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Perspektiver for fremtidens barnevern

Mais a televisão pra nós tá sendo usada como uma forma de tirar ele da violência, né, tirar ele da rua. (Luciana)

Ainda que não seja objeto de análise a questão da violência e do tráfico de drogas existente no bairro em que conduzi a pesquisa, optei por acrescentar esta categoria por alguns motivos. Inicialmente, porque as questões relacionadas à violência e ao tráfico sempre emergiam tanto das conversas informais com os moradores quanto das entrevistas semiestruturadas com as entrevistadas da pesquisa. Este fato fica evidenciado nos inúmeros trechos do meu diário de campo, em que, por diversas vezes, presenciei comentários e ouvi histórias dos moradores, inclusive até de crianças, sobre o assunto. Em segundo lugar, por acreditar que, de alguma forma, a violência poderia influenciar os hábitos dos moradores, interferindo em suas experiências de consumo.

É bastante comum ouvir comentários dos moradores, principalmente após os finais de

semana, de que o filho de tal moradora foi assassinado e que “fulano” foi baleado na noite

anterior. Assim também, é considerado fato normal uma família ter um de seus membros morto pelo tráfico ou pela polícia. O dia a dia dos moradores, principalmente os mais velhos, é marcado por sentimentos de solidariedade, com o oferecimento de pêsames pela morte de algum parente ou conhecido. As crianças comentam, com certa naturalidade, o assassinato de algum tio, primo ou, até mesmo, parentes mais próximos. Uma de minhas entrevistadas, por exemplo, teve seu filho de 23 anos morto pela polícia, o que me levou a atrasar por alguns meses o contato com ela.

Além disso, tive acesso a alguns relatos de violência contados por moradores do bairro que retratam muitas das situações vivenciadas por eles. Uma dessas histórias foi comentada

pela coordenadora de uma creche da Prefeitura que conduz trabalhos sociais na favela. Havia

uma moça grávida de sete meses que a procurara para pedir ajuda. Ela era “casada” com um

rapaz que, além de ser usuário de droga, nos últimos tempos, também havia se envolvido com o tráfico. Este rapaz torturava esta moça, ameaçando de morte, junto com seu filho. Também a tratava com desprezo e chegava a levar outras mulheres para sua casa para se relacionar sexualmente. Essa moça havia relatado que não tinha com quem contar, pois sua mãe sofria de problemas psiquiátricos e estava internado já há algum tempo em um hospital público da cidade. Tempos depois, vim a saber que esta moça deu à luz a um menino, mas continuava a viver sob tensão com seu marido por não ter outra opção.

Outros relatos retratam a entrada de jovens ainda crianças no tráfico. Segundo alguns moradores, alguns meninos na faixa de 13 ou 14 anos já começavam a trabalhar para o tráfico. Muitos deles são abordados pelos traficantes, que oferecem oitocentos reais por semana para

que eles trabalhem como “olheiros”. A partir do momento que entram no tráfico, a saída é quase sempre impossibilitada pelos traficantes, que promovem constantes “queimas de arquivo”. Muitos jovens que entram “nessa vida” não passam dos 20 anos. Muitos pais e mães

de família citam o tráfico e a violência como o principal problema que enfrentam por morar no bairro.

Ao conversar com alguns moradores que conheceram o bairro desde quando era “tudo matagal”, eles são unânimes em afirmar que essa situação piorou muito nos últimos vinte

anos. No início, havia mais tranqüilidade. As pessoas podiam entrar e sair da favela sem maiores receios. As crianças podiam brincar na rua sem maiores preocupações dos pais. Como a violência afeta a todos, eles procuram encontrar explicações para a situação, mas caem no lugar comum de culpar o governo pelas poucas oportunidades de trabalho e pelas famílias, cujas mães saem para trabalhar, deixando os filhos na rua à mercê dos traficantes.

Neste contexto, a partir da percepção de que manter o filho longe da influência dos traficantes é uma estratégia que parece ser eficaz, percebi que algumas famílias utilizam a televisão ou o DVD para manter os filhos em casa. Pude constatar que algumas mães optam por incentivar que seus filhos, quando não estão na escola, permaneçam na televisão, seja assistindo a programação normal, seja assistindo algum filme alugado ou comprado no DVD.

Ainda que essa pareça ser uma “estratégia” que não seja eficaz para todas as faixas etárias,

muitas moradoras ressaltaram que a utilizam com bons resultados, uma vez que as crianças têm certo fascínio por filmes e programas televisivos.

Eu tiro ele da rua e boto ele pra assistir um filme. Mando ele alugar um filme... Ele enterte, vai pra hora dele ir pra escola já. Quando eu chego em casa, ele tá chegando da escola. (Helena)

Porque o meu filho, ele estuda à tarde. Como meu marido fica na mercearia, então eu não gosto que meu filho fica na rua. Então eu compro bastante filme pra ele, pra ele ficar mais em casa, pra ele ficar assistindo até na hora dele ir pra escola, ele almoçar. À noite, na hora que ele chega da escola e que eu chego mais tarde também, pra ele ficar em casa. (Diana)

Ainda no tocante à relação entre uso dos aparelhos eletrônicos e violência, em outros momentos a utilização principalmente da televisão parece ser também uma importante oportunidade para reunir a família. Estas questões serão discutidas com maiores detalhes na seção 7.16. Na próxima seção, será discutido como os consumidores de baixa renda percebem as diversas influências que recebem de amigos e parentes e da mídia no seu dia a dia.