para a travessia da Serra da Mantiqueira, cujo ponto mais alto é a divisa

Com a descoberta do ouro e dos diamantes, toda a capitania de São Paulo viu- se esvaziada, pois os homens migraram em massa à busca de enriquecimento rápido e, caso fossem bem sucedidos, possibilidade de regresso à metrópole portuguesa. Transportar bens de consumo para a região mineradora foi característica de primeira hora na constituição das tropas de mula da região. A literatura, que trata amplamente sobre o ciclo do ouro e das mazelas decorrentes, cita as diversas crises de abastecimento pelas quais passaram as vilas do ouro, para suprir essa necessidade, quando as famílias valeparaibanas passaram a plantar e criar gêneros e víveres que pudessem ser comercializados, tanto nos núcleos populacionais à beira do caminho, quanto nas principais cidades. Dessa relação, surgem as primeiras tropas no cenário regional.

A Serra da Mantiqueira, estrada natural para o desenvolvimento da região, acompanhou o mesmo fenômeno. As vilas localizadas em sua área de abrangência, embora igualmente fundadas durante as bandeiras, eram mais novas, mas possuíam igual importância para a viabilidade das jornadas, como é o caso das cidades de Campanha, Baependi, Aiuruoca, entre outras, todos pontos de parada das tropas e intercâmbio entre tropeiros, viajantes, e a população local.

Com a consolidação do ciclo das tropas na economia da colônia, um impacto bastante relevante para a gente valeparaibana foi o início do processo de fixação dos homens à terra, algo que até então ocorrera esparsamente, em partes devido à experiência das bandeiras, que convidavam mais ao caminho do que à sedentarizar- se. As tropas gozavam de uma condição privilegiada nessa dinâmica, pois aproveitaram o traçado das vias bandeirantes para expandir a exploração comercial de serra acima e levaram consigo uma gama de costumes que terminaria por disseminar um estilo cultural bastante próprio, marcado pelo modo de falar, de comer, de vestir e também de morar.

Goulart (1961) considera que a tropa tinha como grande característica sua liberdade. O tropeiro era um ser autônomo, como já foi descrito também por Franco (1983), estabelecia uma relação com os fazendeiros, vendeiros ou mesmo com pequenos consumidores, de forma que havia um elevado grau de liberdade. Sua autonomia contrastava com o comprometimento que possuía com seus fregueses e compromissos, com a palavra empenhada e com as cargas que transportava;

Pela importância, pelo valor imensurável do trabalho que realizavam, as tropas de muares se constituíram, sem sombra de dúvidas, no fator mais preponderante de permanência e fixação dos nódulos

populacionais que se localizavam na hinterlândia do centro-sul, centro-oeste e extremo oeste. (GOULART, op.cit. p.66)

As tropas possuíam uma hierarquia quanto à sua formação, variando de acordo com a quantidade de animais e de homens que a acompanhavam. Ainda em relação à obra citada, os tropeiros, para designarem-se como tal, faziam-no de acordo com a quantidade de mulas que possuíam, esse era o fator determinante de sua importância. Essa distinção se fazia através do cabresto6 e pelos adornos de prata e fitas coloridas colocadas na primeira mula da tropa (chamada de mula madrinha), além do peitoral7 repleto de guizos para indicar a direção a ser percorrida pelos demais animais.

Apenas as tropas com dez ou mais animais (ou cinco lotes) poderiam portar tal distinção. As tropas compostas de três a cinco lotes (entre seis e dez animais) traziam somente o peitoral com seus guizos; já a tropa com menos de três lotes (abaixo de cinco animais) trafegava sem nenhum adereço que a diferenciasse, porém, eram bastante raras, de acordo com a bibliografia, tropas com número muito baixo de animais desempenharem jornadas maiores.

A partir da leitura de Maia (1981), podemos observar o quanto a dinâmica das tropas estava intimamente ligada ao cotidiano das cidades da região e, em certa medida, isso ainda continua perceptível, mesmo em locais onde os animais não mais trafegam, mas influenciam a cultura local, determinando caminhos, fluxos migratórios e hábitos tão particulares, como a reunião de amigos em volta de fogueiras nos bairros mais próximos às saídas da cidade, onde geralmente se localizavam os ranchos.

