O movimento estudantil também tem uma longa tradição no apoio à luta pela terra no país, com histórias e momentos de solidariedade que remontam desde, pelo menos, a década de 1960.
Como já destacamos, esta década foi marcante na história do movimento enquanto momento de inflexão na opção política dos estudantes. Se até então o
movimento estudantil tinha demonstrado sua capacidade de articulação para lutar e defender os interesses do país (principalmente, nas lutas desenvolvimentistas dos anos 1940), foi nos anos 1960 que ele se fortaleceu enquanto ator que buscava ter uma visão social ancorada na idéia de um projeto nacional coletivo, além de desenvolver e manifestar uma solidariedade de classe a todos os trabalhadores. Como já referenciamos, a idéia de desenvolvimento era uma condição para a emancipação social, e esta, passava também através da luta pela terra.
Foi com este ideário que o movimento estudantil se tornou um interlocutor de grande importância para as Ligas Camponesas59 que, articuladas na Paraíba e em Pernambuco, surgiam como focos de resistência agrária e davam mostras de sua força organizativa.
A adesão dos estudantes a esta luta se deu em vários níveis, desde a solidariedade manifesta em seus boletins e comunicados até a participação em encontros e mobilizações. Este apoio incondicional aos trabalhadores rurais – que traduz, de certa forma, a expressividade do movimento estudantil não só no interior da universidade, mas também na interlocução que ele faz junto aos outros movimentos sociais – pode ser observada no depoimento do presidente da UNE nos anos 1961 e 1962 – Aldo Arantes – que, ao lembrar do contexto do início desta década, destaca a idéia da presença e importância do movimento estudantil na época:
“A UNE participou do I Congresso dos Trabalhadores Agrícolas do Brasil, realizado em Belo Horizonte, fato de extrema importância na história do movimento camponês brasileiro. No dia da abertura compareceram cerca de 5.000 pessoas, das quais mais de 2.000 pertenciam à representação de camponeses, o que demonstra o grau de representatividade do congresso”. (Arantes, 1980:16)
E complementa:
“(…) os estudantes através de sua entidade nacional, a UNE, integraram-se também na frente anti-latifúndio e anti-imperialista. Postulavam, como tarefa política imediata e decisiva, a formação de uma ‘aliança operário-estudantil-camponesa’ (Constituição da UNE, 1963). Como observou um estudioso, para os estudantes que militavam na UNE, a Reforma Agrária e a Reforma Universitária são simples momentos da ‘dialética social’” (idem: 81)
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Ainda nos anos 60, o apoio dos estudantes frente à luta pela terra deu-se também a partir de manifestações artístico-culturais produzidas pelo próprio movimento estudantil. Eduardo Coutinho, cineasta e estudante que integrava o setor de cinema do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE – movimento cultural que aprofundaremos em capítulo posterior – dirigiu e produziu o filme intitulado “Cabra marcado pra morrer” que tratava da história do líder das Ligas Camponesas João Pedro Teixeira que na sua luta pela reforma agrária foi assassinado. Iniciado em 1962, a filmagem foi interrompida com o golpe militar, sendo concluído apenas em 1984.
A discussão sobre a temática agrária também foi transportada para cima dos palcos. Com música de Chico Buarque, os estudantes realizaram, em 1965, a montagem de “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, no Teatro Universitário da PUC-SP (TUCA). Com grande sucesso de público e crítica, o espetáculo refletia as contradições e tensões de um país que, ao entrar em processo radical de urbanização, o fazia em detrimento e descaso da grande desigualdade fundiária do país.
Com a abertura democrática, na década de 80, renasce a luta pela reforma agrária, surgindo com ela, um dos maiores atores sociais brasileiros dos últimos vinte anos, o Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como no caso dos movimentos de saúde e tantos outros, os estudantes organizados estabeleceram vínculos de luta e organização também com os movimentos do campo e, especialmente, com o MST.
Articulando-se em diversos níveis, o movimento estudantil, fortalece seus laços com os movimentos rurais construindo diferentes ações e projetos em conjunto, principalmente a partir das Executivas de Curso da área de agrárias, onde são realizadas várias experiências de extensão universitária. Semelhante à experiência estudantil junto aos movimentos populares de saúde, o movimento estudantil também realiza, o estágio de vivência. Criadores desta experiência no interior do movimento, as Executivas de Agrárias – quais sejam, Federação de Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB); Executiva Nacional de Engenharia Florestal (ENEF) e, Executiva Nacional de Medicina Veterinária (ENEV) – vêem no estágio de vivência um espaço que possibilita a formação de uma consciência crítica para os estudantes, bem como, a oportunidade de potencializar ações em conjunto a partir da inserção e comprometimento, daqueles que realizam a experiência, no processo de organização e luta pela terra.
Desta forma, o estágio de vivência tornou-se um dos espaços privilegiados de interlocução do movimento estudantil com os movimentos dos agricultores no país. Realizado a cada ano e em diferentes regiões, este estágio serviu como uma experiência primeira em termos organizativo e sistemático entre os dois movimentos. Com o fortalecimento deste elo, estes construíram um outro espaço, de caráter diferenciado, e que abrange outros segmentos sociais: o Encontro Nacional de Estudantes e Jovens por Trabalho, Educação e Reforma Agrária (ENETERRA).
Organizado pela Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) – onde a UNE tem representatividade – e as Executivas e Federações de Curso, o ENETERRA é um espaço de formação, mas principalmente, de articulação entre os movimentos sociais para a realização de ações conjuntas no que se refere não só à luta pela reforma agrária, mas também às lutas gerais contra as políticas neoliberais existentes no país e que se refletem nos diversos campos sociais.
Realizado nos dias de 02 a 04 de Julho de 2004, na Universidade Federal Fluminense (UFF), o I ENETERRA foi organizado contemplando três temas centrais, a saber:
“o debate sobre as alternativas ao atual modelo econômico que apontem para a superação do drama do desemprego e da estagnação econômica; o tema da reforma agrária e de sua importância na superação da imensa miséria social da qual o povo brasileiro é vítima e, por fim, o papel da universidade na conformação de um projeto de desenvolvimento nacional democrático, autônomo e soberano” (documento de divulgação do encontro) 60.
O ENETERRA serve, assim, como um espaço onde os diversos movimentos sociais articulam, nos diferentes estados, uma agenda comum de luta e ações coletivas.
Por fim, como pudemos observar, os estudantes através de vários espaços e nas mais diversas expressões, vêem apoiando os movimentos de trabalhadores rurais e suas lutas por reforma agrária, investimentos na agricultura familiar, entre outros. Importante se faz pontuar que esta solidariedade não se limita às bandeiras de fundo econômico e político, mas também àquelas de cunho cultural, como as reivindicações específicas de organizações juvenis e feministas que atuam no meio rural e que trazem consigo questões pertinentes no campo da cultura.
Como observamos, o movimento estudantil – no seu diálogo com outros segmentos da sociedade civil – tem sido suficientemente aberto no sentido de ampliar seu campo de atuação e de não se isolar enquanto um movimento configuradamente corporativo. A sua especificidade enquanto movimento universitário, bem como, as fronteiras que demarcam a sua atuação e a dos demais, existem e continuam bem delimitadas. Porém, isto não exclui a possibilidade da realização de projetos e ações comuns que fortaleçam esta interlocução e garantam a organização de uma agenda comum.