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Kapittel 8: Facebooks rolle som nyhetsplattform

8.3 Personalisering og ekkokammer

Escrevo este capítulo em formato de manifesto. Mais do que uma reflexão a respeito do papel agenciado por mosquitos nos arredores do MONA, proponho aqui uma provocação à maneira como o pensamento moderno ocidental tem lidado com os mosquitos e as arboviroses. A concepção daquelas pessoas de que “os mosquitos só tão na luta deles” é o ponto de partida para o que denomino uma abordagem mais que vetora. De forma alguma, este capítulo visa a romantizar as relações essencialmente conflituosas entre humanos e mosquitos. Os milhões de casos de óbitos causados pela malária e pelas arboviroses todos os anos são problemas seculares com respostas ainda inatingíveis do ponto de vista epidemiológico. É neste contexto exigindo respostas urgentes ou, neste caso, a apresentação de novas questões, que escrevo este manifesto. Trago aqui uma questão formulada após o Simpósio “The Ecopolitics of Cohabitations: Histories and futures of vector-control (as a global concern)” do qual participei157: é possível pensar

em coabitação com vetores de patógenos mortais? Os desdobramentos desta pergunta são tantos que soa impossível pensar numa única resposta. Mantenho-a aqui, no entanto, como uma provocação pertinente para que novos caminhos possam – muito mais que substituir – complementar o que se tem pensado a respeito. Formulo, então, outra provocação como ponto de partida: quão interessados estamos em coabitar com vetores? Desde que nós, estudiosos das ciências humanas, atentamo-nos para as espécies companheiras como proposto por Donna Haraway (2008), temos realizado esforços para mostrar que mosquitos, embora ruins para viver com, podem ser bons para se pensar com (Beisel, 2010; Nading, 2012; Böete & Beisel, 2013; Kelly & Lezaun, 2014; Beisel, 2015a; 2015b; Dupé, 2015). Pesquisadores brasileiros das ciências humanas, dentre os quais antropólogos, também têm pensado com esses insetos. Gabriel Lopes Anaya (2012), Luísa Reis Castro (2012), Debora Diniz (2016), Felipe Vander Velden (2016), Jean Segata (2016), Joana Cabral de Oliveira (2016) e Marko Monteiro (2017) são alguns desses pensadores. Embora não haja um discurso uníssono ou consensual, há interessantes e diferentes pontos de vista que têm levantado novas questões sobre um tema tão hegemonizado pelas ciências naturais e exatas. Entender a diversidade de

157 A convite dos professores René Umlauf e Uli Beisel, participei do simpósio, dos dias 12 a 14 de setembro

em Hanôver, Alemanha, com a fala intitulada “Undesirable creatures: mosquitoes as more than vectors in Brazilian backwoods”. A fala consistiu das primeiras notas deste capítulo e desdobrará numa publicação

com o mesmo nome na revista Limn. Expresso aqui meu mais sincero agradecimento a todos os participantes, os quais contribuíram efetivamente para amadurecer as ideias aqui formuladas.

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sujeitos e fatores que os insetos em questão agenciam, assim, tornou-se uma etapa necessária para investigarmos como nós mesmos (os modernos) entendemos os fenômenos envolvendo mosquitos, arboviroses, ecologias, políticas públicas, cientistas, agentes de saúde, dentre tantos outros (f)atores.

Em minha trajetória, mosquitos sempre levaram a refletir sobre uma série de fatores: desde política e sociedade até a ecologia, a evolução e as correlações possíveis entre esses temas. Foi, assim, bastante enriquecedor ter tido a oportunidade de pensar sobre ecologia de comunidades de culicídeos num ambiente complexo como a caatinga. A perspectiva epidemiológica ganhava obrigatoriamente – devido à metodologia adotada – uma face ecológica durante as incursões em campo com Letícia Marteis (2016). Dessa forma, naquela experiência, nós, pesquisadores, e os mosquitos fomos sujeitos e objetos das vidas uns dos outros, em que a caatinga era uma extensão do insetário ou vice-versa (cf. Haraway, 2008).

