5.3 Pitch-Yaw Attitude NMPC Tuning
5.3.1 Pitch-Yaw NMPC
Selecionada a escola e o Ciclo, restava, ainda, escolher a turma a ser observada. A professora Ana Maria, embora do quadro de professores contratados, apresentava o melhor perfil para a realização da pesquisa: era professora de Português com experiência naquele nível de ensino, entusiasmada, desinibida, e acompanharia a turma durante todo o ano letivo. Assim, a professora, passados os momentos iniciais de certo receio de ser filmada, concordou com a pesquisa em suas aulas.
Ana Maria ingressou na escola em agosto de 2004, após ter sido aprovada na seleção realizada para preenchimento de vagas para o cargo de professor do quadro de contratados. Formou-se em Letras no interior de Minas, em 1996, fez pós-graduação em Língua Portuguesa, também no interior, e contabilizava, à época da pesquisa, uma experiência de 13 anos no magistério, tendo trabalhado tanto em escolas públicas como em particulares.
Durante o período da pesquisa, a professora lecionava também em uma escola particular, na mesma região em que se localizava a Escola Bárbara Heliodora. Trata-se de uma mulher branca, na faixa dos trinta anos, da classe média, nascida no interior de Minas Gerais.
Escolhida a escola e a professora, fui para o segundo passo : a escolha da turma. Para decidir em qual das três turmas de terceiro ano de Ana Maria eu faria a observação, circulei pelos corredores da escola, observei atentamente os alunos e escolhi a turma. Embora seja complexa a questão da classificação racial, pautei-me pelo meu olhar sobre as características fenotípicas salientes dos alunos e das alunas (cabelo, cor da pele, nariz, boca).
Antes de anunciar à Ana Maria a respeito da escolha, resolvi certificar-me de que minha escolha por aquele grupo de crianças fazia sentido aos olhos de outras pessoas. Assim, pedi à professora Luciana, branca, professora de Ciências e madrinha da turma, e à professora Cibele, negra, professora de Educação Física, que me indicassem uma turma com o maior número de crianças negras. Elas apontaram a Turma 1 com esse perfil, confirmando minha escolha. A opção por verificar, também, o olhar dessas duas professoras se deu em razão da relação de proximidade delas com a Turma 1, pelo interesse que elas demonstraram pela pesquisa, quando entrei em contato com elas, e por terem se colocado à disposição para serem entrevistadas. Dessa forma, eu tinha elementos a mais para corroborar minha escolha e evidências de que a identidade racial dos alunos não era ignorada pelos professores, a despeito do discurso escolar de que todos são iguais.
Essa percepção por parte das professoras de que o grupo apresentava uma diversidade racial foi registrada por mim no diário de campo. Recorri a esses apontamentos diversas vezes, para tentar compreender as ações das professoras, considerando não só aquilo que elas diziam sobre os alunos e alunas, mas, sobretudo, o modo como elas agiam diante das questões que a diversidade apresentava para o Ciclo no cotidiano.
Quanto à diversidade de gênero na turma, não foi necessário que eu pontuasse essa questão para as professoras. Isso porque a escola já possui um olhar, pelo menos no que se refere à organização dos grupos, para a composição das turmas, de forma a haver certo equilíbrio no número de meninas e de meninos por sala, como se observou na Turma 1: 16 meninas e 14 meninos.
