Imagem 1- Edição 2290 de 10/10/201218
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Podemos observar em nosso arquivo de enunciados, desde o início do escândalo do mensalão que teve entre os principais envolvidos personagens de grande relevância dentro do Governo e do partido político do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o gesto de um grande trabalho de associação do nome e imagem do presidente, com o caso, a partir das publicações da revista Veja.
A imagem 2 não pertence ao nosso arquivo de imagens de Veja, mas seu aparecimento, aqui, se justifica pela relação de avizinhamento discursivo, constituído por redes de filiações fundadas na descontinuidade e dispersão, que essas duas imagens apresentam. Partimos da ideia de Fernandes (2008, p. 67) que aponta que “face à historicidade própria à existência do enunciado, a produção de sentidos vincula-se à memória e reatualiza outros enunciados”. À imagem 1, façamos o questionamento foucaultiano, já mencionado
aqui: por que não outro título para a capa da revista Veja da edição de 10 de outubro de 2012? A resposta é que o diálogo imagético, verbal e discursivo entre tal capa e a imagem de capa do livro escrito pelo jornalista Audálio Dantas, o qual teve sua primeira edição publicada em 2009, possibilita acesso a uma memória imagética, que se reapresenta fundamentada por uma atualização. A defesa dessa leitura encontra apoio nas condições de produção da capa- enunciado, leva-se aqui em consideração a posição recorrente da revista Veja contrária ao Governo do PT.
O caso do mensalão justificou uma autorização para que o sujeito midiático Veja pudesse oferecer ao seu público leitor uma perspectiva diferente sobre aspectos identitários da imagem social e política do ex-presidente. Tal imagem representa um traço de memória que se encontra e faz parte de uma memória social, do imaginário e do lugar comum onde se edificou o sujeito político, naquele momento presidente de um país, mas que construiu, lembrando palavras de Bourdieu (2012), um capital político fundamentado na extrema esquerda de base socialista, contra a corrupção em todas as suas acepções.
Essa identidade formada e discursivizada durante toda sua carreira sindical e política entra agora a partir da cobertura de Veja em um trabalho discursivo de deslocamento; abre-se a possibilidades de interpretações, leituras.
O título da reportagem que abre a edição, O menino pobre que mudou o Brasil, constitui um enunciado verbal que tece uma relação de natureza parafrástica com o título do livro, O menino Lula: a história do pequeno retirante que chegou à Presidência da República. Os dois títulos, no entanto, apresentam distinções e entrecruzamentos de natureza discursiva e política, materializados no intradiscurso.
Quanto ao uso dos dois títulos, chama-se atenção para a configuração de suas estruturas sintáticas. Fazendo um recorte analítico para o funcionamento do pronome relativo “que”, o qual aparece nos dois períodos em questão, observemos a caracterização dos sujeitos e as ideias atribuídas nas orações subordinadas adjetivas.
Na capa da Veja, temos a imagem, quando criança, do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa. A imagem dialoga com o enunciado verbal, o sujeito do período linguístico recebe da imagem uma quantidade outra de adjetivações. Além do adjetivo (adjunto adnominal) “pobre”, esse sujeito recebe um aparato discursivo proporcionado pela imagem. Amplia-se aí o significado desse personagem de uma criança humilde, sem mácula, que galgou uma posição social privilegiada. Da mesma forma, a imagem 2 traz uma fotografia do presidente Lula quando criança, imagem que, genericamente, apresenta semelhança com a outra, carrega outros discursos.
Os dois sujeitos recebem caracterizações semelhantes, são crianças pobres que trazem traços da memória discursiva, que têm outros significados sociais. Verifica-se que as construções adjetivas acionam pré-construídos disseminados socialmente. Há a exploração, aqui, do discurso racial e étnico. Duas crianças pobres que têm características que as filiam a um espaço de exclusão.
A distinção reside na especificação das orações adjetivas. O título de Veja traz “que mudou o Brasil” o do livro de Dantas “Que chegou à Presidência da República”. Estes enunciados marcam a ideia que ambos tiveram origem humilde, no entanto, essa relação destaca distinções entre as duas trajetórias. O ministro teria, assim, conseguido operar mudanças fundadas na ética. Já o Lula obteve uma posição de poder, mas, no entanto, não fez um governo de mudanças em sua prática de gestão, repetiu o comportamento corrupto de outros governos.
O trabalho discursivo com as memórias solicitadas sobre os dois sujeitos – representações sociais dos aspectos das histórias de cada um – oferece ao leitor a leitura desses dois enunciados como duas atitudes identitárias, éticas e políticas diferentes. Podemos observar o uso da estratégia da publicação de se produzir um paralelismo. Os efeitos de sentido que podemos destacar referem-se à construção de parâmetro de um sujeito social que se coloca em contraposição com a figura de Lula em relação ao caso do mensalão. A capa- enunciado nos oferece a possibilidade de “comprar” um lugar em um dos lados: entre o STF e o principal membro de um governo envolvido em um escândalo de corrupção. Os sinais de desconstrução da imagem de esquerda socialista estão marcados.
Joaquim Barbosa, para Veja, representa uma resposta ao espaço metafórico em que Lula aparece no cenário político brasileiro. Ele ocupa uma posição de emparelhamento/espelhamento com a imagem que o ex-presidente desempenha no imaginário social do Brasil. O jurista sinaliza, no discurso político/jurídico midiático, como possuidor de uma história e de atributos particulares de um sujeito social que se pauta como uma alternativa, também diferenciada, de um dirigente político que venha responder/locupletar uma demanda ética e política que um país como o nosso, de desigualdades discrepantes e consequentemente de necessidades sociais, precisa. A revista Veja funciona nesta situação como um órgão, ancorado nos princípios jornalísticos, que vigia e pune, aponta os desvios das diretrizes éticas deliberadas, difundidas e executadas pelo ministro “justiceiro”.
Essas imagens indicam um sujeito que representa uma contraposição da memória criada em torno do personagem político Lula. Tal atitude publicitária oferece uma desconfiguração e, ao mesmo tempo, uma reconfiguração da trajetória messiânica do político.
A lógica que rege as relações de poderes da política brasileira, constante em outros governos, como o do período Collor, tão criticado pelo então candidato de extrema esquerda (Lula), se faz, aqui, presente. Os embates ideológicos travados pelas forças tradicionais da esquerda de alma socialista e a direita de práticas neoliberais se fazem ressurgidos, tomando o espaço midiático como cenário. A contradição é o elemento que fundamenta a produção discursiva do sujeito Lula. A imagem construída da revista promove uma identidade de credibilidade, comprometida com a sociedade. A contradição petista é combustível para se exercer essa posição de redentora.