A análise quantitativa revelou que o meio material menos utilizado pelo professor foi o de recursos multimídia. Ele se valeu de tecnologias como a televisão o videocassete e o DVD em dois momentos: nas aulas dos dias 02/03 e 13/04.
Por meio da observação das anotações do caderno de campo e de entrevista com o professor (não pude assistir a aula porque a escola alterou os horários das turmas sem avisar) identificamos que ele utilizou o recurso de exibição de filme durante a aula número 5 que foi sobre o heredogramas e hereditariedade. No início da aula, a turma D estava em sua sala de
aula, organizada da forma mais comumente utilizada pelo grupo, com as carteiras enfileiradas e os alunos voltados para o professor e o quadro. Neste princípio de aula o professor apresentou as chaves para interpretação dos heredogramas, o que pode ser confirmado pela observação das cópias dos cadernos dos alunos. Após este primeiro momento os alunos se dirigiram ao laboratório de informática para assistir a exibição do filme denominado “Hereditariedade” que foi feita por meio da televisão e de um vídeo- cassete. Durante a aula imediatamente anterior o professor passou exercícios para os alunos e os corrigiu. Não houve aula de biologia na data de 08 de março, pois o professor faltou e durante a aula seguinte, do dia 09, o professor voltou a divulgar e explicar as chaves dos códigos dos heredogramas. No início da aula do dia 09/03 C cobra dos alunos alguns exercícios que eles deveriam ter feito em casa. As aulas se seguem e C não fala nada sobre o filme.
A aula do dia 13 de abril também foi um momento no qual o professor se vale de uma imagem cujo suporte material é a televisão, para intrigar os alunos. Por meio dos dados do caderno de campo observamos que o filme “Clone: o futuro do homem?”, da National
Geographic, foi exibido na sala de vídeo da escola utilizando um aparelho de DVD. Durante a apresentação, C me disse que já havia exibido este filme em uma escola particular na qual ele trabalhava e que “foi excelente” e que este DVD era alugado. O professor, diferentemente da outra vez em que exibiu um filme para a turma D, distribuiu um pequeno pedaço de papel (5,5 x 7,5 cm) no qual estava impresso um exercício com três questões sobre o filme para que os alunos respondessem em casa (figura 4.1).
Também durante a apresentação do filme, o professor chama a atenção dos alunos para partes específicas do filme nas quais as perguntas do exercício estão sendo respondidas e para curiosidades, tais como a do alto índice de abortos de embriões implantados em porcas. C também elogia alguns experimentos divulgados pelo filme e os cientistas que os realizaram como sendo “fantásticos”. Transcrevo abaixo alguns trechos que foram anotados em caderno de campo, que se referem a anotações da própria pesquisadora e não ao discurso dos sujeitos pesquisados. Quando houver uma fala transcrita que pertença a um dos pesquisados ela virá entre aspas.
Quando a aula termina, C pede aos alunos que respondam às questões em casa, no caderno, e diz que valem um ponto para a próxima aula. Nos três cadernos que foram copiados, que pertenciam aos alunos mais assíduos, não há este exercício, nem indícios dele. O professor tem que interromper a exibição do filme, quando ainda faltam 15 minutos a serem exibidos, porque a aula chega ao final.
Ao início da aula seguinte (dia 18/04) o professor pergunta se os alunos fizeram os exercícios sobre o filme e diz que irá corrigi-los mais tarde, pois já havia começado a escrever algo no quadro sobre herança dos grupos sanguíneos humanos. Entretanto, o professor não corrige as questões sobre o filme durante esta aula e nem na próxima (20/04), na qual já passa a corrigir questões que ele passou no quadro dia 18/04, sobre grupos sanguíneos. Durante a aula do dia 20, C apenas pede aos alunos os cadernos para verificar se eles fizeram os exercícios e se mostra irritado ao perceber que apenas uma aluna leva o caderno para que ele “dê o visto”. Ele, então, distribui mais impressos com o exercício para os alunos. Aparentemente os alunos perderam os impressos que haviam sido dados na aula anterior, ou então, não compareceram a aula do dia 18/04, na qual o exercício foi distribuído. Até o final da aula, vários outros alunos levam o caderno para o professor ver.
C diz que Hitler matou seis milhões de pessoas quando a imagem dele surge no filme. C chama a atenção para a freqüência com que uma mulher faz hemodiálise por dia que é de cinco vezes (caso apresentado pelo filme).
Os alunos dão muitas risadas quando um caso específico de clonagem de um cão, chamado Parkway, é narrado, C conta “caso” do cachorro de um amigo e alunos conversam entre si contando estórias sobre cães.
C pede silêncio e diz que há pessoas que deixam células conservadas para que, no futuro, após sua morte eles possam ser clonados e dá exemplo de um ex-BBB.
