Ao analisar as revistas, identificamos que Claudia está essencialmente centrada na busca do equilíbrio. Apesar de toda a culpa e das dificuldades que a mulher enfrenta no dia a dia, a enunciadora convoca a leitora a resistir, a ser forte e a lutar bravamente, enchendo as páginas com histórias de sucesso – e o sucesso aqui significa ser ótima profissional, realizada na carreira escolhida e nada menos que uma mãe maravilhosa. Para isto, a revista conta com uma equipe de profissionais, em sua maioria mulheres (também mães), para orientar o caminho do sucesso, ou melhor: o caminho do equilíbrio. Separamos cinco reportagens que ensinam como se equilibrar nas muitas tarefas do dia a dia mantendo a sanidade, a saúde e o bem estar.
“Seja dona do seu tempo”, convoca a enunciadora da revista na edição de agosto de 2012. Na chamada seguinte, a enunciadora apela para a identificação com a leitora: “Os dias parecem curtos para tantas tarefas? Você vive afobada e frustrada? Aqui, especialistas ensinam a gerenciar a agenda para ter um cotidiano mais eficiente, mais humano e mais feliz”. A reportagem parte da falta de tempo das leitoras. Logo na primeira página são revelados os enunciadores-sabedores, autores de livros com nomes sugestivos para resolver a questão proposta: Você, Dona do seu Tempo é um dos títulos, O BlackBerry de Hamlet, outro, em que o autor chama a atenção para o tempo que se perde em redes sociais e navegações sem rumo na internet e o terceiro título é Superdicas para Administrar o Tempo e Aproveitar Melhor a Vida. A segunda página da reportagem nos mostra os 4 “ladrões do tempo”: Procrastinação, Perfeccionismo, Desorganização e Tecnologia (no sentido do livro acima).
Daí em diante, são apresentados dados de pesquisas que indicam como os brasileiros gastam seu tempo e logo depois, as enunciadoras partem da experiência das fontes: Marise Berg da Silva conta como transitou de uma carreira que a consumia todo o tempo para uma profissão que lhe permitiu qualidade de vida. Em seguida, relata algumas tarefas do dia a dia e como realiza o equilíbrio: “Se estou em uma semana de provas, posso optar por não ir ao supermercado, e a gente [ela é casada] vai se virar comendo o que tem”. Como podemos perceber, a tarefa de ir ao mercado parece ser unicamente dela, não surgindo no texto a opção de dividi-la com o marido.
A orientação seguinte é aprender a se planejar, colocando as tarefas na agenda (seja de papel ou virtual). Mais uma vez a enunciadora-sabedora surge e alerta: “O importante é que o planejamento seja factível”, ou seja, não adianta planejar mais do que possa cumprir. Seguindo as modalizações que orientam a administração do tempo, a autora de outro livro norteia esse tipo de aprendizado. O título da publicação é sugestivo: Segredos da Administração do Tempo para a Mulher Que Trabalha. Uma das dicas é encaixar a manicure e o pilates na agenda, já que “não dá para separar o profissional do pessoal”. E as orientações seguem: aprender a dizer “não” faz parte de ganhar tempo. Depois de seguir esse passo a passo, a dificuldade da leitora vai ser o que fazer com o tempo livre.
E mais um título surge: Trabalhe Menos, Faça Mais, em que a autora explica que “não é necessário arranjar um uso para cada minuto livre”. Por fim, uma conexão com o eu interior é a chave para escolher conscientemente o que fazer com o tempo e definir as prioridades. Outras duas fontes revelam que o gerenciamento do tempo as fez priorizar a companhia dos filhos, em seguida, o cuidado consigo mesmas e o investimento em especializações.
A problemática da falta de tempo é colocada nesta reportagem como uma questão geral, sem gênero específico, mas é importante ressaltar: dos cinco livros indicados, dois são voltados especificamente para a mulher que tem seu tempo dividido entre vida privada e profissional diferentemente do homem, por causa da sobrecarga de trabalho doméstico. Como pudemos observar, a dupla jornada não foi levada em consideração na reportagem como sendo um problema, ao contrário, percebemos a naturalização com que o care é tratado, em que se vê como tarefa de mulher ir ao supermercado para abastecer a dispensa.
