O trabalho é um elemento central na vida do ser humano e também no processo de transição para a vida adulta de jovens com DI. Muitos jovens com DI com frequência são excluídos do mercado de trabalho pelo fato de professores, pais, empregadores e público em geral subestimarem suas capacidades (CHAMBERS; HUGHES; CARTER, 2004). A literatura destaca que os jovens com DI, quando comparados com os pares sem DI, têm empregos menos qualificados, recebem menos pelo exercício das mesmas funções e têm menos trabalhos que envolvem competências interpessoais (RICHARDSON; KOLLER, 1996).
Para que os jovens com DI ofereçam a tão esperada qualidade no desempenho de uma função, faz-se necessária orientação profissional adequada. A orientação profissional em um contexto educacional associado ao mercado de trabalho tem sido um preditor de maiores conquistas de emprego para jovens com DI.
Zafft et al. (2004) desenvolveram um estudo com o objetivo de analisar os resultados de chances de conquista de emprego significativo para alunos com DI que participaram de qualquer tipo de educação pós-secundária. Foi um estudo coorte combinado de acompanhamento realizado com 40 jovens com DI significativa, sendo que 20 deles participaram de educação de nível superior e 20 não, no entanto todos os alunos participaram de programas de “Habilidades para a vida”. Para o primeiro grupo foram desenvolvidas parcerias com escolas urbanas e suas faculdades locais, objetivando melhorar os resultados dos estudantes com DI ao melhorar o acesso a opções de Educação Superior, tradicionalmente indisponível para eles.
O projeto foi concebido em torno de “práticas promissoras” semelhantes às descritas pelo
National Transition Alliance (KOHLER; CHAPMAN, 1999). As metodologias usadas foram
práticas centradas no aluno e mapeamentos que contribuíram na elaboração de serviços individuais de apoio, identificando os pontos fortes e preferências de cada aluno. Para o segundo grupo, que trabalhou o ensino profissional segregado, não houve ajuste nem opção de escolha de emprego. As experiências de trabalho já estavam estabelecidas. A pesquisa revelou que os alunos com DI que participaram de algum tipo de experiência de nível superior foram mais propensos a obter melhores empregos, precisaram de menos apoio e recebiam salários mais elevados. Esses
resultados mostraram uma ligação clara entre a Educação Superior e resultados positivos no emprego.
A educação de nível superior é um espaço que contribui com o desenvolvimento em vários aspectos da vida do aluno com DI. Estudos mostraram a importância desse nível acadêmico para que o aluno adquira habilidades a fim de competir no mercado de trabalho e estar condizente com a economia atual, com a conquista de melhores salários e também com o desenvolvimento acadêmico e social a partir das interações com os colegas da mesma idade (HART et al., 2004; NEUBERT et al., 2004; ZAFF; HART; ZIMBRICH, 2004). Richard Kazis (2001) comentou que o verdadeiro teste de um programa da escola para o trabalho é o lugar aos quais os alunos vão depois que saem dos programas.
Butcher e Wilton (2008) lembram que muitos espaços que dizem ter uma proposta de transição para o mercado de trabalho (orientação profissional e emprego apoiado) não o são de fato, pois os jovens passam muito tempo sem oportunidades de desenvolvimento e de experiências em ambiente natural. Muitos pesquisadores apresentaram alguns princípios fundamentais em um programa de transição no Ensino Superior que contribuem para a promoção do emprego e da participação ativa na vida da comunidade (MOON et al., 1990; KOHLER et al., 1994; FALVEY; GAGE; ESHLILIAN, 1995; MCDONNELL; MATHOT-BUCKNER; FERGUSON, 1996; SITLINGTON; NEUBERT; LECONTE, 1997). São eles:
Compreensão dos recursos disponíveis da comunidade local por meio de análise ecológica; Desenvolvimento de Planejamento Centrado na Pessoa ouvindo as preferências e interesses
dos estudantes e necessidades dos pais;
Estabelecimento de vínculos com instituições e agências de emprego fora do sistema escolar que possam apoiar os alunos;
Oferecimento de ensino acadêmico, programas de desenvolvimento das habilidades sociais e vocacionais que conduzam ao emprego competitivo ou apoiado; e
Desenvolvimento de programas que equilibrem a formação profissional inclusiva por meio de programas sociais e acadêmicos apropriados em termos de idade.
