Sob a influência das ideias gnósticas, os contemporâneos de Jâmblico acreditavam que a terra era um lugar de onde os deuses haviam se afastado. Esse tipo de pensamento era compactuado, de alguma maneira por Plotino, quando este dizia:
E, se precisarmos ousar dizer, contra a opinião dos outros, mais claramente o que pensamos, nossa alma não está totalmente mergulhada aqui em baixo, mas uma parte dela permanece no inteligível.89 Tratado 6 [IV 8], 8, 1-3.
As diferenças entre Plotino e Jâmblico com relação à descida ou não da Alma nos corpos vieram constituir e estruturar de maneira completamente diversa o modo como cada um deles orientava o percurso ascético de seus alunos e discípulos. Se para Plotino a ascese era intelectual, não dependendo de nenhum recurso externo, a não ser do próprio trabalho intelectual do discípulo, decorrente apenas de seu esforço e empenho pessoais, o mesmo não acontece com Jâmblico, para quem o esforço intelectual conduz apenas até uma etapa do caminho, a ser complementada pelas práticas teúrgicas com o intuito justamente de ultrapassar a distância imensa da Alma com relação ao Princípio.
A meta para Jâmblico consistia na transformação do homem no sentido de sua deificação, ou seja, unificação de sua Alma, bem como a sua assimilação às ordens do cosmo. Convém notar que até este ponto não há divergências essenciais entre o pensamento de Plotino e o de Jâmblico. A divergência entre eles consiste mais especificamente na posição da Alma com relação ao Princípio, como veremos a seguir. Para Jâmblico existem dois tipos de Almas, aquelas que estão em união contemplativa com os verdadeiros seres inteligíveis e são
88 Cf. Polymnia ATHANASSIADI. La lutte pour l’ortodoxie dans le platonism tardif – de Numénius a
Damascius, pp. 172-173.
89 Tradução de Laurent LAVAUD. Traités 1-6, p. 251. Sobre esta questão em Plotino ver o Tratado 27 [IV 3],
semelhantes aos deuses e aquelas almas que já desceram ao mundo material e estão moralmente corrompidas.
29. Ademais, penso verdadeiramente que o propósito pelo qual as almas descem é diferente e que por isso eles causam diferenças na maneira com que elas descem. As almas que descem para a salvação, purificação e aperfeiçoamento deste mundo são imaculadas na sua descida. A alma, por outro lado, que se dirige aos corpos para o exercício e correção de seu caráter não está totalmente livre das paixões e não é enviada livre em si mesma. A alma que desce aqui para cumprir uma punição e um julgamento parece de alguma maneira ser arrastada e forçada.90 Iamblichus – De Anima 29 [380].
O primeiro tipo de alma consegue preservar a sua pureza e liberdade com relação ao mundo material, sendo sua meta justamente purificar e aperfeiçoar este mundo. O segundo tipo de Alma perde a sua independência e se torna implicada na existência material, pois antes mesmo de sua descida ela já estava moralmente caída, sendo este justamente o motivo de sua descida, tanto como punição como para o seu próprio aperfeiçoamento.91
30. Deve-se também considerar a vida das almas antes delas entrarem nos corpos, uma vez que estas vidas têm uma grande variação individual. A partir de diferentes modos de vida a alma tem a oportunidade de vivenciar diferentemente um primeiro encontro com o corpo. Para aqueles que são “neófitos”, que viram muito da realidade e são companheiros e aparentados dos deuses, e que foram plenamente aperfeiçoados e encerram completamente as partes de sua alma, estes são em sua totalidade implantados primeiro, livres das paixões e puros, no corpo. Assim como para aqueles, por outro lado, que estão fartos de desejo e cheios de paixão, é com paixão que eles encontram pela primeira vez os corpos.92 Iamblichus - De Anima 30
A dor do homem caído, da alma mergulhada na existência puramente material comovia diferentemente Plotino e Jâmblico. Em sua ânsia por explicar o sofrimento, Plotino elaborou a sua “doutrina da alma não-descida”.93 Segundo esta doutrina, a parte mais elevada da Alma não desce ao mundo sensível e, portanto, não tem contato com os corpos, nem é corrompida. A parte mais elevada da Alma permanece, assim, no mundo inteligível, de onde irradia uma luz que se inclina para o mundo sensível sem, portanto, descer até ele.
Nós dissemos como a geração aconteceu: ela aconteceu quando da descida da alma, no sentido em que alguma outra coisa, originada dela, desça quando ela se inclina.
- Mas será que ela abandona a sua imagem?
E esta inclinação, como não concordar que ela seja um erro?
90 Tradução de John F. FINAMORE & John M. DILLON. Iamblichus - De Anima. Text, Translation and
Commentary. Atlanta: Society of Biblical Literature, 2002, p. 57.
91 Cf. O’MEARA. Pythagoras Revived – Mathematics and Philosophy in Late Antiquity, p. 38. Ver também R.
P. FESTUGIÈRE. La Révélation d’Hermès Trimégiste. Apêndice I, Sessão II, pp. 216-228, sobre a descida da alma nos corpos.