Com a expansão do tráfego de tropas na região, surgiram diversos locais de parada para o descanso de animais e de tropeiros, cujos nomes mais conhecidos são rancho ou pouso de tropa. Esses locais eram fixados à beira das trilhas tropeiras, no interior das propriedades ou anexos aos mercados públicos ou armazéns, a uma distância média entre eles de dezoito a vinte e quatro quilômetros, ou entre três a seis léguas (medida mais comum no interior do Brasil à época), o que compreendia uma jornada diária percorrida pela tropa.

Outros caminhos foram surgindo e se ramificando à medida que novos arraiais e vilarejos surgiam e propriedades eram divididas entre herdeiros ou passavam às mãos de novos proprietários, que estabeleciam relações com tropeiros mais próximos       

6 Apetrecho feito de corda ou couro, cuja serventia é uma espécie de cabeçada ou

embocadura, que serve para controlar a marcha do animal cavalar ou auxiliar em sua parada, amarrando-o em um tronco ou cerca. (fonte: Dicionário Houaiss 2012)

7 Conjunto de tiras de couro atadas próximas ao peito da mula, com guizos cujo barulho

orienta a marcha das demais mulas da tropa e avisa aos moradores das localidades que a tropa está chegando ou partindo.

ou lhes concediam pouso dentro de suas terras. Essa relação entre o proprietário rural e o tropeiro, assinalada também por Franco (1983), se caracterizava por uma dependência mútua e por um laço de extrema confiança de parte a parte: o fazendeiro dependia do tropeiro para vender o que produzia e transportar valores ou informações para outros lugares; o tropeiro, por sua vez, dependia do transporte dessas cargas para sua própria manutenção e de seus animais.

Até o final do século XVIII, as principais rotas tropeiras na região eram o caminho velho do ouro e a trilha entre São Paulo e o Rio de Janeiro. No entanto, com a finalidade de encurtar o percurso entre a zona mineradora e o Rio de Janeiro, foi aberta no último quartel do referido século uma trilha variante do caminho velho que, a partir da então vila de Nossa Senhora da Piedade – atual município de Lorena (SP) –, seguia inteiramente por terra, cruzando a Serra da Bocaina e do Piloto (já em território fluminense), tendo por finalidade ligá-la com a Fazenda Santa Cruz, no Rio de Janeiro, eliminando, assim, a necessidade de embarcar o material extraído no Porto de Paraty, desembarcá-lo no Rio de Janeiro, para cobrança de tributos, e reembarcá-lo com destino a Lisboa.

Como consequência dessa variação, passou-se a explorar uma parte do Vale do Paraíba que, até então, não registrava a presença significativa de pessoas. Surgiram novas cidades na região conhecida como “Fundo do Vale”, cuja proximidade com a província do Rio de Janeiro facilitava a prosperidade desses lugares, convertendo-se posteriormente em cidades como Cachoeira Paulista, Silveiras, Areias e Bananal, no lado paulista, e Resende e São João Marcos (extinta na década de 1940, para a construção da Represa Ribeirão das Lages), ambas já existentes, mas que conheceram significativo avanço de sua importância após a abertura desse caminho, no lado fluminense.

Nas terras além Mantiqueira (Minas Gerais), outros caminhos também se ramificaram a partir da trilha do ouro original, nessa fase. As pequenas povoações ao redor dos núcleos herdados das bandeiras se expandiram e deram origem a cidades da região que mantém ainda nos dias atuais intensa relação com a região valeparaibana, como é o caso do antigo arraial do Itajubá Velho, atual Delfim Moreira (MG), e outras cidades de povoação mais recente, como é o caso de Passa Quatro e Pouso Alto, entre outras.

A dinâmica das tropas trouxe consigo uma forte alteração no modo de vida da população regional, como a introdução um linguajar próprio. Essa manifestação, de acordo com Maia (1981), se caracterizou em grande medida pela nomenclatura dos

instrumentos utilizados na lida tropeira e pelas próprias profissões ligadas a essa atividade enquanto meio produtivo, com a incorporação desses termos como jargões pelos moradores, como o uso de bruaca8, que consiste em uma espécie de baú de couro para carregar cargas, ou cabresto, que se refere a uma corda utilizada para amarrar os animais.

Ainda em relação à fala, é bastante comum pela região, nos dias atuais, ouvirmos nas ruas das cidades menores algumas expressões tropeiras como “quando um burro fala, o outro abaixa a orelha”, ou “mula velha não pega marcha”, além de cantigas que, em sua entonação, possuem influências do dialeto caipira e do português erudito de séculos anteriores.