Segundo a Agência Europeia (2002), a taxa de desemprego entre pessoas com deficiência é duas ou três vezes superior à das que não possuem deficiência. Dados de diferentes países da União Europeia apontaram que a maior parte das pessoas com DI não tem oportunidade de conseguir o primeiro emprego. Ela também alerta para a necessidade de uma política ativa que
promova um aumento de oferta para esse grupo de pessoas e acrescenta a importância de uma formação mais adequada e ajustada às atuais exigências do mercado de trabalho.
Oliveira (2012) realizou um estudo intitulado “Transição para a Vida Adulta – Inclusão de Pessoas Portadoras de Deficiência no Mercado de Trabalho”, que teve como objetivo conhecer a receptividade dos empresários portugueses no que concerne à inclusão profissional das pessoas com deficiência, incluindo as com DI, e a ligação das instituições de ensino com o mercado de trabalho no processo de transição. Os dados foram coletados por meio de um questionário. Participaram dessa pesquisa 47 empresas de diferentes áreas.
A pesquisa evidenciou: que a porcentagem de pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho era muito baixa; que os empresários apresentaram primazia na contratação de pessoas com deficiência física, seguidas de pessoas com deficiência auditiva e visual, sendo que o menor interesse estava nas pessoas com DI; havia muitos obstáculos na inclusão profissional das pessoas com deficiência pela indisponibilidade das empresas, mesmo estando estas cientes da necessidade da integração laboral e social; que as instituições educacionais e serviços especializados em formar pessoas com deficiência e empresas deveriam alargar seus horizonte e relações para aumentar e potencializar ao máximo o melhor que existe em cada uma dessas pessoas; e que a Lei de Cotas influenciava a contratação de funcionários com deficiência.
Assim, há necessidade de ampliar a relação da universidade com as empresas e melhorar a formação de jovens com DI para aumentar suas possibilidades no mercado de trabalho. A formação profissional desses jovens não está, na maior parte das vezes, relacionada com as práticas reais de emprego, pois acontecem em espaços segregados e qualificando-os para o desempenho de profissões simples. Oliveira (2012) esclarece que hoje há um novo olhar para a orientação profissional, o de preparar esses indivíduos para terem uma imagem adequada de si próprios e de conhecer o seu papel no mundo, quanto ao estudo e às profissões, a fim de que eles possam tomar decisões com perspectivas de êxito pessoal e profissional.
O progresso social dentro de uma aptidão profissional só é possível quando instituições de ensino, tanto públicas quanto privadas, reconhecerem o seu papel de formadores e de fornecedores de oportunidades para jovens com DI conquistarem seu espaço no mercado de trabalho (AFONSO, 2005).
O jovem com DI necessita de ferramentas adequadas para se preparar e assumir uma profissão. Oliveira (2012, p. 25) apresenta, nesse processo, três percursos fundamentais:
Avaliação vocacional: atividades destinadas a delinear capacidades, motivações, aptidões do indivíduo e possibilidades de formação;
Orientação profissional: processo de preparação para a formação profissional mediante as oportunidades, motivações e aptidões;
Desenvolvimento de parcerias: trabalho em colaboração entre a escola e outro tipo de comunidades educativas e/ou profissionais (centros de formação, centros vocacionais, empresas, entre outros).
Para que a relação sujeito-trabalho ocupe um lugar central no projeto de vida de cada pessoa com DI, deve-se pensar na orientação profissional em espaço educacional como apoio sistemático na construção de projetos de vida, a fim de que seja dada a todos a oportunidade de, em qualquer período da sua trajetória educativa ou profissional, explorarem e (re)direcionarem a relação com o mundo.
Mithaug (1994) ressalta a importância da identificação de elementos e capacidades necessários para alcançar a equidade e excelência de alunos com DI, por meio de programas acadêmicos que visem a preparação para o trabalho e enaltecem a metodologia de resolução de problemas associadas a configurações da comunidade em ambientes de aprendizagem visando melhores resultados. Também apresenta a necessidade de que esses programas sejam focados nos indivíduos atendendo a seus interesses, habilidades e necessidades por meio de estágios com maior prazo de atuação.