As reportagens a seguir seguem o mesmo padrão: dicas, orientações e ajustes no dia a dia para alcançar a vida ideal. Em janeiro de 2013, Claudia ensina: “Viva mais e melhor”. Para isso, usa os verbos no imperativo: “Mantenha a concentração, Levante do sofá [sobre abandonar o sedentarismo], Aumente os passos [idem], Tenha objetivos, Treine seu cérebro,
Cuide da pele, Valorize seu sono, Acerte nos lanchinhos, Aproxime-se dos amigos, Reduza as calorias, Respire e relaxe”. Abaixo de cada tópico há 10 a 12 linhas com orientações mais precisas, nas quais os tecnólogos do discurso se mostram como porta vozes do saber.
Em fevereiro de 2013, Felicidade é o tema e o título do livro em que se baseiam as “7 dicas para ser mais feliz no trabalho”. São elas: “Não se prenda somente ao dinheiro, Fique longe de lamúrias e intrigas, Não exagere na carga horária, Não invista apenas em promoções, Questione o sentido do seu trabalho, Busque novos desafios, Procure atuar com liberdade”. No mesmo molde da reportagem anterior, as dicas são praticamente ordens seguidas de pequenas explicações, que são gerais e não se atém à questão do gênero feminino. Não se toca no assunto da diferença salarial entre homens e mulheres, nem nos preconceitos sofridos dentro das empresas e muito menos nas negociações (muitas vezes prejudiciais para a mulher) sobre o tempo de afastamento da licença maternidade.
O stress é tema recorrente nas reportagens sobre a dupla jornada. O tema ganha o título de mais uma publicação da revista. Em julho de 2013, na seção de Bem-estar a reportagem promete: “Menos stress, mais energia”. Na verdade, mais dicas: “Inspire, expire; Beba água; Delegue sempre; Durma mais; Uma pausa, por favor; Busque um lugar ao sol; Mexa o corpo; Mantenha os e-mails em ordem”. Chamou-nos a atenção o item Delegue sempre: “Embora o trabalho leve toda fama de mau quando o assunto é stress, o grande vilão, para as mulheres, são os problemas da casa e da família (...) é tão importante delegar parte das tarefas – em casa e no escritório. Não dá para querer fazer tudo!”. Compreendemos “delegar” aqui no sentido de encarregar. Como analisamos acima, essa mulher de classe média encarrega uma funcionária (outra mulher, que não tem a quem delegar sua casa e seus filhos) para as tarefas do lar. Assim, a divisão de tarefas com os homens continua fora de pauta.
Em dezembro de 2013, a questão do tempo ganha novo espaço. Agora a revista fornece “8 dicas (que funcionam) para ganhar tempo”. Estas não diferem muito em relação às orientações anteriores: “Planeje a semana, Liste suas prioridades, Não adie tarefas chatas, Acompanhe tudo, Reduza as reuniões, Aprenda a dizer não, Cuidado com a redes sociais, Gerencie sua energia”. No item Aprenda a dizer não há uma passagem interessante: “Não é natural na nossa cultura, especialmente para as mulheres, dizer não”. Há que se notar nessa passagem a naturalização do fato da mulher estar sempre a serviço de outros, sempre disponível.
Estresse, cansaço e falta de tempo são termos constantes em um grupo de reportagens da revista Claudia. Esses problemas não são analisados em si, em suas possíveis causas como
a dupla jornada, por exemplo, mas transversalmente: há um consenso de que estes existem permanentemente na vida da mulher e a enunciadora se propõe a eliminá-los da agenda. São soluções individuais e pontuais.
Marie Claire considera como óbvio o assunto de que damos conta de tudo e ainda pede mais: “não bastasse o esforço para ser boa profissional, mulher catita, ótima mãe, filha presente, bonita e impecável em qualquer ocasião, hoje também é exigido ser uma Wikipédia de cultura útil e inútil” (edição de fevereiro de 2012) – obviamente, as páginas seguintes são repletas de modalizações que nos ensinam como adquirir tais culturas (útil e inútil). Não encontramos reportagens que falem sobre o equilíbrio entre lar e mercado de trabalho. Já a revista TPM, está mais focada em questionar se precisamos mesmo dar conta de tudo, assim, seu discurso não está centrado na busca pelo equilíbrio.