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6. Placing this analysis into a theoretical content

“valores simbológicos” da obra de arte. A análise iconológica exige um olhar cuidadoso e um número expandido de conhecimentos diversos por parte do pesquisador. Pode-se afirmar que o método iconológico lida com as infinitas possibilidades de interpretações simbólicas das imagens.

Na somatória das especificidades de cada uma dessas metodologias, pode-se perceber a importância da junção de todas elas. De certa forma uma vai completando a outra. Para uma leitura ampliada dos ex-votos, importa o todo gestador da imagem, as formas, o contexto social, os significados e os aspectos simbólicos.

A leituras das obras de arte e demais imagens solicitam percepção, sensibilidade, conhecimento que viabilizem a construção de um maior número de diálogos com as obras. Para as análises dos ex-votos, esses métodos servirão de guias para interpretações cognitivas e fruitivas.

Importante também é valer-se das orientações do historiador e crítico da Arte, Frederico Morais que, em sua vasta experiência, dá a seguinte dica:

É obra, ela mesma, que indica ao crítico método de sua abordagem. Não há uma teoria prévia à obra, cada obra pede uma interpretação diferente, a história de uma obra de arte é a História de seu autor e de sua época, mas também a história de sucessivas leituras que delas foram feitas193. Seguiu-se a dica deixada por Morais. As análises dos ex-votos foram feitas de forma individualizada, guiando-se pela iconografia apresentada nas imagens.

2.2.1 Importância da Semiótica para análise de imagens votivas

Frente ao potencial comunicativo das imagens votivas, pretende-se neste item, ressaltar também a importância dos estudos das linguagens dos signos, a Semiótica. Nesta pesquisa ela é entendida como um meio faciclitador para explorar algumas análises possíveis que podem ser feitas sobre os objetos votivos construídos nas formas bidimensionais ou tridimencionais. O corpo do texto será construido pontuando algums dos muitos sentidos e atribuções que podem ser formulados sobre os ex-votos, as representações, os signos194.

193 MORAIS, Frederico. Arte é o Que Eu e Você Chamamos Arte. Rio de Janeiro: Record, 1998 p.

292.

194 O signo é qualquer coisa de qualquer espécie (uma palavra, um livro, uma biblioteca, um grito,

Sabe-se que os estudos da Semiótica, são muitas vezes conflitantes e divergentes em relação a conceituações e terminologias, em função das linhas de pensadores dessa ciência. Opta-se,então, por filiar-se à Semiótica desenvolvida por Charles Sanders Peirce (1839-1914), arrimada principalmente pela interlocução feita pela pesquisadora Lúcia Santaella. A filiação à Semiótica Peirciniana deve-se ao fato dela possuir uma ampla arquitetura filosófica, concebida como ciência195 de um caráter extremamente geral e abstrato. Ela é um dos membros da tríade das ciências normativas196 que comporta a Estética197, a Ética198, e a Lógica199, estas antecedidas pela quase ciência da Fenomenologia e seguidas pela Metafísica200. Por esses fatores, acredita-se comungar com o universo simbólico e metafórico dos ex-votos, que possuem uma arquitetura calcada em fenômenos, epifanias, verdades orientadas por relatos, testemunhos dos devotos. São objetos oriundos de experiências não comprovadas por números e máquinas, e sim por meio dos depoimentos dos votantes.

Entende-se também que para esquadrinhar essas imagens e suas histórias, necessita-se de movências e circularidades multidisciplinares. Seria raso, diante do

que chama de objeto do signo, e que produz efeito interpretativo em uma mente real ou potencial, efeito esse que é chamado de interpretante do signo. SANTAELLA, Lucia. Semiótica Aplicada, São Paulo, Pioneira Thonson Learning, 2005. p. 8.

Conferir em: PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Trad. Teixeira Coelho. São Paulo: Perspectiva, 2008. p. 75.

NETTO, Teixeira Coelho. Semiótica, informação e comunicação. São Paulo: Perspectiva.1996. p. 56.

195 Segundo Santaella, a semiótica de Peirce é uma ciência especial ou especializada, como são as

ciências especiais, a física, a química, a biologia, a sociologia, a econômica, etc. Quer dizer ciências que têm um estudo delimitado e de cujas teorias podem ser extraídas ferramentas empíricas para serem utilizadas em pesquisas aplicadas. Ela não é tão pouco uma ciência especial como são a

linguística e outras correntes da semiótica que partem de bases linguísticas. SANTAELLA, 2005, p. XII.

