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Planlegging av spørreundersøkelse

A ausência da documentação do final do século XIX, imediatamente após a abolição, que deixa de fazer referências aos então ex-escravos merece algumas considerações à parte. Em outro momento, podemos perceber tal silenciamento quando se trata da construção de uma nação formada por uma população em que um dos elementos seria o negro, e para diluí-lo o governo promove o embranquecimento da população na figura do imigrante, construindo a falsa realidade em que o negro estaria integrado automaticamente, entretanto, esta realidade nunca existiu.

No âmbito individual e particular, a memória é a forma como construímos o passado, construindo o presente. Quando pensamos no passado, procuramos lembranças que de alguma forma nos dêem uma sensação prazerosa de ter “acertado”, entretanto quando as

lembranças do passado nos remetem ao erro, transformamos como exemplo a ser lembrado e não seguido.

Segundo Jacy Alves de Seixas169 há diferentes tipos de memória: memória voluntária, memória conhecimento, memória ação, memória afetiva, memória coletiva, memória historicizada. De todos os tipos explanados, pela autora, a forma mais relevante de memória para esta pesquisa, é a coletiva. Estabelecendo uma relação direta entre os forros do final do século XIX com a memória coletiva direcionada pela elite, pode-se perceber o quanto esta memória foi construída ao longo do processo escravista e quanto prejudicou os negros na sua inserção ao mercado de trabalho assalariado imposto pela nova forma econômica de governo.

Quando aplicamos e transferimos o conceito de memória para a coletividade, percebemos que há poucas diferenças quanto à sua construção. O conhecimento do passado é revelador e nem sempre a sociedade está preparada para enfrentá-lo. Insistir em seu conhecimento conduz a revelações que nem sempre são favoráveis àqueles que exercem o poder de manipulá-los.

A História permite o conhecimento sobre o passado e coloca o historiador como elemento determinante desse conhecer, de forma a ressaltar e ocultar fatos dos quais deseja que sejam expostos. O campo político quando exerce influência sobre essa construção histórica, manipula e interfere nos elementos fundamentais para a construção da memória coletiva exercendo total controle.

Estigmatizado, esse negro, até hoje, sofre a ação preconceituosa de uma memória construída e solidificada nas bases de um governo que justificaria essa não integração ao elemento nacional.

Excluídos da lembrança diluem-se em meio a uma cultura chamada de “nacional”, que possui inúmeros elementos afro-

169 O livro intitulado Memória e (res) sentimento, organizado por Stella Bresciani e

descendentes sem os reconhecer. Pelo contrário, sem uma efetiva medida governamental, que amparasse esse liberto, eram confundidos com vagabundos e vadios que circulavam pelas ruas do Império e assim eram reprimidos sem que o verdadeiro motivo fosse analisado e solucionado.

Essa forma de construção da memória do passado escravista se faz presente em nossos dias. Foi, sem dúvida, uma construção sólida, realizada nas bases políticas de um governo que ignorou os problemas advindos de uma falsa liberdade, entregue nas mãos do até então escravo.

O final do século XIX para o Brasil é crucial, pois havia de se denominar uma nação e o elemento formador que seria apresentado ao mundo europeu “civilizado”. Como seria possível definir este povo, que já apresentava um estágio avançado de miscigenação? (o que, para os adeptos do chamado Darwinismo Social, não combinava com o elemento formador da nação). E qual seria então a memória dessa nação brasileira? (cabe lembrar que o passado escravista precisava ser totalmente esquecido, principiando com a documentação queimada em fins do século XIX, como medida profilática).

A letargia intelectual permitiu ao homem pensar até hoje que o processo de liberdade se deu a partir de uma dádiva concedida e que o beneficiado não compreendeu seu papel dentro de uma sociedade disposta a “aceitá-lo”. A construção dessa memória coletiva não necessariamente foi lenta, mas certamente foi incisiva na construção e formação do povo brasileiro.

Pode-se ainda estabelecer uma relação direta entre a memória e a descrição oral dos fatos em que as fontes (testemunhos orais) estão diretamente relacionadas com a memória seletiva, ligadas à trajetória individual. Memória e acontecimento se entrelaçam, formando uma única realidade a ser experimentada pela fonte que introjeta suas lembranças de acordo com a história de vida pessoal,

emergindo numa história comum que precisa encontrar seu espaço dentro de uma perspectiva maior da coletividade.

