Ah, porque se cê tá trabalhando, é ótimo uma música ambiente. E chegar em casa também é mania de chegar e já ligar a televisão, ver o que que tá acontecendo. Faz parte sim. (Jeane)
Desde as primeiras entrevistas e conversas informais percebi que as opções de lazer e entretenimento dos moradores da favela não são muitas. Como não é comum a oferta de atividades de lazer e entretenimento nas áreas pobres, seus moradores se limitam a ter como
opção o uso de televisão, som e filmes alugados para serem assistidos no DVD. Tive a oportunidade de observar que essa situação é vivenciada tanto pelos mais velhos quanto pelos mais novos.
Visto que muitos deles dificilmente frequentam outras partes da cidade, a não ser para visitar, esporadicamente, algum parente, e como as opções de lazer no bairro são quase inexistentes, vários deles chegaram a afirmar que há anos não têm uma vida social e que só saem de casa para trabalhar ou para alguma tarefa não relacionada à diversão. Vários deles são enfáticos ao considerar a televisão ou o som como a mais importante fonte de lazer e entretenimento existente de suas vidas. Para aqueles que têm filhos, a maior parte das atividades fica por conta dos cuidados com eles. Quanto aos mais jovens, o som é sempre uma companhia interessante.
É, basicamente, por essas razões que os aparelhos eletrônicos parecem ter tanta importância no cotidiano desses consumidores. Nas várias visitas que conduzi às casas de inúmeros moradores da favela, era bastante comum observar a existência de vários aparelhos eletrônicos ligados simultaneamente, muitas vezes, sem pessoas por perto. Em uma dessas ocasiões, cheguei a conversar informalmente com uma moradora que estava com a televisão e com o som ligados. Em alguns pontos da conversa, o ruído dos dois aparelhos chegava a incomodar, atrapalhando o entendimento do que estava sendo discutido. Em uma das minhas entrevistas semiestruturadas na casa de uma moradora, a televisão ficou ligada todo o tempo. Conforme já descrevi em outros pontos, muitas casas ficam com o som ligado o dia todo e até altas horas da noite, sendo utilizado pelas mulheres enquanto arrumam a casa e no momento de conversar com amigos e parentes.
Dessa forma, a televisão, o som e o DVD assumem papel importante e central na vida dos pobres urbanos, uma vez que estes parecem ser uma das poucas opções de lazer e entretenimento destes consumidores. Algumas entrevistadas chegaram a afirmar que a vida ficaria quase insuportável sem os aparelhos eletrônicos, pelo fato de eles fazerem parte de qualquer casa. Uma declarou estar muito aborrecida porque havia perdido o acesso aos canais
de TV paga por meio do que os moradores chamam de “Gatonet” ou “TV a gato”. Segundo ela, sua família “não sabia mais fazer outra coisa” do que assistir aos filmes que ainda não
estavam disponíveis em DVD.
Um dos donos de uma loja de aluguel de filmes no Cafezal relatou que o consumo de fitas vem aumentando consideravelmente nos últimos anos, principalmente aquelas voltadas para o público infantil e evangélico. Porém, também verifiquei que os moradores da favela
começavam a optar por comprar certos filmes ao invés de alugá-los, principalmente em
decorrência do baixo preço dos produtos “piratas”, que muitos moradores exibiam sem
maiores constrangimento em suas estantes ou racks, próximos dos aparelhos eletrônicos. A posse e o uso dos bens não parece ser a única forma de entendimento das experiências de consumo dos pobres urbanos que pesquisei, pois algumas outras questões precisam ser investigadas. Entre elas, parece emergir uma categoria que posteriormente mostrou-se importante para a construção da teoria substantiva: a ocorrência de distinção.