196 A estética, a ética, e a lógica são chamadas de normativas por terem funções de estudar ideias,

valores e normas. Que ideais guiam nossos sentimentos? Responder essa questão é trabalho da estética. Que ideais orientam nossa conduta? Esta é a tarefa da ética. A lógica, por fim estuda os ideais e normas que conduzem o pensamento. Ibid. p. 2.

197 Peirce não entendia a estética como uma doutrina do belo. Cabe a ela “determinar por análise o que

devemos admirar “per si” (CP. 536), indagar sobre qual é o estado de coisas é admirável por si só, sem relação com qualquer razão ulterior” (CP.1611). SANTAELLA, Lucia. Matizes da linguagem e pensamento, São Paulo, Iluminuras, 2005, p. 38.

198 Costuma-se definir a ética como doutrina do bem e do mal. Peirce discordou disso e afirma que o

que constitui a tarefa da ética é justamente justificar as razões pelas quais, certo e errado são concepções éticas. Para ele o problema fundamental da ética está voltado para aquilo que estamos deliberadamente preparados para aceitar como afirmação do que queremos fazer, do que temos em mira, do que buscamos. Ibid. p. 38.

199 Lógica é a ciência das condições necessárias para atingir a verdade. Num sentido mais amplo,

lógica é a ciência das leis necessárias do pensamento. (...) trata-se das leis de evolução do pensamento, o que coincide com as condições necessárias para transmissão de significados de uma mente a outra e de um estado mental a outro. SANTAELLA, 2005, p. 39.

que elas possuem de signos, apoiar-se, por exemplo, somente em sua “pura visualidade”, isto é, observar somente os seus aspectos formais. Atrás dessas imagens estão longas histórias de vidas vividas e vivenciadas em diversos momentos históricos. São imagens polifônicas, necessitando de diálogos multidisciplinares para melhor traduzi-las.

Sob esse prisma, os ex-votos contêm diversas possibilidades de abordagens interrogativas, vários aspectos que podem ser inventariados.

Nesse intento, vale ressaltar alguns desses aspectos relacionados às imagens: Social - Relação humana numa situação comunicativa de fé. Espaços de trocas de experiencias, sociabilidades e solidariedades.

Histórico - São objetos narrativos. Podem ser vistos como documentos e fontes. Cultural- Representam sentidos e “modos de vida”.

Religioso - Formas de comportamento - fé - esperança - gratidão.

Jurídico - O ex-voto pode ser visto como garantia da promessa, um contrato de fé, materialização da prova da graça recebida.

Psicanalítico - Imagens resultantes de medos, mal estar, vitórias - realização de desejos.

Médico - Quando a medicina deixa lacunas, recorre-se à cura pela fé, e a grande maioria desses objetos diz respeito a patologias do corpo.

Semiótico - Criações e representações sígnicas.

Artístico - Poiesis da fé. Auto-retrato do homem no tempo em que vive. Estético - Belo, feio, estranho, exdrúxulo.

Ao estudar essas imagens, obviamente, torna-se inevitável mencionar sobre alguns desses citados aspectos, mesmo que de forma pulverizada, pois são questões que estão imbricadas na natureza dessas imagens, e formam uma familia de sentidos, correlacionanado uns aos outros. Reflexionar sobre os ex-votos é afiançar que eles são imagens sígnicas, documentos não-verbais de graças e milagres logrados, testemunhos potencializados de fé, fragmentos de muitas histórias de vidas. A partir dessas afirmativas, torna-se necessário fazer análises desses objetos, buscar apoio nos estudos da Semiótica.

Justifica-se este trabalho e recorre-se à Semiótica por se acreditar que os estudos dos signos englobam as diversas linhas de circularidades dos aspectos citados anteriormente. Reconhece-se, nesse sentido, a grande importância da

Semiótica como meio de análise para leitura de imagens de uma maneira geral e, no caso específico dos ex-votos, crê-se ser imprescindível.

Para explorar o potencial comunicativo dessas imagens é de bom senso organizá-las por grupos de linguagens, afinidades e tipologias. Dessa forma, existem as imagens bidimensionais/artesanais que são pinturas, desenhos e as fotográficas que são produzidas por meio da mídia industrial; as tridimensionais/artesanais que são esculturas de corpo inteiro e partes do corpo feitos de madeira, argila e outros materiais (geralmente são peças únicas), existindo também as que são feitas de “modo industrial” e seriadas, que são as feitas de parafina. Existem também os objetos industriais, conhecidos como objetos do cotidiano. Cada uma dessas categorias possui “estilo”, “traço”, “corte”, “tipologia”, peculiaridade a ser interpretada em suas especificidades. É o que se pretende fazer aqui.