Essa história comum a que nos referimos está diretamente relacionada com os negros, para o qual, através do processo de escravidão foi lhes fornecida uma memória que não correspondia à aquela coletiva advinda de sua origem. Entretanto a memória construída está diretamente relacionada com a construção falsa de uma personalidade que não lhes pertencia, como podemos analisar nas discussões do Congresso Agrícola de 1878, em que se tratava da qualificação da mão-de-obra para o trabalho nas lavouras. No programa a ser seguido para discussão, o item IV tratou: “Poder-se- há esperar que os ingênuos, filhos de escravas, constituam um elemento de trabalho livre e permanente na grande propriedade? No caso contrário, quaes os meios para reorganizar o trabalho agrícola?” 170

Vários políticos apresentaram suas justificativas em não aceitar o ingênuo como elemento formador de mão-de-obra agrícola por várias razões, dentre elas que estes eram em número pequeno, pois a grande maioria estava junto com suas mães, ou que necessitavam de uma educação direcionada à lavoura até que completassem 21 anos para então serem incorporados ao mercado ou que fosse elaborada uma lei cuja obrigatoriedade fosse pertencer a uma escola direcionada ao conhecimento agrícola, e, portanto não poderiam esperar, pois a lavoura precisava de braços qualificados para o trabalho imediatamente. Como conclusão deste Congresso referente ao item IV, ficou decidido o seguinte pela comissão nomeada pelos lavradores de São Paulo.

“Finalmente considerando o questionário a respeito dos ingênuos, entendemos que a lavoura não pôde contar com elles, não só pela indolência herdade dos escravos e nacionaes, como porque em geral os libertos preferem o mercantilismo171”.

170 Congresso Agrícola de 12 de junho de 1878. Biblioteca Mário de Andrade. 171 Ibidem

A discussão permeou no que se refere ao tempo em que precisavam para preparar os ingênuos, e não na personalidade que este absorvera de seus pais, contudo a conclusão remete a um preconceito elaborado e pré-existente sobre o negro.

Por ocasião da Guerra do Paraguai o semanário humorístico Cabrião, em meio a notícias sobre a guerra, passa a seguinte informação para a população:

“A origem dos negros –

No Brazil alguns negros acreditam ter sido esta a sua origem.

Quando Deus formou o primeiro homem, Satanaz movido de inveja quis também formar um homem de barro. Porem como tudo em que elle toca faz negro resolveo Satanaz ir lavar o seu homem no Jordão para se branquear; mas a sua chegada, o rio horrorisado retirou as suas águas e o espírito maligno não teve mais tempo de pôr o seu homem sobre a areia e ainda molhada; e é por isso que as plantas dos pés e as palmas das mãos, únicas partes com que a creatura de Satanaz tocou na água se fizerão brancos.

O demônio irritado com isto, deu grande bufetada no rosto do seu homem, que lhe esborrachou o nariz, e d’ahi vem terem os negros o nariz achatado.

Agarrou-o deppois pelos cabellos para arrastar apóz de si; e o calor das suas mãos ardentes encrespou- lhe de tal modo o cabelo, que sempre lhe ficou encarapinhado”.172

Embora pareça uma piada aos olhos de muitos estas pequenas mensagens permanecem sem dúvida no imaginário popular que reproduz lampejos de idéias pervertidas (no sentido de subverterem a ordem das coisas) e depositam nessa parcela da população elementos que atribuem-lhes a inferioridade da “raça”.

Glauco Carneiro nos ajuda a entender como se deu a construção desta memória, ao descrever como o negro era

172 Cabrião, semanário humorístico de 19 de maio de 1867. Arquivo do Estado de São

estereotipado também em cantigas e versinhos, a exemplo desta cantiga de feira:

O homem branco come na sala Caboclo no corredor

O mulato na cozinha O negro no cagador

O branco bebe champagne Caboclo vinho do Porto Multo bebe aguardente E negro mijo de porco.173

173 CARNEIRO, Glauco. O Poder da Misericórdia: a Santa Casa na história de São