Equilíbrio não seria exatamente a palavra mais adequada para se empregar aqui, se considerarmos os aspectos relativos ao modo como a questão de gênero se colocava na turma. Isto é, meninos e meninas eram vistos de forma bem diferente tanto pela professora Ana Maria como por outras professoras. Elas costumavam se referir ao grupo como uma
turma extremamente agitada, barulhenta. Ana Maria chegou a verbalizar, certa vez, que isso era o resultado de ser uma turma com muitos meninos. De onde se conclui que, embora as meninas fossem a maioria (16), na prática, eram os meninos que apareciam mais, e de forma considerada negativa pela(s) professora(s), como mostra Luciana, a professora de Ciências e madrinha da turma:
Eu tenho a oportunidade de trabalhar muito com laboratório e tem muito trabalho em grupo. E o grupo é a escolha deles. Então quando tá muito difícil, aí eu falo: 'Não. Você não vai sentar nesse grupo. Vai sentar no tal'. Mas a maior parte das vezes é a escolha deles mesmo. E o grupo não costuma assim mudar./Eu percebo também os bloquinhos mesmo. Só menino, só menina. Aí geralmente onde tem mais menino, conversam mais. Aí eu falo: 'Não, vamos misturar isso aí, né?'/É porque quando é grupo eles costumam separar: 'É, aqui só menina'. Aí nessa parte eu costumo interferir um pouco
O depoimento de Luciana não deixa dúvidas. As meninas são ligeiramente em maior número, mas são os meninos que aparecem mais, porque se permitem burlar as regras da convivência em sala: conversam muito e alto. Evidencia-se, também, que meninos e meninas parecem buscar a convivência dos seus pares, em primeiro lugar, pela identificação de gênero, depois é que aparece a afinidade por outras razões.
A opinião das meninas, nos textos 1 e 2, a seguir, reforçam a distinção entre meninos e meninas:
Texto 1
Belo Horizonte, 15 de abril 2005 Professora Carla,
Queria que você conversasse com os meninos para eles NÃO arrastar as cadeiras, porque eu não estou agüentando a BARULHEIRA que faz. Queria que você falasse sobre a vida em outros PAIZES. Obrigada !!
1000 Beijos de sua aluna Ludmila
Texto 2 Belo Horizonte 19.04.2005. Professora Carla Olá Carla
Eu queria que você fizesse várias mudança como ter mais para casa, e também sobre os apelidos; por favor tome providência porque cada vez mais fica mais chato, e queria que você conversasse com os meninos para eles Não arrastar as cadeiras, porque eu não agüento mais a Barulheira que faz, queria que você falasse sobre a vida em outros países.
Obrigada Larissa, Lara, Ludmila, Clara e Amanda
Os textos 1 e 2 foram escritos por meninas e tratam de um episódio de escrita em que a professora Ana Maria realizou uma atividade de produção de textos/bilhetes, aproveitando a vontade manifestada pela turma de mudar algumas coisas na escola. Solicitou- se à turma que escrevesse um bilhete para a professora Carla, coordenadora do Ciclo à época. A atividade constava de dois momentos. No primeiro, escreveram o bilhete individualmente, como pode ser observado pelo texto da Ludmila (texto 1); no segundo, elas redigiram o texto em pequenos grupos, conforme se observa no texto assinado por Larissa, Lara, Ludmila, Clara e Amanda (texto 2).
Nesses dois textos, as referências aos meninos são feitas em tom de denúncia e reforçam diferenças no comportamento de meninas e meninos. Primeiramente, os meninos são responsabilizados pelo barulho excessivo, arrastando carteiras e incomodando as meninas, de onde se deduz que as meninas não fazem barulho, são mais ordeiras. Depois, as meninas pedem providências também quanto aos apelidos. E embora não digam quem os pratica, posso afirmar que elas estão se referindo basicamente aos meninos, uma vez que essa era uma prática comum entre eles, principalmente no recreio e nos intervalos.8 Conforme também observaram Connolly (1997) e Carvalho (2001), as professoras tendem a atribuir comportamentos diferenciados a meninos e meninas na escola, o que precisa ser visto como problemático, pois pode reforçar ainda mais as diferenças sociais construídas para distinguir meninos e meninas, homens e mulheres.
8
Não observei essa prática de forma explícita entre as meninas nem qualquer reclamação por parte dos meninos, com relação ao uso de apelidos contra eles pelas meninas.
Após escolher a turma, contando também com o olhar das duas professoras, pude situar minha percepção no contexto dos levantamentos realizados pela escola, como será apresentado a seguir.