A. 4 Cruise leg ARK XIX/3a
A. 4.3 Sedimentary and hydrodynamic processes and interactions in the
A. 4.3.5 Photo lander deployment on the "Galway mound"
Após análise das principais características do indivíduo contemporâneo e da sociedade atual, parte-se para uma abordagem do cotidiano, com suas pressões, opressões e desejos. Tendo em vista que o interesse consiste em identificar as razões internas e subjetivas do sujeito que interage no seu dia a dia, adota-se aqui uma definição de cotidiano atribuída por Leuilliot (1977 In: CERTEAU, 2005, p.31), que sugere: “O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior”. Este conceito permite entender principalmente a forma como a religião, questão interna e particular, permeia a vida do indivíduo, de forma personalizada, com perfis individuais atrelados às suas experiências e realidade do cotidiano que lhe fornece sentido.
O conceito de experiência adotado segue a argumentação do professor Edward Bruner (1986), que ela envolve sentimentos e expectativas: "a experiência estrutura as expressões e as expressões estruturam a experiência", portanto é individual o que se encaixa em na proposta deste estudo, de interpretar as expressões das mensagens recepcionadas no “Momento de Fé” que darão forma e significado no âmbito da intersubjetividade do ouvinte. A partir daí é que se estabelecem as crenças como resultado de suas práticas religiosas.
Partindo do princípio de que o sujeito busca no sagrado um significado ontológico, entende-se que cada instituição religiosa descreve esse fenômeno de experimentar o sagrado a seu modo, levando em conta as características da cultura
em questão, que tem suas raízes nos sentimentos. O que, por sua vez, gera efeitos subjetivos de uma realidade diferente do próprio eu, a que Otto (2007, p.15) denomina “numinoso”6. A característica principal deste termo está na vivência de
uma experiência religiosa em que o sagrado se manifesta. A manifestação se dá por meio do cotidiano, que se apresenta como fonte da realidade absoluta para o indivíduo contemporâneo.
Apesar das mudanças ocorridas ao longo das décadas no comportamento da sociedade, a religião tem sobrevivido de forma inerente ao homem. A religiosidade vem se difundindo e avançando fronteiras institucionalmente estabelecidas, determinando a qualidade do ser, levando-o a experimentar e a organizar a vida sob esse aspecto.
A vida nas grandes metrópoles oferece aos cidadãos um conjunto de elementos presentes em suas necessidades objetivas e materiais, que são frutos do estilo de vida adotado como escudo e alocado no cotidiano e que se traduzem em um imaginário. Nessa perspectiva, investigar esses elementos do dia a dia do homem contemporâneo e sua relação com os meios de comunicação, estimula a compreensão da sua concepção de fé e reificação da religiosidade.
Refletindo sobre as mudanças comportamentais do homem moderno, envolto pela sociedade pluralista e centrado em si próprio, a opção religiosa conta com o favorecimento da organização do mercado, cujo empenho é manter o consumidor insatisfeito, estimulando-o incessantemente à busca de novas experiências. Ao comparar a religião da atualidade com a da Idade Média, o sociólogo Peter L. Berger (1985, p. 149) constata:
[...] a tradição religiosa, que antigamente podia ser imposta pela autoridade, agora tem que ser colocada no mercado. Ela tem que ser ‘vendida’ para uma clientela que não está mais obrigada a ‘comprar’. A situação pluralista é, acima de tudo, uma situação de mercado.
Sob essa condição surge a comercialização de produtos religiosos que, carregados de valores, são processados pela subjetividade do indivíduo com seus apelos e demandas e, sustentados pelos meios de comunicação ajudam a vender, inclusive de forma personalizada, seguindo os padrões estratégicos mercadológicos, tal como fazem os evangélicos: “Mulher, esta Bíblia foi feita para você”; ou “Evangélico, finalmente surgiu um aparelho celular feito especialmente para você”.7
Em resposta a esse consumo, desenvolve-se o empreendedorismo das redes de comunicação das Igrejas que se adaptam a essa realidade. Um exemplo disso é a Expocristã, na cidade de São Paulo8. Nesse ambiente consumista, os meios de comunicação surgem fazendo o papel de um espaço mecanizado, que colabora na compreensão do sentido que o receptor atribui à mensagem. Para tanto, procuram traduzir a maneira como os indivíduos situam suas razões de felicidade e estabelecem códigos e modelos mercadológicos, que proporcionem aos diversos estilos de vida uma estetização, que fascina e manipula desejos e conquistas. No entanto, cada indivíduo vai atribuir significado à mensagem recebida com base no seu referencial, que é composto pela visão que tem de si próprio, dos outros e do mundo em geral.
Entende-se que esse consumo das mercadorias religiosas faz parte de um universo de produtos que sob a ótica da jornalista Magali Cunha (2007, p. 140) são “codificados e decodificados como mediações do sagrado – é por meio deles que os cristãos estariam mais próximos de Deus”. Nesse cenário, os indivíduos passam a ser instrumentos de conquista de audiência para as emissoras e de aquisição de
7 Lançado em 2003, o aparelho de telefone “Fiel”, da empresa Ericsson – tinha o slogan de
comunicação: “O celular para quem acredita no poder da palavra” e que toca até oito hinos diferentes. CAMPOS, L. S. Evangélicos e Mídia no Brasil – Uma História de Acertos e Desacertos. Revista de
Estudos da Religião (REVER). Disponível em: <http://www.pucsp.br/rever/rv3_2008/t_campos.htm>.
Acesso em: 15 nov., 2009.
8 Expocristã é a feira com produtos e serviços de orientação cristã da América Latina, em sua edição
de setembro de 2002, no Expo Center Norte, ganha caráter oficial. Graças a Carlos Bezerra Júnior, autor da Lei 14.567, que incluiu a EXPOCRISTÃ no calendário da cidade. A feira conta ainda com o Congresso Consumidor Cristão, cujo propósito é capacitar comercialmente os lojistas. “A Expocristã é um marco. É com orgulho que incluímos esse evento no calendário oficial de São Paulo”, comentou o vereador durante a solenidade que comemorou a aprovação da lei, realizada no plenário da Câmara Municipal na presença de líderes, autoridades, pastores, empresários e imprensa. (GNoticias.com).br por Renato Cavallera, 13/8/2008. Disponível em: <http://noticias.gospelmais.com.br/expocrista-passa- a-integrar-calendario-oficial-da-cidade-de-sao-paulo.html>. Acesso em: 15/11/2009.
fiéis para a competição que se instala entre as religiões. Afinal, a cultura midiática adentra cada vez mais a vida cotidiana, as mensagens dos meios de comunicação, em especial as religiosas, ganham efeito como pequenas ações no dia a dia, cujo poder e eficácia, quando somados, podem gerar mudanças de hábito.
Com relação à prática religiosa, pode ter formato de shows, a serem consumidos com as mesmas bases conceituais do consumo de uma programação ficcional, em que o apelo reside no emocional, oferecendo ao indivíduo conforto para enfrentar os desafios da vida. Ele divide essa experiência com a família e amigos e interage com eles como forma de viver o espetáculo e sair do anonimato e da realidade de vida inexpressiva. Sente-se seguro pelos atributos do produto, evidenciados na linguagem midiática. “Ao adquirir os produtos religiosos, o fiel atribui-lhes um valor simbólico associado ao valor religioso que ele difunde ou repassa aos familiares e amigos e a questão do mercado fica como uma marca d’água no papel da fé”9.