7.9 Distinção
Olha, eu estou na média, eu estou na média. Mas uma coisa que eu tenho um pouquinho moderna que pouquinha gente no bairro tem é uma máquina de lavar roupa. (Helena)
Desde o início do meu convívio com os moradores da favela, comecei a perceber que, ao mesmo tempo em que havia certa tendência de homogeneidade entre as pessoas quanto aos seus hábitos, costumes, maneiras de pensar e formas de aquisição de produtos, era possível sentir que também existiam algumas diferenças entre eles que precisavam ser mais bem investigadas. Apesar de serem sutis e aparentemente irrelevantes, à medida que o estudo
avançava, pude começar a perceber que estas diferenças eram objetivadas em “detalhes”, tais
como localização da casa no bairro, tempo de residência no bairro e, até mesmo, posse dos bens domésticos.
Em primeiro lugar, notei certa distinção quando os moradores mostravam diferenciar-
se quando diziam residir na parte “mais nobre” da favela, ou seja, na parte mais antiga e mais “desenvolvida”, na região mais plana e mais baixa, a qual tinha acesso aos principais serviços
urbanos, como água encanada, esgoto, ruas asfaltadas, linhas de ônibus e escolas. Essa constatação ficou implícita em muitas conversas informais que tive com os moradores, que se
referiam à parte pior da favela como “a parte lá de cima”, como o local onde se encontravam as piores casas, esgoto a céu aberto e maiores índices de violência. Na “melhor região” havia
lojas e mercados maiores. Também observei uma distinção entre aqueles que eram pobres e
outros que eles consideravam “mais pobres”.
Então, a gente tem que se pôr no lugar, né? Às vezes, a gente se põe no lugar das
pessoas e a gente fica: “Nó, como é que fulano não tem, e tal, e a gente fica reclamando das coisas...”. (Fátima)
Eu gostaria que muitas pessoas também sentissem, né, o que eu sinto, de poder usufruir das coisas que, de certa forma, lutei pra conseguir e que elas tivessem oportunidade também, sabe, de conseguir isso também. (Helena)
Muitos não têm condição de comprar nada. Deixa o coração meio apertado. Eu
conheço casos assim. Mais é difícil né, cê fica meio assim; “Nó, que pena né?! Se eu pudesse ajudar e tal!”. (Jeane)
Alguns moradores se sentiam “orgulhosos” de serem os primeiros moradores e terem vivenciado todo o crescimento e desenvolvimento do bairro. Ouvi alguns relatos de moradores que gostavam de contar, em tom nitidamente saudosista, as mudanças tanto positivas quanto negativas ocorridas na região nos últimos trinta anos. Nesse sentido, o fato de residir há muitos anos também confere distinção ao morador.
Outra grande fonte de distinção advém da posse da casa própria. Ou seja, o fato de
possuir “um teto” era uma condição valorizada tanto pelas pessoas entrevistadas quanto por
outros moradores com os quais conversei informalmente durante a pesquisa. Embora a posse da casa fosse algo essencial, também percebi que outro aspecto distintivo mantinha relação com o acabamento da residência, em especial o reboco e a pintura. Apesar de considerados como elementos supérfluos, alguns poucos moradores que tinham suas casas rebocadas e
pintadas gostavam de ressaltar que suas residências eram “diferentes” e se destacavam das
demais. Somado a este aspecto do acabamento das casas, vale destacar também o papel dos enfeites como algo diferenciador, pois muitas moradoras faziam questão de ressaltar que gostavam de manter enfeites na sala e na cozinha, o que seria uma forma de dizer que, embora sua casa fosse simples, havia uma preocupação com a limpeza e com o bem-estar, inclusive com a tentativa de criação de um ambiente bonito e agradável principalmente para as visitas.