Inicialmente, numa visão panorâmica desses objetos diversificados como premissas para analisá-los, percebe-se a importância de se recorrer à compreensão dos três ramos da Semiótica (a gramática especulativa, a lógica crítica, a metodêutica ou retórica especulativa) das propriedades formais que dão fundamento aos signos (quali-signo201, sin-signo202, legi-signo203) e das classificações do signo (ícone, índice e símbolo).

Resumidamente, o ícone sugere por associação de semelhança com o objeto, o índice, por uma conexão de fatos existenciais e o símbolo representa-se por meio de uma lei (legi-signo).

Percebe-se a relevante importância dessas fundamentações semióticas para a análise das imagens: a icônica, a indicial e a simbólica. Pode-se dizer que não se prioriza uma em detrimento de outras. As três são igualmente recorrentes, até porque se entende que as interlocuções entre os ramos, propriedades e classificações mencionados fazem parte de uma comunicação de diálogos integrados. Um contém os outros, em diferentes graus de aproximações e semelhanças. Na maioria das

201Quali-signo - qualidade que é do signo. É dado como exemplo a cor, em si mesma, sem considerar a superfície que esta corporeificada. Nas análises das pinturas votivas é de grande valia a compreensão do estudo do quali-signo, principalmente no que diz respeito a cor vermelha.

202 Sin-signo – “sin” quer dizer singular. Aquilo que é peculiar. São os sinais latentes de significados. Os ex-votos por si, são objetos latentes de significados. Nas analises das imagens trabalharemos alguns casos específicos.

203 Legi-signo – “legi” quer dizer lei, quando tem propriedade de lei. Estão associados as convenções socioculturais. Dessa compreensão, todos os ex-votos são criados por convenções da fé religiosa popular. No caso das pinturas, como exemplo, até as composições obedecem a algumas “leis construtivas” composicionais. Geralmente compõem essas imagens uma cama com o enfermo deitado, a entidade intercessora, legendas, além de outras iconografias que se repetem.

imagens, seja nas pinturas, desenhos, fotografias, objetos, percebe-se, no exercício da análise, a inter-relação dessas teias de representações sígnicas.

Nesse contexto, coloca-se em evidência a orientação de Lucia Santaella, que diz:

Entretanto, por ser uma teoria muito abstrata, a semiótica só nos permite mapear o campo das linguagens nos vários aspectos gerais que as continuem. Devido a essa generalidade, para uma análise afinada, a aplicação semiótica reclama pelo diálogo com teorias mais específicas dos processos de signos que estão sendo examinados. Assim, por exemplo, para se analisar semioticamente filmes, essa análise precisa entrar em diálogo com as teorias especificas de cinema. Para analisar as pinturas, é necessário haver conhecimento de teorias de história da arte (...)204.

Fica evidenciado, e também em conformidade com o pensamento de Santaella que as citadas fundamentações semióticas, assim como outros métodos de análises de imagens já citados anteriormente, podem servir de arrimo para se pensar e se aproximar das imagens, o que se distancia de serem meras receitas interpretativas.

No exercício de análises das imagens, no caso dos ex-votos, exige-se um olhar multidisciplinar. Essas imagens, como já dito, possuem peculiaridades a serem interpretadas que estão direcionadas a determinadas áreas do conhecimento. Elas estão impregnadas de diversos signos impressos em suas muitas peles, muitos poros, que solicitam repertórios diversificados para melhor redesenhá-las.

Não ficam dúvidas de que os ex-votos são imagens banhadas de signos e símbolos e possibilitam muitas formas de leituras. Pensar essas imagens é ir para além daquilo que ali se vê. Importam as redes que as circundam, suas origens, os artistas que as criaram, o tempo e o espaço nos quais foram concebidas, suas ambiguidades e as mensagens que podem transmitir.

No domínio dos ex-votos, com o desejo de adentrar como ressonância magnética no corpo dessas imagens, acredita-se que elas podem ser lidas, esquadrinhadas, descarnadas e, possivelmente, não serão apreendidas na sua totalidade. Acredita-se ainda que as imagens são, de forma analógica, como o deus Proteu, caleidoscópicas, signicas, conforme cada olhar. Elas se apresentam de maneiras diferentes e são re-significadas, re-feitas em nossosimaginários.

Nos itens a seguir, o que se enseja é explorar ao máximo possível o universo das imagens votivas.