Mesmo o fazendeiro paulista, embora enriquecido, guarda ainda em muitos pontos semelhanças com a cultura caipira. De acordo com Franco (1983), seus hábitos alimentares tinham como base os mesmos elementos da alimentação do caipira tradicional: fubá, feijão, mandioca, toucinho e açúcar; comumente utilizavam para sair às ruas ou assistirem à missa dominical os mais ricos adornos e joias que possuíssem; vestiam-se com calças de tecido grosso e grandes paletós e, no interior das residências, camisolas de algodão cru; por parte das mulheres, saias de chita e paletós menores. Trajes que eram comuns, não só para os fazendeiros, como para os homens livres pobres e, até mesmo, para os escravos.

A culinária tropeira é outro ponto bastante forte de influência na cultura regional. A base da comida, considerando-se a pouca disponibilidade de lugares adequados para cozinhar e a quantidade reduzida de gêneros transportados para esse fim, era a farinha de mandioca e de milho, o toucinho, o feijão, a canjiquinha (ou quirera de milho) e o café. Sua rotina de preparo, durante a jornada, envolvia principalmente o madrinheiro da tropa, ou seja, o tocador de burro que acompanhava a primeira mula ao chegar no rancho. Ele dispunha de três pedaços de madeira ou barras de ferro em forma de triangulo, amarrando-os com uma corrente com um gancho na ponta, para segurar o caldeirão, e fazia o fogo. Em seguida, colocava o toucinho para fritar e, abaixo, próximo do fogo, deixava uma chocolateira, ou chaleira com água para fazer o café. Depois de frito o toucinho, escorria-se a gordura e acrescentava-se o feijão, depois a farinha, e estava pronto o virado de feijão que alimentava a tropa. A canjiquinha era utilizada conforme a condição da tropa, geralmente as mais humildes usavam-na no lugar do feijão. O café, feito na chaleira       

8 Sacos ou malas rústicas feitas de couro cru, utilizadas para transporte de objetos, víveres e

mercadorias sobre bestas, que se prendem às cangalhas ou são acomodadas na traseira das selas. (fonte: Dicionário Houaiss 2012).

ao pé do fogo, era preparado colocando-se o pó para cozinhar na água e depois se achegava um tição de fogo dentro da chaleira, para que o pó de café decantasse e o café fosse servido.

Esse estilo de alimentação influenciou de tal forma a região, que até na contemporaneidade, em alguns bairros mais afastados, ainda se encontram pessoas que cultivam essas tradições em festas, notadamente as de cunho religioso, ou em atividades coletivas em que é preciso servir uma comida que renda muitas porções e que não saia cara ao bolso do patrocinador.

A vida no interior das tropas é um constante convite à caminhada, o tropeiro passava a maior parte do tempo em jornadas, os assuntos e afazeres domésticos eram legados à esposa ou demais membros da família que não lidavam diretamente com a tropa. Os caminhos que percorriam foram aos poucos sendo habitados e essa herança cultural também acabou influenciando na forma de morar, numa mistura dos hábitos bandeirantes em aliança com a cultura caipira, observável até nossos dias.

A disposição dos núcleos populacionais surgidos na fase do tropeirismo leva em consideração o rancho de tropa como eixo central do povoamento. Na região do Vale do Paraíba e da Serra da Mantiqueira, essa influência é perceptível a partir da disposição das ruas em relação ao local onde se encontrava o antigo rancho. As maiores ruas eram as que passavam na porta do rancho e as conectavam com a saída das cidades. As moradias, em sua maioria, eram em volta do rancho ou no trajeto entre o rancho e a igreja católica, considerando o forte sentimento de religiosidade. Sua estrutura quase sempre compreendia a casa de morada, com um quintal, onde a família plantava e criava alguns animais, e o paiol, onde a produção para o sustento da família era armazenada e onde ficavam os pertences da tropa e os animais.

Aventureiros, menos ambiciosos uns, cansados do nomadismo outros, vão sedentarizando-se pelos arraiais que se formam durante o Ciclo do Ouro, cuja febre de mineração eleva-se e se extingue no século XVIII. (MOTA SOBRINHO, 1967, p.20)

Enquanto perdurou o Ciclo do Ouro, essa configuração adquiriu contornos de atividade complementar à economia mineradora. Com o declínio das jazidas na passagem do século XVIII para o século XIX, a região das Minas sofre um efeito de