Em relações controversas de cuidado e conflito, submetíamos os insetos à morte, ao congelamento, à maceração. Eram as formas de como fazer, no entanto, que conferiam um caráter peculiar àquela experiência. Preocupávamo-nos em causar aos insetos o mínimo de sofrimento, ‘sacrificando-lhes’ com vapor de acetato de etila. Logo após, eles eram congelados em nitrogênio líquido para, assim, serem macerados e submetidos a testes de identificação de espécies a nível de DNA, além de investigar a ocorrência ou não do RNA viral, sobretudo de flavivírus (família à qual pertence grande parte dos arbovírus).

O fato é que, anteriormente a tudo isso, importava-nos conhecer formas, cores, tamanhos, habitat, nicho, enfim, uma gama de características ecológicas de cada possível espécie. Interessava-nos também saber quem eram, com quem coabitavam, qual a sazonalidade daqueles mosquitos. Essa perspectiva não é uma experiência isolada no estudo de ecologia de vetores. Assim sendo, é válido citar esforços daqueles experts em dípteros hematófagos – sem perder de vista seus hábitos para além da hematofagia –, tais quais os estudos sobre as distribuições espaciais e sazonais de diferentes espécies de culicídeos em suas fases adulta (Natal, 1986; Lopes & Lozovei, 1995; Guimarães et al, 2003; Marques & Forattini, 2008; Oliveira Fernandes, 2011; Lopes et al, 2012) e larval (Piovezan, 2009; Piovezan, Salomão de Azevedo & Von Zuben, 2012), ou mesmo distribuições de flebotomíneos (Galati, 2014). Trago, então, a seguinte provocação: esses dados ecológicos, tão fortemente imbricados à perspectiva epidemiológica, parecem reduzir a ecologia de mosquitos a uma urgente e necessária ecologia de vetores. Note-se,

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porém, que, de forma alguma, nego a importância disso, uma vez que o potencial risco epidemiológico dessas espécies demanda por monitoramento de áreas silvestres (Marchi, Müller & Marcondes, 2010), sobretudo aquelas em contato com espaços urbanos, onde há vetores e vírus consolidados há pelo menos vinte anos (Medeiros de Sousa, 2014; Jesus, 2015).

O ambiente silvestre do MONA, no entanto, parece deixar evidente que a complexidade do ecossistema favorecendo riqueza e abundância de espécies de culicídeos inibe a presença de velhos conhecidos urbanos: Culex quinquefasciatus158 e Aedes

aegypti. Concomitante, a persistência de uma ideia de ‘vetores ainda por vir’ no sentido de que, ‘uma vez que são hematófagos, são potenciais vetores’, tão fortemente disseminada e mantida, seja no LEPaT, seja entre outros estudiosos da entomologia médica com quem entrei em contato, parece obliterar outras questões. Questões estas que dizem mais sobre a relação de outros não-humanos com os mosquitos do que a nossa própria. Assim, embora seja o grupo de insetos aquáticos mais estudado (Nessimian, Lanzellotti & Dumas, 2014) – levando em conta, obviamente, a sua fase larval –, ainda carecemos de dados para uma compreensão mais completa a respeito da ecologia desses animais, tais quais ecologia trófica, contribuição de biomassa, interações diversas com outras espécies – que não os humanos – e o ambiente.

Dadas as lacunas, é válido destacar os esforços de pesquisadores da ecologia trófica de peixes apontando relações de predação entre peixes e larvas de diversos mosquitos (Mol et al, 2007; Alves da Silva, 2008; Velludo, 2011; Coswosck, 2012; Otto, 2014; Alves dos Santos, 2015). Além deles, os esforços relacionados à ecologia de macroinvertebrados aquáticos (Henriques Oliveira & Nessimian, 2007; Oliveira et al, 2008; Silva de Jesus, 2008; Gimenez, Lansac-Tôha & Higuti, 2015), que parecem nos dizer um tanto sobre uma ecologia de mosquitos, em sua fase larval, desvinculada da preocupação com suas competências e capacidades vetoriais, peculiares à fase adulta.

