Empirical Enquiry
4 The BEANISH project
4.3 Pilot project
De acordo com Hair Jr. et al. (2006:157), o levantamento ou survey é um procedimento para coleta de dados primários a partir de indivíduos. Os dados podem variar desde crenças, opiniões, atitudes e estilos de vida até informações gerais sobre a experiência do indivíduo, tais como gênero, idade, educação e renda, bem como características da uma empresa, como lucro e número de funcionários. Os surveys são utilizados quando o projeto de pesquisa envolve a coleta de informação de uma amostra grande de indivíduos.
O levantamento pode ser categorizado como questionários em que o próprio respondente preenche o formulário, podendo também ocorrer na forma de entrevista. O
primeiro envolve os surveys eletrônicos, que são uma maneira relativamente rápida e conveniente de acessar um indivíduo. (HAIR Jr. et al., 2006:157)
Ainda segundo Hair Jr. (2006:159), um questionário é um conjunto predeterminado de perguntas criadas para coletar dados dos respondentes. É um instrumento cientificamente desenvolvido para medir características importantes de indivíduos, empresas, eventos e outros fenômenos. Trata-se de um conjunto padrão de perguntas com respostas frequentemente limitadas a um número exaustivo de possibilidades mutuamente excludentes e predeterminadas. Mutuamente excludente significa que cada resposta refere-se a uma categoria de reação, e número exaustivo significa que para toda resposta possível do respondente foi incluída uma categoria possível. Os questionários são respondidos frequentemente sem a presença do pesquisador. Supõe-se que o respondente tenha conhecimento e motivação para completá-los sozinho, aumentando assim a necessidade de clareza e facilidade de preenchimento, o que deve ser uma preocupação fundamental do pesquisador ao prepará-lo.
O envio eletrônico de questionários pode ocasionar vieses nas respostas adquiridas. Não se tem controle de quem efetivamente respondeu ao questionário. Nesta tese, por exemplo, o questionário foi desenvolvido para o coordenador do curso de Administração, porém não se sabe se o mesmo “terceirizou” o preenchimento, delegando a tarefa de preenchê-lo à secretaria ou a algum docente de sua equipe. Também há a dificuldade de respostas. Surveys eletrônicos costumam enfrentar baixo índice de respostas validadas. Sendo assim, a forma encontrada para tentar minimizar esses dois fatores nesta tese foi encontrar na internet o e-mail pessoal do coordenador. Outra tentativa de facilitar o preenchimento foi inserir um link para a resposta, abandonando a necessidade de abrir anexo, salvar e reencaminhar.
O questionário foi dividido em três seções. A seção 1 compreendeu as questões de abertura. Foram desenvolvidas para estabelecer contato com o respondente e estimular o interesse pelo tópico. Posteriormente, na seção 2 foram apresentadas as questões sobre o tópico da pesquisa. Por fim, a seção 3 compreendeu as questões de classificação ou perfil, em que as variáveis de identificação do perfil do coordenador foram exibidas. Nesta última seção houve a tentativa de minimizar o número e o detalhamento das questões, haja vista o cansaço acumulado que o respondente apresenta ao final do questionário.
A etapa 1 desta tese exploratoriamente identificou, por meio da consulta aos especialistas em interdisciplinaridade e de entrevistas semiestruturadas com dois coordenadores de cursos de Administração, algumas variáveis que representariam a presença ou o grau de interdisciplinaridade no ensino de Administração no nível de graduação. Os dados resultantes foram analisados à luz da SSM, e foi possível definir três construtos para organização destas variáveis: estrutura curricular, organização e atividades didáticas.
A fim de se confirmar estatisticamente se havia validade nos respectivos construtos, foi escolhida a Análise dos Componentes Principais. Complementando o propósito de construção de um modelo para mensuração da interdisciplinaridade, foi intuitiva a escolha da Análise de Clusters para a divisão dos cursos questionados pela combinação de manifestações das magnitudes semelhantes dos construtos sugeridos.
O instrumento de pesquisa foi elaborado de forma estruturada em questões fechadas, sendo dividido em duas partes. Na primeira, são questionadas as variáveis de interdisciplinaridade, sendo que cada questão do instrumento representa a métrica da variável. Para que houvesse clareza de que as questões remetiam ao grau, à medida, ao nível que cada variável se apresentava em cada curso, foi definida uma escala de 0 a 10. Além de não incorrer no risco de tratar uma escala ordinal como sendo numérica, este procedimento pôde demonstrar a intensidade traduzida em números. Foram apresentados todos os pontos da escala (0 a 10), para que não houvesse qualquer indução às respostas, apenas apresentando pontos extremos e médios. Foi deixado a cargo do respondente assinalar o ponto que melhor expressasse o grau de manifestação da variável de interdisciplinaridade em seu curso de Administração.
