Para Jâmblico os símbolos estavam intimamente ligado à teurgia em seu aspecto cosmogônico. O termo sunthêmatata, sinônimo de sumbolon e semeia descreve, em termos correlatos teúrgicos, os termos “token”, “símbolo” e “signo”, cuja origem remonta aos Oráculos Caldáicos.150
Porque, o intelecto paterno, que pensa os inteligíveis, tem semeado símbolos através do mundo. Também os chamam belezas indizíveis.151 (Fragmento 108)
Os símbolos, e quando nos referirmos aos símbolos, devemos sempre considerá-los a partir da perspectiva antiga, dos Oráculos, funcionam como poderes dinâmicos (dynamis) que dão forma e informam o cosmos. Assim, no Fragmento 2 e no Fragmento 109, o Pai lança os seus símbolos no mundo enquanto recordação tanto de si próprio como aquilo Dele que se encontra oculto na matéria e que, por esse motivo, coincide com o poder que esta guarda justamente porque provém e é semelhante ao Pai e que, ainda por esse motivo, só poderia se apresentar enquanto “beleza indizível”. É, portanto, por meio desta beleza indizível, representada através dos símbolos enquanto sunthêmata e, em seu sentido mais profundo, como símbolo ritual, físico e ontológico, que as potências ocultas nos seres e nos nomes, bem como a realidade invisível, que é o seu núcleo constitutivo, liberam o que estava ali escondido permitindo que a ação teúrgica se desenrole a partir de sua intermediação.152
Os deuses produzem sinais quer por meio da natureza, que é subserviente a eles com relação à criação de todas as coisas, tanto universais como particulares, ou através da influência dos
147 Ver G. SHAW. Theurgy and the Soul – The Neoplatonism of Iamblichus, p. 4. 148 Ibid., p. 158.
149 Sunthêmata e símbolo são basicamente sinônimos no contexto teurgico e, por esse motivo, para simplificar a
nossa escrita utilizaremos o termo símbolo sempre no sentido de sunthêmata, relacionado à teurgia.
150 G. SHAW. Theurgy and the Soul – The Neoplatonism of Iamblichus, p. 162.
151 Tradução de Francisco Garcia BAZAN. Oraculos Caldeos (Con uma selección de testimonios de Proclo,
Pselo Y M. Itálico) & Numenio de Apamea (Fragmentos y Testimonios), p. 83.
daemons preocupados com a criação, que, dirigindo os elementos do universo e os corpos individuais, na verdade sobre os seres vivos do cosmo, dirigem os fenômenos, com facilidade, de modo a agradar os deuses. Eles revelam através dos símbolos os propósitos dos deuses, chegando mesmo a fornecer elementos do futuro, “nem falando nem escondendo”, como diz Heráclito, mas “dando indicações através de sinais”, uma vez que eles impressionam, como se através da semelhança, o modo da criação na verdade ao antecipar isso. Assim, do mesmo modo que eles criam todas as coisas através de imagens, do mesmo modo eles também dão um sentido a elas, de modo, análogo através do uso de sinais com os quais concordamos; e talvez eles mesmos despertem o nosso entendimento por meio do mesmo impulso rumo a uma perspicácia maior.153 (De Mysteriis, III, 15 [135-136])
Os sinais presentes na natureza enquanto sunthêmata podem assumir muitas formas e se manifestar de muitas maneiras, através de objetos, imagens, nomes, sendo que a sua utilização nos ritos depende não apenas de suas características puramente materiais, mas também simbólicas. Faz-se necessário, no entanto, esclarecer que o sumbolon teurgico não têm o intuito de evocar,154 através de palavras ou de imagens, mas ele realiza aquilo que ele “evoca” teurgicamente atualizando o que ele é em essência de modo a transformar a essência humana em divina. Teoricamente qualquer objeto pode conectar a Alma humana aos deuses porque o mundo é a sua enérgeia e manifesta a sua Presença. Cabe aos teurgos reconhecer as semelhanças entre os objetos e os deuses que os enviaram ao mundo, para estabelecer, por meio destes, a ligação interrompida.
Estes símbolos dependem dos níveis ontológicos que ligam o Pai ao mundo material no qual os humanos habitam – níveis que incluem os deuses , os anjos, os daemons, e os planetas, por exemplo – mas também incluem todos os tipos de criaturas e objetos do próprio mundo material. Como Proclo e mais tarde Michael Psellus e Ficino nos contam em detalhes, há de fato, toda uma corrente (seriai) de criaturas e objetos que dependem do Pai, cada uma das quais, próximo do topo, possuem um culto tradicional familiar ao deus, e muitos dos quais incluem também um corpo planetário. Da corrente que inclui o Sol dependem os leões e os louros, como já foi mencionado, e também outras plantas, animais e minerais como o ouro, heliotrópio, galo, e um mineral chamado “pedra do sol” (Sun-stone) (hêlitên) e outra pedra chamada “Olho do Belos” (Proc. On the Hieratic Art, passim). Nomes divinos e personagens também dependem destas correntes. Todas estas correntes e os seus componentes symbola participam e a ajudam a sustentar a sympatheia e a philia que reúne diferentes níveis do cosmos.155
Tanto o deus como os símbolos tem uma mesma origem ontológica. Johnston é bastante clara ao dar o exemplo dos dentes, ao dizer que também as concha das ostras, o giz e o leite participam de uma mesma cadeia relacionada ao cálcio. No entanto, ela esclarece que as cadeias utilizadas na teurgia incluem, além das coisas materiais, os deuses que existem
153 Tradução de CLARKE-DILLON-HERSHBELL. Iamblichus: On the Mysteries, p. 159.
154 Sara Illes JOHNSTON. Animating Statues. A Case Study in Ritual. Arethusa 41.3, pp. 445-78 (2008).
Utilizamos a versão do artigo fornecido por John Finamore e pela autora antes de sua publicação, p. 9. (draft)
acima do nível material. Assim, os sumbola materiais estão conectados através de suas correntes a entidades que estão fora do alcance humano.156
Os daemons enquanto objetos intermediários de adoração aproximam as almas humanas dos deuses,157 tanto nos ritos como nos sacrifícios, pois eles são agentes do demiurgo. E, se quisermos compreender o seu papel enquanto intermediários teremos primeiramente que nos despir de quaisquer preconceitos com relação a esta entidade, pois diferentemente do que se pensa, eles representam e manifestam aos homens a bondade do deus, o demiurgo, que para Jâmblico jamais poderia ter um caráter negativo nem uma influência prejudicial ao cosmo com o um todo.