De interesse para esta tese, outra importante fonte importante de distinção está relacionada à posse de aparelhos eletrônicos. Em quase todas as casas que visitei, foi possível encontrar diversos aparelhos eletrodomésticos como fogão, geladeira, forno e micro-ondas. Também a maioria tinha televisão, DVD e som, o que pode levar à constatação de que estes aparelhos não servem mais para conferir distinção para uma casa na região da pesquisa. Nesse caso, a distinção pode direcionar para o modelo e o tamanho da televisão, bem como ao acesso a canais de TV a cabo, que começava a ser introduzido na favela. De fato, no final do meu período de coleta de dados, passei a observar em vários pontos da favela faixas anunciando, a preços especiais e convidativos, a contratação de serviços de TV a cabo. Contudo, muitos moradores ainda insistiam na utilização do que era chamado por eles de
“gatonet”, ou “TV a gato”, que consiste no acesso às redes de comunicação das empresas sem
autorização e pagamento.
Não sei o que aconteceu. É um aparelho agora que tem nas casas, né, que aí não tem
jeito mais de “puxar o gato”, entendeu? E era muito bom, né? (Jeane)
Ademais, com o lançamento pela indústria da tecnologia de aparelhos mais avançados, mais potentes e com design inovador, muitos moradores buscaram se diferenciar de seus pares com a obtenção destes produtos. As televisões de plasma ou de LCD, por exemplo, mesmo os modelos menores, ainda eram considerados objetos de luxo por parte dos moradores do Cafezal. No mesmo sentido, percebi que o computador (principalmente o uso da internet) começava a fazer parte do cotidiano, em especial, dos consumidores mais jovens da favela. Estes pontos podem ser citados como possíveis focos de distinção entre os moradores.
Outra questão que também pode ser mencionada tem a ver com a localização dos aparelhos nas casas. Quase sempre os mais novos e mais modernos são instalados na sala, ou seja, de modo a permitir melhor visibilidade pelos vizinhos ou pelas visitas. Duas explicações podem ser dadas para essa questão: primeira, relacionada com a preocupação com o compartilhamento dos aparelhos; segunda, com a distinção; isto é, os consumidores utilizam a posse dos bens para criar um diferencial entre a vizinhança. Portanto, não é preciso somente ter o aparelho; é preciso mostrar que tem.
Pude constatar que a posse de aparelhos eletrônicos também confere à dona de casa uma suposta preocupação com o bem-estar de seus filhos, isto é, uma forma de
“minimização” dos aspectos negativos decorrentes de se morar em uma favela com poucas
oportunidades de lazer e entretenimento.
Pelo fato de os moradores de baixa renda residentes na região na qual foi conduzida a pesquisa serem de baixa escolaridade e trabalharem em empregos de baixa qualificação, tive a preocupação de incluir em meu roteiro de entrevistas uma discussão referente à classe social à qual os entrevistados fazem parte. As respostas foram variadas, mas todos afirmaram ser de classe baixa. As citações retiradas das falas das entrevistadas que sintetizam a maioria das respostas são as seguintes.
Ah, é morar dentro do aglomerado. As casas lá foram adquiridas assim, através de projetos da Prefeitura. Isso pra mim é. Salário também, abaixo de dois salários mínimos também. E, principalmente, esse ponto aí também, né, de comprar sempre tudo parceladinho, dividido. Isso aí eu acho que são características da classe baixa. (Luciana)
Ah, é a classe baixa né, que tem uma renda não tão favorável assim que dá pra consumir poucas coisas. É isso. Nem tudo que a gente quer a gente consegue. (Jeane)
É possível afirmar que, ao contrário do que sustenta parte da literatura referente aos consumidores pobres, não é adequado considerá-los como uma classe homogênea, obediente a
padrões fixos e “enquadrada” em modelos ou esquemas classificatórios instransponíveis. As
camadas populares, como bem enfatiza Caldeira (1984), estão o tempo todo transitando por entre esses diversos planos, realidades, níveis e sistemas explicativos. Cumpre ressaltar, portanto, que tanto a fragmentação de papéis quanto a heterogeneidade das experiências vividas são a marca registrada da vida cotidiana deste tipo de arranjo social e, como tal, deve ser analisada com cuidado pelos pesquisadores. Voltarei a esta discussão no capítulo 9, quando a teoria substantiva gerada será confrontada com a literatura sobre a temática.