Esforços de culicidólogos imbricando perspectivas ecológicas e epidemiológicas para além das distribuições espaciais e sazonais devem ser mencionados. As investigações de hábitos alimentares de picadores dão instigantes indícios sobre as relações desses insetos com outros animais. Aves, bois, cães, gatos, ratos, primatas não- humanos (Castro Gomes et al, 2010; Carvalho, 2013) são alguns dos animais de sangue

158 Aqui, vale destacar a recente descoberta, pela FIOCRUZ Pernambuco, da competência vetorial desses

mosquitos para o zika vírus. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/pt-br/content/o-pernilongo-culex- quinquefasciatus-pode-transmitir-zika. Acessado em 31 de janeiro, 2018

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quente que fornecem o repasto sanguíneo para os insetos. Entre os de sangue frio, embora a hematofagia destes por parte dos mosquitos seja menos habitual, há os sapos e os lagartos (Forattini et al, 1987; Alencar et al, 2005). Há ainda o caso registrado em vídeo e fotografia do Culicoides anophelis, espécie de ceratopogonídeo, o maruim, alimentando-se do sangue ingurgitado de uma fêmea de Anopheles sinesis, culicídeo (Ma et al, 2013)159.

Retomo aqui as contribuições sobre as fases larvais dos mosquitos, desta vez levando em conta os esforços de culicidólogos. Com a fase larval desses insetos completamente diferente da ecologia dos adultos, entra para o debate a condição de bioindicadores das larvas, sendo a sua distribuição em açudes eutrofizados (Wermelinger et al, 2012), bem como seus possíveis predadores nos distintos criadouros (Urbinatti, Sendacz & Natal, 2001), importantes pontos de reflexão sobre papéis ecológicos desempenhados por esses animais. Os hábitos alimentares das larvas do citado mosquito do gênero Toxorhynchites sp. – único gênero de culicídeo não hematófago na fase adulta – predando larvas de outros mosquitos, dentre os quais o Aedes aegypti, têm se expressado, embora timidamente, de forma eficaz entre as pesquisas envolvendo mosquitos (Amalraj, Sivagnaname & Das, 2005; Honório et al, 2007)160. Por fim, o hábito polinizador de

ceratopogonídeos – sobretudo de espécies de cacau (Winder & Silva, 1972) – merece menção, embora isso seja atualmente contestado pela revista Nature, sendo destinado a esses insetos o papel de “ladrões de néctar” ao invés de polinizadores (Inouye, 2010).

Retomo, então, a ideia de um sertão repleto de incertezas quanto à provável circulação de arbovírus. Tais incertezas mobilizam cientistas, agentes do estado, microscópios, sertanejos e uma complexa paleta de políticas públicas desenhadas em torno da prevenção e erradicação das doenças. Pensar com mosquitos, assim, é inevitavelmente pensar também numa rede de atores interligados e em correlação. Menciono, mais uma vez, a minha perspectiva demasiadamente focada na questão dos processos de saúde-doença ao chegar em campo esbarrando-se em discursos e práticas

159 O vídeo e a imagem da hematofagia em questão estão disponíveis para download no site:

https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/articles/10.1186/1756-3305-6-326. Acessado em 6 de janeiro, 2018. Sobre a abordagem de ceratopogonídeo picando mosquito, há uma tímida série de desdobramentos a respeito da ideia de parasitas de parasitas. O artigo “Parasites of parasites of bats: (Fungi: Ascomycota) on bat flies (Diptera: Nycteribiidae) in Central Europe” (Haelewaters et al, 2017) é

uma dessas abordagens.

160 Menciono aqui que há pelo menos uma pesquisa de mestrado sendo desenvolvida no LEPaT, sob a

orientação da Profª Drª Roseli La Corte, focada na identificação de mosquitos deste gênero para o Monumento Natural Grota do Angico, Sergipe e Estação Ecológica Raso da Catarina, Bahia.

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nativas. Dessa forma, como mencionado, mosquitos são retratados como objetos menores, além de serem parcamente mencionados e, apenas sob circunstâncias muito específicas, podem ser vetores. Restava-me a pergunta: como conduzir uma etnografia sobre mosquitos sem que os (f)atores vírus e doença estivessem presentes? Ou, ainda, como fazer uma antropologia de uma agência que nós, os modernos, não vemos como ausente, uma vez que reduzimos as agências dos mosquitos à de potenciais vetores?

3.2. Uma perspectiva multiespecífica para o fenômeno de saúde-