Além disso, na construção da escala numérica contínua não incide o risco de ambiguidade entre as opções ofertadas para a escolha do respondente. Como se trata de um tema subjetivo, as tentativas de construção de uma escala intervalar, nominal ou ordinal se mostraram frustradas à medida que não se conseguia a clareza necessária para cada questão do instrumento.
Na segunda parte do questionário, foram indagadas as questões cadastrais, para que se identificasse o tipo de IES do qual o curso era parte, quantos anos o coordenador estava no cargo, a localização dos cursos etc. O questionário completo está disponibilizado no Apêndice 4.
Ciente de que a construção em escala numérica contínua não seria suficiente para que o instrumento ficasse sem nenhuma dificuldade de interpretação do respondente, o coordenador do curso, após a elaboração do questionário, deu-se início à tarefa de pré-teste.
Foram acionados quatro coordenadores de cursos, todos provenientes de IES privadas, duas localizadas na cidade de São Paulo e duas localizadas na cidade de Ribeirão Preto. Como os coordenadores tinham ao mínimo o título de mestre, foi pedido a eles que também contribuíssem com as percepções que tiveram durante o preenchimento do questionário. Os apontamentos dos respondentes podem ser sumarizados no quadro 30, logo abaixo:
Quadro 30 - Análise de questionários enviados como pré-teste
Coordenador 1: “Na Questão 3, valeria a pena colocar explicações sobre o que seriam ‘atividades
extraclasse’. Na Questão 7, acho que seria interessante incluir os discentes. A variável incluída no comentário anterior poderia ser uma questão após esta.” – A coordenadora refere-se à inclusão de discentes na discussão e monitoramento da interdisciplinaridade. Também sugeriu uma nota explicativa sobre PBL. Foi detectada falta de clareza no texto da Questão 15, sobre a variável avaliações integradas. Coordenador 2: Questionou as diferenças entre integração e sobreposição do conteúdo. Se o questionário pergunta se há discussão de sobreposição, por que não pergunta sobre integração? O coordenador 2 chama a atenção para o seguinte: ao invés do termo “inovações na grade curricular”, o ideal seria “atualização da grade curricular”. Sugere a inclusão de uma questão sobre a realização de simulados (estilo Enade, por exemplo) com integração de conteúdos. Sugere incluir a opção “desconheço esta ferramenta”, quando apresenta as técnicas de ensino. Isso mostra o nível de conhecimento do coordenador sobre técnicas centradas no aluno. Em suas próprias palavras: “Outra questão que deveria
ser contemplada, diz respeito ao perfil do coordenador. Muitos cursos são coordenados por profissionais de outras áreas, muitas vezes com especialização e sem mestrado e doutorado. Parece-me que a não aderência à administração (graduação do coordenador) pode resultar em um menor grau de interdisciplinaridade.” O coordenador sugere que eu questione sobre as dificuldades para implementar atividades de interdisciplinaridade e quais benefícios se percebem com o aumento da interdisciplinaridade.
Coordenador 3: “Sugiro que inclua, se possível, outras duas variáveis: TBL (Team Based Learning) e
MA (Metodologias Ativas). A aplicação do TBL em cursos de ciências sociais aplicadas, onde a Administração se enquadra, é muito interessante para desenvolver/aprimorar o relacionamento interpessoal e a capacidade de liderança dos alunos. Por sua vez, a aplicação de MA busca a indissociabilidade entre teoria e prática, permitindo que o aluno perceba a relevância dos conteúdos discutidos em sala de aula a partir de uma contextualização voltada para a identificação de situações- problema (capacidade analítica), formulação de decisões possíveis (embasamento teórico), aplicação (tomada de decisão) e avaliação/monitoramento.Nestes casos, tanto os estudos de caso quanto os simuladores empresariais são excelentes instrumentos para MA”. – A variável TBL foi acrescida ao questionário, conforme sugerido. As MA foram consideradas abordadas nos itens que perguntavam a respeito da simulação empresarial e dos estudos de caso.
Nem todas as sugestões puderam ser acolhidas, principalmente as que sugeriram aumentar o escopo da pesquisa com introdução de novos construtos. Porém, a maioria delas mostrou pontos em que havia falta de clareza nas questões, além da necessidade de detalhamento e exemplos para explicar conceitos presentes nas questões.
A primeira questão foi alterada. De “o curso implementa inovações periódicas nas disciplinas pertencentes à grade”, o texto se transformou em “o curso atualiza a grade periodicamente”. A variável TBL foi acrescida ao questionário conforme sugestão do coordenador 3. Em relação à questão da compreensão que o coordenador teria das técnicas, foi acrescentada uma opção para as questões sobre técnicas de pesquisa: desconheço esta técnica.
O envio dos questionários foi efetuado pelo aplicativo Google Drive. Não sendo necessário enviar cada formulário individualmente, bastou digitar o e-mail no aplicativo, e foram disparados e-mails individuais e idênticos automaticamente.