92 Tradução de FINAMORE-DILLON. Iamblichus - De Anima, p. 59.
- Mas se a inclinação é uma iluminação direcionada para o que está mais baixo, não é um erro. A causa do erro não é a sombra, mas o que é iluminado; pois se este não existisse, a alma não teria nada a iluminar. Nós dizemos da alma que ela desce ou que ela se inclina no sentido em que o que recebe dela a sua luz vive com ela. Ela abandona certamente sua imagem se não há nada que esteja perto dela para receber; ela não abandona no sentido de que a imagem esteja separada dela, mas no sentido em que a imagem deixa de existir. 94 Tratado 53 [I 1], 12, 22-29. Se a teoria da iluminação da Alma é insuficiente para explicar a descida desta, por outro lado, poderíamos tentar entender a questão sob outra perspectiva, como Plotino o fez no Tratado 10 [V 1], 12, 1-15 quando explica que a Alma, através da consciência, por sua parte mais elevada, está em contato direto com o Intelecto, e que esta conhece, primeiramente através da sensação e que é por seu intermédio que ela conhece a totalidade e tudo o que a acomete, pois o que a Alma conhece, ela conhece inteira. Deste modo, o que conhecemos perpassa a Alma e, até mesmo o conhecimento do mundo exterior necessita da Alma, enquanto instância mediadora entre o mundo e o Intelecto, cuja ponte passa pela atenção, por meio da qual, através da consciência unem-se, deste modo e nesta perspectiva, o mundo sensível e o inteligível.95
Carlos G. Steel em seu capítulo intitulado “A Alma não-descida” nos lembra que a posição de Plotino com relação à descida da Alma divergia da tradição de sua época.
É essencial para Plotino a tese de que mesmo encarnada ela [a alma] reside no mundo inteligível. A questão é por que ele se sentiu obrigado a propor tal posição que divergia tão radicalmente da tradição. De acordo com Proclo, Plotino teria considerado essa posição necessária para poder explicar como nós, a despeito de nossa descida no mundo sensível, ainda temos a capacidade de conhecer os seres ideais. Isso é possível apenas, pensou Plotino, se aceitarmos que ‘alguma coisa’ de nossa alma permanece sempre ligada a essa realidade superior.96
A diferença entre a visão de Jâmblico e de Plotino foi descrita também por Proclo em seu Comentário ao Parmênides de Platão:
94 Tradução de Jean-François PRADEAU. Traités 51-54. Paris: GF Flammarion, 2010, pp. 198-199. Ver Tratado
33 [II 9], 10, 25-27.
95 Ver Carlos G. STEEL. The Changing Self. A Study on the Soul in Later Neoplatonism: Iamblichus, Damascius
and Priscianus. Brussels: WLSK. Palais der Academien – Hertogsstraat I, 1978, p. 35. Sobre a sensação enquanto mediadora entre o sensível e o inteligível ver o livro de Frederic M. SCHROEDER. Form and
Transformation e o artigo Synousia, Synaistesis and Synesis: Presence and Dependence in the Plotinian
Philosophy of Cousciousness. Aufstieg und Niedergang der Romischen Welt, vol. 2, 1987, pp. 677-699. Sobre a relação entre a alma e o corpo ver H. J. BLUMENTHAL, Plotinus Psychology – His Doctrines of the Embodied
Soul. Netherlands: Martinus Nijhoff/ The Hague, 1971, pp. 8-19, capítulo 2 (“Alma e corpo”). Sobre senso- percepção, Eyjólfur K. EMILSSON, Plotinus on Sense-Perception – A Philosophical Study. Cambridge: Cambridge University Press, 1988, pp. 23-35, capítulo II (A visão de Plotino sobre a alma e o homem) e Gary M. GURTLER, Sympathy in Plotinus in International Philosophical Quarterly, Vol. XXIV, No 4 Issue No 96, December 1984.
96 Carlos G. STEEL, The Changing Self. A Study on the Soul in Later Neoplatonism: Iamblichus, Damascius and
O conhecimento em nós, então, é diferente do divino, mas através deste conhecimento acedemos àquele; e nem sequer precisamos situar o inteligível em nós, como alguns afirmam,
97 para que conheçamos os objetos inteligíveis presentes em nós (pois eles nos transcendem e
são as causas de nossa essência); nem devemos dizer que uma parte de nossa alma permanece acima, de modo a que através dela possamos ter contato com o mundo inteligível (pois o que permanece sempre acima jamais poderia estar conectado com o que se originou de seu próprio estado de intelecção, nem poderia constituir a mesma substância que ele); nem deveríamos postular que ele seja consubstancial aos deuses – pois o Pai que os criou produziu nossa substância primeiramente de materiais secundários e terciários (Timeu 41d). Alguns pensadores foram levados a propor esse tipo de doutrina buscando entender como nós, que estamos caídos neste mundo podemos ter conhecimento dos Seres verdadeiros, quando o conhecimento que temos deles é próprio das entidades não caídas, mas para aqueles que foram elevados e que adquiriram a sobriedade após a Queda.98
A Alma humana, para Jâmblico, está separada do Intelecto de onde emana (e essa posição não é antagônica à de Plotino) e se situa aparte com relação às realidades superiores da alma, incluindo aí as “classes superiores”, os daemons, heróis e almas puras. Ela é, portanto, intermediária entre as entidades superiores e as coisas corpóreas. Sendo intermediária, a alma humana é dupla no sentido de que ela pode inteligir o que está acima e agir sobre o que está embaixo, através do corpo, quando encarnada. A alma humana é duas coisas, cada uma por vez, pois ela não poderia inteligir sempre senão ela seria Intelecto, nem poderia estar sempre envolvida em atividades relacionadas à Natureza, pois assim ela seria apenas uma alma animal. A alma humana está em contato com os dois mundos, dos quais participa inexoravelmente. Assim, se por um lado ela desce nos corpos, por outro lado, por ter descido, ela deve subir novamente. A subida da alma pode acontecer tanto após a morte ou, ainda nesta vida, através da teurgia. Finamore-Dillon definem teurgia dizendo:
Teurgia é uma parte conatural da condição humana, inerente à Natureza, existente para aqueles que são sábios o suficiente para utilizá-la de modo a poderem elevar as suas almas até os mais elevados aspectos e cumprir seu papel enquanto entidades verdadeiramente mediadoras.99