Percebemos que durante a exibição do filme há uma grande participação dos alunos por meio de comentários sobre os assuntos tratados pelo documentário. Eles se mostraram bastante interessados e podemos afirmar que o professor obteve sucesso com este tipo de estratégia, pois, se a função pedagógica da imagem em movimento era intrigar os alunos e conseguir sua atenção para o tema da biologia, verificamos que isto foi conseguido. Este tipo de suporte material parece favorecer o interesse dos alunos. Para analisar o documentário do ponto de vista do tipo de imagem que ele veicula em relação a sua representação dos objetos e aos recursos materiais utilizados, assistimos ao filme mais duas vezes e fizemos anotações sobre as imagens e o texto verbal divulgados por ele.
Suporte material e recursos técnicos
A exibição de filme foi categorizada quanto a seu suporte material como “exibidas em meio eletrônico em movimento”. O documentário sobre clonagem dura 54 minutos e exibe, simultaneamente, imagens e fala e as imagens estão em movimento e comunicam os fenômenos de forma dinâmica e em tempo real. Em alguns momentos percebemos que este tempo pode ser alterado, como no caso da exibição em tempo acelerado da clivagem de um embrião, momento no qual a célula-ovo sofre várias mitoses. Este recurso técnico permite ao espectador visualizar um fenômeno que demora horas em apenas alguns segundos, o que pensamos ser um recurso que aumenta o interesse do espectador pelo filme. Os recursos técnicos de filmagem por meio de microscópio e utilização de câmeras acopladas a sondas que penetram o interior do corpo humano permitem enxergar objetos que os olhos humanos não são capazes de ver, como o desenvolvimento de um embrião humano no útero. Pensamos que estes recursos fazem do documentário um meio de comunicação muito interessante.
A exibição em meio eletrônico em movimento permite ainda arquivar de forma rápida e segura estas imagens e, ao exibi-las, o professor pode pausar sua sequência, no momento em que desejar e depois recomeçar sua exibição. A desvantagem é que este meio exige aparelhos de reprodução como o DVD e a televisão, ou um computador para ser visualizado.
Representação dos objetos
Quanto à relação entre imagem e objeto representado, classificamos a imagem digitalizada como icônica, pois, a fotografia permite exibir os objetos da forma mais próxima
possível da realidade, estes são representados de forma muito próxima a encontrada na natureza. Em relação às imagens mostradas percebemos que há muito mais imagens icônicas do que abstratas, pois quase não se vê esquemas, ou modelos.
A fotografia em movimento mostra a realidade sob o foco de uma pessoa que filma esta realidade e, neste sentido, essa pessoa seleciona uma parte desta realidade para filmar, orientada por um roteiro, por uma direção que pretende mostrar algo com este produto. É importante, para a análise da representação dos objetos, tentar caracterizar os agentes que comercializam este produto. No caso do filme utilizado pelo professor, seu DVD foi produzido pela National Geographic, que é uma sociedade de pesquisa, cujas publicações são divulgadas em meio eletrônico e impressas. Dentro do sistema proposto por Bernstein (1996) para categorização dos campos do discurso e suas agências, podemos classificar a National Geographic Society como uma agência de modulação localizada no campo de controle simbólico com um conselho de pesquisa que divulga trabalhos de pesquisadores, apesar de não o fazer de forma tão rigorosa quanto às de publicações acadêmicas das universidades e centros de pesquisa. Entretanto, também de acordo com o sistema citado, podemos considerar a National Geographic como uma agência que comercializa um texto. Como uma editora a sociedade nacional geográfica tem poder sobre os textos que vende, poder sobre sua forma, seu conteúdo e sua distribuição. Portanto, ela pode ser entendida como uma agência no campo econômico com funções de controle simbólico (BERNSTEIN,1996, p.194).
Fundada em 1888, nos Estados Unidos, por 33 dos principais cientistas e intelectuais da cidade de Washigton, segundo o histórico divulgado pelo seu site oficial, esta sociedade tinha o objetivo inicial de discutir "a viabilidade da organização de uma sociedade para o crescimento e a difusão do conhecimento geográfico". Seus fundadores eram pessoas com profissões bem variadas: geólogos, geógrafos, meteorologistas, cartógrafos, banqueiros, advogados, naturalistas, exploradores, jornalistas e integrantes das forças armadas, que tinham em comum o desejo de promover o estudo científico e disponibilizar os resultados para o público. Atualmente a National Geographic se auto-intitula “uma das maiores associações científicas e educacionais do globo, que fornece uma janela para as maravilhas do mundo e influencia a vida de milhões de pessoas” (texto retirado do site oficial do canal National Geographic para a América Latina16). O acesso aos produtos da Sociedade é
relativamente simples, podendo ser feito em bancas de jornal, livrarias, bibliotecas e locadoras de DVDs.
A análise dos tipos de representação do objeto tema do filme que é a clonagem revelou que ele é abordado por diferentes pontos de vista. No filme, cientistas, religiosos e pessoas leigas sobre técnicas de engenharia genética e teologia são entrevistadas e suas falas se mesclam com a do narrador do filme, enquanto que imagens icônicas sobre o tema são exibidas. São três vozes (no sentido bakhtiniano) que apresentam argumentos contra e a favor ao processo de clonagem, tanto à terapêutica quanto à clonagem reprodutiva. O expectador pode se identificar com as três, com duas, ou apenas uma, dependendo dos “horizontes sócio- culturais” dos quais participa. Se formos relacionar as visões apresentadas no filme a estereótipos, podemos afirmar que as imagens estereotipadas da biologia são raras e que prevalecem as imagens originais, ou seja, aquelas cujos códigos de interpretação não têm que ser dados de forma arbitrária por um dicionário, ou glossário, mas sim são de domínio público, são imagens que para serem interpretadas utilizam um repertório de chaves de códigos de domínio público.
Os comentários dos alunos surgiam muito mais durante as falas das pessoas leigas que narravam histórias de problemas de saúde, de relações afetivas com animais de estimação, como os cães, do que durante a fala dos cientistas ou dos religiosos. Interpretamos este fato como uma indicação de que os alunos se identificaram mais com os horizontes sócio-culturais das pessoas leigas e, o fato da produção do filme ter adicionado esta voz a seu enredo pode ser a razão da dedicação, por parte dos estudantes, de grande atenção ao filme. Como vimos a National Geographic tem como objetivos a divulgação de produções científicas e a educação, portanto o uso deste recurso dialógico é uma estratégia de divulgação de conhecimento científico de sucesso que foi incorporada pelo professor em sua aula como um recurso pedagógico.
Porém, mais do que isso, este recurso pedagógico dialógico, desenvolvido durante o filme, permite explorar a questão científica de forma ideológica. Entretanto, isso não foi feito pelo professor, nem durante a exibição do mesmo, nem posteriormente, uma vez que apesar de incitar o debate ideológico por meio da questão 3 (imagem 4.1), o professor não o retoma, como veremos na análise do uso pedagógico do filme.
Utilização pedagógica
Em relação ao uso do filme pelo professor para tratar do tema clonagem, percebeu-se pela observação de sua fala, em suas intervenções durante a exibição do filme, que ele privilegia o uso do filme como um recurso para contextualizar o processo de clonagem, relacionando-o a algo do cotidiano dos alunos, evidenciando que, apesar das controvérsias a clonagem pode ser feita, que há técnicas para isso. Por meio da observação dos exercícios (figura 4.1) percebeu-se que C também pretendeu com a exibição do filme, avaliar se os alunos compreenderam as técnicas utilizadas pelos dois tipos de clonagem – a terapêutica e a reprodutiva e discutir questões éticas e ideológicas a fim de avaliar se os alunos poderiam emitir julgamentos sobre o processo de clonagem, utilizando conhecimentos científicos, reconhecendo “vantagens e desvantagens” do mesmo e opinando sobre a sua utilização com base em valores éticos. Esta é uma forma pouco comum de utilização de recursos pedagógicos por este professor conforme demonstrado na tabela 2.
Provavelmente, o professor não pausa o filme para fazer comentários, porque dispõe de pouco tempo para isso, já que, apesar de ter uma aula de 50 minutos, ele não a utilizou integralmente para exibição. Ele fala enquanto os alunos assistem ao documentário e os alunos também se manifestam por meio da fala simultaneamente a exibição do filme. Durante esta aula os comentários dos alunos são constantes e percebemos que foi a aula em que estes mais participaram por meio da fala. Como já afirmamos, estes comentários surgem durante a exibição, pelo filme, dos pontos de vista dos leigos.
Como vimos por meio da análise da aula e do fluxo de aulas durante o semestre, o retorno da avaliação proposta pelo professor por meio do exercício impresso não existiu. Ele não retoma e discute as questões com os alunos. Interpretamos esta atitude como uma forma de o professor demonstrar que este tipo de discussão possui valor pequeno na aula de biologia. Há atividades mais importantes a serem feitas como os exercícios de “fixação” de vestibulares, retirados dos livros didáticos e os que o professor passa no quadro. Como não houve tempo para realizar entrevistas mais longas como o professor, proceder a uma análise das causas pessoais para esta opção pedagógica seria improdutivo, preferiu-se optar por analisar a ação com base nos valores construídos pela influência das fontes de referência para as aulas do professor. Isto será apresentado nos capítulos seguintes.
CAPÍTULO5 – O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO: ANÁLISE DE UM TRECHO DE AULA DE